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4 de abril de 2014

O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot

Nesta época de Quaresma, quando celebramos a morte e a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, como reflexão deixo aqui para os amigos, em sua totalidade, o meu poema, o meu Evangelho. Espero que leiam, embora seja um tanto longo, o que escrevi cheio de Fé, Esperança e Caridade. Esio

              Spes

 

 

                 I

 

 


Eu – Judas Ish-Kiriot – Apóstolo de Cristo,

Para o povo cristão unicamente existo

Como o grande traidor do aguardado Messias;

E há dois mil anos sofro entre ódios e agonias,

Mas a minh’alma ainda em prantos grita e berra,

E eu não tenho sossego andando pela terra.

 

Para tentar mostrar minha visão dos fatos

E assim esclarecer o porquê de meus atos,

Necessário se faz, embora um tanto velho,

Que eu deixe por herança o meu próprio Evangelho

Com a certeza de ser pelo mundo perdoado

E assim eu possa ter meu sono sossegado.


Vivendo em K’far Nahum, numa ansiedade brusca,

Procurava encontrar, em minha insana busca,

As palavras de Deus nas vozes dos Profetas;

E eram tantos Rabis com mensagens completas,

Que confuso fiquei e, em delírio supremo,

Busquei me aconselhar com o velho Nicodemo!

 

E ele disse-me assim, à luz de velho archote:

– “Abre teu coração, oh! Judas Ish-Kiriot!

Precisas compreender as palavras divinas,

Pois elas valem mais do que o ouro das minas.

Busca os vales da Luz, da Palavra Sagrada,

E encontrarás a Vida ao longo da jornada!

Ah! Judas Ish-Kiriot, em meio às veleidades,

Haverás de encontrar tuas santas verdades.

Sossega a tua busca incessante, que em dias.

Irás reconhecer o aguardado Messias!”

 

Soube que Ele surgiu, sem provocar alarde,

Bem quando, no Jordão, Batista, numa tarde,

Pregava à multidão que em êxtase o seguia...

E quando o sol, no céu, lentamente, morria,

A quem estava perto o Profeta clamava:

– “Eu sou somente a voz que da verdade é escrava.

Em breve há de surgir, e com poder mais forte,

Aquele que será maior que a própria morte!”

 

Nisto, adentra o Jordão, para ser batizado,

Em silêncio, Jesus e se põe ajoelhado...

Estremece Batista e diz em tom profundo:

– “Este É o que vai tirar os pecados do mundo!...”

E, quando O batizou, veio o Espírito Santo

Riscando o céu num voo e pousou em Seu manto...

E em silêncio depois, tomando um rumo incerto,

Dizem que foi orar na aridez do deserto...

 

E, alimentando assim os meus sonhos mais belos,

Eu pensei encontrá-Lo em suntuosos castelos,

Pois o Ungido devia aparecer em Glória

Para, com Leis de Fogo, iluminar a História!

 

Haveria de ser maior e bem mais forte

Que Elias e Moisés! Sobrepujar a morte!

E, aos eleitos de Deus, no momento preciso,

Contente apresentar o eterno paraíso!

 

E eis que um dia eu O vejo!... Em júbilos e em festa,

A minh’alma de luz celestial se infesta...

Ele fitava o mar que se estendia imenso

Até encontrar o céu... Seu magnetismo intenso

Causava sensação estranha em quem O via...

Um fundo e firme olhar em frêmito fulgia,

Porém, à multidão, causava espanto e medo.

Por mais de quarto de hora, O fitei em segredo,

Tentando desvendar as Suas atitudes:

Não parecia ter as supremas virtudes

De um poderoso Rei... Demonstrava cansaço...

Por sobre o corpo forte e exuberante em traço,

Uma túnica velha e surrada O cobria...

Houve em meu coração um misto de alegria

E decepção... Acaso Aquele era o Rabino

A quem tentava atar meu sonho e meu destino?

Não poderia um Rei ser na vida tão pobre!

Mas a Sua altivez, carismática e nobre,

Fez-me pensar enfim que um excêntrico Ele era:

Tinha palácios, sim, mas morava em tapera:

Tinha jóias de luz de lapidada lavra,

Mas Seu maior tesouro era o dom da Palavra!

 

Então medi-O bem: Seus passos alongados

Deviam reunir rebanhos dissipados;

Seus pés, sujos de terra, a desvendar caminhos,

Trilhavam, sem cessar, por estradas de espinhos...

 

Sigo Seus passos; firme, Ele me olha e me aponta

E, ao ouvir Sua voz, minh’alma fica tonta.

 

Tiago, Pedro e João não O largam por nada.

(E eu também, preso à Fé, com a vida encantada,

O começo a seguir...)

                                         E por três longos anos

Parábolas nos disse em mais diversos planos...

Mas estas vinham sempre a confundir o povo.

E às Palavras das Leis dava um conceito novo.

Discutindo a Torá nas velhas Sinagogas,

Resplandecia em luz com Suas alvas togas,

Até que um dia, o povo, estorcegando os pulsos,

Após o Seu sermão, fez-nos todos expulsos

E os velhos fariseus ficaram aloucados

Com aquele Rabi de sermões inspirados.

Seu verbo era de fogo e a todos os presentes

Exultava em silêncio às perguntas pungentes.

 

Um dia, um fariseu, tentando-O ver confuso,

Ao Mestre formulou em acintoso abuso:

– “É lícito pagar a César os tributos?”

Cristo, porém, pensando e com gestos astutos:

– “Mostre-me uma moeda e eu dar-te-ei a resposta!”

E após, tendo nas mãos áurea moeda exposta,

Em brados perguntou: – “É de quem esta imagem?”

Responde o fariseu com expressão selvagem:

– “É de César!” E o Mestre em plena voz de ensino:

– “Somente dá-se a Deus o que é puro e divino!”

 

Estávamos ainda os laços estreitando

De amizade e ternura, amor e crença, quando,

Com Ele, certa vez, fomos nós a umas bodas

Em Canaã. Lá chegando as atitudes todas

Eram entre os demais convivas. Assustados,

Nós, intrusos ali, do Mestre convidados,

Ficamos contemplando entre brilhos imensos,

As danças nos salões. Entre lustres suspensos

Fortes fachos de luz fulminavam no ambiente.

Comia-se à vontade. O vinho rescendente

Em taças a espumar os ares embriagava.

De Jesus, Sua mãe, com todos conversava.

 

Horas tantas da noite e Maria é chamada.

Sai e retorna logo. Ardia a madrugada.

Ela chega até nós e diz quase em segredo

Para Jesus ouvir: –“Meu Filho, ainda é cedo,

Mas as tinas de vinho estão todas vazias;

Que podes Tu fazer? Prazeres e alegrias

 

Não podem combinar sem que se sirvam vinho!”

Jesus se levantou, com gesto de carinho

À Sua Mãe falou. – “O que queres que eu faça?”

Ela disse a sorrir: –“Que se encham cada taça,

E assim irá deixar feliz cada conviva!”

Jesus fitou-a firme e de forma afetiva:

–“Não é chegada, Mãe, com certeza, minha hora,

Por que me pedes isso?” E Maria, Senhora

Do momento Lhe diz – “Se é muito que te peço

Mais devias fazer. Bem sabes que mereço

Que faças Tu por mim este simples desejo.”

(E enlaçou-O feliz, pondo em Seu rosto um beijo!)

Jesus sorriu e disse à sua mãe querida:

– “Logo parto a viver junto aos meus Minha vida,

Mas vou te obedecer...” Em murmúrio se rende

Com sua firme voz que a ternura recende...

Maria sorridente atravessa a ampla sala

E diz a um servidor – “faça como Ele fala!”

Esse, em silêncio vem e ouve a voz cristalina

De Jesus: –“Enchei d’água essa primeira tina,

E as outras mais depois, e após encheis as taças,

E ides oferecer com nossas grandes graças

Àquele que na mesa é o Senhor desta festa.”

Os servidores rindo e, seguindo de fresta,

Olhavam-se entre si duvidavam de tudo.

Todos eles, porém, com firme olhar agudo,

Foram servir à mesa o senhor, que tomando

Uma taça emborcou-a e, parado e cismando

Chamou o noivo e disse: –“É justo que primeiro

Sirva-se o vinho bom e de agradável cheiro,

Para servir depois o que menos agrade,

E aquele que tiver a pior qualidade,

Ao contrário, porém, fizeste até est’hora:

O vinho bom guardaste e, só o serviste agora...”

 

Ao vermos cena tal, ficamos nós com medos.

Eu olhava Tomé com cismas e segredos

Tentando compreender com a mente em remoinho:

– “Como pode fazer que água transmude em vinho?”

 

A mim Cristo chegou com o olhar cheio de graça:

–“Toma, Judas, nas mãos, e bebe desta taça!”

 

Foi assim que Jesus deu luz à Sua glória


E O vimos iniciar Sua Divina história...

 

Na manhã do outro dia, Ele foi à montanha

Para poder rezar. Depois, de forma estranha,

A todos nos reuniu. Da multidão imensa

Que estava a acompanhá-Lo, Ele, em palavra densa

Passou a nos chamar.

                                    Eu estava tranquilo,

Saiba que ia ser escolhido a segui-Lo...

 

E após Doze escolher dentre tantos presentes,

Ele nos abraçou e nos fez confidentes.

E era somente a nós que Ele se dirigia

Desde o nascer de um dia ao nascer de outro dia.

 

Os fiéis de João – o Batista – confusos,

Tremiam, ao ouvir, os Seus verbos difusos!

Em certa ocasião, de forma única e estranha,

Ao povo declamou versos pela Montanha

E, com sonora voz repleta de esperanças,

A todos ensinou as bem-aventuranças:

 

– “Aventurado seja o de espírito pobre,

Porque o reino do céu com ternuras o cobre;

Aventurado seja o que caminha aflito,

Pois consolo terá ao ser chamado bendito;

 
Aventurado seja o pobre, o humilde e o manso,

Que a eles Deus dará seu mais fértil remanso;

Aventurado seja o que padece em fome,

Porque no céu será chamado pelo nome;

Aventurado seja o que clama a justiça,

Porque a sede de amor, no Eterno, também viça;

Aventurado sempre o misericordioso,

Porque em misericórdia irá viver glorioso;

Aventurado seja o de espírito puro,

Pois viverá em Deus, nos dias do futuro;

Aventurado sempre o que põe paz no mundo,

Porque, filho de Deus, terá o amor profundo;

Aventurado em luz quem vive perseguido,

Porque terá na terra o caminho florido;

Aventurado todo o que recebe ofensa,

Porque terá de Deus, sublime recompensa!”

 

Nós, num êxtase puro e tomados de espanto,

O ouvimos continuar o Seu supremo canto:

 

– “Vós sois o sal da terra! e em verdade vos falo:

Se o sal perder sabor, como recuperá-lo?

Vós sois a luz do mundo! e eu vos digo em verdade:

No alto céu não se esconde, acesa, uma cidade!

Por isso quero, enfim, que a luz seja constante

Em vossos corações, instante após instante!

 

– “Peço que não deixeis tesouros amontoados,

Porque a ferrugem vem, ou podem ser roubados;

Porém acumulai no céu vosso tesouro,

Que nem traça e nem roubo irão vos dar desdouro!

 

– “Vossos olhos serão as lâmpadas para a alma:

Se os olhos forem bons, podeis seguir com calma!

A dois patrões ninguém terá afeição sincera!

No inverno não se tem a cor da primavera!

