Flores secas
Sonetos Alexandrinos
de Esio Antonio Pezzato
Piracicaba, 2009
Pequeno comentário
Flores secas... mais um punhado de versos, novos sonetos que escrevi nos últimos tempos. Como sempre, a mesma técnica, a mesma formação. Nada de invencionices. Preferível, dentro do Soneto, repetir-se a tentar alguma coisa nova. É sempre assim. Desde Petrarca, Miguelangelo, Camões, Bocage, Bilac, Alberto Oliveira, Raimundo Correia, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, grandes sonetistas, nada surgiu de novo. Melhor então é ficar tentando fazer algo de bom enquanto o tempo passa. A vida passa. O tempo passa. E nós, obviamente, passamos também.
Nesta nova coleção estão apenas versos alexandrinos. Parece que eles se tornaram importantes dentro da minha poética. Creio mesmo que depois que compus “O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot” todo em versos alexandrinos, ficou mais fácil, para mim, lidar com o verso longo.
É uma coleção de sonetos inéditos. Apenas alguns foram publicados em nossa Imprensa, o restante mesmo todos inéditos.
O mais antigo deles, datado de 1973, quando eu tinha apenas 20 anos. Encontrei alguma coisa ainda mais antiga, mas era ruim demais. Mexer nos versos seria tirar o mérito que eles ainda tem: o trescalar da juventude. Esses ficarão guardados comigo apenas como lembrança. Bem como os versos que compus com 16 para 17 anos. Era apenas a vontade de escrever e a falta profunda de técnica e conhecimento. É minha pré-história poética, que já tem mais de 40 anos...
Mas voltemos aos alexandrinos: sempre os fiz. Desde meu primeiro livro, “Luzes da Aurora”, alguns versos alexandrinos em sonetos e em outros tipos de versos, já se faziam presentes. Depois o mesmo se repetiu em “Semeadura”, 1991 e nos demais livros os alexandrinos sempre estiveram presentes. Podemos mesmo dizer que o Verso Alexandrino é um clássico. Grandes Poetas foram seus afeitos, sendo mesmo que Olavo Bilac praticou-o à exaustão. Castro Alves e Fagundes Varella, passearam pelo mesmo, mas na grande maioria das vezes, fizeram o Alexandrino arcaico, não divisíveis em dois hemistíquios de seis. Foram compostos como faziam os espanhóis. Apenas em Machado de Assis, Pedro Luís e alguns outros, o Clássico passou a imperar. Hoje raramente encontramos o estilo antigo... raramente. E quando isso ocorre é puro desconhecimento da técnica, ou ainda um deslize do Poeta. Eu mesmo possuo alguma coisa assim ao longo de tantos versos... um deslize... mas falemos agora da técnica do verso alexandrino:
Embora haja alguns segredos, o verso alexandrino parece mais pomposo. Revendo hoje versos que compus na mocidade, quando com 19 ou 20 anos, lá estavam os alexandrinos, mas eram esparsos. Alguns sonetos, alguns versos mais e ponto. Mas nesses 40 anos nunca deixei de praticar os tais alexandrinos. Raramente também, muito raramente, deixei que os mesmos não fossem clássicos, ou seja, divisíveis em dois hemistíquios de seis, com cesura na sexta e na décima segunda sílabas. Assim sendo a sexta sílaba sempre acentuada, deve ser paroxítona e não seguida de consoante e a próxima palavra do verso, sempre começando com vogal. Ou sendo a sexta sílaba oxítona, a sétima independe como seja.
Mesmo assim, às vezes acontece do verso sair terciário, com cesuras na 3a., 6a, 9a e 12a sílabas. Não creio haver dentro dos meus sonetos versos com cesuras nas 4a, 8a e 12a sílabas. Vez ou outra a sexta sílaba sai tanto átona, mas mesmo assim não o mudo.
É isso que meus amigos leitores dos meus versos irão encontrar: versos técnicos e um misto de muitos assuntos. Espero que a aceitação seja a mesma de sempre.
Esio Antonio Pezzato
Piracicaba, 25 de julho de 2009
Sonetos Alexandrinos
de Esio Antonio Pezzato
Piracicaba, 2009
Pequeno comentário
Flores secas... mais um punhado de versos, novos sonetos que escrevi nos últimos tempos. Como sempre, a mesma técnica, a mesma formação. Nada de invencionices. Preferível, dentro do Soneto, repetir-se a tentar alguma coisa nova. É sempre assim. Desde Petrarca, Miguelangelo, Camões, Bocage, Bilac, Alberto Oliveira, Raimundo Correia, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, grandes sonetistas, nada surgiu de novo. Melhor então é ficar tentando fazer algo de bom enquanto o tempo passa. A vida passa. O tempo passa. E nós, obviamente, passamos também.
Nesta nova coleção estão apenas versos alexandrinos. Parece que eles se tornaram importantes dentro da minha poética. Creio mesmo que depois que compus “O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot” todo em versos alexandrinos, ficou mais fácil, para mim, lidar com o verso longo.
É uma coleção de sonetos inéditos. Apenas alguns foram publicados em nossa Imprensa, o restante mesmo todos inéditos.
O mais antigo deles, datado de 1973, quando eu tinha apenas 20 anos. Encontrei alguma coisa ainda mais antiga, mas era ruim demais. Mexer nos versos seria tirar o mérito que eles ainda tem: o trescalar da juventude. Esses ficarão guardados comigo apenas como lembrança. Bem como os versos que compus com 16 para 17 anos. Era apenas a vontade de escrever e a falta profunda de técnica e conhecimento. É minha pré-história poética, que já tem mais de 40 anos...
Mas voltemos aos alexandrinos: sempre os fiz. Desde meu primeiro livro, “Luzes da Aurora”, alguns versos alexandrinos em sonetos e em outros tipos de versos, já se faziam presentes. Depois o mesmo se repetiu em “Semeadura”, 1991 e nos demais livros os alexandrinos sempre estiveram presentes. Podemos mesmo dizer que o Verso Alexandrino é um clássico. Grandes Poetas foram seus afeitos, sendo mesmo que Olavo Bilac praticou-o à exaustão. Castro Alves e Fagundes Varella, passearam pelo mesmo, mas na grande maioria das vezes, fizeram o Alexandrino arcaico, não divisíveis em dois hemistíquios de seis. Foram compostos como faziam os espanhóis. Apenas em Machado de Assis, Pedro Luís e alguns outros, o Clássico passou a imperar. Hoje raramente encontramos o estilo antigo... raramente. E quando isso ocorre é puro desconhecimento da técnica, ou ainda um deslize do Poeta. Eu mesmo possuo alguma coisa assim ao longo de tantos versos... um deslize... mas falemos agora da técnica do verso alexandrino:
Embora haja alguns segredos, o verso alexandrino parece mais pomposo. Revendo hoje versos que compus na mocidade, quando com 19 ou 20 anos, lá estavam os alexandrinos, mas eram esparsos. Alguns sonetos, alguns versos mais e ponto. Mas nesses 40 anos nunca deixei de praticar os tais alexandrinos. Raramente também, muito raramente, deixei que os mesmos não fossem clássicos, ou seja, divisíveis em dois hemistíquios de seis, com cesura na sexta e na décima segunda sílabas. Assim sendo a sexta sílaba sempre acentuada, deve ser paroxítona e não seguida de consoante e a próxima palavra do verso, sempre começando com vogal. Ou sendo a sexta sílaba oxítona, a sétima independe como seja.
Mesmo assim, às vezes acontece do verso sair terciário, com cesuras na 3a., 6a, 9a e 12a sílabas. Não creio haver dentro dos meus sonetos versos com cesuras nas 4a, 8a e 12a sílabas. Vez ou outra a sexta sílaba sai tanto átona, mas mesmo assim não o mudo.
É isso que meus amigos leitores dos meus versos irão encontrar: versos técnicos e um misto de muitos assuntos. Espero que a aceitação seja a mesma de sempre.
Esio Antonio Pezzato
Piracicaba, 25 de julho de 2009
Renascer
Há dias em que a gente encontra um novo brilho
Numa folha que cai, em tudo o quanto existe...
Num sol que morre, atrás de um crepúsculo triste,
Num murmúrio, num som, num dourado rastilho.
Numa canção à flor, num eco em que consiste
Um alegre cantar, num plácido bisbilho,
Num coração de mãe a abençoar o filho,
Mostrando que no espaço, o amor também insiste...
Num sorriso de adeus, num pássaro que voa,
Num olhar, num inseto, em qualquer coisa à toa
A gente fica assim sorridente, assim leve,
Que os nossos sonhos ficam alvos como a neve,
Tendo sentido dentro d’alma uma esperança
Que faz sentir a paz num riso de criança!
05.01.1973
Viver de esperanças
– “Queres partir?” pois bem, tens o caminho aberto!
Ninguém te deterá nessa tua jornada...
Podes seguir contente a tua nova estrada,
E não se importe vendo o meu peito deserto.
Ora, por que não vês que o meu amor é o certo?
Não venha me dizer, depois, que estás errada.
Não te darei Perdão e, nem sequer por nada
Baixarei onde estás para ver-te de perto...
Podes partir! Não quero o teu amor ingrato.
Ah! Esqueceste de tomar o teu retrato...
– Nada quero de ti! Nem mesmo esta lembrança!
Porém, voltas o olhar! Há lágrimas de dor...
– Não partas, oh, querida, eu quero o teu amor,
Pois como irei viver somente de esperanças?
16.08.1973
Alucinação
Caminho lentamente. Estou quase parado...
Sinto no coração a dor que causa o pranto.
Eu sigo pela noite envolto em negro manto,
E, entre lamentos, sigo errante e alucinado.
Sinto em mim um poder insano e malogrado,
Vejo cair por terra (e para o meu espanto)
A razão de viver, de ver do mundo o encanto...
Caminho triste e só, chorando, amargurado.
Um grito de agonia eu ouço a todo o instante...
Tudo me faz sentir que sou ainda errante,
E a razão de morrer me vem num só momento.
O choro, a dor, a angústia, o tédio, mil delírios...
Todos fazem me ver os constantes martírios,
E eu fico a lamentar... Meu Deus, que sofrimento!
17.10.1973
Minha cruz
Tantos versos de amor eu escrevi cantando
Pois ao meu lado estavas para me dar amor.
Hoje escrevo os meus versos de amor sempre chorando
Por não mais receber teus carinhos, oh, flor!...
Já não suporto mais a tua ausência. A Dor
Vive a campear sem fim meu coração magoado.
Desvairo! Triste e só caminho deplorado
Lembrando que já fui feliz com teu amor.
Sonâmbulo, tristonho, eu atravesso a vida
Neste Calvário eterno a lívida ferida
Fere-me mais e mais – e sofro igual a Jesus...
Procuro-te, te chamo e brado aos céus, chorando,
Por que não tenho amor... serei feliz, mas quando?
Desconsolado enfim, carrego a minha cruz.
04.09.1975
Fuga
Não posso coordenar na mente o pensamento.
A palavra me foge, a ideia não domino.
Explodo de rancor, mais pareço um felino
Urrando irracional no mais feroz lamento.
Em mim somente cresce enorme sofrimento.
Passo a viver com Dante – o Poeta florentino –
Minha ilusão atiro ao noturno Cassino
E blasfemo por fim, o meu merecimento...
Imperceptivelmente a noite em mim se achega...
Abro os olhos e... oh! Deus, a minh'alma está cega...
Mordendo os punhos rujo a esta dor que me lavra.
Oh! precito infeliz, que queres tu da vida?
Ai, eu tento gritar mas a goela ressequida
Não deixa pronunciar a boca uma palavra.
26.01.1976
Há dias em que a gente encontra um novo brilho
Numa folha que cai, em tudo o quanto existe...
Num sol que morre, atrás de um crepúsculo triste,
Num murmúrio, num som, num dourado rastilho.
Numa canção à flor, num eco em que consiste
Um alegre cantar, num plácido bisbilho,
Num coração de mãe a abençoar o filho,
Mostrando que no espaço, o amor também insiste...
Num sorriso de adeus, num pássaro que voa,
Num olhar, num inseto, em qualquer coisa à toa
A gente fica assim sorridente, assim leve,
Que os nossos sonhos ficam alvos como a neve,
Tendo sentido dentro d’alma uma esperança
Que faz sentir a paz num riso de criança!
05.01.1973
Viver de esperanças
– “Queres partir?” pois bem, tens o caminho aberto!
Ninguém te deterá nessa tua jornada...
Podes seguir contente a tua nova estrada,
E não se importe vendo o meu peito deserto.
Ora, por que não vês que o meu amor é o certo?
Não venha me dizer, depois, que estás errada.
Não te darei Perdão e, nem sequer por nada
Baixarei onde estás para ver-te de perto...
Podes partir! Não quero o teu amor ingrato.
Ah! Esqueceste de tomar o teu retrato...
– Nada quero de ti! Nem mesmo esta lembrança!
Porém, voltas o olhar! Há lágrimas de dor...
– Não partas, oh, querida, eu quero o teu amor,
Pois como irei viver somente de esperanças?
16.08.1973
Alucinação
Caminho lentamente. Estou quase parado...
Sinto no coração a dor que causa o pranto.
Eu sigo pela noite envolto em negro manto,
E, entre lamentos, sigo errante e alucinado.
Sinto em mim um poder insano e malogrado,
Vejo cair por terra (e para o meu espanto)
A razão de viver, de ver do mundo o encanto...
Caminho triste e só, chorando, amargurado.
Um grito de agonia eu ouço a todo o instante...
Tudo me faz sentir que sou ainda errante,
E a razão de morrer me vem num só momento.
O choro, a dor, a angústia, o tédio, mil delírios...
Todos fazem me ver os constantes martírios,
E eu fico a lamentar... Meu Deus, que sofrimento!
17.10.1973
Minha cruz
Tantos versos de amor eu escrevi cantando
Pois ao meu lado estavas para me dar amor.
Hoje escrevo os meus versos de amor sempre chorando
Por não mais receber teus carinhos, oh, flor!...
Já não suporto mais a tua ausência. A Dor
Vive a campear sem fim meu coração magoado.
Desvairo! Triste e só caminho deplorado
Lembrando que já fui feliz com teu amor.
Sonâmbulo, tristonho, eu atravesso a vida
Neste Calvário eterno a lívida ferida
Fere-me mais e mais – e sofro igual a Jesus...
Procuro-te, te chamo e brado aos céus, chorando,
Por que não tenho amor... serei feliz, mas quando?
Desconsolado enfim, carrego a minha cruz.
04.09.1975
Fuga
Não posso coordenar na mente o pensamento.
A palavra me foge, a ideia não domino.
Explodo de rancor, mais pareço um felino
Urrando irracional no mais feroz lamento.
Em mim somente cresce enorme sofrimento.
Passo a viver com Dante – o Poeta florentino –
Minha ilusão atiro ao noturno Cassino
E blasfemo por fim, o meu merecimento...
Imperceptivelmente a noite em mim se achega...
Abro os olhos e... oh! Deus, a minh'alma está cega...
Mordendo os punhos rujo a esta dor que me lavra.
Oh! precito infeliz, que queres tu da vida?
Ai, eu tento gritar mas a goela ressequida
Não deixa pronunciar a boca uma palavra.
26.01.1976
Soneto noturno
É noite. No meu quarto, a lâmpada sombria,
Enche meu coração de agonias e de ais.
Recordo o teu amor que não terei jamais
E macabramente abro a minha cova fria.
Em mim a solidão fantástica crucia...
– O tempo que passou foi lindo em seus umbrais;
Hoje, porém, na dor dos sonhos sepulcrais
Escrevo, em desespero, esta errante poesia.
Ouço vozes do além... “Quem és fantasma oculto?
“Quem és tu? Quem és tu?... não ame pareces, não?
“Sai deste esconderijo, eu quero ver teu vulto...
“Eu quero a paz e o amor, eu quero a doce união
“Em cada sonho, em cada estrofe, em cada culto,
“Como fruto do amor, eu quero um coração!”
08.02.1976
Vício
Acendo outro cigarro... imperturbavelmente
Vejo a noite passar efêmera e vazia.
Talvez traga no peito uma coração doente
Ou carrego comigo enorme nostalgia.
Eu não sei... eu não sei... mas em mim, tão-somente
A estupidez do amor me invade, me crucia.
A fumaça pelo ar fica a boiar silente
E silente eu escrevo uma nova poesia.
Imensa solidão carrego dentro d'alma;
Sofro em silêncio, choro em silêncio, caminho
Duvidando do amor que no meu peito ensalma.
Oh! noite de ilusão, sigo como demente;
Vou tentando lembrar o teu meigo carinho
E acendo outro cigarro... imperturbavelmente...
21.02.1976
Espera
(esperando Thaís, que nasceu em 02.02.1977)
Sei que és pequenina ainda e já te amamos tanto,
Nem sabemos quem és, porém, com que alegria,
Nós falamos de ti, e esperamos o dia,
Que ao mundo irás abrir os olhos com espanto.
Vou querer te embalar com o mais felpudo manto,
E em tuas faces dar mil beijos de Poesia.
E terno irei ouvir teu choro em harmonia,
E dele irei fazer o mais sublime canto.
Quando virás a nós, consequência do amor?
Quando iremos poder ficar sempre contigo?
– Esse tempo parece ater-se à Eternidade...
Porém, eu sei que um dia, igual botão de flor,
Em solfejos de paz virás ao terno abrigo,
Que fizemos a ti numa infinda ansiedade.
13.06.1976
Reencontro
Depois de longo tempo, o encontro num acaso
Faz renascer no peito uma Paixão antiga...
E o olhar terno do Amigo e o meigo olhar da Amiga
Olha-se com ternura... o sol perlustra o Ocaso...
Depois surge a conversa... a lembrança de um caso,
Outro mais... e mais outro... (o coração abriga
Tantas recordações, que logo nos obriga
Um novo encontro para um fim por nesse atraso...)
Num piscar de olho, o tempo, Amiga, o tempo avança,
Mata nos corações o tempo de criança
E o que sobra é uma angústia, é uma incerteza, é um tédio,
É uma desolação, é um medo, é um fim de vida...
Mas o olhar, o sorriso, a amizade querida,
Para tanta aflição é o mais puro remédio.
14.08.1977
Penso em ti
Penso em ti, meu amor, e instante após instante
Eu vejo abrir-se a nós uma estrada florida;
Um mundo de paixão frenética e constante,
Que nos dá mais amor, mais carinho e mais vida!
Amo-te com ardor e me amas sem medida;
Deus nos uniu num beijo eterno, infindo, amante!
Num êxtase divino a paz nos foi cedida,
E uma canção de amor, no céu, ecoou vibrante.
O amor de nós fez um. Já não somos sozinhos:
Contigo eu estarei em todos os caminhos,
E ao longo da jornada ao meu lado estarás.
Os nossos rumos são iguais, pois caminhamos
Pela estrada florida, onde os floridos ramos,
Desabrocham o amor em prelúdios de paz.
18.08.1977
Penso em ti
Penso em ti, meu amor, e instante após instante,
Sinto n’alma brotar os desejos de amar-te.
Sei que vives em mim e estás em toda a parte,
Que nem te procurar preciso, oh, doce amante!
Se te beijo com ardor, desejo idolatrar-te
E fazer-te uma santa em meu altar constante.
E se abraço o teu corpo escultural, vibrante,
Quero que tu, no amor, sempre e sempre te fartes...
Oh, mulher provocante, o teu corpo é de seda,
Os teus olhos são sóis que iluminam meu rumo,
Teu cabelo macio é o aconchego de um leito.
Teus lábios são de mel e o amor que me arremeda
Explode em mil canções de amor, que enfim presumo,
Que para mim tu és o amor puro e perfeito.
14.10.1977
Aquele dia
Eu sempre me recordo aquele doce dia
Que em nós o amor nasceu risonho, florescente...
No horizonte dormia o sol onipotente
E seu calor a nós, irradiava poesia.
Tudo foi deslumbrante ao nosso olhar fremente,
Que unimos junto ao céu, na mais pura magia.
Na quietude da tarde a doce melodia
Das aves, junto a nós, trilava docemente.
Então a nossa vida, uma se fez e a tudo
Conseguimos vencer com passos de gigante,
Pois o amor nesta vida é um poderoso escudo!
A quietude da tarde a nós se fez poesia,
Por isso, meu amor, de forma delirante,
Eu sempre me recordo aquele doce dia...
10.11.1979
Caminho triste
Para quê nesta vida a estrada construíste
Por entre a solidão de espinhos e quimeras?
Ai, por que escolheste este caminho triste
Onde a estação do inverno esconde as primaveras?
E por que caminhaste onde a angústia persiste
E a dor, e o tédio, envolto em cruzes de mil feras
Toldam a luz do amor - esta visão que insiste
Em crescer através das mais remotas Eras?
Para quê semeaste a discórdia entre os mundos
E proclamaste a guerra em báratros profundos
Quando o ideal seria idolatrar o Amor?
Homem! fera sem luz, oh! criatura cega,
Cada instante que passa o mundo te renega,
E te mostra uma estrada onde golfeja a dor.
02.01.1980
Vibração
Vibra em mim um amor tão puro e tão gigante
Que sinto renascer a minha paz perdida.
E amo com mais ardor a minha própria vida
Que antes era vazia, insípida e distante.
Trago na alma a paixão de ser um grande amante
E volto no meu peito a esperança esquecida.
Como passos firmes piso uma estrada florida
Pois o amor vibra em mim instante após instante.
Mudou-se o meu inverno em plena primavera;
Tudo o que era tristeza envolve-se em alegria
E já não vivo mais como antes eu vivia.
Mulher do meu amor! minha vida te espera,
Vem comigo viver o amor de cada dia,
Vem comigo viver o amor que o amor supera!
01.11.1980
Da hora do adeus
Dizes adeus e dás final a este romance
Como quem diz adeus à sua própria vida...
Tão triste, meu amor, é dar a despedida,
A quem te deu sorrindo, ao amor, uma chance...
Toda a felicidade estava a teu alcance
E a ele disseste adeus... à glória colorida
De ser amada e amar, tu deixas esquecida,
Para no coração, ter da agonia a nuance.
E diz-me adeus. Também te digo adeus.
Embora
Enxuto traga o olhar, o meu ser todo chora,
Mas recolho, por mim, os sonhos todos meus.
De um amor que floriu – mas não chegou a fruto! –
Que teve a Eternidade apenas de um minuto,
Que podia ter sido e que não foi... adeus...
03.11.1980
Ser criança
Quando a infância pairava em todos os quadrantes,
Meu tempo era feliz e cheio de alvoroço:
– Era largo demais o tempo para o almoço,
E as horas de brincar pareciam instantes.
Papagaios no céu e linhas com cortantes...
Carros de rolimãs, cuspir dentro do poço,
Desejos de ficar o mais rápido moço,
Para ter namorada e ter várias amantes...
Vontade de ter barba e deixá-la crescida,
Pelos no peito, voz bem grossa, ar de galã,
Bailes, festas, sonhar... enfim, viver a vida!
E este tempo chegou em frenética dança,
Fugiram-me da vida as horas da manhã,
– Ah, vontade que tenho em ser ainda criança!...
08.02.1981
Descrença
Quem sou eu para crer eu que não tenho crença?
Não creio em mim, não creio em Deus, não creio em nada.
Sigo por uma estrada em meio à indiferença
Imerso em solidão e com a alma abandonada.
Em mim a negra angústia é uma agonia imensa,
Minha vida de amor é uma ilusão passada...
Paira sobre meu céu escura nuvem densa
E um relâmpago faz minha vida bloqueada.
Aonde vou se não sei de onde vim e não creio
No amor, na paz, na fé, na esperança da vida,
No prazer de viver, na glória de sonhar?
Ai, tudo é um sonho mau, é um negro devaneio:
Sigo sem rumo, espero uma ilusão querida
Mas não sei esperar... e não sei esperar...
10.03.1981
Espera
Te espero ansiosamente, enquanto a noite desce
E a hora do ângelus lenta e preguiçosa invade
O espaço e na amplidão, um sussurro de prece
Põe em meu coração um verso de saudade.
Sei que virás, por isso espero... a angústia cresce
Enquanto tu não vens, ouço a sonoridade
De alguém que vem chegando... a minha alma se aquece
Para abraçar-te e dar-te o amor felicidade...
Passam os passos, mas eu sei que virás ainda...
E me sinto feliz, a noite está tão linda,
É certo que virás receber meu carinho.
A noite em trevas, tudo angústia e sofrimento,
Durante toda a noite esperei o momento
De poder te abraçar... e ainda estou sozinho...
21.09.1981
Antes que a noite venha
Antes que a noite venha e o silêncio de pedra
Caia por sobre nós, deixa, minha querida,
Florescer no jardim a roseira que medra
E em cores divinais nos mostre nova vida.
Deixa que aves do céu, num sussurro de Fedra,
Em cantigas de luz deixem mais colorida
A estrada do porvir imensa e poliedra,
Que o nosso amor terá uma visão florida...
A florida visão dos sonhos, dos amantes,
Que sussurram febris mil versos de ternura
E em beijos sensuais entoam delirantes
As músicas do céu entoadas por anjos,
E na imensa alegria e na imensa ventura,
Cantam essa canção que Deus fez os arranjos.
16.11.1981
Soneto da possibilidade do canto
Poderia cantar, se na minha alma o canto
Se tornasse real... porém, na minha vida,
Em meus olhos – somente amargo e denso pranto
Faz que seja meu sonho uma visão perdida...
Tanto quisera amar, cantar, sonhar, ai, tanto
Tempo numa procura em vão busquei – florida! –
A hora do êxtase puro, a hora cheia de encanto,
A hora do amor total, sem haver despedida!
Se na minha alma houvesse o canto, eu bem pudera
Caminhos palmilhar de eterna primavera
E sorrindo sonhar um tempo de esperança.
Mas não... o pranto amargo em minhas faces rola...
Para mim a alegria é a migalha de esmola
Que um pobre-rico dá para qualquer criança.
11.08.1982
Ilusão azul
Ah! O meu sonho de amor terno, puro e tão lindo,
Nunca chegou a ser mais que um ridente sonho;
Pois as desilusões deixaram-me tristonho,
Quando vi que o amor, para mim, era findo.
Eu sonhava feliz e nas tardes, risonho,
Contemplava, extasiado, o céu azul, sorrindo.
E a estrela que luzia um clarão claro e infindo,
Dava-me a sensação do mundo que ainda sonho.
E a esperança era azul e o sonho era azul, tudo
Era azul cor do céu, era um jardim enorme
Com mil flores azuis perfumando a amplidão.
E eu seguia sorrindo a estrada de veludo
Azul, quando acordei... (dorme, minh’alma, dorme,
Quero ainda viver no mundo da Ilusão.)
14.08.1983
Mário Giannotti
Calou-se a voz canora e cheia de harmonia
Que embalou corações em murmúrios de amor.
Hoje, tudo o que resta é uma saudade fria,
Como frio jazigo onde só medra a dor.
A voz sentimental hoje chora à agonia:
Na serenata não vais mais, entre o calor
Da noite de luar e cheia de poesia
Fazer dormir, no céu, os astros em fulgor.
Tudo hoje sai na voz embargada de pranto,
Nas lágrimas sem fim dos divinos amantes
Que já não mais terá na hora do amor o canto
Para expressar o que necessitasse fala,
Mas no êxtase ouvirão em cantos delirantes,
No céu cantar a voz que na terra se cala.
14.11.1983
Para Lino Vitti
Ainda sabes cantar... Como as aves canoras
Ainda soltas, ao céu, teus cantos de esperança,
Sabes amar a luz que ilumina as auroras
E contemplar, feliz, um sonho de criança!
Tua vida é um jardim e nele, por que choras
O abandono da Musa? Ela, a teu lado dança
Nas pétalas de luz e no correr das horas
Em que sonhas, sorrindo, enquanto o tempo avança...
Sou eu a ovelha e tu és meu pastor! Bem podes
Tua flauta tocar que estarei sempre alerto
Para ouvir esta voz só comparada às odes
Das aves madrigais que voam no universo:
– Para elas não existe um dia de deserto;
Para ti não existe o segredo do Verso!
25.08.1984
Aos Artistas Plásticos
Artistas imortais! Na divina magia
Conseguis traduzir nas cores, sentimentos
Que ao Poeta só é dado imitar na Poesia
Em instantes de luz de raros mandamentos!
Os mágicos pincéis, ágeis, em harmoria,
Conseguem perpetuar os rápidos momentos
Em uma Eternidade e a tela, antes vazia,
Muda-se num painel de puros sortimentos!
– Uma árvore, uma flor, um rio, uma paisagem,
Um retrato, uma fruta ou uma luz que brilha,
Ao toque do Pintor, tudo se torna imagem.
E entre mil cores nós, na paz sublime e imensa,
Exaltamos o Artista, em sua eterna trilha,
Abençoado por Deus numa divina crença.
