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26 de março de 2010

AOS INVISÍVEIS - TEMPO DE COLHEITA



Aos invisíveis
(Para Raya e Petrin)



O Espírito da Noite entra em meu corpo. Entra. Entra,
E minh’alma, na luz, tomada se concentra
Enquanto que um a um – fantasma após fantasma,
Pedem para eu gravar, seus nomes no que escrevo!
Fogos-fátuos em mim! Tenho medo, e se devo
Ao pedido ceder, a Idéia fica pasma.

Quero eu mesmo ser Pai dos versos que componho!
Não quero, ao acordar, após, tomado em sonho,
Ver o Verso completo e as páginas já cheias.
Quero eu mesmo buscar a minha própria rima,
Eu mesmo me inspirar e que eu próprio me exprima
Tendo meu próprio mar, minhas próprias Sereias!

Minha Musas, talvez, se é que as Musas existem!
Minhas Inspirações todas elas resistem
Ao que de fora vem soprando no ar da noite!
Emanuel talvez me seja mais constante...
Rápido, quando vem, fica um simples instante,
Após entra na Luz e fica de pernoite.

Mas Ele pode vir... eu primeiro chamei-o
E fui seu porta-voz, fui seu pombo-correio,
E com prazer cantei a sua Liberdade.
E fui com Ele em mim, ver o meu velho Rio,
(Lembro-me bem, fazia um cavernoso frio!)
Ele não quis ficar para ver a cidade.

Outras vezes voltou... Deitado em minha cama
Rabiscou nos lençóis, mudou o panorama
De todo o meu passado e me fez diferente...
Fez-me ver o Porvir. Arrepiei. Senti medo...
Porém, só para mim guardei este segrego
E tudo aconteceu em seu Tempo presente!

Outros vieram após (E eu pensei que inventava
Os nomes um por um, mas minha mente, escrava
De todos, não sentia o Poder da mensagem).
Cada um por mim falou como se fossem vivos,
E estivessem aqui – foram todos cativos
E eu de todos compus a mais perfeita Imagem.

Hoje eu ainda os tenho ao meu lado e em minha ânsia
De rápido compor sempre em maior constância,
Não dá tempo a seguir de todos um conselho –
As ideias entranço, entravo pensamentos,
Às vezes estou só – nos próximos momentos
Penso como criança e dou ordens de um velho.

Tenho medo me ver no espelho refletido
E ele então me mostrar alguém desconhecido
Pois sinto até mudar as feições de meu rosto.
Sinto tudo mudar do modo mais convulso,
Aceleram demais os toques em meu pulso
E eu mesmo chego a ser um Poeta composto.

Fico desesperado. Outras vezes me espraio...
Sinto-me flutuar – no mesmo instante caio
Para ser gladiador em épocas remotas...
Depois sou jardineiro e amo todas as flores,
Após sou D. Juan, quero ter mil amores,
Por fim sou Armador e comando dez frotas!

Amigo! Como estou fluindo nas idéias...
É que meu corpo está travado em epopéias
Em tempos que não sei, num País não sei onde...
Insensível estou a tudo e a todos. Grito.
E meu grito, porém, rebate o Infinito
Volta dentro de mim, dentro de mim se esconde.

Pareço uma fornalha, uma enorme fornalha
Produzindo aço gusa e entre tanta limalha,
Por três turnos trabalho ininterruptamente.
– Sou Eu! – Não sou! – Não sei! – Quem por mim ora fala?
– Se eu gritar para o céu a minha voz se cala
Em mim eu não estou nesse tempo Presente!

Penso ser um Corsário, ou serei um Pirata?
Um Cavaleiro antigo? Um Quixote de lata
Com mil fitas azuis amarradas à farda?
A mancha de meu corpo é o Original Pecado?
Ah, será que terei meu tempo terminado?
Atrás do céu azul que Mistério me aguarda?

Respostas não conheço e não sei o que sinto.
Parece que o Vulcão dentro de mim é extinto
E eu não sei contornar tudo o que me acontece.
Todos venham a mim! Mostrem-me suas faces!
Oh, Sobrenaturais, surjam em brancos passes
Vamos juntos rezar nossa bendita prece!

Apareçam por fim! A idéia está completa.
Quem foi que agora veio e me deixou Poeta?
Quem foi que veio em mim? Apareçam, respondam...
Não podem se mostrar? Pois bem, findo o meu verso
Podem todos partir para a Luz do Universo
Mas todos, por favor, nunca de mim se escondam.

28.02.1989



Esio Antonio Pezzato

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