 

– “Aquele que tiver mais de uma roupa em casa,

Entregue-a a seu irmão, que o amor assim abrasa;

Não vos preocupeis em relação à vida:

Não faltarão na ceia a comida e a bebida.

Não vale a vida mais do que o próprio alimento?

Vede as aves do céu! Todas têm seu sustento.

Não semeiam o grão nem fazem a colheita.

E Deus não as sustenta, as colore e as enfeita?

E por ventura vós não valeis mais do que elas?

Quem, dentre vós, consegue, através de procelas,

Viver um pouco mais a sua própria vida?

Olhai a mata – a mesma está toda florida!

E ela jamais se cansa em mudar sua imagem.

Vede os lírios do campo em lírica roupagem,

Porém, nem Salomão, amontoado em ouro,

Em sua vida teve um mais rico tesouro!

 

E, se Deus veste assim a flor que está com vale,

E tem vida tão curta e amanhã nada vale,

Homens de pouca fé! Por que ficais com medo?

Comer, beber, vestir... a Deus não faz segredo.

Vosso pai sabe, sim, vossas necessidades.

E o dia de amanhã trará suas verdades!

 

– “A todos vós que estais me ouvindo, agora eu digo:

Amai e perdoai quem for vosso inimigo.

Fazei também o bem para quem vos odeia.

Ao que falar-vos mal, estendei a mão cheia

E uma oração fazei para quem vos infama,

Pois vosso coração é do amor rubra chama!

 

– “E, se alguém agredir vossa face direita,

A esquerda oferecei para nova desfeita;

Ao que vos arrancar dos ombros a manta única,

Não recusai também de lhe ofertar a túnica!

Dai sempre a quem vos pede alguma coisa em pranto

E jamais reclameis de quem vos rouba o encanto;

Para os outros fazei o que sonhais na vida

E a eles ensinai a estrada mais florida!

 

– “Se amais o que vos ama, isto não traz vantagem.

Pecadores também das mesmas formas agem;

E, se emprestais sonhando os lucros no futuro,

Agiotas também sonham com o alto juro.

 
Emprestai sem pensar em quaisquer recompensas,

Que o Altíssimo, então, vos cobrirá de crenças!

 

– “Peço que não julgueis e não sereis julgados.

Perdoai e sereis pelo Pai perdoados,

Atendei com prazer os pobres e oprimidos,

Pois desta forma ireis ser, um dia, medidos!

 

– “Não entregueis aos cães o que é divino e santo,

Também não atireis – em tenebroso espanto! –

As pérolas de luz aos porcos, pois seria

Insano cometer escabrosa heresia!

 

– “Se pedirdes com fé, tereis aberta a porta,

Pois aquele que pede e em oração exorta,

Jamais terá de volta os guizos das serpentes,

Muito menos terá fero ranger de dentes.

Se, sabeis ofertar o bem aos vossos filhos,

O Pai que está nos céus, vos cobrirá de brilhos.

 

– “Também vos digo agora: existem dois caminhos,

Mas no rumo do Bem, nunca estareis sozinhos.

Muitos seguem, porém pela estrada ampla e aberta,

Contudo ela conduz a uma estação deserta.

É de fato apertada, a estrada a ser seguida,

Porém, nela é que brilha a esperança perdida.

  

– “Também na vida existe a iníqua falsidade,

E muitos corações repletos de maldade.

Aparentando ser ovelhas entre oásis,

Muitos apenas são cruéis lobos vorazes.

 

– “Não se pode encontrar uvas nos espinheiros,

Nem da urtiga colher os figos prazenteiros.

Assim a árvore boa é que produz bons frutos,

E oferece o seu sumo em todos os tributos.

 

– “Afastai-vos de quem fizer iniquidade,

Pois o reino do céu abre a porta à bondade!

Os que dizem Senhor! Senhor! Também vos digo:

No reino de Meu Pai, não acharão abrigo.

 

– “O que ouve a minha voz, e no amor desabrocha,

E aquele que constrói o seu lar numa rocha,

Nem a chuva, a cair, nem também a enxurrada,

Irá deixá-los sós na densa madrugada.

 

– “Pode um cego guiar outro cego na trilha?

Os dois não vão cair na primeira armadilha?

E por que reparais no cisco em olho alheio

Se a trave em vosso olhar vive a causar-vos freio?

Assim como quereis, pedir, com gesto grave,

Para o cisco tirar se em vós trazeis a trave?

Hipócritas! Tirai a trave a vossa vista

Para poderdes ter da vida áurea conquista!”

 

E, quando alguém he pediu o ensino de uma reza,

Ele, calmo, falou com ternura e beleza:

– “Padre nosso que estais nos céus, santificado

O Vosso nome seja!...”

                                      E o povo alucinado

Passou a acompanhá-Lo em praias e deserto,

Que o Seu verbo era puro e o Seu verbo era certo!

 
        ***

                         Fides



               II

 
 

Depois de declamar os versos na montanha,

O Seu rosto mantinha uma expressão estranha...

 

Um leproso chegou sem provocar alarme:

– “Se quiseres, Senhor, Tu poderás curar-me!”

Cristo estendeu-lhe as mãos e, com voz de ternura:
– “Eu quero, estás curado!” e na mesma hora a cura

Da lepra aconteceu... Disse-lhe então com calma

O Mestre: – “hoje também te curei a própria alma!”

 

Entrando, em K’far-Nahum, um centurião que tinha

O seu filho acamado e a doença o sustinha,

Implorou que Jesus cessasse-lhe o tormento.

Respondeu-lhe Jesus: – “Vamos neste momento

Visitar tua casa e assim irei curá-lo!”

Porém, o centurião em plena voz de abalo:

– “Não sou digno, Senhor, que adentreis minha casa,

Mas dize uma palavra à angústia que me abrasa

Por que eu, Senhor, que sou um soldado somente,

Dou ordens a quem é também meu subserviente;

E quando digo – Vai! – ele vai; e a outro digo

– Vem! – ele vem; – Faça isto! – e ele faz como amigo!”

Ouvindo frases tais, nosso mestre, admirado,

Aos que O seguiam disse enlevando o soldado:

– “Eu vos declaro agora esta santa verdade:

Tamanha fé não vi em toda a humanidade!”

E fala ao centurião com Sua voz flamante:

– “Que seja feito como imploras neste instante!”

 

Depois multiplicou pães e peixes à turba

Que O seguia (e isto a mim ainda muito perturba

Por não ter visto tal milagre realizado...)

E por onde passava ia sendo aclamado

O Filho de David! ou o Profeta Elias!...

Porém davam vergonha as Suas companhias:

Prostitutas, ladrões, leprosos, pecadores...

(E isto aos homens de bem sempre causava horrores.) 

 

Imaginem Irmão, que o Sábado sagrado,

Pelo nosso Rabi, veio a ser ultrajado.

Ele, porém, mantendo a calma e a sapiência,

Nos dava explicações de enorme inteligência:

– “O homem foi feito para o Sábado!

                                                         Se acaso

Um Pastor, ao voltar à tardinha, no ocaso,

Em seu rebanho der por falta de uma ovelha,

Ele não sairá, à luz que se avermelha,

A procurá-la? Ouvi, incrédulos, vos digo:

– Eu sou o bom Pastor e da paz sou abrigo!”

 

N´outro sábado, junto a nós todos, colhia

Espigas, mas, com dura e fera hipocrisia,

Insanos fariseus gritavam: – “Não é certo

No sábado colher!...” Mas Cristo, vindo perto

De todos eles, disse, em voz firme e segura:

– “Bem sabeis que David, de forma clara e pura

Quando fome sentiu, entrou no Templo a ess’hora

E junto aos seus comeu dos santos pães. Agora,

O Filho do homem que é Senhor de cada dia

Não poderá colher da espiga que O sacia?”

 

Depois a Ele chegou um pobre homem que tinha

Sua mão ressecada e, de forma mesquinha,

Os tolos fariseus e os escribas atentos

Ficaram de Jesus olhando os movimentos

Somente para ver se Ele iria curá-lo.

Porém disse Jesus a provocar abalo:

– “Levanta-te e, te pões de pé aqui no meio!”

Para todos depois falou em doce enleio:

 – “É ilícito fazer no sábado a bondade?”

Como ninguém ateve à sua autoridade:

– “Estende a tua mão!” Com voz firme Ele disse...

E o homem, tendo no olhar a força da crendice,

Estendeu-a e se viu, naquele mesmo instante,

A cura acontecer.

                  De forma delirante,

Escribas, com furor e com macabra sorte,

Passaram a tramar de Cristo a Sua morte.

 

Em certa ocasião Lhe trouxeram um cego

Para que Ele o tocasse, e o Mestre com apego,

Tomando-o pela mão retirou-o da aldeia

E, misturando após saliva com areia,

Nos olhos esfregou do que em treva vivia.

E disse-lhe depois com a voz em harmonia:

– “O que enxergas, amigo?” E os olhos levantando,

Com êxtase de luz ao Mestre foi falando:

– “Vejo tudo, Senhor, homens, pássaros, flores

E como a vida é bela e tem milhões de cores!

Depois o despediu e com a voz de pluma:

– “Se alguém t’o perguntar não digas coisa alguma!”

 

Depois seguimos nós presos em mil conflitos

A Nazaré. O povo, ao vê-Lo, em fortes gritos

Clamava que Jesus obrasse suas curas.

Porém, na Sinagoga, ao ler as Escrituras

Assim manifestou-se em gesto sempiterno:

– “Paira em minha cabeça o Espírito do Eterno!

Ele me consagrou com óleo puro e santo

Para aos pobres levar a Boa Nova; tanto

Que Ele aqui me enviou e para os prisioneiros

Trago a libertação! Trago aos cegos luzeiros

Para os iluminar em caminhos perdidos,

E trago a liberdade aos presos e oprimidos.

As graças do Senhor a todos sou preciso,

Sempre buscando dar um sentindo conciso!

O que acabais de ouvir, da Escritura a mensagem,

Hoje cumpriu-se aqui, decerto, esta passagem!”

 

Porém na Sinagoga os fariseus presentes

Inquiriram Jesus com modos contundentes.

 

Apos sua Palavra, alguns, maravilhados,

Chamavam-No Rabino... e outros, desesperados:

 

– “Esse acaso não é o filho do carpinteiro?”

E Ele lhes respondeu tendo à voz um braseiro:

– “Estúpidos sois vós! Viveis vagando a esmo

E quereis que eu pratique o milagre em mim mesmo?

Quereis que Eu faça o que em K’far Nahum foi feito?

(E enquanto ele falava exacerbava o peito...)

Eu vou declaro aqui: não há nenhum profeta

Que em sua terra tenha a aceitação correta.

 

– “Sequer em Israel, eu vou afirmo agora,

Quando o céu negrejou e em trevas fez-se a aurora,

A fome devastou matando muitas vidas,

E a terra estertorou estourando em feridas,

Elias pelos seus, a Sidon foi enviado

Não podendo cuidar de seu povo adorado!”

 

A ouvir palavras tais em cólera e com fúria

O povo blasfemava e cometia injúria.

Neste momento nós, conscientes do perigo,

Colocamos Jesus num protegido abrigo.

 

O Rabino, porém, provocava ameaças

Quando punha a pregar ao povo pelas Praças.

 

Indo a Jerusalém, perto de Samaria,

Entrando numa aldeia onde a doença frigia,

Puseram-se entre nós dez leprosos clamando:

– “Tem compaixão de nós, que vivemos errando,

Nem podemos viver juntos de nossos filhos.