10.07.1986
Réquiem
(para Ubirajara Lara)
O Amigo hoje está ausente e uma saudade imensa
Povoa o coração deste Poeta triste.
O verso que componho é uma sentida crença
E a glória de viver para mim não existe.
Naquela tarde triste, ele se foi na intensa
Vida que lhe sorria e a dor que em mim persiste
É lúgubre, fatal, sombria, errante, densa,
E este meu coração a esta dor não resiste...
Nas tardes em que a lua acorda no crepúsculo,
Eu dele me recordo envolto em sofrimento
– Ele de mim se foi em uma tarde assim...
Por isso, cada vez que a noite abre o seu músculo
De treva e solidão, brota e mim, num momento,
A árvore da Saudade a dar frutos sem fim...
28.11.1986
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O descrente
Para cantar o amor, talvez fosse preciso
As Musas invocar, pois a fatal descrença
Em seus olhos boiava em negra indiferença
E nem nos lábios tinha espasmos de sorriso.
Não cria em nada; tudo ao seu redor em tensa
Amargura vivia e o Inferno e o Paraíso
Lutavam entre si para no próprio aviso
Ao descrente dar Fé de forma pura e intensa.
Sisudo e austero, nem às crianças sorria...
Se, cruzava um jardim despetalava as flores,
E odiava o próprio ventre em que tinha nascido.
E assim ele viveu a vida... Dia a dia
Somente acumulou desenganos e dores,
Que, para assim viver, melhor não ter vivido.
14.05.1987
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Quem ama
Quem ama nada pede e tudo dá. Quem ama
Somente quer o bem para a pessoa amada.
Se a vê no frio logo encontra alguma chama
Para doar calor de forma apaixonada.
Para quem traz no peito o puro amor, do nada
Faz-se um tudo e faz mais – mil carinhos derrama,
Sobre seu puro amor, de forma idolatrada,
E em seus lábios somente o nome amado clama!
Quem ama tem o céu nas mãos e faz desdouro!
Se, encontra o mundo inteiro aberto à sua frente,
Um passo dá, sequer, sem ouvir-lhe a opinião.
Um amor vale mais que o mais raro tesouro
De Golconda e de Ophir! que brilham simplesmente
Pelo fato de estar sempre de mão em mão.
01.08.1989
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Exercitando rimas
Ah! com certeza sou a porta do milênio
Pois com fúria feroz rebate no meu crânio
O eco ensurdecedor de atro som subterrâneo
Que parece vibrar neste último decênio.
Em meu jardim frontal um vermelho gerânio
Me alimenta de luz, de fósforo e hidrogênio.
E com sânie brilhante invoca-me algum gênio
Que em Pompeia morreu ante o furor vulcâneo.
Sombra, treva e terror... travo meu raciocínio
E uma voz gutural sai da tumba de Plínio
Que praguejo ironia e ambiciono o Infortúnio!
E na ânsia de morrer não sou mais Esio Antonio,
Pois tudo chega a mim em negro pandemônio
Que ao próximo milênio apago o plenilúnio!
31.10.1989
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São Paulo
A fúria de Centauro abriu tuas entranhas
E o progresso feriu-te em mil veias de estradas.
Hercúleo, o lavrador com arados e enxadas
Fez, da terra brotar formas de vida estranhas!
Vozes em confusão, desesperadas sanhas:
Estrangeiros ao sol, vidas descontroladas,
Luz, luxúria, apogeu! E as mentes concentradas
Em te fazer crescer livre das artimanhas.
Brás, Ipiranga, Sé, Tietê, Jabaquara,
Viadutos, metrôs, elevados e pontes,
Parques, Masp, Museus! Prazer e vidas mil!
Nesta imensa Babel, a ordem é coisa rara,
Mas ainda assim tu és, por muitos horizontes,
A maior Capital de todo este Brasil!
25.01.1990
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Prisão
Quando era a minha vida um porto abandonado
E eu não tinha ilusões, desejos e vontades,
E preso ao desespero eu vivia largado
Na perpétua prisão de intransponíveis grades;
Quando era o meu porvir de eternas tempestades
E em agonia imensa eu vivia calcado,
E as trevas e o terror, com mil ferocidades
Caminhavam comigo andando lado a lado;
Tu chegaste, sorriste! e tua mão me deste.
Ergui-me, levantei, abanei a poeira,
Que em meu corpo grudava e me levava à peste...
Hoje, junto de ti caminho... e colorida
(Tendo-te, pois ao lado) acho mais linda a vida,
E da tua a minh’alma eu vejo prisioneira!
25.06.1990
v v v v v v v v v
Sombra e luz
O tempo é sombra e enquanto a sombra ofusca a luz,
Os olhos na prisão ilusória que os prendem,
Buscam a liberdade e na prisão aprendem
Que o ser livre, e o voar é paixão que seduz! –
Asas soltas ao léu, o corpo aberto em cruz,
Buscando a Imensidade os Everestes fendem...
E quando a aurora vem, milhões de sóis acendem,
Cada olho chispa fogo e em luz intensa, luz!...
Tempo a viver! E a vida, e o espaço, e o céu aberto,
E o ontem, e o amanhã, e o que foi, e o que é,
E o que será talvez, e a realidade, e o incerto...
E o caminhar sem fim, sem fim e sempre a pé,
Mil léguas... e a Esperança além do amplo deserto,
E após novo deserto a liberdade... a fé!...
21.09.1990
v v v v v v v v v
Guerra
Outra vez o pavor domina a Terra... O atro ódio,
A cobiça, o desdém, a ganância, a vingança,
O instinto de Poder, de estar no alto do pódio,
Conseguem massacrar as flores da Esperança!
O espetáculo é podre, e nefando o episódio.
O medo paira em tudo e um lábaro balança
Negro, no negro céu, enquanto o monopódio
Lança ao mundo o terror, e o desespero lança.
A América, a África, a Ásia, a Europa e a Oceania
Tentam, em vão, deter ignominiosa fúria,
Mas é descomunal essa imensa fobia...
A guerra é proclamada e Sadam – Satã morte! –
Mostrando a sua força – estrebuchada injúria –
Espalha sobre o mundo o desejo da morte.
15.01.1991
v v v v v v v v v
Onde?
Eu não quero o futuro, eu quero a loura infância,
Que perdida ficou num lugar do passado,
E minh'alma, perdida em etérea distância,
Tenta encontrá-la mas a busca em tempo errado.
Magoado, o coração, em desespera ânsia
Tenta encontrar a luz deste mundo apagado,
Verde oásis de paz! e ainda sinto a fragrância
Desta ilusão azul do sonho terminado...
Amigos onde estão? onde estão os de outrora
Que seguiam comigo em busca de aventuras?
Onde estão os que amei e onde está a minha aurora?
Crepúsculo de sonho, ocaso desta vida...
A infância se perdeu, passaram-se as loucuras,
E o porvir se me mostra em becos sem saída.
16.02.1991
v v v v v v v v v
Kolbe
Eras um som de amor a iluminar o mundo!
Eras templo de fé, da esperança e bondade!
As palavras de Deus no ardor puro e profundo
Tu lançavas sorrindo a toda a humanidade.
Tendo a cruz em teu peito e com verbo fecundo,
Conseguias salvar almas da iniquidade.
Da Polônia ao Japão – seguias errabundo,
Os mistérios dos Céus pregando com piedade.
À Virgem-Mãe doaste então tu’alma. Rindo
Escolheste o calvário onde irias viver
As penas mais cruéis de teu viver infindo.
Fome, sede, desdém – por fim, a crua sorte,
De por outro passar resignado, o sofrer
De dar-lhe sua vida em troca desta sorte.
26.05.1991
v v v v v v v v v
Vaticínio
Creio que dentre nós irá surgir um dia,
Um Poeta genial que com sonoros cantos,
Piracicaba irá cantar cheia de encantos
Com versos magistrais de luz e fantasia.
E este grande Poeta irá, todo magia,
No Amo glorificar seus vales e recantos,
Denunciará com sangue e lágrimas e prantos,
Quem tentar ultrajá-la e levá-la à agonia.
Dentre nós haverá de surgir - com certeza! -
Este Vate que irá cantar a Natureza
Desta Terra por Deus abençoada e querida.
Com o gênio de Luciano, Archimedes e Losso,
Ao mundo mostrará quão imenso é o colosso
Deste Torrão natal que passamos a Vida!
07.10.1991
v v v v v v v v v
Cansaço
Cansado de correr atrás dos sonhos loucos
Paro para viver a minha realidade:
– Instantes de prazer no mundo são tão poucos,
Que é impossível se ter uma felicidade.
Sempre que o tempo é bom, surge uma tempestade,
Se conselhos nos dão, temos ouvidos moucos,
A ilusão é viver preso na férrea grade
Dos sonhos que a cantar, têm as vozes dos roucos.
Nada posso fazer para mudar a vida...
Vou desaparecer numa curva da estrada
Onde não poderei ter ninguém que me acoite...
A vida é uma ilusão, viver é uma corrida
Que não tem vencedor e nem nos leva a nada,
E o sonho é uma ilusão que só se vive à noite.
12.01.1992
v v v v v v v v v
Velho coração
Meu coração é um cofre, onde guardados tenho
Sonhos, desilusões, esperanças, promessas...
Tem por registro – um livro, onde as letras impressas
São escritas com o fogo estúpido de um mago.
Às vezes fico olhando – e o olhar caminha vago,
As listagens sem fim de variadas remessas
De tudo o que já tive e tenho, e olhando nessas
Coisas tão sem valor, o olhar do mundo apago.
Numa página – um sonho, um sonho tão-somente;
Um sonho que jamais germinou da semente,
Depois desilusões tão repletas de mágoas...
Esperanças busquei em cada folha lida,
As promessas, porém, passaram-me na vida
Como um barco dançando ao balando das águas...
15.01.1992
v v v v v v v v v
Soneto da saudade
Para quem traz no peito a dor de uma saudade,
O amor é simplesmente uma horrível doença...
Dias cheios de luz passam na indiferença
E sofre o coração e angústia sem piedade.
A lembrança é mordaz, fere em profundidade,
Parece a voz cruel de mórbida sentença,
Lembra um dia de inverno, onde a frialdade intensa,
Evoca a solidão, o tédio, a enfermidade...
A saudade parece o corte mais profundo
Que deixa o coração partido em dois pedaços:
E não há paliativo e nada o cicatriza...
A saudade é o luar que brilha sobre o mundo,
É o fogo de um cometa iluminando espaços,
– Canção que o amanhecer traz de leve na brisa...
18.11.1992
v v v v v v v v v
Perguntas e respostas
(Soneto transformado em alexandrino por André Bueno Oliveira)
Saudoso céu azul de minha mocidade!
Que vos leva a mostrar-se agora tão nublado?
Dizei por que ficais de nuvens carregado?
Será para mostrar o peso da saudade?
Oh, caminho gentil de tanta alacridade!
Por que quereis mostrar-se agora abandonado?
Por que ficais assim, de frio congelado?
Talvez para mostrar a vossa enfermidade?
Oh, sonhos que sonhei entre cruéis suspiros!
Por que trazeis a mim recônditos retiros
E minh’alma levais num soturno transporte?
Onde os arcos triunfais revestidos de luzes?
(E este Calvário atroz, e estas pesadas cruzes!)
É tempo de mostrar, enfim, a infausta morte!
25.03.1993
v v v v v v v v v
Quem ama
Quem ama nada pede e tudo dá. Quem ama
Somente quer o bem para a pessoa amada.
Se a vê no frio logo encontra alguma chama
Para doar calor de forma apaixonada.
Para quem traz no peito o puro amor, do nada
Faz-se um tudo e faz mais – mil carinhos derrama
Sobre o seu puro amor, de forma idolatrada,
E em seus lábios somente o nome amado chama.
Quem ama tem o céu nas mãos e faz desdouro!
Se, encontra o mundo inteiro aberto à sua frente
Um passo dá, sequer, sem ouvir-lhe a opinião.
Um amor vale mais que o mais caro tesouro
De Golconda e de Ophir, que brilham simplesmente
Pelo fato de estar sempre de mão em mão.
26.06.1993
v v v v v v v v v
Resposta ao Poeta
Caríssimo Poeta André Bueno Oliveira:
Comparaste outro dia a nossa Academia
Como um doce que está n'alguma prateleira
Ou nos pratos machês de velha padaria.
Disseste que eu também mostrava antipatia
E a mesma desdenhava e falava besteira...
E a surpresa maior ocorreu certo dia
Ao ver-me degustando o doce da doceira.
É que o mesmo me foi de tal forma ofertado
Que eu o experimentei, pois foi açucarado,
– Poderia, talvez, me deixar com lombriga.
Mas eu, comendo um só, me foi o suficiente,
Pois sua gostosura era só aparente
E o mesmo ainda me dá forte dor de barriga!
27.08.1993
v v v v v v v v v
Para quem traz no peito a dor de uma saudade,
O amor é simplesmente uma horrível doença...
Dias cheios de luz passam na indiferença
E sofre o coração e angústia sem piedade.
A lembrança é mordaz, fere em profundidade,
Parece a voz cruel de mórbida sentença,
Lembra um dia de inverno, onde a frialdade intensa,
Evoca a solidão, o tédio, a enfermidade...
A saudade parece o corte mais profundo
Que deixa o coração partido em dois pedaços:
E não há paliativo e nada o cicatriza...
A saudade é o luar que brilha sobre o mundo,
É o fogo de um cometa iluminando espaços,
– Canção que o amanhecer traz de leve na brisa...
18.11.1992
v v v v v v v v v
Perguntas e respostas
(Soneto transformado em alexandrino por André Bueno Oliveira)
Saudoso céu azul de minha mocidade!
Que vos leva a mostrar-se agora tão nublado?
Dizei por que ficais de nuvens carregado?
Será para mostrar o peso da saudade?
Oh, caminho gentil de tanta alacridade!
Por que quereis mostrar-se agora abandonado?
Por que ficais assim, de frio congelado?
Talvez para mostrar a vossa enfermidade?
Oh, sonhos que sonhei entre cruéis suspiros!
Por que trazeis a mim recônditos retiros
E minh’alma levais num soturno transporte?
Onde os arcos triunfais revestidos de luzes?
(E este Calvário atroz, e estas pesadas cruzes!)
É tempo de mostrar, enfim, a infausta morte!
25.03.1993
v v v v v v v v v
Quem ama
Quem ama nada pede e tudo dá. Quem ama
Somente quer o bem para a pessoa amada.
Se a vê no frio logo encontra alguma chama
Para doar calor de forma apaixonada.
Para quem traz no peito o puro amor, do nada
Faz-se um tudo e faz mais – mil carinhos derrama
Sobre o seu puro amor, de forma idolatrada,
E em seus lábios somente o nome amado chama.
Quem ama tem o céu nas mãos e faz desdouro!
Se, encontra o mundo inteiro aberto à sua frente
Um passo dá, sequer, sem ouvir-lhe a opinião.
Um amor vale mais que o mais caro tesouro
De Golconda e de Ophir, que brilham simplesmente
Pelo fato de estar sempre de mão em mão.
26.06.1993
v v v v v v v v v
Resposta ao Poeta
Caríssimo Poeta André Bueno Oliveira:
Comparaste outro dia a nossa Academia
Como um doce que está n'alguma prateleira
Ou nos pratos machês de velha padaria.
Disseste que eu também mostrava antipatia
E a mesma desdenhava e falava besteira...
E a surpresa maior ocorreu certo dia
Ao ver-me degustando o doce da doceira.
É que o mesmo me foi de tal forma ofertado
Que eu o experimentei, pois foi açucarado,
– Poderia, talvez, me deixar com lombriga.
Mas eu, comendo um só, me foi o suficiente,
Pois sua gostosura era só aparente
E o mesmo ainda me dá forte dor de barriga!
27.08.1993
v v v v v v v v v
De madrugada
Nesta noite, Senhor, humildemente peço,
Um côvado de luz à minha alma cansada,
Que perdida vagueia em prantos pela estrada
E à Fé se fecha toda e não permite acesso!
Trago em meu coração um canceroso abscesso
E acredito não ter minha Fé renovada...
Mil erros cometi e o que vos peço é um nada:
– Peço um pouco de paz para tanto tropeço.
Nesta noite, Senhor, que o céu rebrilha tanto
Mostrando a vastidão de vosso etéreo manto,
Acalmai a minha alma e meus erros perdoai;
Pois vosso coração – fulgurante lanterna,
Irá mostrar por certo a luz da vida eterna,
Pois mais do que Senhor, vós sois o nosso Pai!
08.09.1993
v v v v v v v v v
Soneto
Quando Eva deu a Adão o fruto do pecado
Entregando-lhe em gozo a sua virgindade,
Por certo, Deus, no céu, ficou desesperado
Por não ter vivido Ele esta felicidade.
Como o Éden era Seu, por ter sido humilhado
Expulsou-os dali sem nenhuma piedade.
E Adão e Eva, sorrindo – olhar apaixonado! –
À Terra vieram ter com toda a intensidade.
E Eva, amando, foi tendo então filhos e filhos...
Roendo de raiva, Deus, a ruminar inveja,
Quis matar este amor que tinha tantos brilhos...
Por não saber amar o amor da carne, o Eterno
Sobre os dois atirou Sua ira malfazeja,
E tentou-os jogar no fogaréu do Inferno.
21.12.1993
v v v v v v v v v
Visita
Às vezes, no silêncio hermético de casa,
Entre sombras e luz vejo coisas e vultos...
E tento decifrar com o coração em brasa,
Essas coisas que são de mistérios ocultos...
Talvez seja meu pai, que sequer pede indultos,
E vaga lentamente em fina e tênue gaza...
E em êxtases me sinto, em etéricos cultos,
Um perfume envolvente e uma luz que me apraza...
O corpo arrepiado eu sinto no momento!...
Tento chamá-lo em vão... absorto tento vê-lo,
Mas ele não se mostra e o perfume me espanta...
Mas nessas horas ouço a cantiga do vento...
E em partes atendendo em preces meu apelo,
Empresta a sua voz ao pintassilgo... e canta...
21.02.1994
v v v v v v v v v
Nesta noite, Senhor, humildemente peço,
Um côvado de luz à minha alma cansada,
Que perdida vagueia em prantos pela estrada
E à Fé se fecha toda e não permite acesso!
Trago em meu coração um canceroso abscesso
E acredito não ter minha Fé renovada...
Mil erros cometi e o que vos peço é um nada:
– Peço um pouco de paz para tanto tropeço.
Nesta noite, Senhor, que o céu rebrilha tanto
Mostrando a vastidão de vosso etéreo manto,
Acalmai a minha alma e meus erros perdoai;
Pois vosso coração – fulgurante lanterna,
Irá mostrar por certo a luz da vida eterna,
Pois mais do que Senhor, vós sois o nosso Pai!
08.09.1993
v v v v v v v v v
Soneto
Quando Eva deu a Adão o fruto do pecado
Entregando-lhe em gozo a sua virgindade,
Por certo, Deus, no céu, ficou desesperado
Por não ter vivido Ele esta felicidade.
Como o Éden era Seu, por ter sido humilhado
Expulsou-os dali sem nenhuma piedade.
E Adão e Eva, sorrindo – olhar apaixonado! –
À Terra vieram ter com toda a intensidade.
E Eva, amando, foi tendo então filhos e filhos...
Roendo de raiva, Deus, a ruminar inveja,
Quis matar este amor que tinha tantos brilhos...
Por não saber amar o amor da carne, o Eterno
Sobre os dois atirou Sua ira malfazeja,
E tentou-os jogar no fogaréu do Inferno.
21.12.1993
v v v v v v v v v
Visita
Às vezes, no silêncio hermético de casa,
Entre sombras e luz vejo coisas e vultos...
E tento decifrar com o coração em brasa,
Essas coisas que são de mistérios ocultos...
Talvez seja meu pai, que sequer pede indultos,
E vaga lentamente em fina e tênue gaza...
E em êxtases me sinto, em etéricos cultos,
Um perfume envolvente e uma luz que me apraza...
O corpo arrepiado eu sinto no momento!...
Tento chamá-lo em vão... absorto tento vê-lo,
Mas ele não se mostra e o perfume me espanta...
Mas nessas horas ouço a cantiga do vento...
E em partes atendendo em preces meu apelo,
Empresta a sua voz ao pintassilgo... e canta...
21.02.1994
v v v v v v v v v
Sonhando
(2a. edição agora em versos alexandrinos, de 1973)
Neste momento, amor, neste exato momento,
Em que a treva, afinal, deixou meu coração,
E que o silêncio é como um santo sacramento
Que o envolveu numa doce e plácida oração;
E meu olhar fitando ansioso e mais atento
Este instante de louca e ébria exaltação,
Gostaria de ter um grande sortimento
De dias de calor mais longos do que são...
Nunca sinto o teu vulto amado tão presente,
Como quando percebo, em ânsias, que, realmente
És um sonho, és um fruto, uma doce ilusão!...
E muito mais feliz então me sinto quando
Tenho a certeza que acordado estou sonhando,
E este sonho faz bem para o meu coração.
30.08.1994
v v v v v v v v v
O passado
Nada mata o passado e nem a própria morte
Sorrateira e fatal, um dia, há de matá-lo,
Pois ele ataca como o ataque de um cavalo
Que coice distribui a toda e qualquer sorte.
O passado inexiste e é real – causa abalo
No coração e após, espúrio na alma, corte
Que o peito faz sangrar de um mendigo ou de um forte,
E invisível machuca e fere como um calo.
O passado é vingança a existir no futuro:
É cicatriz que sangra invisível na pele
É a atroz resignação que se vive calada.
É o murro que se dá de raiva, contra o muro,
É o pus que na agonia a nossa boca expele,
É a insônia que acontece em longa madrugada.
25.02.1995
v v v v v v v v v
Campanha da Fraternidade/1995
Eras tu, meu Senhor? Mas como eu poderia
Imaginar que aquele idiota, olhar de fera,
Arma nas duas mãos, com uivos de pantera
Era o Senhor testando a minha teimosia?
Impedia-me a fala e gritava. E grunhia,
Pegou minha carteira e de maneira austera
Disse que era ladrão, que tinha fome, que era
Resto de estercorácia a viver sem valia.
Eras tu, meu Senhor, eu devia sabê-lo
Assim não passaria horas de pesadelo,
Nem temeria, não, contigo, esse arcabuz.
Mas pensei se ladrão e tomei minha arma,
E bastou seu cochilo – atirei sem alarma...
– No chão tombou deixando uma sombra de cruz!
11.03.1995
v v v v v v v v v
Bepe
(José Micheletti)
Bepe aprendeu, um dia, a debulhar o trigo,
E o milagre aprendeu de fabricar o pão.
E como o bom Pastor, de todos, foi amigo,
E mais que amigo, foi de cada ser – Irmão!
Bepe fez de seu Lar o mais sincero abrigo
E a Família reuniu numa terna oração.
Não deixando, jamais, que um infausto perigo
Viesse destruir do amor – qualquer lição.
Hoje Bepe entre nós, é uma imensa saudade,
E aquele olhar de paz, de ternura e amizade,
Com certeza a cumprir está outra missão:
Pelos campos do céu, é lavrador amado,
Semeia a paz e o amor nesse solo sagrado,
E colhe o trigo bom para fazer o pão.
34.04.1995
v v v v v v v v v
Cismas
Fulge em sonhos a noite... a noite fulge em sonhos,
Amplos vales azuis, pássaros mil em bando,
Desencontros fatais e retornos tristonhos
"Ela não veio, mas virá por certo... quando?"
Não sei. Não sei dizer. Pesadelos medonhos...
"Amanhã vou falar-lhe. Estará me esperando?"
"Não fui porque não quis..." E nos lábios risonhos
Sorrisos de desdém... Mas por que estou chorando?
Ardem astros no céu, em febre também ardo.
"Vou tentar esquecer as angústias e os medos..."
Os sonhos vão-se além, e meu viver é tardo.
Além fulgura o sol em majestosas luzes.
E eu preso em mim estou com cismas e segredos,
Preso num pesadelo estirado entre cruzes!
13.05.1995
v v v v v v v v v
Portinari em exposição
Certa vez Portinari, em uma exposição,
(Onde de si fazia uma retrospectiva),
Mostrando com prazer a toda a multidão
Telas de toda a vida inspirada e ativa,
Elogios ouvia e com satisfação
Sorria aos parabéns de maneira cativa.
Até que alguém falou de um quadro do salão
E a face do Pintor ficou de luz mais viva!...
–“Mestre, por que o Senhor junto às telas abstratas,
Onde em cores compões naturezas e matas
Colocas esta tela acadêmica, fria?!..."
–“Eu pinto estes borrões pois faz parte do show,
Mas aquela Mulher retratada em poesia,
Aquela é minha Mãe!"
e depois silenciou...
01.06.1995
v v v v v v v v v
Meninos abandonados
Oh! meninos que andais vagando pela rua
Perguntando ao “doutor” se ele tem uns trocados...
Maltrapilhos vós sois, por todos, enxotados,
Tal qual os animais que ladram para a lua.
Em vós percebo, triste, uma alma rota nua
Vós somente quereis ser pelo mundo amado.
Porém, para o “doutor” pareceis desgraçados,
Quando um de vós humilde, ou órfão, se insinua.
Vejo, triste, na noite, uma criança pobre,
Com o frio cortante a penetrar-lhe a alma
E um coberto sequer este molambo cobre.
Porém, mal nasce o sol da gravidez do dia,
Novamente pedis com humildade e calma,
Para o mesmo “doutor”, trocados de alegria...
02.06.1995
v v v v v v v v v
Nossa Senhora agredida
Um homem – um ateu, hipócrita em excesso,
Quis a todos mostrar – com seu gesto cretino,
Que somente chutava uma imagem de gesso
E ela não lhe podia alterar-lhe o destino.
E a imagem agrediu... e entre os seus fez sucesso;
A agredida, porém, com seu olhar divino
Nas contas não levou todo aquele arremesso
E calada assistiu o ataque ressupino.
O homem, porém, não quis profanar tal imagem
(Que é gesso, tão-somente) ele quis mais pois quer
Não sei porquê, mostrar que Maria é miragem...
Mas foi Ela que um dia, em todo o seu receio,
Ao seu filho Jesus foi Mãe e foi Mulher
Dando ao pequeno Deus o leite de seu seio.
03.11.1995
v v v v v v v v v
Para Maria Cecília
Eu quero dedicar este Soneto à Amiga
Que nunca dedicou o teu tempo à riqueza;
Mas antes, se enfronhou na paz da Natureza,
– Sublime Atar de Deus que a Inspiração abriga!
Verdes mares de luz! Esta mensagem presa
Explode o coração que alerta diz – prossiga!
Pois a Poesia deve atrelar-se a esta viga
Que sustenta o Poeta em sua única reza.
O Poeta vê Deus! E Seu amor entende –
Em elos de ouro prende a rima fugidia
E com etérea luz nos mostra um sonho oculto.
E a Alma gêmea este Amor infinito compreende:
Vislumbra a Inspiração, rima nova Poesia,
Ergue um Altar a Deus e em prece faz seu culto!
13.11.1995
v v v v v v v v v
Pecado mortal
O pecado maior que pode haver na terra
É deturpar o amor com falsos moralismos...
O desejo enterrar em profundos abismos
E erguer dogmas de fé em trincheiras de guerra!
Deus em Seu dom maior que plenitude encerra
Ao homem deu o amor em fontes de batismos,
Mas os cegos, porém, em vis egocentrismos
Teimam toldar o amor que exulta, esplende, berra!
O amor em tudo vibra e os corações aquece;
Quem tem no coração o amor, quem na alma sente
O desejo de amar, tem nos lábios a prece
De dividir o amor com a pessoa amada,
Aventuras viver com a alma apaixonada,
E acreditar no amor e dele viver crente
28.02.1996
v v v v v v v v v
Funestas fantasias
Depois que te perdi procurei noutros passos
Meu futuro encontrar: no acumular dos dias
Tão-somente encontrei funestas fantasias,
Fatais desilusões, tropeços e fracassos...
Até tentei achar carinhos n’outros braços,
Numa pobre ilusão e falsas alegrias...
Que hoje somente tenho em minhas romarias
De tão sonhado amor, derrotas e cansaços...
Por isso, Amada, volto e peço novamente
Que coloques comigo os passos nesta vida
Pois da Árvore do Amor nós temos a semente.
É contigo que sonho a minha realidade,
Quero contigo ter minha felicidade,
Quero contigo ter a esperança querida!
07.05.1996
v v v v v v v v v
Soneto de um passado
Quando em silêncio estava a compor meus poemas
A Bem-amada em casa andava em pés de plumas,
Para que o Seu Poeta os versos em diademas
Domasse a Musa e a rima em cantigas de espumas...
Algumas vezes ela ofertava-me os temas
E exigia de mim bons poemas... algumas
Vezes eu lhe ofertava os versos como gemas
E ela dizia a rir: com versos me perfumas!...
Mas eu um dia, triste, abandonei as rimas,
E dos meus versos ela esqueceu os aromas
E fomos nós viver em diferentes climas...
Separados então vivemos nossos dramas,
Os seus sonhos de amor ela pôs em redomas,
E eu não mais me esqueci do seu amor – as chamas!
07.05.1996
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Amor supremo
Na alegria maior que pode haver na vida,
Eu ensaio o meu canto em forma de balada,
E feliz, a sorrir, com a alma apaixonada,
Só consigo chamar-te em versos, de querida!
E te quero em meu canto e te contemplo, amada,
Na razão de meu sonho e de forma luzida,
E te ajudo a subir – e te apóio a descida,
E te quero na luz – e mais, na madrugada!
Ouve bem, meu amor, de prazer a alma canta,
E há no meu coração coloridos matizes
Para te enfeitiçar na canção que acalanta...
Em nossos corações o amor deitou raízes,
E na paixão maior que me invade e agiganta,
Eu sinto que nós dois devemos ser felizes!
02.11.1996
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Otimismo
Não deixemos, jamais, que horas desesperadas
Nublem o nosso céu, calem os nossos sonhos!
Que a Fé deve abluir nas róseas madrugadas,
Para podermos ter amplos rosais risonhos!
Não devemos, jamais, toldar nossas estradas
E ter dias de tédio, opacos e enfadonhos;
Mas devemos fulgir ante tardes nubladas,
E os vales contornar dos martírios medonhos!
Não deixemos, jamais, que calem nossa crença,
Pois a nossa verdade é luz aos nossos passos,
Que o chão deve marcar sempre de forma densa.
Nem devemos temer derrotas e fracassos,
Que a vitória do Amor é esforço que compensa,
Ainda mais quando o Amor nos prende entre seus braços!
04.11.1996
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Multicoloridamente
Azul, verde, lilás, branco, rosa e dourado!
Vibrantes variações das mais diversas cores!
Pois assim eu me sinto estando apaixonado,
Num florido jardim das mais diversas flores!
Vejo o meu céu azul, meu caminho esverdeado,
Meu coração lilás, brancos os meus louvores,
Rosa a minha paixão, meu sonho iluminado,
Dourado o meu viver de cuidados trasflores!
Tudo louca paixão e sonhos delirantes,
Vejo a lua no céu, meu céu todo de estrelas,
Solto canções no ar e suspiros constantes!
E estou apaixonado, e está paixão é tanta,
Que mais pareço um doido a andar sorrindo pelas
Tardes cheias de sol, que até minha alma canta!
04.11.1996
v v v v v v v v v
Nossa Senhora, após ter sido agredida
Pós tantas agressões, nossa Santa Senhora
Ainda vem entre nós mostrar Sua presença,
E pede o nosso amor, e pede a nossa crença,
E pede a nossa fé urgente e sem demora!
Porém, o tolo incréu, vive na indiferença,
E ás proféticas leis, com infâmias, ignora.
E assim a Mãe de Deus, abandonada chora,
Sabendo qual vai ser a nossa recompensa!
Católicos Cristãos! O tempo ainda é presente
Para podermos dar um pouco que nos pede
A Santíssima Mãe de Deus, Cristo Jesus!
Se cada coração desta fé não for crente,
Maria, que por nós, junto a Cristo intercede,
Não vai tirar de nós a nossa própria Cruz!
04.11.1996
v v v v v v v v v
Fantasma da sombra
Há perigos na noite entre a sombra que, esparsa,
Ágil, modula o sonho, o silêncio, a quimera,
E sorrateiramente, uma negra pantera
Pronta para atacar, em meandros se disfarça...
A solitariedade encontra o seu comparsa
Que sempre se parece à maldosa megera,
E a sombra, a realidade, em transes adultera
Ocultando a visão da armadilha e da farsa.
Alguém pisa na rua uns passos solitários...
Eu – que em rimas procuro a distração de tudo, –
Não consigo dealvar recônditos cenários...
Chego então a temer-me em sombras refletido,
Que o fantasma da sombra acompanha-me mudo,
Enquanto o coração, no peito, faz ruído.
07.11.1996
Martinho Chavez
v v v v v v v v v
Distância
És muito mais que um sonho, és muito mais que a vida,
E muito mais que o Além do desejo que sinto.
Se meu olhar me trai com as palavras minto,
Dizendo que não és a minha pretendida.
Porém, como fazer e o que fazer, querida?
Pressinto uma loucura e mil taras pressinto.
A alma num turbilhão vive num labirinto,
Pois chegas até mim quando estou de partida...
És relva fresca, orvalho a pousar sobre as rosas,
Tens um mundo a viver, manhãs maravilhosas,
Juventude a florir pelas grotas do acaso...
Fundas, porém, carrego, encavadas no rosto,
As marcas do sofrer, as rugas do desgosto,
As tardes outonais e um tênue sol no ocaso...
27.06.1997
v v v v v v v v v
Dor
(para Regina, Renato, Rosângela, Rubens, Rosana e Rudney Françoso, com a amizade de Irmão)
Algumas dores são fugaces, passageiras,
Provocam cicatriz, porém, não doem tanto.
Outras dores também causam mágoas e pranto,
E nos fazem sofrer umas horas inteiras.
Também existe a dor que queima nas lareiras,
Mas que passa ao menor carinho ou acalanto.
Outras tiram da vida uns instantes de encanto
Para depois virar com o vento – poeiras.
E existe aquela dor que cicatriz não deixa,
Mas põe no coração uma intérmina queixa
Que é pequena uma vida a quem tenta esquecê-la.
É aquela dor que vem na atroz ferocidade,
Que deixa seis irmãos unidos na orfandade,
Que tira a Mãe da Terra e a põe no Céu de Estrela!
22.02.1998
v v v v v v v v v
Silvinha sapeca
Depois que começou as aulas de piano,
Esperta, sorrateira, ardilosa, sapeca,
Corpinho de ninfeta e rosto de boneca,
Começou a tramar um engenhoso plano.
Quando foi visitá-la o bonito Adriano,
Silvinha murmurou para si um eureka!
E correndo adentrou na vasta biblioteca
Sabendo não poder correr nenhum engano.
E ficou a teclar o sonoro instrumento
Até que o Adriano em ágil movimento
Tentou roubar-lhe um beijo... e ela disse: alto lá!
Não venha, não, com um beijo, eu quero é mais que um beijo!
Porém, para acender esse louco desejo,
Só-dou-se-mi-re-lá-em-ci-ma-do-so-fá!
01.06.1998
v v v v v v v v v
Para Ana Maria
O meu amor merece (em êxtases eu digo)
O melhor que possuo e posso dar... merece
Dentro em meu coração aveludado abrigo
E minha voz num canto a adormece-la em prece.
Mil canções de ninar, e cantigas de Amigo,
Dos tempos medievais, beijos de minha messe,
Violinos a planger quando segue comigo
Por campos de luar onde Vênus floresce.
Merece ter em paz, calma e serenidade,
Meu sorriso sincero e meu olhar que brilha
Quando a buscá-lo vai às ruas da cidade.
E feliz por lhe dar do que possuo tudo,
A vida para mim é eterna maravilha,
Quando num beijo ardente – eu permaneço mudo!
10.08.1998
v v v v v v v v v
Saudade
De ora em diante a saudade, a sepulcral saudade,
Irá entoar, tristonha, o seu macabro canto.
E dos olhos fará brotar amargo pranto,
Na mais forte, mas triste e em toda a intensidade.
E ela fará crescer a angústia – sem piedade,
Pois gosta de mostrar o seu cinéreo manto...
E quem sente esta dor (e ela dói tanto, tanto...)
Leva-a no coração e esquecê-la, quem há de?!...
Esta dor muita vez num instante aparece,
E fica em seu refrão como sentida prece
Porque se prende em nós em seus fortes agarros...
E esta saudade que hoje os corações consome,
E em nós põe tanta dor, eu chamo-a pelo nome:
– Myrtes Apparecida Adâmoli de Barros!
20.07.1999
v v v v v v v v v
Soneto para Antonio Zoppi
(Poeta da cidade de Americana, meu amigo)
Como Deus precisasse encontrar um Poeta
Que soubesse compor sonetos e baladas,
Veio à Terra buscar, nas altas madrugadas,
Um’alma que lhe fosse a mais pura e dileta.
Entre tantas de luz belas e apaixonadas,
Ele encontrou por fim aquela, a mais discreta.
E era tão boa e calma e tão linda e seleta,
Que contente a levou às plagas inspiradas.
E agora, na amplidão da imensa orla celeste,
O Universo parece etéreo e áureo diadema
Com as rimas de luz doirada que ele a veste.
E há uma constelação desta que nos seduz:
Cada estrela é uma estrofe, o verso de um poema,
É o grande Antonio Zoppi arcoirizado em luz!
01.09.2000
17:00h.
v v v v v v v v v
O Telefone
(À ultrajante invenção do telephone!)
(Augusto dos Anjos)
Entre um telefonema e outro telefonema
(Oi, Esio, como vai?) Escrevo uma poesia.
Procuro me inspirar, buscar um velho tema,
Cantar a luz, o sol, a flor, a lua, o dia...
(Eu queria falar com a d. Maria)
E a poesia padece, oh, convulsão suprema!
(Desculpe, foi engano) ai, que imensa agonia,
Corta-se a inspiração, estrangulo o poema...
(É da casa do Pedro?) oi, quem está na linha,
O trem vem vindo...piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... e a eterna ladainha
Triiiiim, triiiiiiiiiim, triiiiiiiim, ai, meu Deus, que tremendo sufoco!
A folha em branco às mãos e embora me impressione,
Esta invenção genial chamada telefone,
Com certeza ainda vai (triiiiiiiiim, triiiiiiiim) deixar-me louco!
14.03.2001
v v v v v v v v v
Decepção
Sempre que a inspiração ataca o pensamento,
O Poeta procura escrever o que sente.
Paladino do Sonho, ele, em su’alma crente,
Que a doce inspiração não passa de um momento.
E pensa, escreve, pensa e escreve – como o vento,
A palavra se alastra e o verso incandescente
Preenche toda a folha e ele, todo contente,
Pensa então ter composto um belo monumento.
Depois, mais calmo, torna a reler todo o texto:
Procura eliminar os erros de cesura,
A métrica imperfeita e a rima sem contexto...
Quando sente afinal que tudo corrigido
Irá pô-lo no céu do prazer, da ternura,
Sente que o que escreveu foi um tempo perdido...
03.05.2001
v v v v v v v v v
A hora final
Quando um de nós chegar ao fim da longa estrada
A qual pensamos sonho e a chamamos de Vida,
Como haverá de ser a nossa despedida
Na hora que o triste adeus der fim a esta jornada?
E como irá viver sozinha e abandonada
A alma que aqui ficar sem su’alma querida?
Quem mais irá sofrer quando a certa partida
Ao embuste fatal não puder ser adiada?
E o silêncio há de vir na tristeza e no pranto,
A saudade há de ser vivida em cada canto,
E a voz há de calar por não estarmos juntos.
Porém, se eu fosse Deus, a todos os amantes
Eu não permitira houvesse tais instantes:
E faria dos dois na mesm’hora – defuntos!
03.08.2001
v v v v v v v v v
Os versos que faço
Às vezes tento por nos versos que fabrico
Gotas d’ouro de mel de inspiradas abelhas.
E quanto mais escrevo eu me torno mais rico,
Que as palavras são luz que brilham tais centelhas.
O verso é minha capa e as estrofes são telhas
Que protegem meu sono em locais onde fico.
As palavras reúno em rebanhos de ovelhas,
E com elas me aqueço e a Deus me glorifico!
Meu verso é puro, é claro, e sonoro e percebo,
Que se transforma em água e é doce e cristalino,
É meu terno elixir quando na fonte o bebo.
Bem mais que minha vida é o verso que ora teço,
Porque com ele em mim desvendo o meu destino,
E a quem eu quero bem, com amor o ofereço.
21.05.2002
v v v v v v v v v
Viver o Amor
Quero viver o amor em sua intensidade
Em seu vigor total momento após momento.
Quero cantá-lo ao mar, às montanhas, ao vento,
Às florestas sem fim, aos campos, à cidade.
Quero viver o amor em sua austeridade,
Ser-lhe um servo fiel, cumprir-lhe o mandamento,
Quero cantá-lo firme, e forte, e ser sustento,
Para fazer valer sua santa verdade!
Quero viver o amor de homem e de menino,
E fazê-lo florir através do destino
E cumprir-lhe à razão dentro da própria vida!
Quero viver o amor instante após instante,
Dar-lhe meu coração e ser-lhe eterno amante,
Para poder morrer tendo a missão cumprida!
11.07.2002
v v v v v v v v v
Teresa
Teresa – um sonho azul que se perde a distância
E põe no coração um misto de ansiedade.
Uma ternura absurda, uma palavra em ânsia,
Um apelo a chamar pela voz da saudade.
Teresa – uma esperança, uma doce fragrância,
Uma voz a cantar na sombra de uma grade.
Vontade de voar o país da distância
Para poder sonhar doce serenidade.
Um vulcão arde aqui, acolá queima a chama,
Uma voz diz espera e também diz que me ama
E eu entro nesse sonho e imerso na certeza
Sei que irei abraçar essa mulher divina,
E ela irá povoar, qual dócil bailarina,
Meus desejos de amor. Desejo-te, Teresa.
21.08.2003
v v v v v v v v v
Plantação
Planto em meu coração sementes de esperança
Para me reflorir em sonhos de ternura.
Com amor vou fazendo a terna semeadura
Na alegria fugaz de uma doce criança.
A alegria que sinto é tão forte e tão pura,
Que minha mão febril para bem longe lança
As sementes de luz e, nessa doida dança,
O meu céu se ilumina em transe de ventura.
E de cada semente uma estrela aparece
Nesse êxtase de amor a minh’alma em quebrantos
Cai de joelhos ao chão e murmura uma prece.
Amor, sonho, paixão... em delírios e encantos
Chove estrelas no céu e a terra se parece
Imenso roseiral entoando ternos cantos.
29.08.2003
v v v v v v v v v
(2a. edição agora em versos alexandrinos, de 1973)
Neste momento, amor, neste exato momento,
Em que a treva, afinal, deixou meu coração,
E que o silêncio é como um santo sacramento
Que o envolveu numa doce e plácida oração;
E meu olhar fitando ansioso e mais atento
Este instante de louca e ébria exaltação,
Gostaria de ter um grande sortimento
De dias de calor mais longos do que são...
Nunca sinto o teu vulto amado tão presente,
Como quando percebo, em ânsias, que, realmente
És um sonho, és um fruto, uma doce ilusão!...
E muito mais feliz então me sinto quando
Tenho a certeza que acordado estou sonhando,
E este sonho faz bem para o meu coração.
30.08.1994
v v v v v v v v v
O passado
Nada mata o passado e nem a própria morte
Sorrateira e fatal, um dia, há de matá-lo,
Pois ele ataca como o ataque de um cavalo
Que coice distribui a toda e qualquer sorte.
O passado inexiste e é real – causa abalo
No coração e após, espúrio na alma, corte
Que o peito faz sangrar de um mendigo ou de um forte,
E invisível machuca e fere como um calo.
O passado é vingança a existir no futuro:
É cicatriz que sangra invisível na pele
É a atroz resignação que se vive calada.
É o murro que se dá de raiva, contra o muro,
É o pus que na agonia a nossa boca expele,
É a insônia que acontece em longa madrugada.
25.02.1995
v v v v v v v v v
Campanha da Fraternidade/1995
Eras tu, meu Senhor? Mas como eu poderia
Imaginar que aquele idiota, olhar de fera,
Arma nas duas mãos, com uivos de pantera
Era o Senhor testando a minha teimosia?
Impedia-me a fala e gritava. E grunhia,
Pegou minha carteira e de maneira austera
Disse que era ladrão, que tinha fome, que era
Resto de estercorácia a viver sem valia.
Eras tu, meu Senhor, eu devia sabê-lo
Assim não passaria horas de pesadelo,
Nem temeria, não, contigo, esse arcabuz.
Mas pensei se ladrão e tomei minha arma,
E bastou seu cochilo – atirei sem alarma...
– No chão tombou deixando uma sombra de cruz!
11.03.1995
v v v v v v v v v
Bepe
(José Micheletti)
Bepe aprendeu, um dia, a debulhar o trigo,
E o milagre aprendeu de fabricar o pão.
E como o bom Pastor, de todos, foi amigo,
E mais que amigo, foi de cada ser – Irmão!
Bepe fez de seu Lar o mais sincero abrigo
E a Família reuniu numa terna oração.
Não deixando, jamais, que um infausto perigo
Viesse destruir do amor – qualquer lição.
Hoje Bepe entre nós, é uma imensa saudade,
E aquele olhar de paz, de ternura e amizade,
Com certeza a cumprir está outra missão:
Pelos campos do céu, é lavrador amado,
Semeia a paz e o amor nesse solo sagrado,
E colhe o trigo bom para fazer o pão.
34.04.1995
v v v v v v v v v
Cismas
Fulge em sonhos a noite... a noite fulge em sonhos,
Amplos vales azuis, pássaros mil em bando,
Desencontros fatais e retornos tristonhos
"Ela não veio, mas virá por certo... quando?"
Não sei. Não sei dizer. Pesadelos medonhos...
"Amanhã vou falar-lhe. Estará me esperando?"
"Não fui porque não quis..." E nos lábios risonhos
Sorrisos de desdém... Mas por que estou chorando?
Ardem astros no céu, em febre também ardo.
"Vou tentar esquecer as angústias e os medos..."
Os sonhos vão-se além, e meu viver é tardo.
Além fulgura o sol em majestosas luzes.
E eu preso em mim estou com cismas e segredos,
Preso num pesadelo estirado entre cruzes!
13.05.1995
v v v v v v v v v
Portinari em exposição
Certa vez Portinari, em uma exposição,
(Onde de si fazia uma retrospectiva),
Mostrando com prazer a toda a multidão
Telas de toda a vida inspirada e ativa,
Elogios ouvia e com satisfação
Sorria aos parabéns de maneira cativa.
Até que alguém falou de um quadro do salão
E a face do Pintor ficou de luz mais viva!...
–“Mestre, por que o Senhor junto às telas abstratas,
Onde em cores compões naturezas e matas
Colocas esta tela acadêmica, fria?!..."
–“Eu pinto estes borrões pois faz parte do show,
Mas aquela Mulher retratada em poesia,
Aquela é minha Mãe!"
e depois silenciou...
01.06.1995
v v v v v v v v v
Meninos abandonados
Oh! meninos que andais vagando pela rua
Perguntando ao “doutor” se ele tem uns trocados...
Maltrapilhos vós sois, por todos, enxotados,
Tal qual os animais que ladram para a lua.
Em vós percebo, triste, uma alma rota nua
Vós somente quereis ser pelo mundo amado.
Porém, para o “doutor” pareceis desgraçados,
Quando um de vós humilde, ou órfão, se insinua.
Vejo, triste, na noite, uma criança pobre,
Com o frio cortante a penetrar-lhe a alma
E um coberto sequer este molambo cobre.
Porém, mal nasce o sol da gravidez do dia,
Novamente pedis com humildade e calma,
Para o mesmo “doutor”, trocados de alegria...
02.06.1995
v v v v v v v v v
Nossa Senhora agredida
Um homem – um ateu, hipócrita em excesso,
Quis a todos mostrar – com seu gesto cretino,
Que somente chutava uma imagem de gesso
E ela não lhe podia alterar-lhe o destino.
E a imagem agrediu... e entre os seus fez sucesso;
A agredida, porém, com seu olhar divino
Nas contas não levou todo aquele arremesso
E calada assistiu o ataque ressupino.
O homem, porém, não quis profanar tal imagem
(Que é gesso, tão-somente) ele quis mais pois quer
Não sei porquê, mostrar que Maria é miragem...
Mas foi Ela que um dia, em todo o seu receio,
Ao seu filho Jesus foi Mãe e foi Mulher
Dando ao pequeno Deus o leite de seu seio.
03.11.1995
v v v v v v v v v
Para Maria Cecília
Eu quero dedicar este Soneto à Amiga
Que nunca dedicou o teu tempo à riqueza;
Mas antes, se enfronhou na paz da Natureza,
– Sublime Atar de Deus que a Inspiração abriga!
Verdes mares de luz! Esta mensagem presa
Explode o coração que alerta diz – prossiga!
Pois a Poesia deve atrelar-se a esta viga
Que sustenta o Poeta em sua única reza.
O Poeta vê Deus! E Seu amor entende –
Em elos de ouro prende a rima fugidia
E com etérea luz nos mostra um sonho oculto.
E a Alma gêmea este Amor infinito compreende:
Vislumbra a Inspiração, rima nova Poesia,
Ergue um Altar a Deus e em prece faz seu culto!
13.11.1995
v v v v v v v v v
Pecado mortal
O pecado maior que pode haver na terra
É deturpar o amor com falsos moralismos...
O desejo enterrar em profundos abismos
E erguer dogmas de fé em trincheiras de guerra!
Deus em Seu dom maior que plenitude encerra
Ao homem deu o amor em fontes de batismos,
Mas os cegos, porém, em vis egocentrismos
Teimam toldar o amor que exulta, esplende, berra!
O amor em tudo vibra e os corações aquece;
Quem tem no coração o amor, quem na alma sente
O desejo de amar, tem nos lábios a prece
De dividir o amor com a pessoa amada,
Aventuras viver com a alma apaixonada,
E acreditar no amor e dele viver crente
28.02.1996
v v v v v v v v v
Funestas fantasias
Depois que te perdi procurei noutros passos
Meu futuro encontrar: no acumular dos dias
Tão-somente encontrei funestas fantasias,
Fatais desilusões, tropeços e fracassos...
Até tentei achar carinhos n’outros braços,
Numa pobre ilusão e falsas alegrias...
Que hoje somente tenho em minhas romarias
De tão sonhado amor, derrotas e cansaços...
Por isso, Amada, volto e peço novamente
Que coloques comigo os passos nesta vida
Pois da Árvore do Amor nós temos a semente.
É contigo que sonho a minha realidade,
Quero contigo ter minha felicidade,
Quero contigo ter a esperança querida!
07.05.1996
v v v v v v v v v
Soneto de um passado
Quando em silêncio estava a compor meus poemas
A Bem-amada em casa andava em pés de plumas,
Para que o Seu Poeta os versos em diademas
Domasse a Musa e a rima em cantigas de espumas...
Algumas vezes ela ofertava-me os temas
E exigia de mim bons poemas... algumas
Vezes eu lhe ofertava os versos como gemas
E ela dizia a rir: com versos me perfumas!...
Mas eu um dia, triste, abandonei as rimas,
E dos meus versos ela esqueceu os aromas
E fomos nós viver em diferentes climas...
Separados então vivemos nossos dramas,
Os seus sonhos de amor ela pôs em redomas,
E eu não mais me esqueci do seu amor – as chamas!
07.05.1996
v v v v v v v v v
Amor supremo
Na alegria maior que pode haver na vida,
Eu ensaio o meu canto em forma de balada,
E feliz, a sorrir, com a alma apaixonada,
Só consigo chamar-te em versos, de querida!
E te quero em meu canto e te contemplo, amada,
Na razão de meu sonho e de forma luzida,
E te ajudo a subir – e te apóio a descida,
E te quero na luz – e mais, na madrugada!
Ouve bem, meu amor, de prazer a alma canta,
E há no meu coração coloridos matizes
Para te enfeitiçar na canção que acalanta...
Em nossos corações o amor deitou raízes,
E na paixão maior que me invade e agiganta,
Eu sinto que nós dois devemos ser felizes!
02.11.1996
v v v v v v v v v
Otimismo
Não deixemos, jamais, que horas desesperadas
Nublem o nosso céu, calem os nossos sonhos!
Que a Fé deve abluir nas róseas madrugadas,
Para podermos ter amplos rosais risonhos!
Não devemos, jamais, toldar nossas estradas
E ter dias de tédio, opacos e enfadonhos;
Mas devemos fulgir ante tardes nubladas,
E os vales contornar dos martírios medonhos!
Não deixemos, jamais, que calem nossa crença,
Pois a nossa verdade é luz aos nossos passos,
Que o chão deve marcar sempre de forma densa.
Nem devemos temer derrotas e fracassos,
Que a vitória do Amor é esforço que compensa,
Ainda mais quando o Amor nos prende entre seus braços!
04.11.1996
v v v v v v v v v
Multicoloridamente
Azul, verde, lilás, branco, rosa e dourado!
Vibrantes variações das mais diversas cores!
Pois assim eu me sinto estando apaixonado,
Num florido jardim das mais diversas flores!
Vejo o meu céu azul, meu caminho esverdeado,
Meu coração lilás, brancos os meus louvores,
Rosa a minha paixão, meu sonho iluminado,
Dourado o meu viver de cuidados trasflores!
Tudo louca paixão e sonhos delirantes,
Vejo a lua no céu, meu céu todo de estrelas,
Solto canções no ar e suspiros constantes!
E estou apaixonado, e está paixão é tanta,
Que mais pareço um doido a andar sorrindo pelas
Tardes cheias de sol, que até minha alma canta!
04.11.1996
v v v v v v v v v
Nossa Senhora, após ter sido agredida
Pós tantas agressões, nossa Santa Senhora
Ainda vem entre nós mostrar Sua presença,
E pede o nosso amor, e pede a nossa crença,
E pede a nossa fé urgente e sem demora!
Porém, o tolo incréu, vive na indiferença,
E ás proféticas leis, com infâmias, ignora.
E assim a Mãe de Deus, abandonada chora,
Sabendo qual vai ser a nossa recompensa!
Católicos Cristãos! O tempo ainda é presente
Para podermos dar um pouco que nos pede
A Santíssima Mãe de Deus, Cristo Jesus!
Se cada coração desta fé não for crente,
Maria, que por nós, junto a Cristo intercede,
Não vai tirar de nós a nossa própria Cruz!
04.11.1996
v v v v v v v v v
Fantasma da sombra
Há perigos na noite entre a sombra que, esparsa,
Ágil, modula o sonho, o silêncio, a quimera,
E sorrateiramente, uma negra pantera
Pronta para atacar, em meandros se disfarça...
A solitariedade encontra o seu comparsa
Que sempre se parece à maldosa megera,
E a sombra, a realidade, em transes adultera
Ocultando a visão da armadilha e da farsa.
Alguém pisa na rua uns passos solitários...
Eu – que em rimas procuro a distração de tudo, –
Não consigo dealvar recônditos cenários...
Chego então a temer-me em sombras refletido,
Que o fantasma da sombra acompanha-me mudo,
Enquanto o coração, no peito, faz ruído.
07.11.1996
Martinho Chavez
v v v v v v v v v
Distância
És muito mais que um sonho, és muito mais que a vida,
E muito mais que o Além do desejo que sinto.
Se meu olhar me trai com as palavras minto,
Dizendo que não és a minha pretendida.
Porém, como fazer e o que fazer, querida?
Pressinto uma loucura e mil taras pressinto.
A alma num turbilhão vive num labirinto,
Pois chegas até mim quando estou de partida...
És relva fresca, orvalho a pousar sobre as rosas,
Tens um mundo a viver, manhãs maravilhosas,
Juventude a florir pelas grotas do acaso...
Fundas, porém, carrego, encavadas no rosto,
As marcas do sofrer, as rugas do desgosto,
As tardes outonais e um tênue sol no ocaso...
27.06.1997
v v v v v v v v v
Dor
(para Regina, Renato, Rosângela, Rubens, Rosana e Rudney Françoso, com a amizade de Irmão)
Algumas dores são fugaces, passageiras,
Provocam cicatriz, porém, não doem tanto.
Outras dores também causam mágoas e pranto,
E nos fazem sofrer umas horas inteiras.
Também existe a dor que queima nas lareiras,
Mas que passa ao menor carinho ou acalanto.
Outras tiram da vida uns instantes de encanto
Para depois virar com o vento – poeiras.
E existe aquela dor que cicatriz não deixa,
Mas põe no coração uma intérmina queixa
Que é pequena uma vida a quem tenta esquecê-la.
É aquela dor que vem na atroz ferocidade,
Que deixa seis irmãos unidos na orfandade,
Que tira a Mãe da Terra e a põe no Céu de Estrela!
22.02.1998
v v v v v v v v v
Silvinha sapeca
Depois que começou as aulas de piano,
Esperta, sorrateira, ardilosa, sapeca,
Corpinho de ninfeta e rosto de boneca,
Começou a tramar um engenhoso plano.
Quando foi visitá-la o bonito Adriano,
Silvinha murmurou para si um eureka!
E correndo adentrou na vasta biblioteca
Sabendo não poder correr nenhum engano.
E ficou a teclar o sonoro instrumento
Até que o Adriano em ágil movimento
Tentou roubar-lhe um beijo... e ela disse: alto lá!
Não venha, não, com um beijo, eu quero é mais que um beijo!
Porém, para acender esse louco desejo,
Só-dou-se-mi-re-lá-em-ci-ma-do-so-fá!