E, o Mestre, olhando triste, aqueles maltrapilhos,

Disse-lhes com carinho: – “Ide até os sacerdotes...”

E partiram... E logo ao clarão dos archotes

A cura aconteceu e, um deles retornando,

Ao Mestre agradeceu e a Deus quedou-se orando...

Perguntou-lhe Jesus: – “Não foram dez curados,

Os outros onde estão?” E disse em altos brados:
– “Somente um retornou para dar suas glórias

Ao Deus que está no céu... Ó geração de escórias!”

 

Estávamos à noite, ao seu redor reunidos,

Ouvindo os seus sermões quando altos alaridos

Chegaram até nós e medrosos, ficamos,

Quando vimos descer, do telhado, em reclamos,

Um homem numa cama.

                                       Um burburinho imenso

Povoou todo o local e, com seu verbo tenso,

O Mestre a ele falou pondo-nos assustados:

 – “Teus pecados, amigo, estão todos perdoados!”

Porém susto maior tiveram os presentes,

Começando a gritar com  modos contundentes:

–“Quem ele pensa que é? Somente Deus, sabemos,

Pode ter o Poder de agir com tais extremos

E pecados perdoar... E este que agora fala

E com frases hostis o nosso povo abala

Não é aquele Jesus, filho do carpinteiro?

Só pode ser um louco, um tolo faroleiro;

Como filho de Deus, porém, ele propaga

Sobre o Amor e o Perdão!  Ah, que nefasta praga

Esses profetas são! falsos e moralistas

Induzem nosso povo a seguir falsas pistas.

 

– “Contudo, este Jesus já por demais abusa:

As proféticas Leis para o seu bem as usa

E ficamos aqui como idiotas... Mais dia,

Menos dia, por certo, ele se torna guia

De enorme multidão, de bando bem armado

E terá o seu reino e se fará coroado...

Muito melhor será dar um fim a isto tudo

E este louco Jesus ao povo ficar mudo...”

 

Tentei intimidar o povo com meus gestos

E outros fiéis do também bradava manifestos.

Porém Ele pediu silêncio (e sua forma

De sempre influenciar pairava como norma).

Depois calmo falou: – “Em verdade vos digo

Que é mais fácil dizer a quem se diz amigo:

      Levanta-te e anda ou teus pecados são perdoados?

Mas, para que saibais (e agora em altos brados

Tornou a Sua voz) dos poderes que tenho,

 – Por isso estou aqui e junto a vós eu venho –

Eu digo a este aleijão: (Sua voz torna brasa)

Anda, toma o teu leito e volta para casa!”

 

Em certa ocasião, era de madrugada,

Íamos a Betsaida e Ele, com voz pausada,

De enorme multidão que Lhe tinha a alma escrava,

E por isso, com fé e amor, o acompanhava

Foi a se despedir... Nós, porém, em mar alto,

Assustados, com medo, em pleno sobressalto,

Um vulto vimos vir sobre as águas andando.

Os nossos corações palpitantes, gritando,

Recorriam aos céus... nossa voz, forte e pasma,

Denunciava, tremendo, estar vendo um fantasma!

 

Logo, porém, Jesus, calmo, falou: – “Coragem,

Sou Eu, não tenhais medo...” e, lembrando miragem,

Sobre as águas, pairava... E Pedro, como louco

Em transe, pôs-se em pé e gritou forte e rouco:

– “Se és Tu mesmo Senhor, faze que eu vá Contigo!”

Respondeu-lhe Jesus: – “Vem, Pedro, meu amigo!”

 

Estupefatos nós vimos Pedro atirar-se

Sobre as águas do mar, sem procurar disfarce

Que pudesse ocultar toda a sua euforia...

(Eu também quis provar a mim que poderia

Sobre as águas andar, porém um vento forte

Fez crescer na minh’alma o medo e o horror da morte).

 

Neste momento então, vi Pedro, amedrontado,

Frente à fúria do mar, ficar apavorado...

Percebendo faltar-lhe o chão e percebendo

Começar a afundar, gritou, com a voz tremendo:

– “Ai, me salva, Senhor!...” e assim, calmo, radiante,

Cristo estendeu-lhe as mãos e o segurou confiante:

– “Homem de pouca Fé, por que tu duvidaste? 

 

Disse e, no mesmo instante, o mar formou contraste

À fúria que o tomava, e eu, de maneira ardente,

Passei a acreditar que, verdadeiramente,

Jesus era de fato o aguardado Messias

Que estava prometido em velhas profecias.

 

Maria, de Migdal, ungia-O com perfumes

E isto deixava a nós mortalmente com ciúmes;

Porém nosso Rabi aceitava tal gesto

Calando a nossa voz de qualquer manifesto.

E Ele a nós se voltava e dizia severo:

– “O que ela agora faz com amor, com esmero,

Vós não fazeis por mim. Ela, porém, me beija

Os pés e com carinho o meu amor festeja!”

 

De outra vez, protegeu profana pecadora

Que iam apedrejar. E Ele, então, sem demora,

Ele, vendo a mulher que a Seus pés se achegava,

Disse, com firme voz, à massa que a acusava:

– “Quem dentre vós tiver nenhum pecado em vida

Tome a primeira pedra e atire-a sem medida!”

 

Em silêncio, depois, com gestos calmos, ledos,

Começou a escrever na areia, com Seus dedos...

Vendo todos depois se afastando calados,

Disse à pobre mulher: – “Não faça mais pecados!”

 

Em certa ocasião, vínhamos pela estrada,

Quando Marta nos chega e clama angustiada:

– “Senhor, o Teu amigo, aquele que amas tanto,

Lázaro, faleceu...” Desfazendo-se, em pranto,

Atirou-se a Seus pés... E o Mestre, olhando-a triste,

Disse: – “Lázaro dorme!” E Marta ainda insiste

Em dizer que, se o Mestre estivesse presente,

Nada disso teria acontecido. Crente

Ele a ergue do chão e diz, com paz enorme:

– “Lázaro não morreu, Marta. Ele apenas dorme!”

Depois, com emoção, disse, com a voz transida:

– “Sou a Ressurreição e também Sou a Vida!”

E indo à tumba de pedra, em expressões sonoras,

Reza e entre brados diz: –“Lázare, veni foras!”

E, da tumba saindo, aquela múmia branca

Interjeições de assombro a toda a turba arranca!

 

Certa vez acalmou no mar a tempestade

E isso a todos causou estupor e ansiedade:

Vínhamos todos nós em largo mar aberto

Mas de repente o céu, de negrumes coberto

Começou a jorrar raios, trovões, coriscos,

Relâmpagos febris teciam longos riscos

E estatelavam fogo em contato das ondas.

Parecia que o céu prendia o mar em sondas

E íamos afundar... Nosso barco dançava...

Em delírios febris, nossa angústia era escrava

 

Do medo mais feroz, de cruel covardia,

E as trevas, em furor, encobriam o dia...

 

Apavorados nós estávamos tomados...

Parecia que a morte – em transes indomados! –

Pousaria na barca e Pedro, em fortes gritos,

Começou a bradar tendo gestos aflitos:

– “Senhor! Senhor! Senhor! De nós tende piedade

Que vamos perecer na densa tempestade!”

No entanto Ele dormia e era calmo e sereno

Naquele turbilhão, o olhar do Nazareno.

 

Porém Ele acordou do sono em sobressalto

Quando de Pedro ouvir seus brados em assalto.

 

Respondeu-nos Jesus: – “Por que ficais com medo,

Homens podres de fé!” E, num forte arremedo

Mandou que o mar insano e que o vento fremente

Se acalmassem... E assim num mágico repente

Ficou sereno o mar, aquietou-se o vento,

E a calma aconteceu num rápido momento.

 

E Tomé retrucou mais fazendo uma prece:

– “Quem é Este a quem do tempo a borrasca obedece?”

 

Depois para mostrar a Sua autoridade,

Demônios expulsou nas ruas da cidade.

 

De outra feita, cansado e com fome, Ele, à beira

Da estrada, amaldiçoou centenária figueira,

Tendo gestos nas mãos, com vocábulos brutos,

Simplesmente porque ela não tinha frutos

Que pudessem matar, no instante, a Sua fome;

E a isto a minh’alma em fogo entre fúrias consome.

E Ele disse a ferir depois, nossas entranhas:
– “Se vós tiverdes fé transportareis montanhas!”

 

Estando certa vez à beirada do lago

Genesaré, com o povo a Lhe fazer afago,

Ouviu reclamações de velhos pescadores

E Simão Pedro vinha a blasfemar horrores,

Pois nas redes sequer um peixe havia preso.

Mas eis que o Mestre fala a Pedro (que surpreso,

Com a Sua presença, a voz cala de pronto)

–“Vamos de volta ao lago.” E assim, num quase afronto

Pedro lhe diz: – “Senhor, durante toda a noite,

Ficamos a pescar, e o vento em rijo açoite,

Nosso corpo feriu e não pegamos nada!”

Mas, o Mestre Jesus, com voz calma, pausada:

– “Põe o barco no lago e estende a tua rede!”

Assim a contragosto e Simão Pedro cede,

E, com a rede estendida, os peixes num enxame,

Pareciam romper as cordas do velame.

 

Tamanha foi a pesca e, os peixes eram tantos,

Que Pedro em alta voz e repleto de encantos,

Começou a chamar diversos companheiros

Para a rede arrastar, e todos os barqueiros,

Ficaram com pavor deste acontecimento;

Por fim Pedro falou ao Mestre num momento:

– “Retira-te de mim, Senhor, eis que na vida

Sou pobre pescador!” E com voz comovida

O Mestre respondeu-lhe: – “És tolo nesse medo

Porque de agora em diante (e apontava-lhe o dedo)

Tu serás pescador de homens e também de almas...

... Neste momento o céu raiava em cores calmas!...

 

Em certa ocasião, no Olivote reunidos,

O Mestre nos contava episódios floridos

E, em parábolas mil, abria nossas vistas,

Com conselhos de amor para imensas conquistas.

Atentos todos nós estávamos; foi quando

Um nosso amigo foi precípite chegando:

 –“Mestre, Mestre, o Senhor não sabe ainda do fato,

Mas houve no palácio atroz assassinato

E, Batista, Senhor, entre nós não é vivo!...”

Com fúria em sua voz, da tristeza cativo

(Como jamais pensei que fosse vê-Lo um dia),

Ele, enfim, soluçou em pálida agonia:

 – “Era meu Primo amado e, ao dizer a verdade,

Fez Antipas criar tamanha atrocidade!...”

 

Falando isso, saiu para um canto e fremente,

Solitário chorou amarguradamente...

 

Certa vez, Barrabás, um revolucionário,

Veio ter até nós. O seu semblante vário

E feroz rugitava... Ante o Mestre perfila;

Cristo, porém, mantém a aparência tranquila.

– “Mestre”, diz Barrabás, “o Teu poder é forte!

Se fizermos união de forças, nem a morte

Poderá nos vencer. Tenho muitos soldados

Prontos para uma ação. Estamos preparados

Para entrar no palácio e dar fim aos romanos.

Vamos arquitetar unidos nossos planos,

Herodes esmagar e trucidar Pilatos!”

– “Barrabás” diz Jesus, “refreia esses teus atos!

Tu não irás vencer com lâminas brunidas,

Pois elas ceifarão mil inocentes vidas!

Vem a Mim, Barrabás, sem espadas, sem lanças!