01.06.1998
v v v v v v v v v
Para Ana Maria
O meu amor merece (em êxtases eu digo)
O melhor que possuo e posso dar... merece
Dentro em meu coração aveludado abrigo
E minha voz num canto a adormece-la em prece.
Mil canções de ninar, e cantigas de Amigo,
Dos tempos medievais, beijos de minha messe,
Violinos a planger quando segue comigo
Por campos de luar onde Vênus floresce.
Merece ter em paz, calma e serenidade,
Meu sorriso sincero e meu olhar que brilha
Quando a buscá-lo vai às ruas da cidade.
E feliz por lhe dar do que possuo tudo,
A vida para mim é eterna maravilha,
Quando num beijo ardente – eu permaneço mudo!
10.08.1998
v v v v v v v v v
Saudade
De ora em diante a saudade, a sepulcral saudade,
Irá entoar, tristonha, o seu macabro canto.
E dos olhos fará brotar amargo pranto,
Na mais forte, mas triste e em toda a intensidade.
E ela fará crescer a angústia – sem piedade,
Pois gosta de mostrar o seu cinéreo manto...
E quem sente esta dor (e ela dói tanto, tanto...)
Leva-a no coração e esquecê-la, quem há de?!...
Esta dor muita vez num instante aparece,
E fica em seu refrão como sentida prece
Porque se prende em nós em seus fortes agarros...
E esta saudade que hoje os corações consome,
E em nós põe tanta dor, eu chamo-a pelo nome:
– Myrtes Apparecida Adâmoli de Barros!
20.07.1999
v v v v v v v v v
Soneto para Antonio Zoppi
(Poeta da cidade de Americana, meu amigo)
Como Deus precisasse encontrar um Poeta
Que soubesse compor sonetos e baladas,
Veio à Terra buscar, nas altas madrugadas,
Um’alma que lhe fosse a mais pura e dileta.
Entre tantas de luz belas e apaixonadas,
Ele encontrou por fim aquela, a mais discreta.
E era tão boa e calma e tão linda e seleta,
Que contente a levou às plagas inspiradas.
E agora, na amplidão da imensa orla celeste,
O Universo parece etéreo e áureo diadema
Com as rimas de luz doirada que ele a veste.
E há uma constelação desta que nos seduz:
Cada estrela é uma estrofe, o verso de um poema,
É o grande Antonio Zoppi arcoirizado em luz!
01.09.2000
17:00h.
v v v v v v v v v
O Telefone
(À ultrajante invenção do telephone!)
(Augusto dos Anjos)
Entre um telefonema e outro telefonema
(Oi, Esio, como vai?) Escrevo uma poesia.
Procuro me inspirar, buscar um velho tema,
Cantar a luz, o sol, a flor, a lua, o dia...
(Eu queria falar com a d. Maria)
E a poesia padece, oh, convulsão suprema!
(Desculpe, foi engano) ai, que imensa agonia,
Corta-se a inspiração, estrangulo o poema...
(É da casa do Pedro?) oi, quem está na linha,
O trem vem vindo...piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... e a eterna ladainha
Triiiiim, triiiiiiiiiim, triiiiiiiim, ai, meu Deus, que tremendo sufoco!
A folha em branco às mãos e embora me impressione,
Esta invenção genial chamada telefone,
Com certeza ainda vai (triiiiiiiiim, triiiiiiiim) deixar-me louco!
14.03.2001
v v v v v v v v v
Decepção
Sempre que a inspiração ataca o pensamento,
O Poeta procura escrever o que sente.
Paladino do Sonho, ele, em su’alma crente,
Que a doce inspiração não passa de um momento.
E pensa, escreve, pensa e escreve – como o vento,
A palavra se alastra e o verso incandescente
Preenche toda a folha e ele, todo contente,
Pensa então ter composto um belo monumento.
Depois, mais calmo, torna a reler todo o texto:
Procura eliminar os erros de cesura,
A métrica imperfeita e a rima sem contexto...
Quando sente afinal que tudo corrigido
Irá pô-lo no céu do prazer, da ternura,
Sente que o que escreveu foi um tempo perdido...
03.05.2001
v v v v v v v v v
A hora final
Quando um de nós chegar ao fim da longa estrada
A qual pensamos sonho e a chamamos de Vida,
Como haverá de ser a nossa despedida
Na hora que o triste adeus der fim a esta jornada?
E como irá viver sozinha e abandonada
A alma que aqui ficar sem su’alma querida?
Quem mais irá sofrer quando a certa partida
Ao embuste fatal não puder ser adiada?
E o silêncio há de vir na tristeza e no pranto,
A saudade há de ser vivida em cada canto,
E a voz há de calar por não estarmos juntos.
Porém, se eu fosse Deus, a todos os amantes
Eu não permitira houvesse tais instantes:
E faria dos dois na mesm’hora – defuntos!
03.08.2001
v v v v v v v v v
Os versos que faço
Às vezes tento por nos versos que fabrico
Gotas d’ouro de mel de inspiradas abelhas.
E quanto mais escrevo eu me torno mais rico,
Que as palavras são luz que brilham tais centelhas.
O verso é minha capa e as estrofes são telhas
Que protegem meu sono em locais onde fico.
As palavras reúno em rebanhos de ovelhas,
E com elas me aqueço e a Deus me glorifico!
Meu verso é puro, é claro, e sonoro e percebo,
Que se transforma em água e é doce e cristalino,
É meu terno elixir quando na fonte o bebo.
Bem mais que minha vida é o verso que ora teço,
Porque com ele em mim desvendo o meu destino,
E a quem eu quero bem, com amor o ofereço.
21.05.2002
v v v v v v v v v
Viver o Amor
Quero viver o amor em sua intensidade
Em seu vigor total momento após momento.
Quero cantá-lo ao mar, às montanhas, ao vento,
Às florestas sem fim, aos campos, à cidade.
Quero viver o amor em sua austeridade,
Ser-lhe um servo fiel, cumprir-lhe o mandamento,
Quero cantá-lo firme, e forte, e ser sustento,
Para fazer valer sua santa verdade!
Quero viver o amor de homem e de menino,
E fazê-lo florir através do destino
E cumprir-lhe à razão dentro da própria vida!
Quero viver o amor instante após instante,
Dar-lhe meu coração e ser-lhe eterno amante,
Para poder morrer tendo a missão cumprida!
11.07.2002
v v v v v v v v v
Teresa
Teresa – um sonho azul que se perde a distância
E põe no coração um misto de ansiedade.
Uma ternura absurda, uma palavra em ânsia,
Um apelo a chamar pela voz da saudade.
Teresa – uma esperança, uma doce fragrância,
Uma voz a cantar na sombra de uma grade.
Vontade de voar o país da distância
Para poder sonhar doce serenidade.
Um vulcão arde aqui, acolá queima a chama,
Uma voz diz espera e também diz que me ama
E eu entro nesse sonho e imerso na certeza
Sei que irei abraçar essa mulher divina,
E ela irá povoar, qual dócil bailarina,
Meus desejos de amor. Desejo-te, Teresa.
21.08.2003
v v v v v v v v v
Plantação
Planto em meu coração sementes de esperança
Para me reflorir em sonhos de ternura.
Com amor vou fazendo a terna semeadura
Na alegria fugaz de uma doce criança.
A alegria que sinto é tão forte e tão pura,
Que minha mão febril para bem longe lança
As sementes de luz e, nessa doida dança,
O meu céu se ilumina em transe de ventura.
E de cada semente uma estrela aparece
Nesse êxtase de amor a minh’alma em quebrantos
Cai de joelhos ao chão e murmura uma prece.
Amor, sonho, paixão... em delírios e encantos
Chove estrelas no céu e a terra se parece
Imenso roseiral entoando ternos cantos.
29.08.2003
v v v v v v v v v
Thales Castanho de Andrade
Se Thales não cresceu e sempre foi criança,
Por que tivemos nós de nos tornar adultos,
Perder do coração a efêmera esperança
E dos sonhos pueris esmagar nossos cultos?
Hoje dias sem sol nublam nossa lembrança
E fantasmas de dor arrastam os seus vultos.
A ciranda morreu e sepultou a dança,
Nossos sonhos azuis hoje seguem ocultos.
Se Thales mesmo adulto era um simples menino
E de cores povoou nossos sonhos dourados,
Em qual atalho foi que erramos o destino,
E crescemos sem fé, entre dores e miasmas,
Sem sorrisos de sol e sem sonhos alados,
E colamos em nós, máscaras de fantasmas?
09.10.2003
v v v v v v v v v
Sonhos cruéis
Se os sonhos são somente e eternamente sonhos,
E deles somos nós personagens dementes,
E, horas cheios de luz, neles somos risonhos,
Para sermos depois decrépitos, descrentes:
Se, acreditamos ser horríveis e medonhos,
Fantasmas sepulcrais de gritos contundentes,
Muitas vezes, também, neles somos tristonhos,
E termos a mostrar ódio e ranger de dentes.
E se os sonhos cruéis invadem nossa vida,
E o pavor nos devora e em crises entorpece,
Um sorriso por certo é uma luz esquecida.
Mas o despertador do letárgico sono,
A noss’alma dá vida em despertar a prece,
Para tirar da treva a sombra do abandono.
12.10.2003
v v v v v v v v v
Eras tu o Poeta
Eras tu o Poeta... e eu era tão somente
Aquela que te ouvia os versos que compunhas.
Hoje, porém, partiste e tristonha e demente,
Com esta solidão vivo roendo as unhas.
Eras tu o Poeta... e puseste a semente
Dentro do meu viver do amor que não supunhas...
E este amor eu vivi escandalosamente;
– As flores do jardim são minhas testemunhas! –
Eu, atenta te ouvia os versos rendilhados...
Redondilhas azuis, baladas e sonetos,
Rimas da cor do sol, cantos apaixonados...
Hoje, sozinha estou, a solidão me avisa.
De tudo o que cantaste eu recolho os gravetos,
Mas não sei escrever... eu não sou Poetisa...
23.10.2003
Porto de Galinhas, PE
v v v v v v v v v
Sodomia
Venço tua razão, domino-te a vontade,
Prendo o teu corpo arfante em transe de loucura.
As tuas carnes violo em força e intensidade,
Depois te deixo só dentro da mata escura.
A noite cai. A treva invade a ampla espessura.
Teu corpo imóvel, preso, é tremor e ansiedade.
Em vão tentas gritar, porém, forte atadura,
Aprisiona teus ais, e à boca traz secura.
Presas, as tuas mãos, os nós firmes e tesos,
Impedem-te escapar. Os teus olhos aflitos
Vasculham ao redor. Nada podes fazer...
Delírios vão além... Teus sentidos acesos...
Eclodem os zunzuns da noite em frios gritos.
Há tremor de teu corpo. Orgasmos de prazer.
25.11.2003
v v v v v v v v v
O amor que brilha em mim
O amor que brilha em mim de forma pura e intensa
E faz meu coração palpitar delirante,
Conduz meu verso para a aleluia da crença,
E torna a minha voz num sussurro ofegante.
Te amo em delírio azul! Não peço recompensa
Ao que sinto por ti e ao meu desejo amante.
Sinto perfumes no ar, a alma à tua se prensa,
E digo que sou teu num tempo eqüidistante.
Ignoras meu sentir, minhas dores ignoras,
Ris aos desejos meus, obumbras os meus sonhos,
E displicente vais buscar rijas auroras.
Sou teu, sou todo teu, sou teu de forma densa,
Mas queres ofuscar com esgares medonhos
O amor que brilha em mim de forma pura e intensa.
05.01.2004
v v v v v v v v v
Fúria do prazer
Tomo das tuas mãos, às minhas prendo-as, tomo
Teu coração fremente e junto ao meu o amarro.
Prendo tua razão, teu pensamento domo,
E insano de delírio a tu’alma eu agarro.
Somos nós dois um só, somos do mesmo barro
Que transformou em carne o sonho desse assomo.
Pura, te quero em luz, em cujo raio esbarro
O supremo prazer sem hora, ou quando ou como!
É volúpia que vibra entre tapas e beijos,
Entre escrava e senhor, orgasmos e desejos,
Entre ferir e amar e soltar e prender.
Branca visão de luz do amor que eu amo tanto,
Que me faz delirar na paixão desse canto,
E que me faz morrer na fúria do prazer!
16.01.2004
v v v v v v v v v
Oferta
Eu te ofereço além dessa paixão extrema
A ânsia de refrear desejos e verdades.
Para te conduzir à glória mais suprema:
Fazer-te sucumbir frente minhas vontades.
Eu te ofereço mais... A mais preciosa gema
Que existe na palavra e prende em férreas grades.
Te ofereço grilhões e cristalino estema
Feita de etéreos nós, feita de insanidades.
Te ofereço o poder da submissão completa,
Tu sendo Musa-escrava, eu sendo o teu Poeta,
Para te contemplar na prisão do meu verso.
E estarás por prazer presa em tão ferrenho elo,
Que jamais poderás fugir deste castelo
Onde o Poeta-rei será teu Universo!
15.03.2004
v v v v v v v v v
Concerto da Vida
O tempo é uma ilusão. Dentro dele vivemos
Na determinação que nos é concedida.
Assim como no rio os braços tangem remos,
Dentro do espaço baila o concerto da Vida.
Quando chegamos nós nos pontos mais extremos,
E acenamos do cais nossa própria partida,
O tempo continua em delírios supremos
Sem se deter a ver a nossa despedida.
E o tempo continua a arquitetar su’arte,
Modelando feições nas cristas das montanhas,
Desenhando painéis num saudoso estandarte.
Sua força feroz o século não gasta,
Porém, quebra a Esperança e com forças estranhas,
Ao silêncio do vácuo o pensamento arrasta.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Submissão
Continuas a ser com teu silêncio, a Musa
Quer urdes com solidão, os versos que componho.
Basta-me te lembrar e a inspiração acusa,
E ponho-me a compor retalhos deste sonho.
Para a felicidade a minha mente te usa
E passa a idealizar um caminho risonho.
Mas para a minha dor transformas-te em Medusa,
E para a solidão meus passos, triste, ponho.
Se pudesse existir no meu mundo uma grade
E à perpétua prisão terias, e em verdade
Serias condenada, e eu supremo Senhor,
Iria te prender com douradas algemas,
E para meu prazer em glórias mais supremas,
Iria ser teu Rei, Senhor de teu amor.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Sonhos de ilusão
Se existiu no passado ardente fantasia,
Neste presente vibra a dor deste abandono.
Dias atrás um sol de verão que fulgia,
Agora a solidão de um sepulcral outono.
Para ti dediquei versos numa poesia.
Primavera – sonhei na languidez do sono.
Hoje a noite que chega é letárgica e fria,
E sei que já não sou da tua mente – o dono.
Esquiva tu fugiste e me escondeste o rosto,
E eu – inverno glacial – sem trono e sem cajado,
Sou Senhor da Ilusão não impondo respeito.
Mordo o sonho e o sabor de amargo e ácido gosto
Desta batalha atroz me mostra derrotado,
E a lança desta Dor penetra no meu peito.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Se Thales não cresceu e sempre foi criança,
Por que tivemos nós de nos tornar adultos,
Perder do coração a efêmera esperança
E dos sonhos pueris esmagar nossos cultos?
Hoje dias sem sol nublam nossa lembrança
E fantasmas de dor arrastam os seus vultos.
A ciranda morreu e sepultou a dança,
Nossos sonhos azuis hoje seguem ocultos.
Se Thales mesmo adulto era um simples menino
E de cores povoou nossos sonhos dourados,
Em qual atalho foi que erramos o destino,
E crescemos sem fé, entre dores e miasmas,
Sem sorrisos de sol e sem sonhos alados,
E colamos em nós, máscaras de fantasmas?
09.10.2003
v v v v v v v v v
Sonhos cruéis
Se os sonhos são somente e eternamente sonhos,
E deles somos nós personagens dementes,
E, horas cheios de luz, neles somos risonhos,
Para sermos depois decrépitos, descrentes:
Se, acreditamos ser horríveis e medonhos,
Fantasmas sepulcrais de gritos contundentes,
Muitas vezes, também, neles somos tristonhos,
E termos a mostrar ódio e ranger de dentes.
E se os sonhos cruéis invadem nossa vida,
E o pavor nos devora e em crises entorpece,
Um sorriso por certo é uma luz esquecida.
Mas o despertador do letárgico sono,
A noss’alma dá vida em despertar a prece,
Para tirar da treva a sombra do abandono.
12.10.2003
v v v v v v v v v
Eras tu o Poeta
Eras tu o Poeta... e eu era tão somente
Aquela que te ouvia os versos que compunhas.
Hoje, porém, partiste e tristonha e demente,
Com esta solidão vivo roendo as unhas.
Eras tu o Poeta... e puseste a semente
Dentro do meu viver do amor que não supunhas...
E este amor eu vivi escandalosamente;
– As flores do jardim são minhas testemunhas! –
Eu, atenta te ouvia os versos rendilhados...
Redondilhas azuis, baladas e sonetos,
Rimas da cor do sol, cantos apaixonados...
Hoje, sozinha estou, a solidão me avisa.
De tudo o que cantaste eu recolho os gravetos,
Mas não sei escrever... eu não sou Poetisa...
23.10.2003
Porto de Galinhas, PE
v v v v v v v v v
Sodomia
Venço tua razão, domino-te a vontade,
Prendo o teu corpo arfante em transe de loucura.
As tuas carnes violo em força e intensidade,
Depois te deixo só dentro da mata escura.
A noite cai. A treva invade a ampla espessura.
Teu corpo imóvel, preso, é tremor e ansiedade.
Em vão tentas gritar, porém, forte atadura,
Aprisiona teus ais, e à boca traz secura.
Presas, as tuas mãos, os nós firmes e tesos,
Impedem-te escapar. Os teus olhos aflitos
Vasculham ao redor. Nada podes fazer...
Delírios vão além... Teus sentidos acesos...
Eclodem os zunzuns da noite em frios gritos.
Há tremor de teu corpo. Orgasmos de prazer.
25.11.2003
v v v v v v v v v
O amor que brilha em mim
O amor que brilha em mim de forma pura e intensa
E faz meu coração palpitar delirante,
Conduz meu verso para a aleluia da crença,
E torna a minha voz num sussurro ofegante.
Te amo em delírio azul! Não peço recompensa
Ao que sinto por ti e ao meu desejo amante.
Sinto perfumes no ar, a alma à tua se prensa,
E digo que sou teu num tempo eqüidistante.
Ignoras meu sentir, minhas dores ignoras,
Ris aos desejos meus, obumbras os meus sonhos,
E displicente vais buscar rijas auroras.
Sou teu, sou todo teu, sou teu de forma densa,
Mas queres ofuscar com esgares medonhos
O amor que brilha em mim de forma pura e intensa.
05.01.2004
v v v v v v v v v
Fúria do prazer
Tomo das tuas mãos, às minhas prendo-as, tomo
Teu coração fremente e junto ao meu o amarro.
Prendo tua razão, teu pensamento domo,
E insano de delírio a tu’alma eu agarro.
Somos nós dois um só, somos do mesmo barro
Que transformou em carne o sonho desse assomo.
Pura, te quero em luz, em cujo raio esbarro
O supremo prazer sem hora, ou quando ou como!
É volúpia que vibra entre tapas e beijos,
Entre escrava e senhor, orgasmos e desejos,
Entre ferir e amar e soltar e prender.
Branca visão de luz do amor que eu amo tanto,
Que me faz delirar na paixão desse canto,
E que me faz morrer na fúria do prazer!
16.01.2004
v v v v v v v v v
Oferta
Eu te ofereço além dessa paixão extrema
A ânsia de refrear desejos e verdades.
Para te conduzir à glória mais suprema:
Fazer-te sucumbir frente minhas vontades.
Eu te ofereço mais... A mais preciosa gema
Que existe na palavra e prende em férreas grades.
Te ofereço grilhões e cristalino estema
Feita de etéreos nós, feita de insanidades.
Te ofereço o poder da submissão completa,
Tu sendo Musa-escrava, eu sendo o teu Poeta,
Para te contemplar na prisão do meu verso.
E estarás por prazer presa em tão ferrenho elo,
Que jamais poderás fugir deste castelo
Onde o Poeta-rei será teu Universo!
15.03.2004
v v v v v v v v v
Concerto da Vida
O tempo é uma ilusão. Dentro dele vivemos
Na determinação que nos é concedida.
Assim como no rio os braços tangem remos,
Dentro do espaço baila o concerto da Vida.
Quando chegamos nós nos pontos mais extremos,
E acenamos do cais nossa própria partida,
O tempo continua em delírios supremos
Sem se deter a ver a nossa despedida.
E o tempo continua a arquitetar su’arte,
Modelando feições nas cristas das montanhas,
Desenhando painéis num saudoso estandarte.
Sua força feroz o século não gasta,
Porém, quebra a Esperança e com forças estranhas,
Ao silêncio do vácuo o pensamento arrasta.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Submissão
Continuas a ser com teu silêncio, a Musa
Quer urdes com solidão, os versos que componho.
Basta-me te lembrar e a inspiração acusa,
E ponho-me a compor retalhos deste sonho.
Para a felicidade a minha mente te usa
E passa a idealizar um caminho risonho.
Mas para a minha dor transformas-te em Medusa,
E para a solidão meus passos, triste, ponho.
Se pudesse existir no meu mundo uma grade
E à perpétua prisão terias, e em verdade
Serias condenada, e eu supremo Senhor,
Iria te prender com douradas algemas,
E para meu prazer em glórias mais supremas,
Iria ser teu Rei, Senhor de teu amor.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Sonhos de ilusão
Se existiu no passado ardente fantasia,
Neste presente vibra a dor deste abandono.
Dias atrás um sol de verão que fulgia,
Agora a solidão de um sepulcral outono.
Para ti dediquei versos numa poesia.
Primavera – sonhei na languidez do sono.
Hoje a noite que chega é letárgica e fria,
E sei que já não sou da tua mente – o dono.
Esquiva tu fugiste e me escondeste o rosto,
E eu – inverno glacial – sem trono e sem cajado,
Sou Senhor da Ilusão não impondo respeito.
Mordo o sonho e o sabor de amargo e ácido gosto
Desta batalha atroz me mostra derrotado,
E a lança desta Dor penetra no meu peito.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Portal da sombra e do esquecimento
Sabia que esse adeus, mais dia menos dia,
Viria povoar minha triste ilusão.
Não sabia, porém, quão fúnebre seria,
Os acordes de dor dentro do coração.
Por ser Poeta posso usar a fantasia:
Sonhar dias de sol de um eterno verão.
Contudo existe o inverno e a pálida agonia
Que me faz ser comum frente a impávido não.
És um sonho, uma sombra, uma ilusão qualquer,
Desconhecido rosto a sorrir sem que eu veja,
Anjo que idealizei em forma de Mulher.
Se já pude sonhar hoje posso sofrer.
E se minh’alma em fogo e em transe te deseja,
Posso bem te esquecer sem precisar morrer.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Solidão
Sinto explosões de sóis sacudir-me as entranhas!
E reverberações da luz em meus olhares.
Sobre meu corpo caem catedrais de montanhas,
Invadem a minh’alma a água dos cinco mares.
Sinto sobre meu ser as forças mais estranhas,
Calam a minha voz mordaças seculares.
Sou presa fácil para a teia das aranhas,
Sinto-me ser Sansão amarrado em pilares.
Nada posso fazer... o mistério quem vence-O?
Vocábulos não tenho e não sou arquiteto
Para poder construir castelos com meus sonhos.
A voz da solidão não preenche o meu silêncio.
Para poder prender-te eu não possuo teto,
E convivo-me só com fantasmas medonhos.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Dos sonhos
Não. O sonho não é maior que a realidade.
Ele é insano e cruel, faz sofrer e magoa.
Prende nossa razão na mais ríspida grade
E é canto funeral que acidamente soa.
O sonho é ínfimo e vão e pleno de maldade.
Conduz nosso viver qual sobre a água a canoa
Que vaga sem destino... ele não tem piedade.
Se, tentamos domá-lo insensato ele voa...
O sonho me faz ser pobre poeta triste.
Eu sei que o sonho é bom, eu sei que o sonho existe,
Mas não posso com as mãos cheias de ânsias prendê-lo.
Assim deixo-o partir como as asas errantes,
E eles todos se vão voando plagas distantes,
Deixando em seu lugar, horrível pesadelo.
24.03.2004
v v v v v v v v v
Alvorada campesina
Mal a manhã no céu risca festões dourados,
A vida na fazenda em delírios se agita.
Mugem no pasto os bois, em poéticos bailados,
As aves vão e vêm enquanto um galo canta.
A relva úmida e fria imprime pés gelados
– Marca preocupação que parece infinita.
De mãos dadas o Amor, passos apaixonados
Contempla com prazer a paisagem bendita.
Calmo, o alazão se achega em busca de carinhos,
Recebe a montaria e visita caminhos
Num poético trotar... e paz fere a magia.
Silenciosa caminha a Amada com seu Dono,
Ela sabe, porém, não estar no abandono,
Que uma voz de comando é luz para o seu dia.
23.04.2004
v v v v v v v v v
Semeadura variada
Passei a semear sementes de saudade
Desde que tua ausência em minh’alma alojou-se.
E aquele tempo bom, de alegria tão doce,
Pôs em meu coração da angústia a férrea grade.
Se o passado voltasse e florido me fosse,
Eu cantara feliz em terna suavidade.
O presente, porém, brota amarga maldade,
E sento meu viver ardendo em tredo alcouce.
Pudesse eu plantaria as mais variadas flores,
Para multiplicar meu caminho de cores,
Para poder viver meus dias mais felizes.
Porém, dentro de mim brotam os pesadelos,
A angústia vai tecendo intrínsecos novelos,
E não posso curar tão negras cicatrizes.
17.05.2004
v v v v v v v v v
País do Sonho
Se, é loucura sonhar, é bendita a loucura
Que à minha mente traz a loucura do sonho.
Nele, em frêmitos viajo ao país da aventura,
Onde posso trilhar um caminho risonho.
No sonho que idealizo a esperança é mais pura,
E meus passos, febril, na caminhada ponho.
Não há dias sem sol, e nem há noite escura:
Tudo brilha e tem cor – no próprio sonho – sonho!
Nele te encontro em mim, e somos nós capazes
De viver o prazer que em segredos sonhamos
Num país do deserto em abismo de oásis.
Dentro deste país, Senhor da Eternidade,
Posso pomos colher dentre dourados ramos,
Como exigir de ti toda a minha Vontade.
12.07.2004
v v v v v v v v v
Caminhada
Procuro praticar nos versos que fabrico
A paciência que tem o Artista em seu ofício.
Qual simples artesão – das palavras sou rico,
E ao ato de escrever é onírico o exercício.
Cada verso composto em transe glorifico!
A Poesia em minh’alma é, porém, rude vício.
Se ela me dá prazer, com riquezas não fico,
E ao ato de escrever é amargo o sacrifício.
É dura a caminhada, é puro o artesanato,
As rimas são cristais feitos de pedras moídas,
Que reluzem ao sol no fundo de um regato.
Encontrá-las, porém, belas e coloridas,
É jornada cruel que deixa o sonho ingrato.
Precisa-se viver numa vida mil vidas!
22.07.2004
v v v v v v v v v
Sonhos cruéis
Se os sonhos são somente e eternamente sonhos,
E deles somos nós personagens dementes,
E, horas cheios de luz, neles somos risonhos,
Para sermos depois decrépitos, descrentes:
Se, acreditamos ser horríveis e medonhos,
Fantasmas sepulcrais de gritos contundentes,
Muitas vezes, também, neles somos tristonhos,
E termos a mostrar ódio e ranger de dentes.
E se os sonhos cruéis invadem nossa vida,
E o pavor nos devora e em crises entorpece,
Um sorriso por certo é uma luz esquecida.
Mas o despertador do letárgico sono,
A noss’alma dá vida em despertar a prece,
Para tirar da treva a sombra do abandono.
12.10.2004
v v v v v v v v v
(Entre parêntesis)
Tanjo a lira, urdo o som, ascendo o pensamento,
Vibro cordas em mim, teço milhões de tramas,
À pauta musical eu me pego violento,
(Eu te amo, meu amor... oh meu amor, tu me amas?)
Uso cores febris, pincéis à tela tento,
Desespero cruel, paisagens são meus dramas.
No campo aberto sou vencido pelo vento.
(Tu me chamas, amor. Meu amor tu me chamas?)
Sinto parte de mim às partes da loucura,
Procuro decifrar o enigma da Ventura.
(Onde estás, meu amor, por que demoras tanto?)
Teço o silêncio, só. Noite de eternidade.
Um passado sem fim envolto de saudade.
(Tu cantas, meu amor... ou é ilusão o canto?)
21.10.2004
v v v v v v v v v
Muitas vidas numa Vida
Se já vivemos nós mil vidas já passadas,
Ainda iremos viver mais mil vidas futuras.