Na fé vamos viver com nossas esperanças!”

 

Mas Barrabás renega unir-se ao Mestre e a guerra

Promete realizar sobre a face da terra.

 

Certa vez, de manhã, após ter acordado,

Tranquilo Ele ficou recordando o passado.

À Sua volta, nós, em êxtase, silentes,

Quedamos-nos a ouvir relatos esplendentes.

 

E, com o olhar brilhando e perdido a distância,

Nos recordava o Mestre a Sua bela infância.

E foi assim que ouvi tristonho e comovido,

Que ao Egito fugiu quando foi perseguido

E ainda, para aumentar minhas desesperanças,

Soube que houve uma atroz matança de crianças.

Mais tarde se mudou para um país sereno

De onde passou a ser chamado – o Nazareno!

Certa vez, com Seus pais, foi visitar o Templo

E lá foi consagrado ao Senhor, como exemplo,

E levava nas mãos, a afagar com carinhos,

Para dar ao Senhor, um casal de pombinhos!

 

Depois, um ancião, carregando-O nos braços,

Ergueu-O para o céu, Lhe deu fortes abraços

E agradeceu a Deus dizendo em forte brado:

– “Posso agora morrer tranquilo e sossegado,

A Salvação da Vida hoje o mundo ilumina,

A glória de Israel é pura e cristalina!”

 

Depois, O abençoou e falou à Maria:

– “Vosso Filho há de ser a Luz de um novo dia!”

 

E velha profetisa em avançada idade

Vendo-O exultava aos céus sua felicidade

E Dele ela falava em êxtase profundo:

– “Oh! Redentor de Israel, oh! Salvador do Mundo!”

 

E mais Ele falava entre suas lembranças,

Quando chegou sorrindo um bando de crianças...

 

  Vínhamos certa vez entrando na cidade,

  Quando chega até nós, implorando piedade,

  Conhecido judeu que se chamava Jairo.

  Vinha desesperado, as feições num desvairo,

  No coração, a dor de ter perdido a filha.

  – “Senhor! (e enquanto brada a sua angústia rilha)

 Minha filha morreu, Tu só podes salvá-la!”

  E, enquanto ouvia a sua angustiosa fala,

  Exultei e pensei: – “Deste instante não passa,

  Pois irei contemplar todo o Poder da Graça!

  Eu estou junto d’Ele e sei que vai, agora,

  Dar fim à imensa dor que aquele peito irrora!”

 

  Com passos calmos, Ele abriu o Seu caminho;

  Chegando à casa, havia enorme burburinho:

   – “Onde ela está?” – “No quarto!” O pai disse-Lhe em pranto.

  Ao que o Mestre falou com suavidade e encanto:

  – “Sua filhinha dorme!” A multidão que O ouvia

  Começou a zombar com risos de ironia...

  Mas Ele entrou no quarto um instante somente

  E retornou, trazendo ao colo, sorridente,

  Assim que atravessou o quarto pela porta,

  A menina que havia horas estava morta. 

 

Certa vez, de manhã, estávamos na praça,

E, ao redor do Rabino, o povo, em grande massa,

Atento estava a ouvir o que Ele nos dizia.

Do povo, uma mulher, que muito padecia,

Até o Mestre se achega e toca em Sua veste...

– “Quem foi que me tocou?” Com Sua voz celeste

Nosso Mestre indagou. E, após ser acusada,

A Seus pés, a mulher, sentindo-se curada:

– “Fui eu, Senhor, perdoai-me!” E falou-lhe o Rabino:

– “Tua fé te salvou. Vá seguir teu destino!...”

 

Certa vez, até nós, veio a ter Nicodemo.

(Foi ele quem me fez um fanático extremo

Do Rabino Jesus, que exultava de brilho.)

E disse-Lhe –“Rabi, sabemos que és o Filho

Único do bom Deus, porque ninguém no mundo,

Faz o que o Mestre faz com carinho profundo,

Se o Espírito de Deus não Lhe estiver ao lado!”

E Jesus lhe falou com carinho e cuidado:

 

– “Em verdade suprema o que digo renovo:
Não poderá ver Deus quem não nascer de novo!”

Nicodemo, porém, a ouvir ficou confuso,

E pensou que Jesus lhe falasse em abuso.
–“Porventura, Senhor, devemos novamente

Em nossa mãe voltar, ser outra vez semente,

E nascer outra vez?”

   

                           –“Em verdade, em verdade,

– Respondeu-lhe Jesus com Sua autoridade, –

Quem não renascer d’água e do Espírito Santo

Não haverá de entrar neste reino de encanto

Que é o reino de Deus. O de carne nascido

É tão-somente carne e viverá perdido.

O espírito, porém, é santo e imaculado!”

Nicodemo sorria um tanto atrapalhado:

 

– “E como isso fazer?” E o Mestre com carinho

Ao velho Nicodemo ensinou o caminho:

 

– “És mestre em Israel e estas coisas ignoras?

Em verdade, em verdade, eu digo-te a estas horas:

Se o que dizemos nós é aquilo que sabemos

E damos testemunho e com palavras cremos,

Como não cremos nós na nossa própria fala?

A Palavra de Deus por toda a terra exala

Sua essência de amor; mas se em coisas terrenas,

Eu passo a discorrer, vós não ligais antenas,

Como posso falar das celestiais alturas?

Minhas palavras são as palavras mais puras,

Ninguém desceu do céu senão do homem o Filho

Que traz em Seu olhar, de Deus, o eterno brilho.

 

E assim tal qual Moisés no deserto fremente

Ao seu povo cruel levantou a serpente,

Assim também será Meu poder levantado,

E a Verdade há de ser um mundo iluminado;

Porque assim amou Deus este sublime mundo

Que seu Filho fez carne em seu amor profundo.

Deus não enviou seu Filho a condenar a vida,

Mas para o mundo ter uma estrada florida.

 

– “Quem Nele acreditar não será condenado

Mas quem Nele não crer, digo, já foi julgado,

E é esta a condenação: se a luz ao mundo veio

Para trazer amor, dedicação e anseio,

Não poderá perder para a treva profana.

Aquele que obra mal e o que a virtude engana

E o que aborrece a luz e para a luz não chega,

Há de ter nesta vida a sua vista cega.

Todo aquele, porém, que obrar pela verdade,

Há de chegar à luz de Deus, na Eternidade!”

 

E Ele dizia a nós: – “Eu sou o pão da vida,

Quem comer deste pão terá a glória florida!

O pão é minha carne, e é a vida deste mundo.”

Mas os judeus incréus em seu ódio profundo

Diziam: “como pode, ele falar-nos isso?”

E disse-nos Jesus firmando compromisso:

– “Em verdade, em verdade, eu agora vos digo

Quem do pão não comer não será meu amigo,

Quem come a minha carne e bebe de meu sangue

Há de ter vida eterna e não sofrerá exangue 

E o ressuscitarei no derradeiro dia.

Como o Pai me enviou vos digo em alegria:

Quem comer deste pão viverá eternamente

Porque da vida eterna, eis que sou a semente!”

 

Em certa ocasião, (o sol no céu fulgia),

Convocou novamente a todos e dizia:

– “Ouvi-me todos vós, e entendei o que digo!

Nada que existe fora, oferece perigo,

Mas o que sai do corpo, isso, sim, contamina

Pois brota a podridão e causa horror e ruína!”

 

Mas quando se afastou do povo e entrou em casa,

Perguntamos-Lhe nós com o coração em brasa:

– “Que sentido contém tudo o que a nós disseste,

Pois falaste de horror, de podridão, de peste?”

E Ele nos respondeu com fala mansa e calma:

– “Também não entendeis o que digo com a alma?

Tudo o que entra de fora em alguém não é impuro,

E em verdade suprema Eu agora asseguro:

Não mancha o coração nada que vem de fora,

O alimento é divino e ele nos revigora,

Já que ele não penetra o coração, somente

Segue do ventre à fossa ascosa e pestilente...

 

– “E o que do corpo sai, de forma podre e imunda,

Isso é o que contamina e o coração inunda.

Dentro do coração do homem em vis arroubos,

Saem as prostituições, assassinatos, roubos,

Cobiças, perversões, fraudes, luxúria, inveja,

Calúnia, insensatez e o orgulho que viceja.

Esses males sem fim que tanto nos consomem,

Isso sim é que é podre e é o que contamina o homem!”

 

Pedro uma vez contou-me (e pediu-me segredo)

Um fato que o deixou mortalmente com medo:

Foi no monte Tabor, onde, transfigurado,

Nosso Mestre ficou inteiro iluminado.

Juntos d’Ele, Moisés com o profeta Elias

Exortavam o céu em santas profecias.

E após isto uma voz ecoou como um raio:
– “Este é Meu Filho amado e querido. Escutai-O!”

E Pedro até falou que, se o Mestre quisesse,

Ficariam ali numa constante prece,

E iria construir sobre o monte três tendas

Para louvar a Deus em preces e oferendas.

Porém disse Jesus: – “Não faleis disso agora.

O que vistes dizei após ter-Me ido embora...”

 

Mas, como sempre estava ausente nestas glórias,

Cheguei a duvidar e a não crer nas histórias.

 

Isto porque, sendo eu que a tudo resolvia,

De cidade em cidade, era o primeiro que ia.

 

E Ele agredia o rico e dizia ameaços:
– “Vendam tudo o que têm, venham seguir Meus passos!”

 

E, às demais multidões, dizia, em gestos nobres:

– “No Meu reino do céu, só entrarão os pobres!”

 

E Ele pregava a nós causando pesadelo:

– “Mais fácil é passar, pela agulha, um camelo,

Do que um rico, no céu, ganhar o paraíso!”

Vivíamos, portanto, atentos a este aviso...

 

No campo Ele ensinava e sempre dava o exemplo:

– “Entraram, certa vez, para rezar no templo,

Um rico fariseu e um publicano. E, à frente,

Bradava o fariseu: oh, Senhor, sou um crente,

Sempre faço jejum, reparto, com os pobres,

Parte do que recebo, ajo com gestos nobres,

Também das vossas Leis sou cumpridor correto!

Contudo o publicano humilde, casto, quieto,

De olhos baixos, rezava e, em sussurros, pedia:

– Piedade para mim, Senhor! e, em agonia:

– Sou pobre pecador!”

                      Sem entender direito

Esta nova lição, este novo conceito,

Ele nos fala mais enquanto os olhos brilham:
– “Exaltados serão aqueles que se humilham,

Humilhados serão aqueles que se exaltam;

Para o reino do Céu poucos dias nos faltam!...”

 

E mais Ele falava à multidão que O ouvia:

– “Contemplai e observai, à luz de cada dia,

Loucos mestres das leis e os fariseus insanos,

Ao esquecer Moisés, só cometem enganos.

Assim não agireis do modo que eles agem:

Quando estão a partir para longa viagem,

Colocam com prazer os fardos mais pesados

Por sobre os ombros nus de homens escravizados

E eles seguem a rir pelos caminhos ledos,

Porém, para ajudar, não movem os seus dedos...

Atraem a atenção dos outros com seus atos,

Mas seguem cometendo enormes desacatos.

 

Às sinagogas vão, sentam-se sempre à frente,

Recebem saudações e querem ser somente

Chamados de Rabis pelos seus inferiores,

Mas só há um Rabi para tantos senhores!

Todos vós sois irmãos, pois só um Pai vós tendes.

Na terra são somente otários e duendes.