Por estradas sem fim etéreas, perfumadas,
Iremos, sim, viver, em sonhos e em venturas.
Pois nosso amor nasceu ridente de aventuras,
Entre explosões de sóis clareando madrugadas.
E assim seguimos nós com as esperanças puras,
Sem passado e sem fim por todas as estradas.
Se, unidos somos nós – em uma duas almas –
Plasmados nesse amor nas carícias mais calmas,
Quando o porvir chegar trazendo novas vidas,
Iremos, sim, nos ter, pois a felicidade,
Haverá de ser nossa além da Eternidade
Por estradas de luz sublimes e floridas.
26.05.2005
v v v v v v v v v
Transformação
Sempre que a Inspiração brota em meu pensamento,
Procuro decifrar, da Musa, o seu chamado:
Às vezes é cantiga e traz bulício ao vento,
Tecendo em rima pura um canto apaixonado.
Outras vezes, porém, chega igual a um lamento,
Fazendo o coração bater desesperado.
E meu canto se torna ácido, num momento,
E nos meus olhos, denso é o pranto derramado.
Nada, porém, me trava o continuar do canto.
As lágrimas modulo, e disfarço o meu pranto,
Para tentar mostrar que nada me domina.
Sou apenas Poeta e ao compor minha Lira,
Consigo transformar em Verdade a Mentira,
Se, é o silêncio que vem – minh’alma em brilhos trina!
09.11.2005
v v v v v v v v v
Ocaso
O Ocaso vem chegando e com cores sombrias
O céu da minha vida aquarela de luto.
Se antes, a Primavera era a luz dos meus dias,
Hoje o Inverno glacial solfeja seu tributo.
Constelações no céu fulgem alegorias
Mas sem força interior não guerreio e não luto.
Antes o amor vibrava airosas melodias,
Hoje no Inverno busco um asilo, um reduto.
Fico extático a ver da Vida o seu remoinho,
Outrora tão vibrante eu nele entrava todo
E sabia buscar sempre um novo caminho.
Hoje, porém, contemplo os passos desse engodo.
A solidão chegou. Aqui fiquei sozinho.
E tenho os meus dois pés atolados no lodo.
18.11.2005
v v v v v v v v v
Sabia que esse adeus, mais dia menos dia,
Viria povoar minha triste ilusão.
Não sabia, porém, quão fúnebre seria,
Os acordes de dor dentro do coração.
Por ser Poeta posso usar a fantasia:
Sonhar dias de sol de um eterno verão.
Contudo existe o inverno e a pálida agonia
Que me faz ser comum frente a impávido não.
És um sonho, uma sombra, uma ilusão qualquer,
Desconhecido rosto a sorrir sem que eu veja,
Anjo que idealizei em forma de Mulher.
Se já pude sonhar hoje posso sofrer.
E se minh’alma em fogo e em transe te deseja,
Posso bem te esquecer sem precisar morrer.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Solidão
Sinto explosões de sóis sacudir-me as entranhas!
E reverberações da luz em meus olhares.
Sobre meu corpo caem catedrais de montanhas,
Invadem a minh’alma a água dos cinco mares.
Sinto sobre meu ser as forças mais estranhas,
Calam a minha voz mordaças seculares.
Sou presa fácil para a teia das aranhas,
Sinto-me ser Sansão amarrado em pilares.
Nada posso fazer... o mistério quem vence-O?
Vocábulos não tenho e não sou arquiteto
Para poder construir castelos com meus sonhos.
A voz da solidão não preenche o meu silêncio.
Para poder prender-te eu não possuo teto,
E convivo-me só com fantasmas medonhos.
23.03.2004
v v v v v v v v v
Dos sonhos
Não. O sonho não é maior que a realidade.
Ele é insano e cruel, faz sofrer e magoa.
Prende nossa razão na mais ríspida grade
E é canto funeral que acidamente soa.
O sonho é ínfimo e vão e pleno de maldade.
Conduz nosso viver qual sobre a água a canoa
Que vaga sem destino... ele não tem piedade.
Se, tentamos domá-lo insensato ele voa...
O sonho me faz ser pobre poeta triste.
Eu sei que o sonho é bom, eu sei que o sonho existe,
Mas não posso com as mãos cheias de ânsias prendê-lo.
Assim deixo-o partir como as asas errantes,
E eles todos se vão voando plagas distantes,
Deixando em seu lugar, horrível pesadelo.
24.03.2004
v v v v v v v v v
Alvorada campesina
Mal a manhã no céu risca festões dourados,
A vida na fazenda em delírios se agita.
Mugem no pasto os bois, em poéticos bailados,
As aves vão e vêm enquanto um galo canta.
A relva úmida e fria imprime pés gelados
– Marca preocupação que parece infinita.
De mãos dadas o Amor, passos apaixonados
Contempla com prazer a paisagem bendita.
Calmo, o alazão se achega em busca de carinhos,
Recebe a montaria e visita caminhos
Num poético trotar... e paz fere a magia.
Silenciosa caminha a Amada com seu Dono,
Ela sabe, porém, não estar no abandono,
Que uma voz de comando é luz para o seu dia.
23.04.2004
v v v v v v v v v
Semeadura variada
Passei a semear sementes de saudade
Desde que tua ausência em minh’alma alojou-se.
E aquele tempo bom, de alegria tão doce,
Pôs em meu coração da angústia a férrea grade.
Se o passado voltasse e florido me fosse,
Eu cantara feliz em terna suavidade.
O presente, porém, brota amarga maldade,
E sento meu viver ardendo em tredo alcouce.
Pudesse eu plantaria as mais variadas flores,
Para multiplicar meu caminho de cores,
Para poder viver meus dias mais felizes.
Porém, dentro de mim brotam os pesadelos,
A angústia vai tecendo intrínsecos novelos,
E não posso curar tão negras cicatrizes.
17.05.2004
v v v v v v v v v
País do Sonho
Se, é loucura sonhar, é bendita a loucura
Que à minha mente traz a loucura do sonho.
Nele, em frêmitos viajo ao país da aventura,
Onde posso trilhar um caminho risonho.
No sonho que idealizo a esperança é mais pura,
E meus passos, febril, na caminhada ponho.
Não há dias sem sol, e nem há noite escura:
Tudo brilha e tem cor – no próprio sonho – sonho!
Nele te encontro em mim, e somos nós capazes
De viver o prazer que em segredos sonhamos
Num país do deserto em abismo de oásis.
Dentro deste país, Senhor da Eternidade,
Posso pomos colher dentre dourados ramos,
Como exigir de ti toda a minha Vontade.
12.07.2004
v v v v v v v v v
Caminhada
Procuro praticar nos versos que fabrico
A paciência que tem o Artista em seu ofício.
Qual simples artesão – das palavras sou rico,
E ao ato de escrever é onírico o exercício.
Cada verso composto em transe glorifico!
A Poesia em minh’alma é, porém, rude vício.
Se ela me dá prazer, com riquezas não fico,
E ao ato de escrever é amargo o sacrifício.
É dura a caminhada, é puro o artesanato,
As rimas são cristais feitos de pedras moídas,
Que reluzem ao sol no fundo de um regato.
Encontrá-las, porém, belas e coloridas,
É jornada cruel que deixa o sonho ingrato.
Precisa-se viver numa vida mil vidas!
22.07.2004
v v v v v v v v v
Sonhos cruéis
Se os sonhos são somente e eternamente sonhos,
E deles somos nós personagens dementes,
E, horas cheios de luz, neles somos risonhos,
Para sermos depois decrépitos, descrentes:
Se, acreditamos ser horríveis e medonhos,
Fantasmas sepulcrais de gritos contundentes,
Muitas vezes, também, neles somos tristonhos,
E termos a mostrar ódio e ranger de dentes.
E se os sonhos cruéis invadem nossa vida,
E o pavor nos devora e em crises entorpece,
Um sorriso por certo é uma luz esquecida.
Mas o despertador do letárgico sono,
A noss’alma dá vida em despertar a prece,
Para tirar da treva a sombra do abandono.
12.10.2004
v v v v v v v v v
(Entre parêntesis)
Tanjo a lira, urdo o som, ascendo o pensamento,
Vibro cordas em mim, teço milhões de tramas,
À pauta musical eu me pego violento,
(Eu te amo, meu amor... oh meu amor, tu me amas?)
Uso cores febris, pincéis à tela tento,
Desespero cruel, paisagens são meus dramas.
No campo aberto sou vencido pelo vento.
(Tu me chamas, amor. Meu amor tu me chamas?)
Sinto parte de mim às partes da loucura,
Procuro decifrar o enigma da Ventura.
(Onde estás, meu amor, por que demoras tanto?)
Teço o silêncio, só. Noite de eternidade.
Um passado sem fim envolto de saudade.
(Tu cantas, meu amor... ou é ilusão o canto?)
21.10.2004
v v v v v v v v v
Muitas vidas numa Vida
Se já vivemos nós mil vidas já passadas,
Ainda iremos viver mais mil vidas futuras.
Por estradas sem fim etéreas, perfumadas,
Iremos, sim, viver, em sonhos e em venturas.
Pois nosso amor nasceu ridente de aventuras,
Entre explosões de sóis clareando madrugadas.
E assim seguimos nós com as esperanças puras,
Sem passado e sem fim por todas as estradas.
Se, unidos somos nós – em uma duas almas –
Plasmados nesse amor nas carícias mais calmas,
Quando o porvir chegar trazendo novas vidas,
Iremos, sim, nos ter, pois a felicidade,
Haverá de ser nossa além da Eternidade
Por estradas de luz sublimes e floridas.
26.05.2005
v v v v v v v v v
Transformação
Sempre que a Inspiração brota em meu pensamento,
Procuro decifrar, da Musa, o seu chamado:
Às vezes é cantiga e traz bulício ao vento,
Tecendo em rima pura um canto apaixonado.
Outras vezes, porém, chega igual a um lamento,
Fazendo o coração bater desesperado.
E meu canto se torna ácido, num momento,
E nos meus olhos, denso é o pranto derramado.
Nada, porém, me trava o continuar do canto.
As lágrimas modulo, e disfarço o meu pranto,
Para tentar mostrar que nada me domina.
Sou apenas Poeta e ao compor minha Lira,
Consigo transformar em Verdade a Mentira,
Se, é o silêncio que vem – minh’alma em brilhos trina!
09.11.2005
v v v v v v v v v
Ocaso
O Ocaso vem chegando e com cores sombrias
O céu da minha vida aquarela de luto.
Se antes, a Primavera era a luz dos meus dias,
Hoje o Inverno glacial solfeja seu tributo.
Constelações no céu fulgem alegorias
Mas sem força interior não guerreio e não luto.
Antes o amor vibrava airosas melodias,
Hoje no Inverno busco um asilo, um reduto.
Fico extático a ver da Vida o seu remoinho,
Outrora tão vibrante eu nele entrava todo
E sabia buscar sempre um novo caminho.
Hoje, porém, contemplo os passos desse engodo.
A solidão chegou. Aqui fiquei sozinho.
E tenho os meus dois pés atolados no lodo.
18.11.2005
v v v v v v v v v
Divino Poder
Trazemos n’alma desde as mais remotas Eras,
O divino poder de transmudar em Canto
As palavras que ao tempo escorrem junto às heras
Ou de um grotão qualquer, escondido num canto.
É o dom de ser feliz, de espargir primaveras,
De espalhar pelo campo o riso aberto e o encanto.
E a Fé, alada à Esperança, aos sonhos, às quimeras,
Mostra da Caridade o que é sublime e é Santo.
E assim vivemos nós presos nesta corrente,
Os elos urdem nós, dobram sonhos felizes,
No canto a nossa voz o Amor supremo exprime.
Mas homem mau em sombra arde na nossa frente,
Transforma nosso canto em fundas cicatrizes,
E com desdém sorri frente a nefasto crime.
24.03.2006
v v v v v v v v v
Soneto exposto
Trago meu coração a intempéries exposto
Ao vento, à chuva, ao sol, à noite, ao dia, ao frio.
Nele haverá de ver o meu magoado rosto
E por certo o verão de esperanças, vazio,
De um sonho louco e rubro, um estival agosto,
Um barco a navegar em sonolento rio.
Um gosto ácido, azedo, um amarrado gosto,
Uma esperança só presa por tênue fio.
A beira rio vejo o velho e antigo Engenho,
Ali meu coração outrora foi moído
E seu sangue pastoso hoje é azeda garapa.
Nada levo de mim, da vida nada tenho,
Sem coração no peito hoje sigo perdido
Para encontrar do amor um encardido mapa.
27.03.2006
v v v v v v v v v
Ternura encantada
Mil auroras estão por raiar outro dia,
E eu preso no passado ignoro o meu futuro.
Procuro à realidade o sonho da magia,
Em frente à podridão, o meu mundo mais puro.
Onde os passos pisar nesse porto inseguro
A que chamamos Vida e é pálida utopia?
Sinto que me corrói o desejo mais duro
E todo me amoleço ao sonho que extasia.
Como correr de mim se não me encontro em nada,
Estanco de repente as agruras e a sorte
Dobro a esquina e já raia uma outra madrugada.
Amor! imenso amor! frente a tudo sou forte,
Mas se tiras de mim a ternura encantada,
Atiro no teu cerne e louvo a tua morte.
15.05.2006
v v v v v v v v v
Elevação
Toma a Régua, o Compasso, o Esquadro, o Prumo e o Nível
Para fazer, em glória, as suas Cinco Viagens;
E ao término encontrar sublimes personagens,
No delírio maior do sonho mais incrível!
Se unem Força e Beleza e de modo sensível,
Eis a Sabedoria em lúcidas miragens.
Na mente a ideia ferve, embaralham-se imagens,
E o olhar além penetra a Vida indescritível.
A rutilante Estrela envolta em luzes brilha!
Na marcha do futuro o pensamento trilha,
E, Aprendizes, os pés, aos passos dão suporte.
Glória! Luz! Apogeu! Aceleram-se os passos,
Surgem novos sinais, novos tipos de abraços,
E agora o Companheiro é um Aprendiz mais forte!
30.01.2007
v v v v v v v v v
Teu nome
Teu nome é uma canção que canto noite e dia
E de tanto cantá-lo e por querer-te tanto,
Brota em meu coração o suave e terno encanto,
No lirismo sem fim da minha fantasia.
No dia-a-dia enfim, teu nome à brisa canto,
E ele voa no céu, paira em minha Poesia,
Se forma luz, e brilha, e transcende à magia,
E brilha em meu viver que até me causa espanto.
As aves matinais conhecem o estribilho
E solfejam bemóis, no céu colocam brilho,
E sinto em mim vibrar uma nova Poesia.
Que teu nome é canção para dizer em prece,
Que teu nome é canção que alma jamais esquece,
E que adoro cantar, cantar... Ana Maria.
09.02.2007
v v v v v v v v v
Encantos de Cecília
(na morte da Poetisa Maria Cecília Machado Bonachella)
De ora em diante uma ausência em fotos de família,
Uma triste saudade, um enorme vazio,
E ficará de alerta em constante vigília,
A alma do coração que tremerá de frio.
Cartas, versos de amor, um sonho, um arrepio
De ora em diante serão lembranças na mobília.
E como um grande sol, um caudaloso rio,
Em tudo há de florir encantos de Cecília.
E agora este silêncio... ah, quem pode, quem vence-O?
Severo, sepulcral, tenebroso silêncio
Impera em nossa vida e dia a dia a dia impera.
O verso perde a voz, diz adeus a Poetisa,
Porém cada canção lavrada se eterniza
Como raios de sol, de luz, de primavera.
13.02.2007
v v v v v v v v v
Ofício da Poesia
Dia a dia me pego em êxtase ofegante,
Ao duro e tenebroso ofício da poesia.
Moldo a Palavra em fogo e após quero-A brilhante,
Para que n’alma libre o Esplendor da Harmonia.
Desejo de Poeta em sonho extravagante!
O verso – azul tesouro em rima que alumia.
Coração no Compasso e no Esquadro vibrante,
Para fixar no Espaço a cadência em porfia.
Eis o Ofício que um dia em minha alma alojou-se
E, Artesão, fui moldando em versos a Palavra,
Para isso usando o mel como liga a este Ofício.
Muitas vezes, contanto, o fel encobre o doce,
E este labor se faz cruel em sua lavra,
Sem saber se valeu a pena o sacrifício.
12.03.2007
v v v v v v v v v
Trazemos n’alma desde as mais remotas Eras,
O divino poder de transmudar em Canto
As palavras que ao tempo escorrem junto às heras
Ou de um grotão qualquer, escondido num canto.
É o dom de ser feliz, de espargir primaveras,
De espalhar pelo campo o riso aberto e o encanto.
E a Fé, alada à Esperança, aos sonhos, às quimeras,
Mostra da Caridade o que é sublime e é Santo.
E assim vivemos nós presos nesta corrente,
Os elos urdem nós, dobram sonhos felizes,
No canto a nossa voz o Amor supremo exprime.
Mas homem mau em sombra arde na nossa frente,
Transforma nosso canto em fundas cicatrizes,
E com desdém sorri frente a nefasto crime.
24.03.2006
v v v v v v v v v
Soneto exposto
Trago meu coração a intempéries exposto
Ao vento, à chuva, ao sol, à noite, ao dia, ao frio.
Nele haverá de ver o meu magoado rosto
E por certo o verão de esperanças, vazio,
De um sonho louco e rubro, um estival agosto,
Um barco a navegar em sonolento rio.
Um gosto ácido, azedo, um amarrado gosto,
Uma esperança só presa por tênue fio.
A beira rio vejo o velho e antigo Engenho,
Ali meu coração outrora foi moído
E seu sangue pastoso hoje é azeda garapa.
Nada levo de mim, da vida nada tenho,
Sem coração no peito hoje sigo perdido
Para encontrar do amor um encardido mapa.
27.03.2006
v v v v v v v v v
Ternura encantada
Mil auroras estão por raiar outro dia,
E eu preso no passado ignoro o meu futuro.
Procuro à realidade o sonho da magia,
Em frente à podridão, o meu mundo mais puro.
Onde os passos pisar nesse porto inseguro
A que chamamos Vida e é pálida utopia?
Sinto que me corrói o desejo mais duro
E todo me amoleço ao sonho que extasia.
Como correr de mim se não me encontro em nada,
Estanco de repente as agruras e a sorte
Dobro a esquina e já raia uma outra madrugada.
Amor! imenso amor! frente a tudo sou forte,
Mas se tiras de mim a ternura encantada,
Atiro no teu cerne e louvo a tua morte.
15.05.2006
v v v v v v v v v
Elevação
Toma a Régua, o Compasso, o Esquadro, o Prumo e o Nível
Para fazer, em glória, as suas Cinco Viagens;
E ao término encontrar sublimes personagens,
No delírio maior do sonho mais incrível!
Se unem Força e Beleza e de modo sensível,
Eis a Sabedoria em lúcidas miragens.
Na mente a ideia ferve, embaralham-se imagens,
E o olhar além penetra a Vida indescritível.
A rutilante Estrela envolta em luzes brilha!
Na marcha do futuro o pensamento trilha,
E, Aprendizes, os pés, aos passos dão suporte.
Glória! Luz! Apogeu! Aceleram-se os passos,
Surgem novos sinais, novos tipos de abraços,
E agora o Companheiro é um Aprendiz mais forte!
30.01.2007
v v v v v v v v v
Teu nome
Teu nome é uma canção que canto noite e dia
E de tanto cantá-lo e por querer-te tanto,
Brota em meu coração o suave e terno encanto,
No lirismo sem fim da minha fantasia.
No dia-a-dia enfim, teu nome à brisa canto,
E ele voa no céu, paira em minha Poesia,
Se forma luz, e brilha, e transcende à magia,
E brilha em meu viver que até me causa espanto.
As aves matinais conhecem o estribilho
E solfejam bemóis, no céu colocam brilho,
E sinto em mim vibrar uma nova Poesia.
Que teu nome é canção para dizer em prece,
Que teu nome é canção que alma jamais esquece,
E que adoro cantar, cantar... Ana Maria.
09.02.2007
v v v v v v v v v
Encantos de Cecília
(na morte da Poetisa Maria Cecília Machado Bonachella)
De ora em diante uma ausência em fotos de família,
Uma triste saudade, um enorme vazio,
E ficará de alerta em constante vigília,
A alma do coração que tremerá de frio.
Cartas, versos de amor, um sonho, um arrepio
De ora em diante serão lembranças na mobília.
E como um grande sol, um caudaloso rio,
Em tudo há de florir encantos de Cecília.
E agora este silêncio... ah, quem pode, quem vence-O?
Severo, sepulcral, tenebroso silêncio
Impera em nossa vida e dia a dia a dia impera.
O verso perde a voz, diz adeus a Poetisa,
Porém cada canção lavrada se eterniza
Como raios de sol, de luz, de primavera.
13.02.2007
v v v v v v v v v
Ofício da Poesia
Dia a dia me pego em êxtase ofegante,
Ao duro e tenebroso ofício da poesia.
Moldo a Palavra em fogo e após quero-A brilhante,
Para que n’alma libre o Esplendor da Harmonia.
Desejo de Poeta em sonho extravagante!
O verso – azul tesouro em rima que alumia.
Coração no Compasso e no Esquadro vibrante,
Para fixar no Espaço a cadência em porfia.
Eis o Ofício que um dia em minha alma alojou-se
E, Artesão, fui moldando em versos a Palavra,
Para isso usando o mel como liga a este Ofício.
Muitas vezes, contanto, o fel encobre o doce,
E este labor se faz cruel em sua lavra,
Sem saber se valeu a pena o sacrifício.
12.03.2007
v v v v v v v v v
Medos
Entre medos chegaste. O olhar discreto e aflito
Buscava decifrar do sonho cada imagem.
E aos meus pés, subjugada em silencioso grito,
A tu’alma embarcou em fantástica viagem.
“Toma conta de mim, meu amor” e eu, num rito
Coloquei-te em meu colo em mística miragem
Em delírio te amei com desejo infinito,
E o amor, antes oculto, explodiu em voragem.
Te quero assim, amor, vívida toda a vida,
Só para meu prazer, lírio-delírio imenso,
Para te dominar e tomar-te a razão.
Amor ainda maior, a entrega não vivida,
Irá desabrochar no desejo mais denso,
E ao teu amor darás mais que a alma – o coração.
16.04.2007
v v v v v v v v v
A coroa mais rica
– Meu Pai, quero ser Rei. Quero um dia, na vida,
Ser herói, ser lembrado em toda a imensa História.
Quero, meu Pai, sair gigante em cada lida,
Para ser aclamado e ter honra e ter glória.
– Serei maior, meu Pai, após cada vitória,
E terei meu País e a fama enfebrecida.
Livros irão narrar a minha trajetória
Poetas cântaro minha história vivida.
– E quer ser coroado, e por certo, desejo
A coroa mais rica, a de maior lampejo,
A que tenha mais brilho e reflita mais luz.
– Existirá, meu Pai, no mundo igual coroa?
– Com certeza existe uma!, a velha voz ressoa:
– A coroa que foi colocada em Jesus!
04.07.2007
v v v v v v v v v
Para um dia, no futuro
Sem clangor de metais, e sem bumbos marcados,
Mas com a limpidez de um bom papa-capim;
Assim quero deixar os meus olhos cerrados,
Quando um dia chegar, dessa História, o meu fim.
Azulões e curiós de cantos apreciados,
Vou querê-los, também, para perto de mim.
Mas fecharei, por certo, os olhos marejados
Se um tico-tico-rei disser que a vida é assim.
Pode ser um tiziu, também uma rolinha,
Talvez um pintassilgo em seu sonho amarelo,
Anunciando no Outono o frio e rijo inverno.
Quero as aves que amei na perdida distância.
Qual canário ou tié baldeou a minha infância
Deixando por viver este martírio eterno?
25.07.2007
v v v v v v v v v
Crime
(lembrando Olavo Bilac)
Armas num galho tênue, o tétrico alçapão,
Para prender da mata, o pássaro que canta,
Que em estribilhos diz que a vida é sacra e é santa,
E que o poder de Deus, vive na Imensidão!
Incauto o pintassilgo, o avinhado, o azulão,
Que insetos vem buscar voando de planta em planta,
Num descuido total, que desespera e espanta,
Estão presos sem dó em terrível prisão.
Agora eu vos pergunto e respondei-me agora:
É lícito tirar a magia da aurora,
Ou do ocaso ainda em luz esses belos cantores?
Qual o crime fatal cometido por elas,
Que vossas mãos cruéis as prendem nessas celas,
E as impede cantar, senão morrer de dores?
24.12.2007
v v v v v v v v v
Ausência doída
Ausente estás em mim dos sonhos e desejos.
Assim caminho só na minha longa estrada.
Mais longa por ter a alma em transe abandonada,
E não poder sentir teus abraços e beijos.
Sou estrangeiro nesta imensa caminhada!
E do prazer sequer tenho ardentes lampejos.
É o cortejo mais triste e amargo dos cortejos,
Para quem ora vai com a alma espedaçada.
Pudesse eu descobrir a mais exata ciência
De mil mundos transpor e de seguir em frente,
E poder dominar toda a minha emoção...
O que mais dói em mim não é a tua ausência,
Mas é a amarga presença eterna e permanente
Dentro deste sofrido e amargo coração.
28.08.2007
v v v v v v v v v
Entre medos chegaste. O olhar discreto e aflito
Buscava decifrar do sonho cada imagem.
E aos meus pés, subjugada em silencioso grito,
A tu’alma embarcou em fantástica viagem.
“Toma conta de mim, meu amor” e eu, num rito
Coloquei-te em meu colo em mística miragem
Em delírio te amei com desejo infinito,
E o amor, antes oculto, explodiu em voragem.
Te quero assim, amor, vívida toda a vida,
Só para meu prazer, lírio-delírio imenso,
Para te dominar e tomar-te a razão.
Amor ainda maior, a entrega não vivida,
Irá desabrochar no desejo mais denso,
E ao teu amor darás mais que a alma – o coração.
16.04.2007
v v v v v v v v v
A coroa mais rica
– Meu Pai, quero ser Rei. Quero um dia, na vida,
Ser herói, ser lembrado em toda a imensa História.
Quero, meu Pai, sair gigante em cada lida,
Para ser aclamado e ter honra e ter glória.
– Serei maior, meu Pai, após cada vitória,
E terei meu País e a fama enfebrecida.
Livros irão narrar a minha trajetória
Poetas cântaro minha história vivida.
– E quer ser coroado, e por certo, desejo
A coroa mais rica, a de maior lampejo,
A que tenha mais brilho e reflita mais luz.
– Existirá, meu Pai, no mundo igual coroa?
– Com certeza existe uma!, a velha voz ressoa:
– A coroa que foi colocada em Jesus!
04.07.2007
v v v v v v v v v
Para um dia, no futuro
Sem clangor de metais, e sem bumbos marcados,
Mas com a limpidez de um bom papa-capim;
Assim quero deixar os meus olhos cerrados,
Quando um dia chegar, dessa História, o meu fim.
Azulões e curiós de cantos apreciados,
Vou querê-los, também, para perto de mim.
Mas fecharei, por certo, os olhos marejados
Se um tico-tico-rei disser que a vida é assim.
Pode ser um tiziu, também uma rolinha,
Talvez um pintassilgo em seu sonho amarelo,
Anunciando no Outono o frio e rijo inverno.
Quero as aves que amei na perdida distância.
Qual canário ou tié baldeou a minha infância
Deixando por viver este martírio eterno?
25.07.2007
v v v v v v v v v
Crime
(lembrando Olavo Bilac)
Armas num galho tênue, o tétrico alçapão,
Para prender da mata, o pássaro que canta,
Que em estribilhos diz que a vida é sacra e é santa,
E que o poder de Deus, vive na Imensidão!
Incauto o pintassilgo, o avinhado, o azulão,
Que insetos vem buscar voando de planta em planta,
Num descuido total, que desespera e espanta,
Estão presos sem dó em terrível prisão.
Agora eu vos pergunto e respondei-me agora:
É lícito tirar a magia da aurora,
Ou do ocaso ainda em luz esses belos cantores?
Qual o crime fatal cometido por elas,
Que vossas mãos cruéis as prendem nessas celas,
E as impede cantar, senão morrer de dores?
24.12.2007
v v v v v v v v v
Ausência doída
Ausente estás em mim dos sonhos e desejos.
Assim caminho só na minha longa estrada.
Mais longa por ter a alma em transe abandonada,
E não poder sentir teus abraços e beijos.
Sou estrangeiro nesta imensa caminhada!
E do prazer sequer tenho ardentes lampejos.
É o cortejo mais triste e amargo dos cortejos,
Para quem ora vai com a alma espedaçada.
Pudesse eu descobrir a mais exata ciência
De mil mundos transpor e de seguir em frente,
E poder dominar toda a minha emoção...
O que mais dói em mim não é a tua ausência,
Mas é a amarga presença eterna e permanente
Dentro deste sofrido e amargo coração.
28.08.2007
v v v v v v v v v
Cavalgadura
Além do sonho existe a realidade fria,
Que o coração calcina em escaldantes lavas.
Um pouco de terror, um tanto de magia,
Alguma liberdade às almas tão escravas.
O olhar segue perdido em solidões ignavas
Buscando se encontrar n’alguma fantasia.
Oh, coração pulsante, em vão nas noites cavas
A funda escuridão para trazer o dia!
O pensamento ferve e ebule, o sono expira,
As mãos em frenesi dedilham a harpa e a lira;
Da noite o espaço aberto abre faróis de estrelas.
Cavalga o pensamento em léguas de Infinito.
Retorno à realidade, ao silêncio urdo um grito,
E as musas do passado eu tento em vão, retê-las.
26.02.2008
v v v v v v v v v
Para o meu amor, Ana Maria
“O amor não é palavra, o amor é melodia!”,
Sentenciou certa vez um pálido Romeu.
Pois eu canto também nesta minha poesia:
“Não há música assim como dizer:– Sou teu!”
Por isso quer no abismo ou no infinito céu,
Eu canto com prazer: eu te amo, Ana Maria!
E minha voz ressoa em mágico escarcéu,
E mais Poeta sou, querida, a cada dia.
Sabes que meu amor lavas ardentes lança,
Mas se agora o vulcão em silêncio descansa,
Por certo ele prepara uma nova erupção.
O Inverno irá trazer por certo, mas florida,
De novo a Primavera a florir nossa vida,
E iremos reviver os dias de Verão!
31.03.2008
v v v v v v v v v
Perseguição
Hei de sobreviver! Enquanto o ódio fremente
Atinge corações de sórdidas maneiras,
Como as águias voando amplidões altaneiras,
Voltarei a galgar o espaço reluzente.
A voz da ira borbulha e com palavra quente
Procura me calar... porém, alvissareiras,
As glórias voltarão tremulando em bandeiras
Desfraldadas ao céu após batalha ardente.
Que procurem minar com venenosas setas
Minha Arte de cantar, meu sagrado reduto,
A Honra que construí, a Família e meus Filhos.
A força de vencer é própria dos Poetas!
Porquanto no silêncio, entre inimigos luto,
Ao passar das ralés eu voltarei em brilhos!
10.04.2008
v v v v v v v v v
Confissão
–“Quero me confessar!” Murmurou o assassino
Ajoelhando-se aos pés do símplice Vigário.
E em pranto o marginal narrou todo o destino
Delirante e cruel de seu atroz calvário.
–“Era um velho casebre, o vento ressupino
Uivava uma canção de timbre funerário;
Uma pobre mulher tendo ao colo um menino
Assustou-se ao me ver naquele itinerário.
–“Tendo às mãos um facão arremessei sobre ela
E com um golpe fatal escancarei-lhe a goela
Onde o sangue jorrou vermelho como o inferno...
–“Poderá haver perdão a tão horrível crime?”
......................................................................
E o Vigário perdoou tendo um gesto sublime,
Quem um dia roubara o seu colo materno.
07.05.2008
v v v v v v v v v
Eterno silêncio
Em tumba de silêncio o coração sepulto
E deixo-o ali viver em séculos de espera.
Mesmo que refloresça a vida em primavera,
Eu deixarei-o só, dos rumores oculto.
A ninguém mais, por certo, irei mostrar seu vulto,
E nem vou acordá-lo ao sorriso e à quimera.
Que rebrilha outro Sol no esplendor de nova Era,
Por certo há de ficar mudo frente a outro Culto.
Melhor deixá-lo assim a dar-lhe nova vida,
Fazê-lo ao sol brilhar, seguir a longa estrada
Que vai do nada ao nada e ao vazio de tudo.
Que assim meu coração de alegria perdida,
Irá viver na tumba escura e abandonada,
E aos lampejos de amor estará sempre mudo.
09.05.2008
v v v v v v v v v
Labor Poético
O Poeta trabalha e seu duro trabalho
É visto com desdém, como um porto inseguro.
E sua inspiração mais lembra um espantalho
Feito de trapos sobre um monte de monturo.
O Poético Labor não serve de agasalho.
Ao corpo mais aquece o espírito, que é puro.
Cada rima tem brilho e o sol é como o malho
Que traz Força, Beleza e Saber sobre o escuro!
O hipócrita condena os versos do Poeta,
Mesmo assim ele, em transe, as suas rimas medra
E tudo o que Ele sente em cantos interpreta.
Só o Poeta consegue em inóspito trilho
De uma mina tirar as fagulhas de pedra,
Dar-lhe a lapidação e deixá-la com brilho.
02.06.2008
v v v v v v v v v
Momento de Saudade
Sempre que meu passado, em hinos de agonia
Os meus ouvidos fere em cantos de saudade,
No peito, o coração pulsa com ansiedade
Tentando reviver o que foi brilho um dia.
Cada nota febril vibra em tom de magia:
Sendo ilusão ou não bem parece verdade.
Parecendo viver em sua eternidade
Provoca-me pavor e atroz melancolia.
Recordo um fato e um filme em minha mente rola,
Cada cena é real e de novo revivo
Instante após instante esse instante medonho.
Que a Saudade é somente as migalhas de esmola
Que deixa o coração do passado cativo,
E à realidade mostra um pavoroso sonho.
02.06.2008
v v v v v v v v v
Além do sonho existe a realidade fria,
Que o coração calcina em escaldantes lavas.
Um pouco de terror, um tanto de magia,
Alguma liberdade às almas tão escravas.
O olhar segue perdido em solidões ignavas
Buscando se encontrar n’alguma fantasia.
Oh, coração pulsante, em vão nas noites cavas
A funda escuridão para trazer o dia!
O pensamento ferve e ebule, o sono expira,
As mãos em frenesi dedilham a harpa e a lira;
Da noite o espaço aberto abre faróis de estrelas.
Cavalga o pensamento em léguas de Infinito.
Retorno à realidade, ao silêncio urdo um grito,
E as musas do passado eu tento em vão, retê-las.
26.02.2008
v v v v v v v v v
Para o meu amor, Ana Maria
“O amor não é palavra, o amor é melodia!”,
Sentenciou certa vez um pálido Romeu.
Pois eu canto também nesta minha poesia:
“Não há música assim como dizer:– Sou teu!”
Por isso quer no abismo ou no infinito céu,
Eu canto com prazer: eu te amo, Ana Maria!
E minha voz ressoa em mágico escarcéu,
E mais Poeta sou, querida, a cada dia.
Sabes que meu amor lavas ardentes lança,
Mas se agora o vulcão em silêncio descansa,
Por certo ele prepara uma nova erupção.
O Inverno irá trazer por certo, mas florida,
De novo a Primavera a florir nossa vida,
E iremos reviver os dias de Verão!
31.03.2008
v v v v v v v v v
Perseguição
Hei de sobreviver! Enquanto o ódio fremente
Atinge corações de sórdidas maneiras,
Como as águias voando amplidões altaneiras,
Voltarei a galgar o espaço reluzente.
A voz da ira borbulha e com palavra quente
Procura me calar... porém, alvissareiras,
As glórias voltarão tremulando em bandeiras
Desfraldadas ao céu após batalha ardente.
Que procurem minar com venenosas setas
Minha Arte de cantar, meu sagrado reduto,
A Honra que construí, a Família e meus Filhos.
A força de vencer é própria dos Poetas!
Porquanto no silêncio, entre inimigos luto,
Ao passar das ralés eu voltarei em brilhos!
10.04.2008
v v v v v v v v v
Confissão
–“Quero me confessar!” Murmurou o assassino
Ajoelhando-se aos pés do símplice Vigário.
E em pranto o marginal narrou todo o destino
Delirante e cruel de seu atroz calvário.
–“Era um velho casebre, o vento ressupino
Uivava uma canção de timbre funerário;
Uma pobre mulher tendo ao colo um menino
Assustou-se ao me ver naquele itinerário.
–“Tendo às mãos um facão arremessei sobre ela
E com um golpe fatal escancarei-lhe a goela
Onde o sangue jorrou vermelho como o inferno...
–“Poderá haver perdão a tão horrível crime?”
......................................................................
E o Vigário perdoou tendo um gesto sublime,
Quem um dia roubara o seu colo materno.
07.05.2008
v v v v v v v v v
Eterno silêncio
Em tumba de silêncio o coração sepulto
E deixo-o ali viver em séculos de espera.
Mesmo que refloresça a vida em primavera,
Eu deixarei-o só, dos rumores oculto.
A ninguém mais, por certo, irei mostrar seu vulto,
E nem vou acordá-lo ao sorriso e à quimera.
Que rebrilha outro Sol no esplendor de nova Era,
Por certo há de ficar mudo frente a outro Culto.
Melhor deixá-lo assim a dar-lhe nova vida,
Fazê-lo ao sol brilhar, seguir a longa estrada
Que vai do nada ao nada e ao vazio de tudo.
Que assim meu coração de alegria perdida,
Irá viver na tumba escura e abandonada,
E aos lampejos de amor estará sempre mudo.
09.05.2008
v v v v v v v v v
Labor Poético
O Poeta trabalha e seu duro trabalho
É visto com desdém, como um porto inseguro.
E sua inspiração mais lembra um espantalho
Feito de trapos sobre um monte de monturo.
O Poético Labor não serve de agasalho.
Ao corpo mais aquece o espírito, que é puro.
Cada rima tem brilho e o sol é como o malho
Que traz Força, Beleza e Saber sobre o escuro!
O hipócrita condena os versos do Poeta,
Mesmo assim ele, em transe, as suas rimas medra
E tudo o que Ele sente em cantos interpreta.
Só o Poeta consegue em inóspito trilho
De uma mina tirar as fagulhas de pedra,
Dar-lhe a lapidação e deixá-la com brilho.
02.06.2008
v v v v v v v v v
Momento de Saudade
Sempre que meu passado, em hinos de agonia
Os meus ouvidos fere em cantos de saudade,
No peito, o coração pulsa com ansiedade
Tentando reviver o que foi brilho um dia.
Cada nota febril vibra em tom de magia:
Sendo ilusão ou não bem parece verdade.
Parecendo viver em sua eternidade
Provoca-me pavor e atroz melancolia.
Recordo um fato e um filme em minha mente rola,
Cada cena é real e de novo revivo
Instante após instante esse instante medonho.
Que a Saudade é somente as migalhas de esmola
Que deixa o coração do passado cativo,
E à realidade mostra um pavoroso sonho.
02.06.2008
v v v v v v v v v
Súplica à Saudade
Instante após instante, instante após instante,
O tormento feroz em meu peito se instala.
Parece que minha alma é uma espaçosa sala
Que abriga com prazer, negra angústia constante.
A dor insana e vil, de forma anavalhante,
Tatua a minha pele e não posso domá-la;
E não posso também numa profunda vala
Ocultar seu furor, ou deixá-la distante.
O desespero é forte e abala os alicerces
Dos meus dias; a angústia em delírios invade
Os cômodos da casa e meu corpo ofegante
Treme de medo e frio. (Oh, tu, que tanto exerces
Teu poder sobre mim, tu, ingrata Saudade,
Vê se pode deixar meu viver um instante!)
02.06.2008
v v v v v v v v v
Cena da Idade Média
Um príncipe e um plebeu morreram certo dia
Carbonizados num incêndio pavoroso.
E restaram somente ante o quadro horroroso,
Alguns ossos dos dois após tanta ardentia.
Misturados, porém, quem é que poderia
Separar do plebeu o príncipe vistoso?
E os ossos ajuntando em um caixão suntuoso,
Tiveram, no Palácio, a fúnebre honraria!
Nas exéquias o Rei chorava e padecia;
Ao lado uma mulher com andrajos vestida
Padecia e chorava ao Rei unindo os ais.
E ambos no mesmo olhar nessa hora de agonia,
Souberam compreender que a morte une na vida
As almas numa só e as dores são iguais.
23.07.2008
v v v v v v v v v
Cosmos
(para meu grande amigo e Biólogo, Professor Wilson Paulino
após uma conversa que tivemos)
Se o Sol é uma laranja, a Terra é um grão de areia
No cósmico Universo, onde bilhões de estrelas
Maiores do que o Sol cruzam as passarelas
De um Mundo ainda maior que outro Mundo clareia.
Forças da Gravidade une-as nesta cadeia
E sonhos abissais espatifam-se nelas!
Ah! quem imaginou ou rascunhou em telas
Esse painel de Luz que gera uma Epopeia?
E o Homem julga-se forte e clama a Eternidade!
Buscando controlar o seu rumo disperso,
Porém, tão ínfimo é, que é um erro da Existência.
Em tudo brilha Deus em Sua claridade!
Arquiteto maior deste Grande Universo,
Onde não há saber que interprete essa Ciência!
01.08.2008
v v v v v v v v v
Meditação
Para mim, ser Poeta, é carregar o fardo
De angústia, desespero e algumas alegrias.
Desbasto as emoções e a inspiração aguardo
Com olhar de lince capto as imagens dos dias.
As rimas musicais se tornam fugidias,
E ponho-me a caçar como feroz leopardo:
Busco encontrar no verso os sons das melodias,
Cerzir a inspiração, e ser, de fato, um Bardo.
Dobo os meus sonhos nus! E nu também me pego!
O ouvido fica surdo, o olhar se torna cego,
A voz torna silêncio e a sós, meditabundo,
Erro ao redor de mim, tateio um rumo escuro,
Presente olho o Passado e à caça do Futuro,
No poço das paixões me arremesso e me afundo.
07.08.2008
v v v v v v v v v
Glória divina
Ao meu amigo, Monsenhor Jorge Simão Miguel
Sob um opaco céu Jerusalém espia
O corpo de Jesus pregado num madeiro.
Negreja a Sexta-feira e o Divino Cordeiro
Em Seu silêncio é só mágoa e melancolia.
E tanto padeceu nessa horrenda agonia
Aquele que Era o Filho único e verdadeiro
Do Pai que está no Céu, e agora, humilde obreiro,
Não sente mais a Luz nesta noite sombria.
Ferido, maltratado e coroado de espinhos,
Humilhado agredido em todos os caminhos,
Dos homens carregou tudo nos ombros nus!
No milagre da Fé de toda a Humanidade,
Eis que retorna à Vida em sua Majestade,
Mostrando-Se maior que sua própria cruz!
22.08.2008
v v v v v v v v v
Prudente de Moraes
(Aos Amados Irmãos da A:. R:. L:. S:. Prudente de Morais)
Prudente de Morais não pode ser, somente,
Uma glória maior à Pátria brasileira;
Da Força e da Beleza é a mais pura semente
E da Sabedoria é uma ave condoreira!
Sendo, como civil, primeiro Presidente,
Fez o nosso Brasil forte em cada fronteira.
Como pedra polida eterna e reluzente,
O País conduziu de forma rara e ordeira.
Como Pedreiro livre uniu o nosso Povo,
Com a argamassa do Amor, trouxe a Fraternidade,
Crendo num Deus maior, Dele foi seu exemplo.
Sendo um Filho da terra, em transes me comovo;
Seu nome há de brilhar além da Eternidade,
E em cada céu azul onde fulgura um Templo!
29.08.2008
v v v v v v v v v
Suposição
Existe, além da Vida (a qual hoje vivemos)
Uma desconhecida e ansiada Eternidade.
– Se nossa vida é um barco, os sonhos são os remos,
Que um dia mostrarão se é Mentira ou Verdade
Esses sonhos azuis que com alma tanto cremos,
Enquanto isso em nossa alma há uma certa ansiedade
E em laivos de explosão, chegamos aos extremos,
Que a descrença é uma crença em nula validade.
Uns juram existir vida além desta vida,
Outros sonham viver no Paraíso eterno.
Como crer ou descrer de tal suposição?
Melhor é contemplar a estrada a ser seguida,
Viver feliz, sonhar, ter na alma um sonho terno,
E ter um grande amor dentro do coração!
29.08.2008
v v v v v v v v v
O Ofício de escrever
O ofício de escrever é penoso e é sofrido,
Só traz desilusão, tenebrosa amargura,
Corre o tempo veloz e esse tempo é perdido,
E fica no papel nossa mensagem pura.
O ofício de escrever deixa desiludido
No peito o coração, que em transe, se aventura
Em seu desejo atroz, porém, incompreendido,
Sente o quão é cruel e esquisita essa agrura.
O ofício de escrever por certo deveria
Trazer a sensação de alívio e paz suprema
Ao fim de cada estrofe e de cada poesia.
O ofício de escrever, porém traz mágoa e espanto;
É ofício de sofrer, e de angústia suprema,
Que embarga a nossa voz no mais sentido pranto.
29.08.2008
v v v v v v v v v
Velhice
Agora que o Inverno em neve vem chegando
Trazendo Solidão e negros pesadelos,
Que as Esperanças vão-se ao largo céu voando,
E não podemos mais os sonhos revivê-los;
Agora que o amanhã se torna incerto e o bando
Das nossas Ilusões são surdos aos apelos
Que rogamos aos Céus e tudo vai ficando
Longe de nossas mãos já frias como gelos;
Agora que o Saber para nós faz alarde,
E que a Força e a Beleza em êxtases de luzes
Junto à Sabedoria é uma Luz colorida;
Percebemos, oh, Deus, que é tarde, é muito tarde;
O tempo por viver nos mostra essas três cruzes,
Onde brilha o Passado e já não há mais Vida!
11.09.2008
v v v v v v v v v
Além desta Vida
Enquanto houver luar, poderemos, querida,
Trocar juras de amor. Eternos namorados
Os nossos corações juntos e apaixonados,
Felizes viverão em paz por toda a vida.
Enquanto houver luar, nós dois, de braços dados,
Teremos por seguir, a estrada ampla e florida.
E a vida por viver, da vida já vivida,
Seremos sempre nós unidos e abraçados.
Enquanto houver luar, minha querida amada,
Poderemos passear na clara madrugada,
E em silêncio ouvirás os versos que te faço.
E quando acontecer do céu tornar-se escuro,
Ainda teremos nós mais vidas no futuro:
Iremos fulgurar como estrelas no espaço!
12.09.2008
v v v v v v v v v
Maria
Serva humilde de Deus, foi assim que Maria
Em seu ventre gerou o rebento Jesus.
Numa noite de frio, em velha estrebaria,
O mundo iluminou com tal facho de luz.
E dois mil anos faz que essa Luz irradia
Emanações de Amor num brilho que seduz.
Esse fecundo Sol é explosão de Poesia
Que em nossos corações traz a Verdade a flux.
Hoje, porém, Maria, é humilhada e agredida;
Em profanos sermões é atacada e ferida,
Como não fosse a Mãe do Deus do Firmamento.
Mas um dia virá, que, Senhora de Tudo,
Haverá de punir com vocábulo rudo
Quem hoje A ofende aqui na hora do julgamento.
12.09.2008
v v v v v v v v v
Confusão
O pensamento está confuso e embaralhado,
– Preciso coordenar e deleatur do arquivo
As ideias sem fim oriundas do passado
Que trazem confusão ao presente em que vivo.
Não cabem mais em mim um sonho outrora amado,
Nem da tristeza posso atar-me e ser cativo.
Um futuro ainda espero airoso e iluminado,
E à ânsia de mais viver no amanhã os passos crivo.
Condensar o que é bom, e fazer um resumo,
Necessário se faz polir as alegrias,
Também dar mais valor para o amor que há em nós.
Vaidades deverão ao céu subir em fumo,
Verdades deverão povoar os nossos dias,
Que a Vida é uma ilusão e passa tão veloz.
15.09.2008
v v v v v v v v v
Impotência
O Verso que se quer, o Verso que se busca,
É sempre o mais sonoro, o mais justo e perfeito.
Mas à nossa vontade há uma parede brusca
Que nossos sonhos trava e cala nosso peito.
O fogo do desejo a inspiração chamusca
E à vontade cumprir, já não existe jeito.
O sonho deste Ideal entre sombras se ofusca,
E o delírio final é cheio de defeito.
A luz de nosso sol que julgamos imensa,
É tão-somente luz de uma pífia lanterna
Que se obumbra ao fulgor de uma oura luz mais densa.
Nos sobra o desconforto ante impotência tanta.
Que nossa luz sequer clareia uma lanterna,
E nossa voz engasga ao chegar à garganta.
15.09.2008
v v v v v v v v v
Tesouro Paulista
Contemplo este painel que em brilhos fere a vista!
Cintilação de luz divina e contagiante!
Nosso lendário Rio em marulhar vibrante
É uma paixão maior de beleza e conquista.
Vê-lo uma vez somente e o pensamento amante
Se eleva para Deus, que dele foi o Artista.
Seu eterno esplendor é um tesouro Paulista
Que está no coração de cada Bandeirante!
Meu velho Paiaguá guarda tantas histórias!
Conquistas imortais recobertas de glórias,
Tanta vida esquecer, não haverá quem finde-a!
E ao contemplar eu Salto extasiado de encanto,
Das pedras cuido ouvir magoado e triste canto:
– É o cântico de amor de melancólica índia!
16.09.2008
v v v v v v v v v
Inspiração
Única em seu momento, a Inspiração é fruto
De vibração divina e magia concreta.
Nesse instante de luz e em êxtase, o Poeta
Lembra um deus a criar o Mundo num instante.
E essas tais vibrações em delírios a escuto
E tudo quanto escuto a minh’alma interpreta.
O verso vai surgindo e em forma mais correta
Tento tudo fazer, e a Deus, teço um tributo.
Na magia que vibra, e esplende, e grita, e sua,
O silêncio domino e a febre me entorpece,
Frente às Palavras sinto a Vida que tressua.
Um delírio feroz nesse instante acontece:
Em frente à Eternidade a alma sinto estar nua,
E no Templo da Vida, o meu verso é uma prece.
16.09.2008
v v v v v v v v v
Sonhos azuis
Sonhos, sonhos azuis, sonhos que nós sonhamos
E queremos viver mil séculos num dia.
Mal rebenta a florada em desfolhados ramos
E ansiamos por comer o manjar de ambrosia.
Tudo queremos ter numa simples magia;
Se, se demora o tempo, infindáveis reclamos
Passamos a tecer em funda sinfonia
E queremos no agora, o que em ânsia esperamos.
Dentro dos sonhos nós um dia a mais vivemos,
E com tal ilusão eles são ágeis remos
Que nos levam ao Sol de um dia colorido.
Sonhos, sonhos azuis. Doida e vaga esperança,
Onde fazemos nós reviver a criança
Que fomos no passado hoje morto e esquecido.
17.09.2008
v v v v v v v v v
Painel Caipira I
Contemplo, no horizonte, o céu todo estampado
De violáceos vergões. É inverno. Venta. É agosto.
Pálido, o Sol é um Rei vencido e destronado,
Mas surge a Lua-cheia e lhe arrebata o posto.
Brilham faíscas e o céu fica todo estrelado.
Em delírio, fitando esse dossel exposto,
Lanço para o Infinito os olhos e extasiado
Sinto placas de luz moldando-se em meu rosto.
Lerdo, cordeia o Rio. O silêncio é profundo.
Na mansidão sem fim há espasmos e arrepio.
De tais cintilações me abasteço e me inundo.
Como audazes leões de tais alegorias,
Guardando com furor a alma de nosso Rio,
Vislumbro, em sentinela, os Bonecos do Elias.
18.09.2008
v v v v v v v v v
Revelação
Bordado no Infinito há um rosário de estrelas:
– Bilhões de olhos de Deus que nos contemplam mudos! –
São transubstanciações divinas, e eu, a vê-las,
O cérebro mergulho em secretos sentidos.
É o mistério maior esparramado pelas
Celestes amplidões de silêncios e escudos.
Fagulhas de ouro em pó, brilhantes sentinelas
Errando pelo espaço em broqueis e veludos!
E não há quem decifre essas luzes secretas!
Cientistas em furor tecem longos tratados
E em ogivas de luz lançam fulmíneas setas.
Deus, silencioso ri de tais estratagemas,
Aos Poetas, porém, em versos aureolados,
Segredos tais revela em mágicos poemas!
19.09.2008
v v v v v v v v v
Incerteza
Enquanto a Vida passa em frenéticas horas,
No insano acumular de dias, meses e anos,
Ignoramos que o Tempo é um suceder de auroras
Que traz um novo Sol a clarear nossos planos.
Voam as estações, revivem novas floras,
O fluxo das marés regurgita os oceanos,
Mistérios vão e vêm afeitos em escoras,
Enquanto a Vida passa em seu singrar de enganos.
Nós, cobaias do Tempo, os sonhos ardilamos,
O eterno acumular de ontens em nossas vidas
É um viver esquecido a apodrecer nos ramos,
Próximo passo o fim... No caminhar errante
Sonhamos ainda ter mil glórias coloridas,
Mas talvez inexista um passo a mais adiante.
19.09.2008
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Painel Caipira II
(Para a historiadora, minha Amiga, Marli Terezinha Gernano Perencim)
Rua do Porto. Em tudo há um misticismo denso.
O Rio em mansidão corre em silêncio... o Rio
Parece carregar num lúcido amavio
A olhar de um pescador em seu silêncio imenso.
Olhando o casario à beira d’água, penso
Num velho Povoador que aqui chegou, num frio
E lacerante inverno, e ouço, como em cicio,
O sonho de um Tupi em seu viver intenso.
E penso distinguir entre tantos fulgores,
Num delírio infernal nas misturas das cores,
Os Dutras a pintar maravilhosas telas.
Numa pedra do Salto e Lagreca me encanta!
E ouço uma voz febril: é Cobrinha que canta
Lindas canções de amor sob um luar de estrelas.
22.09.2008
v v v v v v v v v
Instante após instante, instante após instante,
O tormento feroz em meu peito se instala.
Parece que minha alma é uma espaçosa sala
Que abriga com prazer, negra angústia constante.
A dor insana e vil, de forma anavalhante,
Tatua a minha pele e não posso domá-la;
E não posso também numa profunda vala
Ocultar seu furor, ou deixá-la distante.
O desespero é forte e abala os alicerces
Dos meus dias; a angústia em delírios invade
Os cômodos da casa e meu corpo ofegante
Treme de medo e frio. (Oh, tu, que tanto exerces
Teu poder sobre mim, tu, ingrata Saudade,
Vê se pode deixar meu viver um instante!)
02.06.2008
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Cena da Idade Média
Um príncipe e um plebeu morreram certo dia
Carbonizados num incêndio pavoroso.
E restaram somente ante o quadro horroroso,
Alguns ossos dos dois após tanta ardentia.
Misturados, porém, quem é que poderia
Separar do plebeu o príncipe vistoso?
E os ossos ajuntando em um caixão suntuoso,
Tiveram, no Palácio, a fúnebre honraria!
Nas exéquias o Rei chorava e padecia;
Ao lado uma mulher com andrajos vestida
Padecia e chorava ao Rei unindo os ais.
E ambos no mesmo olhar nessa hora de agonia,
Souberam compreender que a morte une na vida
As almas numa só e as dores são iguais.
23.07.2008
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Cosmos
(para meu grande amigo e Biólogo, Professor Wilson Paulino
após uma conversa que tivemos)
Se o Sol é uma laranja, a Terra é um grão de areia
No cósmico Universo, onde bilhões de estrelas
Maiores do que o Sol cruzam as passarelas
De um Mundo ainda maior que outro Mundo clareia.
Forças da Gravidade une-as nesta cadeia
E sonhos abissais espatifam-se nelas!
Ah! quem imaginou ou rascunhou em telas
Esse painel de Luz que gera uma Epopeia?
E o Homem julga-se forte e clama a Eternidade!
Buscando controlar o seu rumo disperso,
Porém, tão ínfimo é, que é um erro da Existência.
Em tudo brilha Deus em Sua claridade!
Arquiteto maior deste Grande Universo,
Onde não há saber que interprete essa Ciência!
01.08.2008
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Meditação
Para mim, ser Poeta, é carregar o fardo
De angústia, desespero e algumas alegrias.
Desbasto as emoções e a inspiração aguardo
Com olhar de lince capto as imagens dos dias.
As rimas musicais se tornam fugidias,
E ponho-me a caçar como feroz leopardo:
Busco encontrar no verso os sons das melodias,
Cerzir a inspiração, e ser, de fato, um Bardo.
Dobo os meus sonhos nus! E nu também me pego!
O ouvido fica surdo, o olhar se torna cego,
A voz torna silêncio e a sós, meditabundo,
Erro ao redor de mim, tateio um rumo escuro,
Presente olho o Passado e à caça do Futuro,
No poço das paixões me arremesso e me afundo.
07.08.2008
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Glória divina
Ao meu amigo, Monsenhor Jorge Simão Miguel
Sob um opaco céu Jerusalém espia
O corpo de Jesus pregado num madeiro.
Negreja a Sexta-feira e o Divino Cordeiro
Em Seu silêncio é só mágoa e melancolia.