O maior dentre vós de servidor se faça

Pois o Pai assim quer, e assim Ele acha graça!

 

– “Ai de vós, fariseus e escribas, Eu vos digo

Que semelhantes sois ao caiado jazigo:

Por fora vós manteis uma bela aparência,

Mas por dentro só há o verme e a putrescência,

A morte e a solidão, maldade e hipocrisia,

O rancor e a soberba, o ódio e a covardia!”

 

– “Oh, geração perversa e hipócrita! Ela chega

E pede-me um sinal, porém se faz de cega;

Como foi Jonas um sinal aos ninivitas,

O Filho do homem o É para as coisas benditas;

Cuidais que ireis ouvir, de Salomão o canto,

Porém Sou o maior e não vos causo espanto!

 

– “Contudo vós cuidais que vim trazer à terra

Bonança, amor e paz? Eu vim trazer-vos guerra,

Cruel separação, divisão da Verdade,

O filho contra o pai, total perversidade,

A filha contra a mãe, a sogra contra a nora...

As trevas vim trazer para ofuscar a aurora!”

 

Depois uns fariseus chegaram ao Rabino:

– “Fuji daqui, Senhor, porque vosso destino

Com o de Herodes cruzou e ele busca matá-Lo!”

E Ele lhes respondeu: – “Dizei a esse vassalo

Que bem se vê que lanço os demos às agruras

E às almas que estão mal Eu ofereço curas. 

Se ele hoje Me matar apenas por vontade,

Será amanhã maior a Minha intensidade!”

 

Um dia, num lugar distante e retirado,

Jesus estava a orar e, tranqüilo, pausado,

Ele nos perguntou, com o olhar ao longe entregue:

– “Quem sou eu no dizer do povo que me segue?”

E respondemos nós: – “Uns dizem que és Batista,

Outros dizem, porém, que és Elias...” Com a vista

Perdida na distância, Ele, com a voz vibrante:

– “Para vós quem eu Sou?” e Pedro, delirante:

– “És o Cristo de Deus, Filho do Pai Celeste!”

– “Tu és feliz, Simão, porque disto soubeste

E foi meu Pai do céu que te disse isso tudo.

Mas quem de mim quiser saber, faças-te mudo!”

 

Eis que, a partir de então, com força muito estranha,

(Usando a mesma voz do Sermão da Montanha),

Começou a dizer sobre a necessidade

De ir a Jerusalém, onde a perversidade

Havia de encontrá-Lo. E, Pedro, alucinado:

– “Deus te livre, Senhor, disso tudo! És amado,

Como teimas dizer de tão horrível sorte?

Poderá haver alguém que queira a Tua morte?”

Porém Jesus voltou-se a Pedro e em gestos graves:

–“Sai de mim, Satanás! meu caminho não traves!” 

 

Depois falou a nós: – “Se, alguém quiser seguir-Me,

Renuncie a si mesmo e o passo tenha firme;

Carregue a sua cruz pela estrada ferida,

Pois quem quiser salvar a sua própria vida

E não morrer por Mim vai perdê-la por certo,

Porém, se em Meu amor confiar, estarei perto...

 

– “Que adianta ao homem ter aos pés o mundo inteiro

E perder sua vida em sonho aventureiro?

Que valor pode ter ao homem sua história

Se ele não conseguir de meu Pai ter a glória?

Hoje eu vos asseguro – o Filho do homem logo

Será entregue para o mais nefasto jogo:

Eles o matarão, mas, no terceiro dia,

Ele há de ressurgir no esplendor da magia!”

 

Chegando a Jericó, à beira do caminho,

Um cego mendigava. Ouvindo o burburinho

De enorme multidão, perguntou o que havia.

Disseram-lhe: –“É Jesus!” Com enorme euforia,

Começou a gritar: – “Tende de mim piedade,

Oh, Filho de David!” Mas, com austeridade,

Chamaram-lhe a atenção pedindo que calasse,

Ele, porém, mais forte, e com rubor na face,

Continuou a clamar. Os seus ecos ouvindo

Jesus chegou-se a ele e, com fulgor infindo: 

 – “Que queres que te faça?” – “Eu enxergar de novo!”

Com sua firme voz, para que a ouvisse o povo,

Jesus a ele falou: – “A tua fé te salva!”

E assim, no mesmo instante, a luz radiante e alva

Entrou em sua vista e ele, ao Mestre saudando,

Junto da multidão, a Deus ia louvando.

 

Ainda em Jericó, já dentro da cidade,

Encontrando Zaqueu, (dali autoridade

Que do povo exigia impostos e era rico),

O Mestre a ele falou: –“Por aqui pouco fico,

Porém, em tua casa, irei passar a noite...”

Assim a multidão, com palavras de açoite,

Passou a murmurar: – “Como pode hospedar-se

Junto a este pecador?” E, sem buscar disfarce,

Começou a injuriar os desejos de Cristo...

Mas Zaqueu, assustado, ao Rabino disse isto:

– “Dou aos pobres, Senhor, dos meus bens a metade;

Se de alguém extorqui com minha autoridade

Eu lhe restituirei quatro vezes seu preço!”

Jesus calmo falou, tendo ternura e apreço:

– “Nesta casa hoje entrou a salvação e eu digo

Porque vim a buscar e encontrei um amigo!”

 

E, para nos mostrar que orar era preciso,

Ele também nos deu outro importante aviso:

 

– “Residia um Juiz numa certa cidade

Que não temia a Deus e, em sua atrocidade,

Também não respeitava os homens.

                                                           Uma tarde

Em que as aves, no céu, chilreavam com alarde,

Chegou-lhe uma viúva e suplicou em pranto:

– “Queria que o Senhor cobrisse com seu manto

Da justiça e da fé junto ao meu adversário!”

Mas ele recusou-se a ser o voluntário.

Porém depois pensou: – “De Deus não sou temente

E dos homens também eu sou um reticente,

 

Porém, esta viúva, em sua inconveniência,

Por certo vai tirar toda a minha paciência.

Se lhe faço o favor ela de mim se esquece

E por certo ela parte e não mais me aborrece...”

E o Mestre acrescentou, contemplando o Universo:

– “Escutai o que diz esse Juiz perverso.

O Senhor não fará justiça aos seus eleitos

Que clamam o Seu nome e são insatisfeitos?

Por acaso Ele irá ficar sem socorrê-los?

Agora eu vos garanto: ouvindo tais apelos,

Ele virá fazer – rápido como o vento –
A justiça vencer e findar o tormento!”

 

Logo depois chegou-lhe um homem de riqueza:

– “Bom Mestre, o que farei para herdar, com certeza,  

A vida eterna?” E assim Jesus, com fala mansa:

– “Por que me chamas bom? Deus é que tem bonança...

Em verdade, em verdade, eu agora te digo:

Tu conheces as leis de Moisés, meu amigo?

– “Observo tudo desde a minha mocidade!”

– “Ainda falta uma coisa” e com suavidade:

– “Vende tudo o que tens, e com os pobres reparte,

E das glórias dos céus, um dia terás parte!”

Uma tardinha nós estávamos reunidos

E o Mestre nos dizia os seus sermões floridos.

Curioso perguntei: – “Como é o céu, Rabino?”

Ele me olhou atento e Sua voz num hino:

– “Com um grão de mostarda é o que o céu se parece.

É a semente menor que há na terra e ela cresce

Após ser semeada. Eis que se torna arbusto.

Grandes ramos produz e, em seu porte robusto,

Aonde as aves do céu vêm buscar sua sombra,
O homem, para o descanso, ali tem uma alfombra!
 

–“Este reino do céu também é comparado

A um homem que lançou em seu campo adubado

As sementes do Amor, da Bem-aventurança...

Mas quando foi dormir, apenas por vingança,

Seu inimigo veio e semeou o joio

E, rindo, foi-se a ter com o Demo por apoio... 

 

 – “Quando o trigo brotou e o joio também veio,

O semeador domou no peito o rude anseio

Porém, não arrancou a praga que crescia;

Esperou a colheita e, quando veio o dia,

Colheu primeiro o joio e atirou no braseiro,

Depois o trigo bom levou para o celeiro.

 

– “Pois o reino do céu lembra a semente pura

Que o semeador atira em sua semeadura...

Ou melhor, lembra ainda a porção de fermento,

Que faz crescer o trigo e torna-se alimento.

Portanto o céu é luz, é paz, é sonho, é vida,

A glória de viver nossa estação florida!”

 

Assim Ele falou à multidão que O ouvia,

Pois antigo Profeta outrora já dizia

Que através do dabar de teor mais profundo

Ele irá revelar os enigmas do mundo!

 

Após o entardecer broslado de recamos,

Até o Mestre Jesus todos nós achegamos:

– “Explica-nos, Senhor, sobre o joio do campo!”

E Ele, todo ternura, olhando o céu escampo,

 

Dissertou para nós, com olhos resplendentes:

– “O semeador que traz nas mãos boas sementes

E tem, em seu olhar, da fé o fogo intenso,

É o Filho do homem... Todo o campo é o mundo imenso

E as sementes de luz, os súditos.                                                     

                                                  Portanto

O joio, com certeza, é o Maligno, é o espanto.

Quem semeou o Diabo, em um sonho profundo,

Por colheita terá: decerto, o fim do mundo.

E os anjos do Senhor serão os colhedores

Que um dia irão andar por estes corredores.

 

– “E, como se recolhe o joio e ao fogo o lança,

Eis que irá perecer, ao fim desta Esperança.

Todo aquele que causa horror e iniquidade

Será lançado ao fogo e à densa atrocidade.

Os justos brilharão. Ouvi o que vos digo,

Que o reino de meu Pai é o mais formoso abrigo.

 

– “Assim compare o céu ao mais belo tesouro

Escondido num campo e coberto de louro.

Vem um homem o encontra e esconde-o novamente

E cheio de alegria e ternura, contente,

Vende tudo o que tem e, logo após, radiante,

O compra.

                  Ou se parece ainda a um comerciante

Que pérolas procura e, achando a mais valiosa,

Vende o que tem e compra a pérola formosa.

Uma rede lançada ao lago cristalino

Lembra o reino dos céus. Lançada, em seu destino,

Peixes de espécies mil prendem-se em sua teia,

Porém, quando arrastada encontra-se na areia,

O pescador recolhe os peixes com afago

E, os de pouco valor, lança outra vez no lago.

 

– “Presta muita atenção a tudo o que Eu vos falo: 

Quando ocorrer do mundo o tenebroso abalo,

Os anjos descerão da morada celeste

E tudo o que for podre e coberto de peste

Será lançado ao fogo, às fornalhas frementes,

Onde só haverá choro e ranger de dentes!

 

– “Não julgueis vós que vim destruir leis ou profetas,

Mas antes vim lhes dar explicações corretas.

E vos afirmo agora esta grande verdade:

Tudo há de se cumprir em força e intensidade.

Aquele que quebrar um destes Mandamentos

E errado os ensinar irá colher tormentos,

Que a justiça será maior, justa e perfeita,

Tal como o trigo bom pronto para a colheita.

 

– “Aquele que matar será réu de juízo,

O que tiver rancor e o que trouxer prejuízo

Será réu condenado às torturas do inferno

E isto tudo quem diz é meu Pai Santo e Eterno.

 

– “Quem diante de um altar fizer a sua oferta

Mas estiver fazendo alguma coisa incerta,

Deixa diante do altar os frutos de tal messe

E vai pedir perdão de joelhos, numa prece.