E tanto padeceu nessa horrenda agonia
Aquele que Era o Filho único e verdadeiro
Do Pai que está no Céu, e agora, humilde obreiro,
Não sente mais a Luz nesta noite sombria.
Ferido, maltratado e coroado de espinhos,
Humilhado agredido em todos os caminhos,
Dos homens carregou tudo nos ombros nus!
No milagre da Fé de toda a Humanidade,
Eis que retorna à Vida em sua Majestade,
Mostrando-Se maior que sua própria cruz!
22.08.2008
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Prudente de Moraes
(Aos Amados Irmãos da A:. R:. L:. S:. Prudente de Morais)
Prudente de Morais não pode ser, somente,
Uma glória maior à Pátria brasileira;
Da Força e da Beleza é a mais pura semente
E da Sabedoria é uma ave condoreira!
Sendo, como civil, primeiro Presidente,
Fez o nosso Brasil forte em cada fronteira.
Como pedra polida eterna e reluzente,
O País conduziu de forma rara e ordeira.
Como Pedreiro livre uniu o nosso Povo,
Com a argamassa do Amor, trouxe a Fraternidade,
Crendo num Deus maior, Dele foi seu exemplo.
Sendo um Filho da terra, em transes me comovo;
Seu nome há de brilhar além da Eternidade,
E em cada céu azul onde fulgura um Templo!
29.08.2008
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Suposição
Existe, além da Vida (a qual hoje vivemos)
Uma desconhecida e ansiada Eternidade.
– Se nossa vida é um barco, os sonhos são os remos,
Que um dia mostrarão se é Mentira ou Verdade
Esses sonhos azuis que com alma tanto cremos,
Enquanto isso em nossa alma há uma certa ansiedade
E em laivos de explosão, chegamos aos extremos,
Que a descrença é uma crença em nula validade.
Uns juram existir vida além desta vida,
Outros sonham viver no Paraíso eterno.
Como crer ou descrer de tal suposição?
Melhor é contemplar a estrada a ser seguida,
Viver feliz, sonhar, ter na alma um sonho terno,
E ter um grande amor dentro do coração!
29.08.2008
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O Ofício de escrever
O ofício de escrever é penoso e é sofrido,
Só traz desilusão, tenebrosa amargura,
Corre o tempo veloz e esse tempo é perdido,
E fica no papel nossa mensagem pura.
O ofício de escrever deixa desiludido
No peito o coração, que em transe, se aventura
Em seu desejo atroz, porém, incompreendido,
Sente o quão é cruel e esquisita essa agrura.
O ofício de escrever por certo deveria
Trazer a sensação de alívio e paz suprema
Ao fim de cada estrofe e de cada poesia.
O ofício de escrever, porém traz mágoa e espanto;
É ofício de sofrer, e de angústia suprema,
Que embarga a nossa voz no mais sentido pranto.
29.08.2008
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Velhice
Agora que o Inverno em neve vem chegando
Trazendo Solidão e negros pesadelos,
Que as Esperanças vão-se ao largo céu voando,
E não podemos mais os sonhos revivê-los;
Agora que o amanhã se torna incerto e o bando
Das nossas Ilusões são surdos aos apelos
Que rogamos aos Céus e tudo vai ficando
Longe de nossas mãos já frias como gelos;
Agora que o Saber para nós faz alarde,
E que a Força e a Beleza em êxtases de luzes
Junto à Sabedoria é uma Luz colorida;
Percebemos, oh, Deus, que é tarde, é muito tarde;
O tempo por viver nos mostra essas três cruzes,
Onde brilha o Passado e já não há mais Vida!
11.09.2008
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Além desta Vida
Enquanto houver luar, poderemos, querida,
Trocar juras de amor. Eternos namorados
Os nossos corações juntos e apaixonados,
Felizes viverão em paz por toda a vida.
Enquanto houver luar, nós dois, de braços dados,
Teremos por seguir, a estrada ampla e florida.
E a vida por viver, da vida já vivida,
Seremos sempre nós unidos e abraçados.
Enquanto houver luar, minha querida amada,
Poderemos passear na clara madrugada,
E em silêncio ouvirás os versos que te faço.
E quando acontecer do céu tornar-se escuro,
Ainda teremos nós mais vidas no futuro:
Iremos fulgurar como estrelas no espaço!
12.09.2008
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Maria
Serva humilde de Deus, foi assim que Maria
Em seu ventre gerou o rebento Jesus.
Numa noite de frio, em velha estrebaria,
O mundo iluminou com tal facho de luz.
E dois mil anos faz que essa Luz irradia
Emanações de Amor num brilho que seduz.
Esse fecundo Sol é explosão de Poesia
Que em nossos corações traz a Verdade a flux.
Hoje, porém, Maria, é humilhada e agredida;
Em profanos sermões é atacada e ferida,
Como não fosse a Mãe do Deus do Firmamento.
Mas um dia virá, que, Senhora de Tudo,
Haverá de punir com vocábulo rudo
Quem hoje A ofende aqui na hora do julgamento.
12.09.2008
v v v v v v v v v
Confusão
O pensamento está confuso e embaralhado,
– Preciso coordenar e deleatur do arquivo
As ideias sem fim oriundas do passado
Que trazem confusão ao presente em que vivo.
Não cabem mais em mim um sonho outrora amado,
Nem da tristeza posso atar-me e ser cativo.
Um futuro ainda espero airoso e iluminado,
E à ânsia de mais viver no amanhã os passos crivo.
Condensar o que é bom, e fazer um resumo,
Necessário se faz polir as alegrias,
Também dar mais valor para o amor que há em nós.
Vaidades deverão ao céu subir em fumo,
Verdades deverão povoar os nossos dias,
Que a Vida é uma ilusão e passa tão veloz.
15.09.2008
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Impotência
O Verso que se quer, o Verso que se busca,
É sempre o mais sonoro, o mais justo e perfeito.
Mas à nossa vontade há uma parede brusca
Que nossos sonhos trava e cala nosso peito.
O fogo do desejo a inspiração chamusca
E à vontade cumprir, já não existe jeito.
O sonho deste Ideal entre sombras se ofusca,
E o delírio final é cheio de defeito.
A luz de nosso sol que julgamos imensa,
É tão-somente luz de uma pífia lanterna
Que se obumbra ao fulgor de uma oura luz mais densa.
Nos sobra o desconforto ante impotência tanta.
Que nossa luz sequer clareia uma lanterna,
E nossa voz engasga ao chegar à garganta.
15.09.2008
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Tesouro Paulista
Contemplo este painel que em brilhos fere a vista!
Cintilação de luz divina e contagiante!
Nosso lendário Rio em marulhar vibrante
É uma paixão maior de beleza e conquista.
Vê-lo uma vez somente e o pensamento amante
Se eleva para Deus, que dele foi o Artista.
Seu eterno esplendor é um tesouro Paulista
Que está no coração de cada Bandeirante!
Meu velho Paiaguá guarda tantas histórias!
Conquistas imortais recobertas de glórias,
Tanta vida esquecer, não haverá quem finde-a!
E ao contemplar eu Salto extasiado de encanto,
Das pedras cuido ouvir magoado e triste canto:
– É o cântico de amor de melancólica índia!
16.09.2008
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Inspiração
Única em seu momento, a Inspiração é fruto
De vibração divina e magia concreta.
Nesse instante de luz e em êxtase, o Poeta
Lembra um deus a criar o Mundo num instante.
E essas tais vibrações em delírios a escuto
E tudo quanto escuto a minh’alma interpreta.
O verso vai surgindo e em forma mais correta
Tento tudo fazer, e a Deus, teço um tributo.
Na magia que vibra, e esplende, e grita, e sua,
O silêncio domino e a febre me entorpece,
Frente às Palavras sinto a Vida que tressua.
Um delírio feroz nesse instante acontece:
Em frente à Eternidade a alma sinto estar nua,
E no Templo da Vida, o meu verso é uma prece.
16.09.2008
v v v v v v v v v
Sonhos azuis
Sonhos, sonhos azuis, sonhos que nós sonhamos
E queremos viver mil séculos num dia.
Mal rebenta a florada em desfolhados ramos
E ansiamos por comer o manjar de ambrosia.
Tudo queremos ter numa simples magia;
Se, se demora o tempo, infindáveis reclamos
Passamos a tecer em funda sinfonia
E queremos no agora, o que em ânsia esperamos.
Dentro dos sonhos nós um dia a mais vivemos,
E com tal ilusão eles são ágeis remos
Que nos levam ao Sol de um dia colorido.
Sonhos, sonhos azuis. Doida e vaga esperança,
Onde fazemos nós reviver a criança
Que fomos no passado hoje morto e esquecido.
17.09.2008
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Painel Caipira I
Contemplo, no horizonte, o céu todo estampado
De violáceos vergões. É inverno. Venta. É agosto.
Pálido, o Sol é um Rei vencido e destronado,
Mas surge a Lua-cheia e lhe arrebata o posto.
Brilham faíscas e o céu fica todo estrelado.
Em delírio, fitando esse dossel exposto,
Lanço para o Infinito os olhos e extasiado
Sinto placas de luz moldando-se em meu rosto.
Lerdo, cordeia o Rio. O silêncio é profundo.
Na mansidão sem fim há espasmos e arrepio.
De tais cintilações me abasteço e me inundo.
Como audazes leões de tais alegorias,
Guardando com furor a alma de nosso Rio,
Vislumbro, em sentinela, os Bonecos do Elias.
18.09.2008
v v v v v v v v v
Revelação
Bordado no Infinito há um rosário de estrelas:
– Bilhões de olhos de Deus que nos contemplam mudos! –
São transubstanciações divinas, e eu, a vê-las,
O cérebro mergulho em secretos sentidos.
É o mistério maior esparramado pelas
Celestes amplidões de silêncios e escudos.
Fagulhas de ouro em pó, brilhantes sentinelas
Errando pelo espaço em broqueis e veludos!
E não há quem decifre essas luzes secretas!
Cientistas em furor tecem longos tratados
E em ogivas de luz lançam fulmíneas setas.
Deus, silencioso ri de tais estratagemas,
Aos Poetas, porém, em versos aureolados,
Segredos tais revela em mágicos poemas!
19.09.2008
v v v v v v v v v
Incerteza
Enquanto a Vida passa em frenéticas horas,
No insano acumular de dias, meses e anos,
Ignoramos que o Tempo é um suceder de auroras
Que traz um novo Sol a clarear nossos planos.
Voam as estações, revivem novas floras,
O fluxo das marés regurgita os oceanos,
Mistérios vão e vêm afeitos em escoras,
Enquanto a Vida passa em seu singrar de enganos.
Nós, cobaias do Tempo, os sonhos ardilamos,
O eterno acumular de ontens em nossas vidas
É um viver esquecido a apodrecer nos ramos,
Próximo passo o fim... No caminhar errante
Sonhamos ainda ter mil glórias coloridas,
Mas talvez inexista um passo a mais adiante.
19.09.2008
v v v v v v v v v
Painel Caipira II
(Para a historiadora, minha Amiga, Marli Terezinha Gernano Perencim)
Rua do Porto. Em tudo há um misticismo denso.
O Rio em mansidão corre em silêncio... o Rio
Parece carregar num lúcido amavio
A olhar de um pescador em seu silêncio imenso.
Olhando o casario à beira d’água, penso
Num velho Povoador que aqui chegou, num frio
E lacerante inverno, e ouço, como em cicio,
O sonho de um Tupi em seu viver intenso.
E penso distinguir entre tantos fulgores,
Num delírio infernal nas misturas das cores,
Os Dutras a pintar maravilhosas telas.
Numa pedra do Salto e Lagreca me encanta!
E ouço uma voz febril: é Cobrinha que canta
Lindas canções de amor sob um luar de estrelas.
22.09.2008
v v v v v v v v v
Prelúdio ao Sono
Todas as noites quando, à hora do sono ponho
A cabeça no velho e fofo travesseiro,
E espero por Morpheu, que às vezes é tardonho,
O pensamento voa e fico aventureiro.
Pego-me a arquitetar meu castelo de sonho.
E sinto o coração bater forte e ligeiro.
O dom de ser Poeta assim me faz risonho
E imagino-me herói, um soldado-guerreiro.
Porém chega Morpheu estendendo-me os braços.
E cambaleante vou, tropeçando nos passos
Onde a imaginação me leva a qualquer preço.
Rápido chega o transe e me embalo no sono.
E nesta letargia onde tudo é abandono,
Das minhas ilusões rapidamente esqueço
23.09.2008
v v v v v v v v v
Paixão Caipira
(aos de minha Terra)
Rua do Porto. Quando este Recanto fito,
Sinto no coração um quê sagrado e santo.
Definitivamente este Solo bendito
Faz que meu peito expluia em delírios e encanto.
Maravilhas sem fim de tão belo recanto,
São belezas sem par na tela do Infinito.
Súbito, a inspiração transmuda a voz em canto,
E penso ser Ramsés frente ao Nilo, no Egito!
Pirâmides de orgulho atufam minha Lira!
E com versos de brasa acendo a flâmea pira
Para louvar aos Meus sem cometer enganos!
E frente a esse painel de recônditos brilhos,
Uno-me a tantos mais, teus adorados filhos,
Pois somos todos nós, Caipiracicabanos!
24.09.2008
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Bucolismo
No céu há um festival de lusco-fuscos de ouro.
– Parece que um pintor, a espanejar estrelas
Borrifa com pincéis emolduradas telas
A fim de esparramar esse belo tesouro.
O ouro em pó brilha no ar. E fico doido a vê-las
Buscando em ânsia achar algum ancoradouro
Para, numa bateia abrir-se em facho louro
Para as cores luzir das puras aquarelas.
As sombras vão chegando. Aves, em bandos vários,
Reproduzem nos céus fantásticos cenários
Em ziguezagues tais que se embaralha a vista.
A ouvir da Catedral os sinos, me arrepio.
E cuido ouvir no céu d’uma araponga um pio,
Enquanto atrás da terra o sol abaixa a crista.
24.09.2008
v v v v v v v v v
Parque da ESALQ
(Para meu amigo Antonio Roque Dechen)
Fazenda São João. Escola Agronomia.
Nos verdes campos onde os meus passeios faço,
Vou colhendo sem pressa as flores da Poesia
Enquanto o olhar se perde, em êxtase, no espaço.
Verdes de verdes mil, fantástica magia,
Estupor! Frenesi! Prazer! E passo a passo
Na mistura do encanto há um sonho que alumia
A alma que sente o ardor de caricioso abraço.
Trinados vão ao céu, há delírios alados,
Sombras mancham a terra e os musgos esverdeados
Parecem pintalgar esperanças sem fim.
E nesse divagar eu fantasio tudo,
Chegando a imaginar nesse passeio, mudo,
Luiz de Queiroz feliz, passar perto de mim.
24.09.2008
v v v v v v v v v
Velho fantasma
Eis o Engenho Central. Espectro de um passado
Que outrora alavancou esta nossa Cidade
Com fainas de progresso e de prosperidade
Num insano labor ferrenho e adocicado.
Eis o Engenho Central, a beira-rio armado,
Sonhos acumulando em luz e claridade;
Vomitando a garapa, o álcool em densidade,
E sacas, aos milhões, de açúcar refinado!
É um fantasma imponente a refletir no rio
Janelas e vitrais quebrados, retorcidos,
Numa visão de horror que provoca arrepio.
Eis o Engenho Central que se estende em destroços:
Tens apenas por glória – os dias já vividos,
Por presente, a sangrar, avermelhados ossos!
25.09.2008
v v v v v v v v v
Prometo
Sou garimpeiro. Busco achar em cada mina
As pedras e os cristais do mais alto quilate.
Busco o rubi mais puro em vermelho escarlate,
A esmeralda mais bela e pura e cristalina.
Junto à minha bateia uma luz me ilumina.
E tréguas nunca ponho a esse denso combate.
Quero o sonho adornar num festivo arremate,
Que a ânsia de mais viver assim me determina!
Quero tudo encontrar neste airoso projeto,
Quero a luz da manhã, junto às cores da tarde,
Quero, à Sabedoria, unir Força e Beleza.
Junto aos olhos de luz de um grandioso Arquiteto
Sonho viver feliz sem provocar alarde,
Para encontrar de vez, a paz na Natureza!
25.09.2008
v v v v v v v v v
A própria luz
A Poesia requer da alma toda a nobreza
Que possa ela conter: requer paz e paciência,
Sonho, desejo, estudo, um pouco de destreza,
E força de vontade e muita persistência.
Quer ouvidos febris para, da Natureza,
Ouvir pequenos sons que brotam na Existência;
Boa imaginação, ter calma com a certeza
E ter olhos sutis frente a tamanha Ciência.
De mim Ela requer a minha própria Vida!
E a ela me doo inteiro em todos os momentos
E d’ela sou cantor dentro de cada dia.
Que a Poesia põe luz na estrada a ser seguida,
É mesmo a própria luz nos largos Firmamentos,
Da minha vida o Sol que em febre, me alumia.
26.09.2008
v v v v v v v v v
Painel ribeirinho
Beira-rio, a Avenida. Ali contemplo a glória
Sagrada e secular que tem a alma de um Povo.
Nesse imenso painel vou desfiando a memória,
Frente lembranças tais, em transe me comovo.
Cada relíquia guarda a imensa trajetória
E, a ânsia de progredir com êxtases eu louvo.
É o delírio da luz que grava a sua História
Entre fulgurações de ouro polido e novo.
Um velho pescador constrói a sua rede;
Na água pura do Rio ele mitiga a sede,
E de cardumes tira o familiar sustento.
E quando vejo um barco a cruzar seu destino,
Contemplo a exaltação à Festa do Divino,
E o Espírito Encarnado é luz nesse momento!
29.09.2008
v v v v v v v v v
Manhã Caipira
Principia a clarear. A luz a treva cobre
E, fulmíneo, febril, forte, fosforescente,
O Sol, como um Tritão em brilhos surge sobre
A fria madrugada irrompendo o Oriente.
O espetáculo lembra o referver do cobre!
Há uma explosão da luz brilhante, reluzente.
As aves, em zunzuns num canto vário e nobre,
Por entre capinzais cantam continuamente.
Do Rio a água se agita em fachos cristalinos.
Em santas oblações há sonoros arpejos,
Há rebrilhos da vida em solos de violinos.
E, à luz do Sol mais forte em constantes desejos,
Na ânsia de mais viver, na glória dos meninos,
Ao novo alvorecer lanço milhões de beijos.
29.09.2008
v v v v v v v v v
As Luzes do Poeta
O Poeta trabalha!... em sua faina imensa
Procura decifrar os enigmas da vida.
Na ânsia da Inspiração mil palavras condensa
Para a Ideia sair cinzelada e polida.
Os seus versos transforma em luminosa crença
E o mundo tenta ouvir numa estrada florida.
Se, por eles não busca a régia recompensa,
Para viver em paz o Homem ele convida.
Semeando os versos ele, em seu sonho festivo,
Urde e canta a Esperança, o Amor e a Caridade,
E, três luzes juntando eis que se faz mais vivo.
Frente ao dom da Beleza ele doma a vaidade,
Com os músculos da Força ele se faz cativo,
Frente à Sabedoria ele crê na verdade.
30.09.2008
v v v v v v v v v
Divina Paixão
Em ânsias te procuro em todos os lugares:
– És o divino amor que tenho em minha vida!
Por ti singro a amplidão das terras e dos mares,
Busco-te, meu amor, Estrela Prometida!
Nas noites em que o céu esborrifa luares,
A teu encalço saio e levo de vencida
Rochedos, vastidões, reinados milenares,
Na ânsia de te encontrar, minha Fada querida!
És meu sol interior! Minha estrada clareias!
Nas dunas do deserto és o oásis mais sonhado,
És meu sonho maior dentro de cada dia.
Princesa donairesca adarvada de ameias,
Por ti pulsa minh’alma e mais apaixonado
Vivo quando me encontro em teus braços, Poesia!
30.09.2008
v v v v v v v v v
Três Luzes
O estupendo painel da Trindade Suprema
Tem a luzir a Fé, a Esperança e a Caridade.
A França nos legou também a este diadema
Três joias de fulgor dentro da Eternidade.
Somos todos iguais! Nessa intensa verdade
Existe a Liberdade em sua glória extrema;
E, se somos Irmãos, não poderá a maldade
Neste mundo imperar num vil estratagema!
No triângulo da Vida, o Esquadro, o Prumo e o Nível
Deve tudo conter em puras plenitudes,
Junto ao Grande Arquiteto e Seu poder incrível.
Eis a Força, a Beleza e o Saber: três Colunas
Que sustentam a Vida em todas as virtudes,
Três almas numa só unidas plenas, unas!
01.10.2008
v v v v v v v v v
Tear do Tempo
À medida que o tempo em rudes teares tece
Os Sonhos e Ilusões que em nossa vida temos,
Desta louca existência eivada de quermesse
Vamos acumulando os desejos supremos.
Nossos sonhos – um barco! E nossas mãos – os remos!
As nossas ilusões – uma sentida prece!
Os dias do amanhã são sombras que não vemos,
E os dias do passado – a mente, insana – esquece!
Projetamos dobrar os séculos vindouros,
Tantos antes de nós visionaram mil louros,
E apenas hoje são num cemitério sombra.
Sonhamos ter mais vida e mais luzes sonhamos,
Nossos sonhos, porém, apodrecem nos ramos,
E no tear do tempo o sonho nos assombra.
01.10.2008
v v v v v v v v v
Renascer
Sangra o sol no Oriente, um novo dia vibra
Trazendo aos corações uma nova Esperança.
E o homem, no seu afã, na vontade se libra,
Seus músculos retesa e no labor se lança.
Trabalha a terra firme e forte; em faina e fibra
Sonha! Em êxtase santo a su’alma criança
Entre raios de luz fremente se equilibra,
Enquanto a vida passa e o tempo em febre – avança!
Primavera festeja essa glória festiva!
Num lírico esplendor multiplicam-se os sonhos,
A vida se renova em todos os minutos.
A alma se abraça à Terra em frêmitos cativa!
No peito os corações palpitantes, risonhos,
Cantam o renascer da Vida em novos frutos!
07.10.2008
v v v v v v v v v
Taça vazia
Está vazia a taça. O vinho foi sorvido
Nas comemorações diversas e variadas.
Hoje me pego aqui – cabisbaixo e vencido,
Vendo os brilhos febris das longas madrugadas.
Se devo ou não estar agora arrependido
Não pretendo pedir desculpas atrasadas.
A vida por viver já não contém sentido,
Os passos a seguir travam-me as caminhadas.
Já vivi, com certeza, a minha Última Ceia!
O vinho da Paixão entrou em cada veia
E agora só me resta um Calvário e uma Cruz.
Olho a taça vazia – e angústias, traumas, medos,
E os dias por viver trazem sonhos azedos,
A Poesia, porém, toda essa dor traduz!
03.11.2008
v v v v v v v v v
Crepusculário
Começo a entardecer. O sol deita no Ocaso
E as esperanças vão morrendo... vão morrendo...
A noite se aproxima e um velho bruxo horrendo
Passa por mim, a rir, mostrando pouco caso.
No céu brilha uma estrela e seu brilho estupendo
Paira em minha cabeça a denunciar um prazo.
Dentro de mim perlustro imagens ao acaso,
E às velhas ambições indomáveis me rendo.
Não é minha essa estrela entre tantas estrelas,
Nem é meu esse céu pintado de cobalto.
Outras constelações surgem no amplo cenário.
Quantas almas irmãs! Feliz estou por vê-las!
E essa estrada sem fim tem luzes por asfalto,
– Como anseio seguir por tal itinerário!
10.11.2008
v v v v v v v v v
Paris
Coração de Paris. A passos lerdos ando
Em êxtase de luz. Sinto a velha nobreza
De Luiz XVI oculta, se esgueirando,
Enquanto um batalhão entoa a Marselhesa.
Buscando alçar o céu, Dumont está brilhando:
Contorna a Torre Eiffel com pompa e com realeza.
A Vida corre lerda... há um jovem suspirando;
Nas Tulherias sonha airosa camponesa.
Canhões troam no céu que iluminado brilha!
São os fachos de luz que explodem a Bastilha
Enquanto Robespierre ruge como um canhão.
Há luzes em Paris e nas margens do Sena
Cuido ouvir de Jersey, também de Santa Helena,
Os Miseráveis de Hugo e a voz de Napoleão!
10.11.2008
v v v v v v v v v
Para um Príncipe
Poeta, Amigo, Irmão! Oh, Príncipe divino,
De joelhos aos teus pés receba a minha prece,
Quem vem no verso azul de um longo alexandrino,
Para, com gratidão, exaltar quem merece.
Sob os caipiras céus de inspiradora messe,
A benção me consagre, oh, grande Mestre Lino.
Da vida por viver minh’alma não e esquece,
Pois tu puseste a luz do verso, em meu destino.
De coração aberto eu e ofereço agora
Codornas e inhambus dos campos de Santana,
E um pintassilgo a rir nas sebes da campina.
Que brilhe sempre o Sol em tua vida afora,
Oh, Príncipe imortal dessa terra caiana,
Oh, Príncipe imortal da Noiva da Colina.
26.11.2008
v v v v v v v v v
Maria Lúcia Krügg
Dedilha com amor este nobre instrumento
Que apaixonado, Deus, moldou em teu destino.
No teu arco prendeste, Artista, o Firmamento,
Tal como Paganini em êxtase divino.
Faz que as cordas febris, num sonho palestino,
Anunciem a Luz num sagrado momento.
Prende a glória, a emoção e a vida ao teu violino,
Fazendo corações cirandarem ao vento.
Há um prelúdio de paz, um alegro cantante,
E a vida vibra, pulsa, explode, anseia, estua,
Numa paixão feroz no teu riso de astúcia.
A Musa pulsa em ti neste sagrado instante.
Delirantes paixões vibram à luz da lua,
Quando fazes ecoar o teu violino, Lúcia.
19.12.2008
v v v v v v v v v
Traição
Meus passos de fantasma erram na madrugada,
Tentando compreender com a mente em torvelinho.
À frente a Imensidão soturna, abandonada,
Sem um ramo sequer para construir meu ninho.
Atados – mãos e pés, não posso fazer nada!
É imensa a multidão, mas sinto-me sozinho.
A voz para falar está presa, travada,
Impedem-me também que siga meu caminho.
Ao longo da jornada eu semeava a Esperança;
Plantei a Paz e o Amor, a Bem-aventurança,
Mas inimigos maus, com o demo por apoio,
Fustigaram com fogo os meus sonhos dourados!
E hoje, por onde eu vá vejo em todos os lados,
Os sonhos que plantei encobertos de joio.
03.01.2009
v v v v v v v v v
No silêncio
Eis agora o silêncio, eis o silêncio frio,
Após densa, feroz e negra tempestade.
Agora a mansidão, o infinito vazio,
O olhar perdido além, abismal ansiedade.
Silêncio e solidão, o olhar longe, erradio,
Uma espera, talvez, absorta liberdade.
Sem ânsias para o voo, o desejo vadio,
O escuro, e a noite, e o nada, e o sonho atrás da grade.
Nada posso fazer. Há silêncio por tudo.
Descansa o pensamento e permaneço mudo.
O sol destila a luz mas na treva me oculto.
Chega a noite. Estou só. Eu e os silêncios juntos.
(– Se estivesses aqui quantos novos assuntos...)
Passa uma sombra. Nela imagino o teu vulto...
18.02.2009
v v v v v v v v v
Incógnita
Procuro decifrar nos versos que fabrico
O segredo que envolve o mundo da Poesia.
Imito a sabiá, imito o tico-tico,
Porém jamais decifro essa grande alquimia.
Dentro d’alma a Poesia em salmos glorifico,
Que Ela é a razão maior da minha fantasia.
Ela me faz feliz e me deixa mais rico,
Também me faz vencer os percalços do dia.
Sou súdito menor dessa razão da Vida!
Traço em versos meu mundo e dentro dele sonho
E firme ponho os pés nessa sem fim estrada.
Que a Poesia de fato é uma glória florida,
E em cada verso teço o tálamo risonho,
Onde irei descansar ao fim dessa jornada.
20.02.2009
v v v v v v v v v
Delírios supremos
Quarenta anos de estudo, análise e pesquisa,
Tentando compreender o mundo da Poesia.
Imensurável sonho, ofegante agonia,
E a Palavra bailando em concertos de brisa.
A métrica, a cesura, a rima e a atroz porfia
De arquitetar o verso em cadência precisa.
E o pensamento coeso, e de forma concisa,
A estrofe refulgindo, a ideia em melodia.
A obra se decompondo em delírios supremos,
Num insano sofrer de buscas estonteantes,
À frente – o imenso mar! e as Palavras – por remos!
E nos transes de luz mil sonhos ofegantes!
Mas o Poeta preso em esgares extremos,
Sente que os versos seus tem futuros errantes.
30.03.2009
v v v v v v v v v
Em nome da Poesia
Em nome da Poesia ao mundo hoje ofereço
Carinho, paz, amor, ternura, graça, afeto,
Um coração sincero envolvido no apreço,
Um olhar puro e bom à imperfeição discreto.