 

– “Se teu olho direito observa vis escândalos,

Joga-o fora de ti, deixa-o aos profanos vândalos.

Preferível perder um de teu membro doente

Que todo o corpo se ir para um vale gemente.

 

– “Também não jurarás de forma alguma em falso,

Mas agora eu coloco outra lei neste encalço:

Não jureis pelo céu, nem também pela Terra,

Pois se disseres sim, a verdade não erra.

Teu próximo amarás não te sendo inimigo

Mas o inimigo amai – eu agora te digo”.

 

– “Qual seria Senhor, o grande Mandamento

Que possamos seguir momento após momento?

(Pergunta um fariseu que muito, nos seguia.)

– “Para Moisés, Javé apareceu um dia

Sobre o monte Sinai, e até hoje é a Lei suprema

Que buscamos seguir com nossa força extrema!”

Respondeu-lhe Jesus: – “Aos outros sempre faça

O que quereis a vós. Depois, cheio de graça,

Soletrou para nós, com o olhar marejado:

– “Amai vossos irmãos como eu vos tenho amado!”

 

Um’outra vez falou Jesus em tom profundo:

– “Olhem bem para Mim, eu sou a luz do mundo,

 

Quem me segue há de ter a excelsa luz da vida!”

Porém, os fariseus trazendo a alma ferida:

– “Se falas de ti mesmo exortas em mentira...”

Respondeu-lhes Jesus com sua voz em ira:

 

– “Posso falar de Mim, pois só falo a verdade

E bem sei quem Eu sou dentro da Eternidade,

Vós, porém, não sabeis o lugar de onde venho

E nem para onde vou... Segundo o vosso engenho

Julgais segundo a carne e Eu a ninguém condeno.

Porém, se julgo alguém, o Meu juízo é pleno,

Pois não sou só, meu Pai vive sempre comigo,

E o testemunho meu jamais contém perigo.

E meu Pai que me enviou também dá testemunha

Da minha própria voz, pois somos carne e unha.”

 

Perguntaram-lhe então: – “O teu Pai onde mora?”

Respondeu-lhes Jesus: – Meu Pai vive na aurora,

Também vive meu Pai junto às aves e às flores,

Vive no céu azul, vive em meio das cores,

Se soubésseis quem sou saberíeis por certo

Que meu Pai vive em mim e Seu amor é aberto!”

 

Palavras tais Jesus proclamava no Templo,

E Seu imenso amor a todos era exemplo.

Pois eu devo dizer que assistindo a isso tudo,

Muitas vezes, à noite, eu me quedava mudo.

Dos outros separado, errantes pensamentos

Brotavam na minh’alma em constantes tormentos.

 

Em disfarce Jesus me olhava de soslaio

E Seu olhar em mim feria como um raio.

Eu não dizia nada, e Ele, também, por certo,

Parecia entender o eu não estar por perto.

 

Esta cumplicidade entre nós dois havia

Num respeito sem fim, como pura magia.

Se agora, no silêncio, a Sua voz escuto-a,

Pareço, sim, ouvir, essa verdade mútua.

 

Às vezes, sob os pés das densas oliveiras,

Eu O ouvir falar durante horas inteiras.

Mas distante ficava e as dúvidas, por vezes,

Em mim vinham pairar em contínuos revezes.

 

Por saber que Ele havia obrado maravilhas,

Em cólera cruel à noite, por mil trilhas,

Num caminhar sem fim vagava eu pela noite

E Sua forte voz vibrante como açoite

Meu ouvido feria em ânsias densas, mudas,

E eu parecia ouvi-Lo assim dizendo: – “Judas,

O plano está marcado e és por Mim importante,

Para isso estás aqui. Seja sempre confiante

E não me deixes nunca. Estou sempre contigo

E se confio em ti, és mais que Meu amigo!

 

Há um plano superior que deve ser seguido,

Mas eu também, confesso, ainda estou perdido...”

 

Ele falava assim e seus olhos atentos

Captavam ao redor, todos os movimentos.

 

E muitas vezes eu, inquirindo-O em perguntas,

Via-O calar levando aos lábios as mãos juntas.

 

Enquanto isso ficava em dúvidas constantes,

Num doido divagar em torturas errantes.

O tormento feroz invadia a minha’alma,

A loucura infinita açoitava-me a calma.

Punha-me a recordar Seus discursos profundos,

Percorrendo, na noite, os mistérios dos mundos.

 

Quando a manhã raiava – o sol de um novo dia

Vinha para crestar o que em sonhos me ardia.

Era um vulcão sem fim jorrando fogo ardente,

E tudo se fundia em luz na minha mente.

Para nova jornada os nossos rudes passos

Seguiam sem parar frente a tantos espaços.

 

Certa tarde Jesus para o povo falava

E cada alma que O ouvia em êxtase ficava.

E eis que um doutor das leis com palavras lhe inferna:

– “Mestre, que hei de fazer para ter vida eterna?” 

Respondeu-lhe Jesus:– “Na Lei como está escrito?”

– “Amarás ao Senhor teu Deus Santo e Bendito

De todo o coração e de toda a tu’alma!”

E tranquilo Jesus disse-lhe com voz calma:

– Tu respondeste bem; faze isso, meu amigo,

E desta forma Deus sempre estará contigo!”

 

Certa vez, quando nós saíamos do Templo,

Apenas comentei para servir de exemplo:

– Olhem que construções maravilhosas essas!”

Mas a voz do Rabino, a professar promessas,

Como trovão ressoou: – “Garanto-vos que um dia

Tudo isso irá ruir como simples magia!”

E olhando a construção majestosa, poliedra:

– Aqui não ficará, pois, pedra sobre pedra!”

 

Pedro, Tiago, André e João, frente a tal profecia

Assombrados, mostrando um olhar de agonia

Perguntaram: – “Rabi, quando haverá tal fato?

Que sinais vamos ter frente a horripilante ato?”

Em resposta Jesus, firme, porém, sereno:

–“Tomai cuidado, alguém com voz de engano pleno

Em Meu nome virá para trazer mentira.

Quando a guerra estourar, e o céu cobrir-se de ira,

Ainda estará por vir a noite sem aurora.

–“E isto irá acontecer, eu vou declaro agora! – 

Homens combaterão no duelo atroz da ideia,

E o sangue irá jorrar em rios na Judeia.

A terra tremerá em diversos lugares,

Fome e sede virão quais aves pelos ares.

 

– “Diante dos tribunais vós ireis ser julgados,

E muitos, por Meu nome, irão ser condenados.

Porém minha palavra, em fulmíneos fulgores,

Fará no chão tombar reis e governadores!

 

– E não vos preocupeis frente a tamanho espanto,

Que as palavras da fé, pelo Espírito Santo

Irão brotar em vós nesse exato momento,

E os poderes de Deus, serão vosso sustento!

 

– “Quando o poder do mal rasgar materna entranha,

E ao mundo vir à luz com sua forma estranha,

Quero que fujam para os morros afastados.

Não voltem para casa a buscar seus guardados,

Porque o tempo será de sofrimento tanto,

Que aos olhos faltarão lágrimas para o pranto!

 

– “E se alguém vos disser: está aqui o Messias,

(Pois muitos surgirão nesses sangrentos dias!)

Esse não poderá enganar os Eleitos,

Porque os Filhos de Deus são justos e perfeitos!”

 

E Ele sempre a dizer o que queria em código,

Um dia nos falou assim do filho pródigo:

Calmo disse: – “Morava um homem com dois filhos

E, com eles vivia os mais floridos trilhos.

 

– “Mas um dia, porém, o seu filho mais moço

(Com su’alma impaciente e cheia de alvoroço)

Disse ao pai: – Quero ter parte da minha herança! –

Sem discutir o pai juntou sua abastança

E dividindo-a em dois de forma justa e clara,

Aos filhos entregou de maneira preclara.

 

– “O mais moço ajuntou tudo o que lhe cabia

E rápido partiu para, na fantasia,

Tudo desperdiçar de maneira lasciva.

E assim, tendo no vício a su’alma cativa,

Pouco tempo depois e ele encontrou-se pobre.

Acabara a ilusão e o ouro que lhe fez nobre.

E sozinho se viu nas estradas da vida

Sem ninguém a ajudar-lhe e com a alma ferida.

 

– “Começou a pensar nos seus tolos desejos,

Nas sandices sem fim que fizera, nos beijos

Dados em troca d’ouro e das noites de orgia

Que passara gozando... Agora a noite fria

Penetrava-lhe n’alma e com sede e com fome

Lembrou-se de seu pai. Chamando-o pelo nome 

Disse: – eu aqui passando as agruras da morte

E no lar que deixei cintila um’outra sorte.

 

– “Voltarei! E perdão irei pedir de joelhos

Para meu pai. Fui louco, ignorei seus conselhos,

E agora só me resta andrajos por herança.

Se de meu pai tiver a bem-aventurança,

Ao ter o seu perdão irei servi-lo em tudo.

De retorno seguiu em suas ânsias mudo.

 

– “O pai assim que o viu reconheceu-o logo.

Correu ao seu encontro e com su’alma em fogo

Abraçou-o no afeto ainda em pleno caminho.

Assim que recebeu do pai tanto carinho

Pedia-lhe perdão por tudo o que fizera.

E seu pai lhe dizia: abrem-se em primavera

Os meus dias de inverno. O meu filho hoje volta,

Hinos cheios de amor aos céus meu peito solta.

E os criados chamando em imensa alegria

Mandou-os preparar naquele mesmo dia

Uma festa em louvor de seu amado filho.

O outro filho, porém, ao ver tamanho brilho,

Indagou a seu pai ao ver faustosa festa:

– Eu sempre trabalharei para o Senhor e hoje esta

Tal comemoração é feita tão-somente

Ao meu irmão rebelde, ao que viveu ausente.

 

– Nunca tive meu pai, do Senhor um só dia

Para poder viver em festas e em magia;

Mas volta meu irmão e os mais gordos cordeiros

São postos para assar, chegam seus companheiros

E quando adentro em casa há festas e esplendores!

– Filho, antes no meu peito amarguras e dores

Povoavam meu viver. O teu irmão no mundo

Achou a solidão e o desprezo profundo

Mas tu, sempre ao meu lado, amado filho, estavas.

Hoje que teu irmão venceu as mãos ignavas

Do vício que o prendia e volta para casa,

Sinto meu coração, feliz, arder em brasa.

Vamos juntos viver na paz perfeita e justa,

E intempéries vencer que a angústia – muito custa.
 

– Porque este teu irmão estava morto, filho,

E tornando a viver, do Amor achou o trilho.

E precisamos nós, neste radiante dia,

Entre festas mostrar toda a nossa alegria!”

 

Pois devo esclarecer que eu era sempre o ausente

Dos milagres que o Mestre obrava diariamente.

 

Sempre estando ocupado em cuidar das finanças,

Esfalfavam-me os pés cansativas andanças.

Para sair-me bem travava uma epopeia

Mas sempre a me ajudar José de Arimateia

 

Nossas bolsas enchia em máximas ofertas.

Porém, suas ações não eram descobertas

Dos membros do Sinédrio ou doutores do Templo,

Onde era respeitado e o tinham como exemplo.

Às escondidas ele, à noite, com o Rabino,

Ficavam decifrando a Vida e o seu destino.

Assim, quando eu voltava, os Outros, assombrados,

Corriam me contar dos milagres obrados.

 

Muitas vezes me vi errando por mil trilhas,

Por jamais contemplar do Mestre as maravilhas

E dos milagres tais que o Rabino fazia.

Satisfeito, porém, dentro do dia a dia,

Todos juntos, à noite, era sempre comigo,

Que Ele falava a sós, me chamando de Amigo,

E dava-Lhe saber de nossas contas diárias

E me fazia a par das coisas necessárias

Para o dia seguinte; e o dia mal raiava,

Por estradas sem fim de novo eu caminhava

 

Só retornando quando outra noite surgia.

Os Seus Sermões, porém, nunca, nunca os perdia.

 

Minha vida, porém, cheia do ardor mais vivo,

Tinha pelo Rabi o coração cativo.

Era a imutável Fé que os corações quebranta,

Que ao morto traz a Vida e no silêncio canta;

Era a Fé soberana, implacável, robusta,

Que é impossível também, se saber quanto custa;

Eu cria cego n’Ele e em Seu poder supremo

Que vai da Terra ao Céu; de um extremo a outro extremo!

 

Enquanto agora escrevo após um árduo dia,

Todo o meu coração envolve-se em magia.

Ele é Aquele que foi em épocas passadas,

Por Profetas descrito em páginas sagradas.

 

E tanto Ele fazia e a tantos contestava,

Que minh’ alma ficou completamente escrava

Desse estranho Rabi que de tudo era contra.

E Ele dizia a nós: –“Se alguém nas Leis encontra

As interpretações dessas coisas que faço,

Sempre, para agredir-Me, estende logo o braço,

Pois Eu vim confundir as mentes e as ideias,

Vim para provocar a fúria nas colmeias,

Vim para transgredir os dogmas dos felizes,

Nas almas vim abrir profundas cicatrizes!”

 

E nada Ele temia. Afrontava, com fúria.

Eu pensava comigo: assim, fazendo injúria,

Por certo, irá reunir exércitos insanos

Para nos libertar do jugo dos romanos.

Estou certo em segui-Lo e, ao estar a Seu lado,

Quando o instante chegar, serei um Seu soldado!

 

Ele, tendo o poder sublime da Palavra,

Haverá de esmagar aquele que escalavra

O solo da Judeia e, unidos aos zelotes,

Iremos derrotar os ímpios sacerdotes.

 

Quem poderá vencer Este que tão-somente

Até hoje só usou sua Palavra quente?

O exército formado e Ele de comandante,

Haveremos de ter a força de um gigante.

Certo que não O vejo a operar suas curas.

O que importa, porém? Suas verdades puras

Enchem meu coração de bem-aventurança

E, junto Dele, sou intrépida criança.

Certo que desaprovo as Suas companhias,

Mas Ele as quer assim, no transcorrer dos dias.

 

Desde que O ouvi dizer os versos na montanha,

Em êxtase feliz, a minh’alma O acompanha;

Dele sei-me fiel e, com prazer insisto:

Sou Judas Ish-Kiriot, Apóstolo de Cristo!

 

      ***
 Caritas

 

                      III


Uma noite Ele em sonho apareceu-me e disse:

– “Judas, Meu seguidor, põe de lado a crendice!

Necessário se faz que o Filho do homem seja

Exposto à patuleia. O Pai assim deseja

E eu preciso escolher, dentre os meus, o homem certo

Para o povo de Deus pode ficar liberto!

És o homem escolhido e, em tuas mãos Eu ponho,

O poder de tornar real o que hoje é sonho.

A Páscoa se aproxima, as fúrias se carcomem.

Não vais negar a Mim que sou o Filho do homem!

Quando em Jerusalém Eu estiver orando

Sobre o Monte Olivote, ao vir da noite, quando

Os teus irmãos de fé te abandonarem, Judas,

Deves então agir, mas com palavras mudas.

 

Não fales a ninguém o que agora te digo.

Somente a ti, a quem Eu considero Amigo,

Poderia confiar. Tu irás encontrar-me

No local combinado... A ninguém dês alarme

Do que agora te peço... É o instante de glória,

Deves disso saber bem dentro da memória,

Que Meu Pai reservou-Me e farás parte disso.

É um pacto d’alma agora o nosso compromisso.

Não poderás faltar-me, Amigo e nada temas.

As horas a viver hão de ser-me as extremas,

Eu dar-te-ei o sinal...”

                                          Nisto desperto aflito

E um silêncio de morte invade o amplo Infinito...

Suando a cântaros, olho ao meu lado e por tudo

Há uma agonia lenta e um desespero mudo.

 

Mal amanhece o dia, a alma entre angústias lavra.

Vou até Nicodemo, atrás de uma palavra.

Meu espírito acalma ao contar-lhe o meu sonho

E ainda dentro de mim sinto um pavor medonho.

 

Sobre a larga cidade o sol de primavera

Fazia florescer festivas ramas de hera.

Um perfume envolvente os ares exalava

E o Mestre, sempre firme, as estradas marchava.

 

Seguíamos com Ele a passos decididos

Em êxtases olhando os caminhos floridos.

Paramos ao ocaso e, após, sorvida a ceia,

Ele pôs-se a falar. Nascia a lua cheia.

 

E tanto ele falava através de segredos,

Que vivíamos nós presos em nossos medos.

Algo pairava no ar ao que Ele nos dizia

E a dúvida e o suspense eram no dia a dia

Uma razão maior para seguir-Lhe os passos.

Pois quando ele falava, estendia Seus braços

E parecia, sim, dominar o Universo.

O silêncio era tal que cada peito imerso

Parava de pulsar para prender-se a tudo.

Se, era o medo a razão que em nós formava escudo

Difícil de dizer... Mas quando ele falava

A Vida, a Sua volta, era-Lhe Sua escrava.

 

Portanto o poviléu largava suas casas

Para ouvir-Lhe o falar com palavras de brasas.

Era um eco de fogo, era um vulcão fecundo

Sempre que ribombava o Seu verbo profundo.

 

Quando em Jerusalém Ele entrou triunfante,

Imensa multidão se aglomerou durante

Seu trajeto e gritava alucinada: – “Hosana

Ao Filho de David!...” formando caravana

Para saudar o Mestre. Ele, então, sobre um burro,

Parou e concentrou-se e, com a voz num urro,

Falou à multidão: – “Jerusalém, se um dia

Pudesses compreender a paz em sinfonia,

Mas ela agora está oculta às tuas vistas;

Um dia chegarão de formas imprevistas,

Inimigos crueis que irão pôr-te em trincheiras

E irão te destruir, de todas as maneiras

E cada filho teu que estiver nas muralhas,

Irá cair por terra, ao furor das batalhas!”

 

Depois eu novamente O encontro, e Ele me fita

Sem nada me dizer, mas Seu silêncio grita.

 

Sigo-O até o Templo e lá o nosso Mestre Yeshua,

Tendo às mãos um chicote, o povo tumultua

E expulsa os vendilhões, que, em ruidoso comércio,

Fazem do que é sagrado um vil mercado pérsio.

 

E Ele, com a voz vibrante e ardente como brasa:

–“Para a oração foi feita um dia, a minha casa

E vede como vós – infieis! – a transformastes

Num covil de ladrões! Que profanos contrastes!”

 

Na manhã do outro dia Ele em paz ensinava

E a Boa Nova o Mestre a todos anunciava.

Mas chegaram, porém, os velhos sacerdotes

E os doutores das leis, que ouviram dos chicotes

Com que o Mestre expulsara, em fúria, os comerciantes.

–“Que autoridade tens para tantos desplantes?”

 

E Ele lhes respondeu de maneira transunta:

– “Para vós também tenho uma simples pergunta:

O Batismo de João, dizei-me de onde vinha,

Dos homens ou do céu?” E, como ninguém tinha

O que lhe responder, disseram: – “Não sabemos!”

Assim Jesus, com raiva e com gestos extremos:

– “Também não vos direi com que direito faço

Estas coisas das quais não entendeis um traço!”

 

Chegam perto de mim, do Sinédrio, os doutores

Que olham a confusão. Nós, os Seus seguidores,

Num susto sem tamanho, assistimos Seus atos.

Ele grita e pragueja enormes desacatos...

Penso comigo então: –“Nosso Mestre está louco!...”

Mas ninguém o detém, e grita forte e rouco...

 

Mas eu acreditava em Seu poder divino

E Ele, com forte olhar, mostrou-me Seu destino.

 

E, sem saber por que, tomei tal atitude:
Por trinta moedas, vendo-O à turba insana e rude.


Mais tarde Ele nos disse: –“Amigos, precisamos

A Páscoa celebrar com faustos e recamos

E será a última vez que cearei convosco.

E, enquanto Ele falava o Seu semblante tosco

Tinha palpitações de febres e delírios;

Falava de traições, sofrimentos, martírios,

Pelos quais passaria... E nós, silentes, quietos,

Ouvimo-Lo falar de angústias, desafetos,

Mas logo fomos nós, esquecidos de tudo,

Juntos cear. Mas Ele, introspectivo, mudo,

Fez sinal com as mãos e nós todos, atentos,

Prestamos atenção. Lá fora os rudes ventos

Açoitavam o céu em descalabro imenso;

Cristo estava em silêncio e tinha o rosto tenso.

 

Depois falou: – “Simão, a Graça é benfazeja,

És Pedra e sobre ti erguerei minha Igreja!

Vem, vou lavar-te os pés!” Pedro, num sobressalto,

Tomado de pavor e tomado de assalto:

– “Senhor, não lavarás meus pés!”, porém com calma:
Diz-lhe o Mestre – “Simão põe sossego a tu’alma!...”

Mas Pedro respondeu-Lhe: – “Então me lave todo...”

– “Não, Simão Pedro, não, somente os pés têm lodo,

Todo o resto está limpo. O que Eu te faço agora

Será para mostrar que minh’Alma te adora...” 

E depois, um por um, com modos assustados,

Tivemos pelo Mestre os nossos pés lavados...

 

Já à mesa Ele nos disse: – “A hora extrema se adianta!”

E quando eu O fitei tremia-Lhe a garganta.

Depois tomou o pão com as Suas mãos frias:

(Sua voz era grave e as palavras, sombrias)

– “Isto é o Meu corpo!” e após um cálice de vinho:

– “Este é o Meu sangue! Irmãos segui o meu caminho

Para atingir o céu. Celebrai minha vida

Que assim jamais tereis a vossa alma perdida!”

 

Eu com medo O fitava... E, quando pus meus lábios

No cálice de vinho, os mais negros ressábios

Vieram até mim, pois Ele, com voz firme,

A nós falou: – “De vós alguém há de trair-Me!”

O cálice atirei, com pavor, a distância

E ouvi Pedro dizer alucinado, em ânsia,

Com sua forte voz num retumbante brado:

– “Jamais Te trairei, Mestre, e, sempre ao Teu lado,

Feliz eu estarei da vida a cada instante!”

Ao que Ele respondeu-lhe: – “Antes que o galo cante,

Hoje me negarás por três vezes seguidas!...”

– “Serei eu, Mestre?” indago, e em expressões sentidas,

Ele apenas me diz com palavras de fogo:

– “O que tens a fazer, amigo, faze logo...”

 

Como louco saí, a alucinados passos,

Parecendo romper com minh’alma os espaços...

 

Mas, em meu pensamento, assim que eu O entregasse,

Ele iria soltar raios de Sua face

E mostrar Seu fulgor...

                                      Porém, que engano ledo:

Assim que eu O beijei, mostrou-me olhar de medo;

Sem lutas se entregou aos soldados romanos,

Deixando-se amarrar por corsários insanos...