Em nome da Poesia os meus versos projeto
Na cadência da paz que em minha vida teço.
Um sorriso sincero em minh’alma arquiteto
E a quem eu quero bem, na vida não esqueço.
Em nome da Poesia urdo e tramo o meu verso,
Canto a Esperança azul que os olhos extasia
E procuro sorrir com o Amor no peito imerso.
Em nome da Poesia eu vivo cada dia,
E o Arquiteto Maior deste grande Universo,
As Musas me oferece – em nome da Poesia!
30.03.2009
v v v v v v v v v
Chama eterna
Quando pego a caneta e em transe e em sentimento
As palavras, em fogo, enchem a minha mente,
E em turbilhão de lava explodem num momento
Parecendo frigir de ferro fluorescente,
As ideias aprumo em febre, num repente,
E o verso toma forma e eclode como vento.
E em frenesi feroz, fantástico, fremente,
Consigo coordenar no instante, o pensamento.
Na folha em branco bordo as palavras que rugem
E no instante, Poeta, acordo as Divindades
Que descansam em Pindo em deleite profundo.
À Palavra moldada inexiste ferrugem.
Pois ela irá viver por mil Eternidades,
E em cada vida além que ainda não veio ao mundo!
31.03.2009
v v v v v v v v v
Eterna Primavera
Se recebi de Deus o Dom puro e divino
E a Arte da inspiração para compor meu canto,
É sagrado o dever de traçar meu destino
E domar a palavra em todo o seu encanto.
Por isso sou Poeta e não me causa espanto
Quando, dentro da mente, o verso purpurino,
Justo e perfeito brota e a estrada – flavo helianto,
Modulo na amplidão de um belo Alexandrino!
Sou feliz! cada verso amalgamado em ouro
Para mim tem luz própria e ilumina-me a vida
E os rumos para achar o largo ancoradouro
Onde o grande final desse prazer me espera.
E espero que essa estrada encontre-se florida,
E que ela me conduza à eterna Primavera.
15.04.2009
v v v v v v v v v
Um novo dia
Um novo dia surge. A Leste o Sol irrora
Em eflúvios de luz. Sombras claras, compridas,
Atapetam o chão para passar a aurora
Quem vem nos abraçar e à Vida dar mais vidas.
Límpido, o céu azul a imensidão explora:
Há brilhos de cristais em gotas coloridas.
Luzes, cores, mil sons... logo o orvalho evapora
E o soberano Sol traz explosões suicidas!
O homem trabalhador vai para a sua messe
E como Prometeu no Cáucaso, em su’ânsia
Acorrentado, sonha e faz a sua prece.
Em tudo jorra a luz... De distância em distância
O milagre da vida em glórias acontece
Enquanto pingam mel as flores em fragrância.
17.04.2009
v v v v v v v v v
O passado
O passado é passado, está enterrado e morto.
Se, traz recordação, tristeza ou alegria,
É barco que não mais retorna ao velho porto,
Navega em alto mar em sua fantasia.
O dia que se foi em seu caminho torto
É velho olhar mirando atroz melancolia.
E muitas vezes eu, calado, triste, absorto,
Busco dele encontrar uma ilusão vazia.
Aos dias que virão rebrilha uma esperança,
Planos fenomenais ardem em nossa mente
E atropelamos tudo o que nos atrapalha
Para alcançarmos logo esse sonho criança...
Porém, talvez não venha o amanhã refulgente,
E nem sintamos dele o seu fogo de palha.
17.04.2009
v v v v v v v v v
Glória suprema
Sou Poeta. Carrego às costas o árduo fardo
De cantar a Verdade e somente a Verdade.
E no canto feroz por muitas vezes ardo
Pois eu sinto faltar no canto suavidade.
À flor da pele vibra a emoção; à piedade
Não consigo fugir, que esta é a sina do Bardo!
Porém, para cantar falta serenidade
E o instante de Razão a mim não há resguardo.
Em honra desta vida ergo a taça espumante!
Porém vibra a Ilusão de maneira constante,
E nesse atroz dualismo eu me afogo num rogo.
Se é uma glória suprema a muitos ser Poeta,
A mim nada mais é do que uma glória abjeta,
Quando a deusa Satã me queima com seu fogo.
22.04.2009
v v v v v v v v v
Templo
(Aos Am:. Ir:. da A:. R:. L:. S:. Esplendor)
Eis me à porta do Templo, onde a Sabedoria
Junto à Força e à Beleza, alicerçam a Vida!
Onde o Grande Arquiteto ilumina o meu dia,
E a alma, qual pedra bruta, é limada e polida.
Eis me à porta do Templo, onde a Luz é alquimia!
Onde tantos Irmãos vivem a Paz florida.
O olhar que tudo vê é glória que irradia,
A orla dentada molda a força destemida.
Com passos de Aprendiz adentro nesse Templo,
A abóbada celeste a minha Alma ilumina,
Serenidade e paz com meus olhos contemplo.
E do centro da Terra à Imensidão celeste,
Do Norte ao Sul, da luz do Leste à sombra do Oeste,
Nesse Templo é que busco a Verdade divina!
24.04.2009
v v v v v v v v v
Juventude liberta
Esses jovens que vejo andando pobres, feios,
Usando velhos jeans rasgados, desbotados,
Falando palavrões, gritando desbocados,
Parecem não sonhar, também não ter anseios.
Com tatuagens no corpo e piercings como arreios,
Filhos de mãe solteira ou de pais separados,
Analfabetos quase, eles são uns coitados,
Vivem sem ilusões frequentando rodeios.
Vivem aqui e ali sem certo paradeiro,
Com gírias de mau-gosto inarticulam frases
Difíceis de entender em tal vocabulário.
São jovens do Brasil que sonham o estrangeiro...
Desfrutam no presente um enganoso oásis,
Para ter no futuro um viver proletário.
17.06.2009
Todas as noites quando, à hora do sono ponho
A cabeça no velho e fofo travesseiro,
E espero por Morpheu, que às vezes é tardonho,
O pensamento voa e fico aventureiro.
Pego-me a arquitetar meu castelo de sonho.
E sinto o coração bater forte e ligeiro.
O dom de ser Poeta assim me faz risonho
E imagino-me herói, um soldado-guerreiro.
Porém chega Morpheu estendendo-me os braços.
E cambaleante vou, tropeçando nos passos
Onde a imaginação me leva a qualquer preço.
Rápido chega o transe e me embalo no sono.
E nesta letargia onde tudo é abandono,
Das minhas ilusões rapidamente esqueço
23.09.2008
v v v v v v v v v
Paixão Caipira
(aos de minha Terra)
Rua do Porto. Quando este Recanto fito,
Sinto no coração um quê sagrado e santo.
Definitivamente este Solo bendito
Faz que meu peito expluia em delírios e encanto.
Maravilhas sem fim de tão belo recanto,
São belezas sem par na tela do Infinito.
Súbito, a inspiração transmuda a voz em canto,
E penso ser Ramsés frente ao Nilo, no Egito!
Pirâmides de orgulho atufam minha Lira!
E com versos de brasa acendo a flâmea pira
Para louvar aos Meus sem cometer enganos!
E frente a esse painel de recônditos brilhos,
Uno-me a tantos mais, teus adorados filhos,
Pois somos todos nós, Caipiracicabanos!
24.09.2008
v v v v v v v v v
Bucolismo
No céu há um festival de lusco-fuscos de ouro.
– Parece que um pintor, a espanejar estrelas
Borrifa com pincéis emolduradas telas
A fim de esparramar esse belo tesouro.
O ouro em pó brilha no ar. E fico doido a vê-las
Buscando em ânsia achar algum ancoradouro
Para, numa bateia abrir-se em facho louro
Para as cores luzir das puras aquarelas.
As sombras vão chegando. Aves, em bandos vários,
Reproduzem nos céus fantásticos cenários
Em ziguezagues tais que se embaralha a vista.
A ouvir da Catedral os sinos, me arrepio.
E cuido ouvir no céu d’uma araponga um pio,
Enquanto atrás da terra o sol abaixa a crista.
24.09.2008
v v v v v v v v v
Parque da ESALQ
(Para meu amigo Antonio Roque Dechen)
Fazenda São João. Escola Agronomia.
Nos verdes campos onde os meus passeios faço,
Vou colhendo sem pressa as flores da Poesia
Enquanto o olhar se perde, em êxtase, no espaço.
Verdes de verdes mil, fantástica magia,
Estupor! Frenesi! Prazer! E passo a passo
Na mistura do encanto há um sonho que alumia
A alma que sente o ardor de caricioso abraço.
Trinados vão ao céu, há delírios alados,
Sombras mancham a terra e os musgos esverdeados
Parecem pintalgar esperanças sem fim.
E nesse divagar eu fantasio tudo,
Chegando a imaginar nesse passeio, mudo,
Luiz de Queiroz feliz, passar perto de mim.
24.09.2008
v v v v v v v v v
Velho fantasma
Eis o Engenho Central. Espectro de um passado
Que outrora alavancou esta nossa Cidade
Com fainas de progresso e de prosperidade
Num insano labor ferrenho e adocicado.
Eis o Engenho Central, a beira-rio armado,
Sonhos acumulando em luz e claridade;
Vomitando a garapa, o álcool em densidade,
E sacas, aos milhões, de açúcar refinado!
É um fantasma imponente a refletir no rio
Janelas e vitrais quebrados, retorcidos,
Numa visão de horror que provoca arrepio.
Eis o Engenho Central que se estende em destroços:
Tens apenas por glória – os dias já vividos,
Por presente, a sangrar, avermelhados ossos!
25.09.2008
v v v v v v v v v
Prometo
Sou garimpeiro. Busco achar em cada mina
As pedras e os cristais do mais alto quilate.
Busco o rubi mais puro em vermelho escarlate,
A esmeralda mais bela e pura e cristalina.
Junto à minha bateia uma luz me ilumina.
E tréguas nunca ponho a esse denso combate.
Quero o sonho adornar num festivo arremate,
Que a ânsia de mais viver assim me determina!
Quero tudo encontrar neste airoso projeto,
Quero a luz da manhã, junto às cores da tarde,
Quero, à Sabedoria, unir Força e Beleza.
Junto aos olhos de luz de um grandioso Arquiteto
Sonho viver feliz sem provocar alarde,
Para encontrar de vez, a paz na Natureza!
25.09.2008
v v v v v v v v v
A própria luz
A Poesia requer da alma toda a nobreza
Que possa ela conter: requer paz e paciência,
Sonho, desejo, estudo, um pouco de destreza,
E força de vontade e muita persistência.
Quer ouvidos febris para, da Natureza,
Ouvir pequenos sons que brotam na Existência;
Boa imaginação, ter calma com a certeza
E ter olhos sutis frente a tamanha Ciência.
De mim Ela requer a minha própria Vida!
E a ela me doo inteiro em todos os momentos
E d’ela sou cantor dentro de cada dia.
Que a Poesia põe luz na estrada a ser seguida,
É mesmo a própria luz nos largos Firmamentos,
Da minha vida o Sol que em febre, me alumia.
26.09.2008
v v v v v v v v v
Painel ribeirinho
Beira-rio, a Avenida. Ali contemplo a glória
Sagrada e secular que tem a alma de um Povo.
Nesse imenso painel vou desfiando a memória,
Frente lembranças tais, em transe me comovo.
Cada relíquia guarda a imensa trajetória
E, a ânsia de progredir com êxtases eu louvo.
É o delírio da luz que grava a sua História
Entre fulgurações de ouro polido e novo.
Um velho pescador constrói a sua rede;
Na água pura do Rio ele mitiga a sede,
E de cardumes tira o familiar sustento.
E quando vejo um barco a cruzar seu destino,
Contemplo a exaltação à Festa do Divino,
E o Espírito Encarnado é luz nesse momento!
29.09.2008
v v v v v v v v v
Manhã Caipira
Principia a clarear. A luz a treva cobre
E, fulmíneo, febril, forte, fosforescente,
O Sol, como um Tritão em brilhos surge sobre
A fria madrugada irrompendo o Oriente.
O espetáculo lembra o referver do cobre!
Há uma explosão da luz brilhante, reluzente.
As aves, em zunzuns num canto vário e nobre,
Por entre capinzais cantam continuamente.
Do Rio a água se agita em fachos cristalinos.
Em santas oblações há sonoros arpejos,
Há rebrilhos da vida em solos de violinos.
E, à luz do Sol mais forte em constantes desejos,
Na ânsia de mais viver, na glória dos meninos,
Ao novo alvorecer lanço milhões de beijos.
29.09.2008
v v v v v v v v v
As Luzes do Poeta
O Poeta trabalha!... em sua faina imensa
Procura decifrar os enigmas da vida.
Na ânsia da Inspiração mil palavras condensa
Para a Ideia sair cinzelada e polida.
Os seus versos transforma em luminosa crença
E o mundo tenta ouvir numa estrada florida.
Se, por eles não busca a régia recompensa,
Para viver em paz o Homem ele convida.
Semeando os versos ele, em seu sonho festivo,
Urde e canta a Esperança, o Amor e a Caridade,
E, três luzes juntando eis que se faz mais vivo.
Frente ao dom da Beleza ele doma a vaidade,
Com os músculos da Força ele se faz cativo,
Frente à Sabedoria ele crê na verdade.
30.09.2008
v v v v v v v v v
Divina Paixão
Em ânsias te procuro em todos os lugares:
– És o divino amor que tenho em minha vida!
Por ti singro a amplidão das terras e dos mares,
Busco-te, meu amor, Estrela Prometida!
Nas noites em que o céu esborrifa luares,
A teu encalço saio e levo de vencida
Rochedos, vastidões, reinados milenares,
Na ânsia de te encontrar, minha Fada querida!
És meu sol interior! Minha estrada clareias!
Nas dunas do deserto és o oásis mais sonhado,
És meu sonho maior dentro de cada dia.
Princesa donairesca adarvada de ameias,
Por ti pulsa minh’alma e mais apaixonado
Vivo quando me encontro em teus braços, Poesia!
30.09.2008
v v v v v v v v v
Três Luzes
O estupendo painel da Trindade Suprema
Tem a luzir a Fé, a Esperança e a Caridade.
A França nos legou também a este diadema
Três joias de fulgor dentro da Eternidade.
Somos todos iguais! Nessa intensa verdade
Existe a Liberdade em sua glória extrema;
E, se somos Irmãos, não poderá a maldade
Neste mundo imperar num vil estratagema!
No triângulo da Vida, o Esquadro, o Prumo e o Nível
Deve tudo conter em puras plenitudes,
Junto ao Grande Arquiteto e Seu poder incrível.
Eis a Força, a Beleza e o Saber: três Colunas
Que sustentam a Vida em todas as virtudes,
Três almas numa só unidas plenas, unas!
01.10.2008
v v v v v v v v v
Tear do Tempo
À medida que o tempo em rudes teares tece
Os Sonhos e Ilusões que em nossa vida temos,
Desta louca existência eivada de quermesse
Vamos acumulando os desejos supremos.
Nossos sonhos – um barco! E nossas mãos – os remos!
As nossas ilusões – uma sentida prece!
Os dias do amanhã são sombras que não vemos,
E os dias do passado – a mente, insana – esquece!
Projetamos dobrar os séculos vindouros,
Tantos antes de nós visionaram mil louros,
E apenas hoje são num cemitério sombra.
Sonhamos ter mais vida e mais luzes sonhamos,
Nossos sonhos, porém, apodrecem nos ramos,
E no tear do tempo o sonho nos assombra.
01.10.2008
v v v v v v v v v
Renascer
Sangra o sol no Oriente, um novo dia vibra
Trazendo aos corações uma nova Esperança.
E o homem, no seu afã, na vontade se libra,
Seus músculos retesa e no labor se lança.
Trabalha a terra firme e forte; em faina e fibra
Sonha! Em êxtase santo a su’alma criança
Entre raios de luz fremente se equilibra,
Enquanto a vida passa e o tempo em febre – avança!
Primavera festeja essa glória festiva!
Num lírico esplendor multiplicam-se os sonhos,
A vida se renova em todos os minutos.
A alma se abraça à Terra em frêmitos cativa!
No peito os corações palpitantes, risonhos,
Cantam o renascer da Vida em novos frutos!
07.10.2008
v v v v v v v v v
Taça vazia
Está vazia a taça. O vinho foi sorvido
Nas comemorações diversas e variadas.
Hoje me pego aqui – cabisbaixo e vencido,
Vendo os brilhos febris das longas madrugadas.
Se devo ou não estar agora arrependido
Não pretendo pedir desculpas atrasadas.
A vida por viver já não contém sentido,
Os passos a seguir travam-me as caminhadas.
Já vivi, com certeza, a minha Última Ceia!
O vinho da Paixão entrou em cada veia
E agora só me resta um Calvário e uma Cruz.
Olho a taça vazia – e angústias, traumas, medos,
E os dias por viver trazem sonhos azedos,
A Poesia, porém, toda essa dor traduz!
03.11.2008
v v v v v v v v v
Crepusculário
Começo a entardecer. O sol deita no Ocaso
E as esperanças vão morrendo... vão morrendo...
A noite se aproxima e um velho bruxo horrendo
Passa por mim, a rir, mostrando pouco caso.
No céu brilha uma estrela e seu brilho estupendo
Paira em minha cabeça a denunciar um prazo.
Dentro de mim perlustro imagens ao acaso,
E às velhas ambições indomáveis me rendo.
Não é minha essa estrela entre tantas estrelas,
Nem é meu esse céu pintado de cobalto.
Outras constelações surgem no amplo cenário.
Quantas almas irmãs! Feliz estou por vê-las!
E essa estrada sem fim tem luzes por asfalto,
– Como anseio seguir por tal itinerário!
10.11.2008
v v v v v v v v v
Paris
Coração de Paris. A passos lerdos ando
Em êxtase de luz. Sinto a velha nobreza
De Luiz XVI oculta, se esgueirando,
Enquanto um batalhão entoa a Marselhesa.
Buscando alçar o céu, Dumont está brilhando:
Contorna a Torre Eiffel com pompa e com realeza.
A Vida corre lerda... há um jovem suspirando;
Nas Tulherias sonha airosa camponesa.
Canhões troam no céu que iluminado brilha!
São os fachos de luz que explodem a Bastilha
Enquanto Robespierre ruge como um canhão.
Há luzes em Paris e nas margens do Sena
Cuido ouvir de Jersey, também de Santa Helena,
Os Miseráveis de Hugo e a voz de Napoleão!
10.11.2008
v v v v v v v v v
Para um Príncipe
Poeta, Amigo, Irmão! Oh, Príncipe divino,
De joelhos aos teus pés receba a minha prece,
Quem vem no verso azul de um longo alexandrino,
Para, com gratidão, exaltar quem merece.
Sob os caipiras céus de inspiradora messe,
A benção me consagre, oh, grande Mestre Lino.
Da vida por viver minh’alma não e esquece,
Pois tu puseste a luz do verso, em meu destino.
De coração aberto eu e ofereço agora
Codornas e inhambus dos campos de Santana,
E um pintassilgo a rir nas sebes da campina.
Que brilhe sempre o Sol em tua vida afora,
Oh, Príncipe imortal dessa terra caiana,
Oh, Príncipe imortal da Noiva da Colina.
26.11.2008
v v v v v v v v v
Maria Lúcia Krügg
Dedilha com amor este nobre instrumento
Que apaixonado, Deus, moldou em teu destino.
No teu arco prendeste, Artista, o Firmamento,
Tal como Paganini em êxtase divino.
Faz que as cordas febris, num sonho palestino,
Anunciem a Luz num sagrado momento.
Prende a glória, a emoção e a vida ao teu violino,
Fazendo corações cirandarem ao vento.
Há um prelúdio de paz, um alegro cantante,
E a vida vibra, pulsa, explode, anseia, estua,
Numa paixão feroz no teu riso de astúcia.
A Musa pulsa em ti neste sagrado instante.
Delirantes paixões vibram à luz da lua,
Quando fazes ecoar o teu violino, Lúcia.
19.12.2008
v v v v v v v v v
Traição
Meus passos de fantasma erram na madrugada,
Tentando compreender com a mente em torvelinho.
À frente a Imensidão soturna, abandonada,
Sem um ramo sequer para construir meu ninho.
Atados – mãos e pés, não posso fazer nada!
É imensa a multidão, mas sinto-me sozinho.
A voz para falar está presa, travada,
Impedem-me também que siga meu caminho.
Ao longo da jornada eu semeava a Esperança;
Plantei a Paz e o Amor, a Bem-aventurança,
Mas inimigos maus, com o demo por apoio,
Fustigaram com fogo os meus sonhos dourados!
E hoje, por onde eu vá vejo em todos os lados,
Os sonhos que plantei encobertos de joio.
03.01.2009
v v v v v v v v v
No silêncio
Eis agora o silêncio, eis o silêncio frio,
Após densa, feroz e negra tempestade.
Agora a mansidão, o infinito vazio,
O olhar perdido além, abismal ansiedade.
Silêncio e solidão, o olhar longe, erradio,
Uma espera, talvez, absorta liberdade.
Sem ânsias para o voo, o desejo vadio,
O escuro, e a noite, e o nada, e o sonho atrás da grade.
Nada posso fazer. Há silêncio por tudo.
Descansa o pensamento e permaneço mudo.
O sol destila a luz mas na treva me oculto.
Chega a noite. Estou só. Eu e os silêncios juntos.
(– Se estivesses aqui quantos novos assuntos...)
Passa uma sombra. Nela imagino o teu vulto...
18.02.2009
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Incógnita
Procuro decifrar nos versos que fabrico
O segredo que envolve o mundo da Poesia.
Imito a sabiá, imito o tico-tico,
Porém jamais decifro essa grande alquimia.
Dentro d’alma a Poesia em salmos glorifico,
Que Ela é a razão maior da minha fantasia.
Ela me faz feliz e me deixa mais rico,
Também me faz vencer os percalços do dia.
Sou súdito menor dessa razão da Vida!
Traço em versos meu mundo e dentro dele sonho
E firme ponho os pés nessa sem fim estrada.
Que a Poesia de fato é uma glória florida,
E em cada verso teço o tálamo risonho,
Onde irei descansar ao fim dessa jornada.
20.02.2009
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Delírios supremos
Quarenta anos de estudo, análise e pesquisa,
Tentando compreender o mundo da Poesia.
Imensurável sonho, ofegante agonia,
E a Palavra bailando em concertos de brisa.
A métrica, a cesura, a rima e a atroz porfia
De arquitetar o verso em cadência precisa.
E o pensamento coeso, e de forma concisa,
A estrofe refulgindo, a ideia em melodia.
A obra se decompondo em delírios supremos,
Num insano sofrer de buscas estonteantes,
À frente – o imenso mar! e as Palavras – por remos!
E nos transes de luz mil sonhos ofegantes!
Mas o Poeta preso em esgares extremos,
Sente que os versos seus tem futuros errantes.
30.03.2009
v v v v v v v v v
Em nome da Poesia
Em nome da Poesia ao mundo hoje ofereço
Carinho, paz, amor, ternura, graça, afeto,
Um coração sincero envolvido no apreço,
Um olhar puro e bom à imperfeição discreto.
Em nome da Poesia os meus versos projeto
Na cadência da paz que em minha vida teço.
Um sorriso sincero em minh’alma arquiteto
E a quem eu quero bem, na vida não esqueço.
Em nome da Poesia urdo e tramo o meu verso,
Canto a Esperança azul que os olhos extasia
E procuro sorrir com o Amor no peito imerso.
Em nome da Poesia eu vivo cada dia,
E o Arquiteto Maior deste grande Universo,
As Musas me oferece – em nome da Poesia!
30.03.2009
v v v v v v v v v
Chama eterna
Quando pego a caneta e em transe e em sentimento
As palavras, em fogo, enchem a minha mente,
E em turbilhão de lava explodem num momento
Parecendo frigir de ferro fluorescente,
As ideias aprumo em febre, num repente,
E o verso toma forma e eclode como vento.
E em frenesi feroz, fantástico, fremente,
Consigo coordenar no instante, o pensamento.
Na folha em branco bordo as palavras que rugem
E no instante, Poeta, acordo as Divindades
Que descansam em Pindo em deleite profundo.
À Palavra moldada inexiste ferrugem.
Pois ela irá viver por mil Eternidades,
E em cada vida além que ainda não veio ao mundo!
31.03.2009
v v v v v v v v v
Eterna Primavera
Se recebi de Deus o Dom puro e divino
E a Arte da inspiração para compor meu canto,
É sagrado o dever de traçar meu destino
E domar a palavra em todo o seu encanto.
Por isso sou Poeta e não me causa espanto
Quando, dentro da mente, o verso purpurino,
Justo e perfeito brota e a estrada – flavo helianto,
Modulo na amplidão de um belo Alexandrino!
Sou feliz! cada verso amalgamado em ouro
Para mim tem luz própria e ilumina-me a vida
E os rumos para achar o largo ancoradouro
Onde o grande final desse prazer me espera.
E espero que essa estrada encontre-se florida,
E que ela me conduza à eterna Primavera.
15.04.2009
v v v v v v v v v
Um novo dia
Um novo dia surge. A Leste o Sol irrora
Em eflúvios de luz. Sombras claras, compridas,
Atapetam o chão para passar a aurora
Quem vem nos abraçar e à Vida dar mais vidas.
Límpido, o céu azul a imensidão explora:
Há brilhos de cristais em gotas coloridas.
Luzes, cores, mil sons... logo o orvalho evapora
E o soberano Sol traz explosões suicidas!
O homem trabalhador vai para a sua messe
E como Prometeu no Cáucaso, em su’ânsia
Acorrentado, sonha e faz a sua prece.
Em tudo jorra a luz... De distância em distância
O milagre da vida em glórias acontece
Enquanto pingam mel as flores em fragrância.
17.04.2009
v v v v v v v v v
O passado
O passado é passado, está enterrado e morto.
Se, traz recordação, tristeza ou alegria,
É barco que não mais retorna ao velho porto,
Navega em alto mar em sua fantasia.
O dia que se foi em seu caminho torto
É velho olhar mirando atroz melancolia.
E muitas vezes eu, calado, triste, absorto,
Busco dele encontrar uma ilusão vazia.
Aos dias que virão rebrilha uma esperança,
Planos fenomenais ardem em nossa mente
E atropelamos tudo o que nos atrapalha
Para alcançarmos logo esse sonho criança...
Porém, talvez não venha o amanhã refulgente,
E nem sintamos dele o seu fogo de palha.
17.04.2009
v v v v v v v v v
Glória suprema
Sou Poeta. Carrego às costas o árduo fardo
De cantar a Verdade e somente a Verdade.
E no canto feroz por muitas vezes ardo
Pois eu sinto faltar no canto suavidade.
À flor da pele vibra a emoção; à piedade
Não consigo fugir, que esta é a sina do Bardo!
Porém, para cantar falta serenidade
E o instante de Razão a mim não há resguardo.
Em honra desta vida ergo a taça espumante!
Porém vibra a Ilusão de maneira constante,
E nesse atroz dualismo eu me afogo num rogo.
Se é uma glória suprema a muitos ser Poeta,
A mim nada mais é do que uma glória abjeta,
Quando a deusa Satã me queima com seu fogo.
22.04.2009
v v v v v v v v v
Templo
(Aos Am:. Ir:. da A:. R:. L:. S:. Esplendor)
Eis me à porta do Templo, onde a Sabedoria
Junto à Força e à Beleza, alicerçam a Vida!
Onde o Grande Arquiteto ilumina o meu dia,
E a alma, qual pedra bruta, é limada e polida.
Eis me à porta do Templo, onde a Luz é alquimia!
Onde tantos Irmãos vivem a Paz florida.
O olhar que tudo vê é glória que irradia,
A orla dentada molda a força destemida.
Com passos de Aprendiz adentro nesse Templo,
A abóbada celeste a minha Alma ilumina,
Serenidade e paz com meus olhos contemplo.
E do centro da Terra à Imensidão celeste,
Do Norte ao Sul, da luz do Leste à sombra do Oeste,
Nesse Templo é que busco a Verdade divina!
24.04.2009
v v v v v v v v v
Juventude liberta
Esses jovens que vejo andando pobres, feios,
Usando velhos jeans rasgados, desbotados,
Falando palavrões, gritando desbocados,
Parecem não sonhar, também não ter anseios.
Com tatuagens no corpo e piercings como arreios,
Filhos de mãe solteira ou de pais separados,
Analfabetos quase, eles são uns coitados,
Vivem sem ilusões frequentando rodeios.
Vivem aqui e ali sem certo paradeiro,
Com gírias de mau-gosto inarticulam frases
Difíceis de entender em tal vocabulário.
São jovens do Brasil que sonham o estrangeiro...
Desfrutam no presente um enganoso oásis,
Para ter no futuro um viver proletário.
17.06.2009














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