 

Foi assim: eu cheguei, meus amigos dormiam,

Milhões de astros no céu brilhavam e fulgiam...

Cristo, porém, fitava o céu e divagava

E parecia ter do amplo espaço, a Alma escrava.

Demonstrava sofrer e transpirava sangue

E Sua voz gemia e transtornava exangue.

E eu ouvi o final de Sua fala estranha

Que ainda queima em mim e fere minha entranha:
– “Pai, se possível for, afasta-Me este cálix,

Porém, devo curvar-me àquilo que Me fales;

Hoje a minh’Alma está triste, triste de morte,

Mas preciso mostrar que este Teu filho é forte!”

 

E eu não acreditei que ele nada fizesse

Para mostrar quem Era...

                                  Apavorado, nesse

 

Mesmo instante, corri ao Sinédrio, tentando

A trama desfazer e já me detestando.

Enquanto isso ouço ao longe a louca patuleia

Que grita sem cessar e enrouquece a Judeia!

 

Arimateia chega e me olha com desprezo

E, sinto em mim cair, do mundo todo o  peso.

 

Pedro passa depois por uma ruela escura

E em seus olhos vislumbro espasmos de loucura.

 

Corro ao Pretório e vejo o ensanguentado palco

Onde aparece, a rir, o truculento Malco.

Faz perguntas ao Mestre e atroz fúria o incendeia.

Depois, punhos em riste, odioso, O esbofeteia.

E a ele o Rabino diz com as faces escarlates:

– “Se a verdade falei, por que é que tu me bates?”

 

Pilatos vem à frente e, em tenebroso assomo,

Como para exibi-Lo, a todos clama: – “Ecce homo!”

E, a esse gesto, com fúria, a turba insana brada:

– “Crucificai-O!” Eu, com minh’alma agoniada,

Grito a mais não poder: – “Pilatos, libertai-O!”

Porém gritos hostis calam-me a voz num raio...

 

Logo após, o estridor de alucinadas vozes

Que gritam para o céu com as formas mais atrozes:

 

 

–“Barrabás! Barrabás!” contra isto me revolto...

– “Como pode”, pensei, tal zelote ser solto

Se o Mestre clama a paz e Barrabás a guerra?

Alguma coisa está errada sobre a terra!”

 

Ele, em silêncio, sofre as penas mais severas:

Após ser açoitado, uma coroa de heras

Espinhosas, é posta em Sua altiva fronte

E O agridem sem cessar... (o sol rompe o horizonte!...)

E eu pensava comigo: – “Ah! vai chegar o instante

Que Ele vai nos mostrar Seu poder fulgurante!

 

Anjos virão do céu, a toques de trombetas,

Para salvar o Mestre... Outros, com baionetas

E espadas, mostrarão a força do Divino!”

Mas Ele não fez nada...

                                             O sol, brilhante e a pino,

– Canícula de fogo! – arde e sufoca o ambiente!

Tendo às costas a cruz, nosso Mestre, silente,

Segue para o Calvário... Enormes sofrimentos

Vejo-O então padecer... Os soldados, violentos,

Com chicotes nas mãos, lanham as suas costas

Por onde o sangue escorre em feridas expostas.

A Sua Mãe encontra-O e Ele, de forma pura,

Para Ela ainda tem palavras de ternura...

 

Uma mulher, ao vê-Lo em sofrimento imenso,

De suas vestes, tira um alvo e níveo lenço


E enxuga-Lhe o suor de Sua face exangue,

Que aparece estampada horridamente em sangue...

Com gritos da mulher, os soldados a afastam

E, em truculência insana, o nosso Mestre arrastam,

Pois não querem deixar que ninguém o conforte;

Desejam que Ele tenha a mais terrível morte...

Sob o peso da cruz, Cristo no chão tropeça

E, em cada passo dado, aumenta em sangue impressa,

A trilha de Seus pés... Os chicotes estalam...

É tétrico o cenário... Alto os soldados falam:

– “Vamos levá-Lo vivo ao topo da Caveira,

Crucificar um morto é uma grande besteira...”

Pegam da multidão alguém que vê o assombro:

Tomam, do Réu a cruz, e a jogam em seu ombro...

E Simão Cirineu, tendo Cristo ao seu lado,

Às suas costas leva o madeiro pesado.

 

Chega ao cimo do monte... Entre Dimas e Gestas,

Deixa-se a cruz pregar...

                                         Entre vivas e festas,

Os soldados e o povo azorragam em gozo

E Cristo a todos mostra o Seu olhar piedoso.

 

Seu corpo arfante e nu arqueja ensanguentado.

Ele olha a multidão e sofre... mas calado.

 

 

– “Tenho sede!” Murmura. E, à espera de um milagre,

Vejo alguém embeber uma esponja em vinagre

E fel, mas Ele enjeita...

                                      Ouço gritos profanos

Que saem sem cessar de judeus e romanos:


– “Se és o filho de Deus, desce desse madeiro

E creremos em ti como o Deus verdadeiro;

Pois, se tantos salvaste e se curaste tantos,

Tu não conseguirás reverter os encantos

E descer desta cruz?”

                                 Sua lenta agonia

Causa assombro e pavor... o Gólgota asfixia...

Sua túnica rubra aos dados é sorteada.

Sofre em silêncio e sinto a minh’alma abrasada.

 

A seu lado na cruz, com modos agressivos,

Gestas fica a insultá-Lo: –“Ambos somos cativos,

Desta sorte cruel, contudo, se é verdade

Que és o Filho de Deus – Senhor da Eternidade! –

Pede logo a Teu Pai que te salve e a nós todos.

Mas qual! És um vilão, pois só trouxeste engodos;

Não podes te salvar e irás morrer, por certo...”

E escarnecia em vão...

                                    E Dimas, também perto

(Porque junto na cruz estava condenado;

Pelos crimes que fez tinha sido julgado) ,

Contra Gestas bradou cheio de sofrimento:

– “Merecemos viver este horrível momento,

 

Mas Este nada fez e sempre foi um Justo!...”

E, também a sofrer, disse com grande custo:

– “Não te esqueças de mim!...” E o Mestre num aviso:

– “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!”

 

Aos pés da cruz, Maria, a Sua mãe, quieta,

Sente em seu coração cravar seta por seta

Da coroa que está cravejada em seu filho.

Sente todo o martírio e em seus olhos há o brilho

De lágrimas que caem e formam coruscantes,

Como cristais de dor, um colar de diamantes!

 

Maria Madalena olha o Seu bem amado.

Nada pode fazer. Com o olhar desesperado

Ela grita que O ama alucinadamente

E muitos ficam rindo ao seu jeito demente...

Porém, a um gesto seu eu me vejo intrigado:

Eis que fica a alisar seu ventre um tanto inchado...

 

E, quando n’alta cruz Ele grita em engaste:

– “Eli, Eli, lema sabactáni?” em contraste

Sinto n’alma um fervor abrasante, um supremo

Delírio de terror... Olho além Nicodemo

Que também não entende o suceder dos fatos.

Passa perto de mim, a cavalo, Pilatos; 

(Soube que ele lavou as mãos, não impedindo

Que Cristo fosse morto e, em seu esgar infindo,


Mandou que se pregasse, ao cimo do madeiro,

A explicação por que morria o prisioneiro).

 

“Jesus de Nazaré Rei dos Judeus!” e a placa

Minhas entranhas fere igual aguda faca.

 

E depois ainda diz como as fúrias que o mordem:

– “Réu de morte será quem descumprir tal ordem!”

 

Do povo ouço uma voz em tenebroso abalo:

– “Espera, vamos ver se Elias vem salvá-Lo!”

 

Por fim Cristo o Seu rosto eleva ao céu... (Pressinto

Que o milagre não vai acontecer...) O absinto

Vem-me à boca e, num grito alucinado, indômito,

Minha entranha requeima e sinto ânsias de vômito.

 

Depois diz, num sussurro, entre os que se comprazem:
– “Perdoai-os, porque não sabem o que fazem!

Em Tuas mãos, meu Pai, Meu Espírito entrego!”

E pende, e curva, e estica o corpo em cada prego...

 

Vendo que nada mais posso fazer, praguejo

A sorte que me deu e só a morte desejo.

 

 

Negras nuvens de pó cobrem o sol... O vento

Varre as folhas do chão... Nesse exato momento,

Rasga-se o véu do Templo, abrem-se sepulturas,               

Há um silêncio sem fim invadindo as alturas...

Assustados, com medo, os soldados se agitam...

Num pânico de morte, as almas todas gritam...

 

E o medo brota em mim... A loucura me invade.

Crescem, ao meu redor, as barras de uma grade

E, a uma prisão perpétua, a minh’alma é levada.

No céu, o sol se apaga e a escuridão pesada

Desaba sobre mim... Relincham os cavalos,

Gritam aves da noite... Uivos, cismas, abalos,

Vozes vindas do além, tenebrosos abismos,

Medo, pavor cruel, desesperos e trismos...

 

O vento, parecendo uma navalha fina,

Meus lábios corta... À vista, invisível cortina

Impede-me a visão real de hórrida cena.

Cristo exânime jaz... O Seu corpo em gangrena

É uma posta de sangue em coágulos ardentes...

A distância mantenho... Há ranger em meus dentes,

Tremo de medo e frio e o desespero é tanto

Que não consigo achar, ao meu redor, um canto

Para acoitar minh’alma... Uma fúria funesta

Fere meu coração e nada mais me resta:

 

Devo buscar, na Vida, a minha própria morte.

– Haverá, para mim, no momento, outra sorte?

 

Vejo se aproximar de Jesus um soldado.

Percebo que ele tem seu olhar transtornado.

Traz nas mãos uma lança.

                                            À frente do Rabino

Para se confirmar que é cumprido o Destino,

O Seu peito perfura e vejo, – amarga mágoa! –

Dessa nova ferida, escorrer sangue é água.

 

Nest’hora, alucinado, eu perscruto na treva,

Mas Cristo surge em Luz, meu Espírito enleva


E, com Seu doce olhar a transpirar ternura,

Deseja a minha paz...

                               Em transe de loucura,

Minh’alma grita em fúria, em desespero horrível,

Mas somente eu escuto a sua voz terrível

Que, entre luzes me diz:

                                        – “Foi necessário, amigo,

Que não tu, porém, Eu te desse este castigo.

Aceita o Meu perdão para que Eu possa agora,

À direita do Pai, ir-Me sem mais demora.

Eras-Me tão leal, defendias-Me tanto

E agora Sou motivo ao teu amargo pranto.

Mas, se alguém deve ter lugar no Paraíso

Quando um dia Eu voltar para o Grande Juízo,

Ninguém mais do que tu mereces ser chamado!

Pelos homens serás, amigo, desprezado.

Todos irão dizer que um dia Me traíste

E te peço piedade a este dogma tão triste

Que irá te acompanhar...

                               Ah, Ish-Kiriot, sossega!

Lucas, Marcos, Mateus e João, com a fé cega,

Irão te condenar no escrever esta história,

Porém, hoje, te exalto e te ofereço a Glória

De vires até Mim!”

                                 Disse-me tudo em pranto

E desapareceu para meu próprio espanto...

..............................................................................

..............................................................................

E, enquanto o céu flameja e em relâmpagos grita,

Tomo a resolução com a alma de angústia aflita:
Ponho a corda ao pescoço, em desespero mudo,

Para encontrar, na morte, o epílogo de tudo!

 

Piracicaba, 19 de abril de 1998


 

 

                      ***

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