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30 de outubro de 2009

SONETOS ALEXANDRINOS - 1


Renascer

Há dias em que a gente encontra um novo brilho
Numa folha que cai, em tudo o quanto existe...
Num sol que morre, atrás de um crepúsculo triste,
Num murmúrio, num som, num dourado rastilho.

Numa canção à flor, num eco em que consiste
Um alegre cantar, num plácido bisbilho,
Num coração de mãe a abençoar o filho,
Mostrando que no espaço, o amor também insiste...

Num sorriso de adeus, num pássaro que voa,
Num olhar, num inseto, em qualquer coisa à toa
A gente fica assim sorridente, assim leve,

Que os nossos sonhos ficam alvos como a neve,
Tendo sentido dentro d’alma uma esperança
Que faz sentir a paz num riso de criança!

05.01.1973

______________________________________

Viver de esperanças

– “Queres partir?” pois bem, tens o caminho aberto!
Ninguém te deterá nessa tua jornada...
Podes seguir contente a tua nova estrada,
E não se importe vendo o meu peito deserto.

Ora, por que não vês que o meu amor é o certo?
Não venha me dizer, depois, que estás errada.
Não te darei Perdão e, nem sequer por nada
Baixarei onde estás para ver-te de perto...

Podes partir! Não quero o teu amor ingrato.
Ah! Esqueceste de tomar o teu retrato...
– Nada quero de ti! Nem mesmo esta lembrança!

Porém, voltas o olhar! Há lágrimas de dor...
– Não partas, oh, querida, eu quero o teu amor,
Pois como irei viver somente de esperanças?

16.08.1973

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Alucinação

Caminho lentamente. Estou quase parado...
Sinto no coração a dor que causa o pranto.
Eu sigo pela noite envolto em negro manto,
E, entre lamentos, sigo errante e alucinado.

Sinto em mim um poder insano e malogrado,
Vejo cair por terra (e para o meu espanto)
A razão de viver, de ver do mundo o encanto...
Caminho triste e só, chorando, amargurado.

Um grito de agonia eu ouço a todo o instante...
Tudo me faz sentir que sou ainda errante,
E a razão de morrer me vem num só momento.

O choro, a dor, a angústia, o tédio, mil delírios...
Todos fazem me ver os constantes martírios,
E eu fico a lamentar... Meu Deus, que sofrimento!

17.10.1973

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Minha cruz

Tantos versos de amor eu escrevi cantando
Pois ao meu lado estavas para me dar amor.
Hoje escrevo os meus versos de amor sempre chorando
Por não mais receber teus carinhos, oh, flor!...

Já não suporto mais a tua ausência. A Dor
Vive a campear sem fim meu coração magoado.
Desvairo! Triste e só caminho deplorado
Lembrando que já fui feliz com teu amor.

Sonâmbulo, tristonho, eu atravesso a vida
Neste Calvário eterno a lívida ferida
Fere-me mais e mais – e sofro igual a Jesus...

Procuro-te, te chamo e brado aos céus, chorando,
Por que não tenho amor... serei feliz, mas quando?
Desconsolado enfim, carrego a minha cruz.

04.09.1975

_________________________________________

Fuga

Não posso coordenar na mente o pensamento.
A palavra me foge, a ideia não domino.
Explodo de rancor, mais pareço um felino
Urrando irracional no mais feroz lamento.

Em mim somente cresce enorme sofrimento.
Passo a viver com Dante – o Poeta florentino –
Minha ilusão atiro ao noturno Cassino
E blasfemo por fim, o meu merecimento...

Imperceptivelmente a noite em mim se achega...
Abro os olhos e... oh! Deus, a minh'alma está cega...
Mordendo os punhos rujo a esta dor que me lavra.

Oh! precito infeliz, que queres tu da vida?
Ai, eu tento gritar mas a goela ressequida
Não deixa pronunciar a boca uma palavra.

26.01.1976

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Soneto noturno

É noite. No meu quarto, a lâmpada sombria,
Enche meu coração de agonias e de ais.
Recordo o teu amor que não terei jamais
E macabramente abro a minha cova fria.

Em mim a solidão fantástica crucia...
– O tempo que passou foi lindo em seus umbrais;
Hoje, porém, na dor dos sonhos sepulcrais
Escrevo, em desespero, esta errante poesia.

Ouço vozes do além... “Quem és fantasma oculto?
“Quem és tu? Quem és tu?... não ame pareces, não?
“Sai deste esconderijo, eu quero ver teu vulto...

“Eu quero a paz e o amor, eu quero a doce união
“Em cada sonho, em cada estrofe, em cada culto,
“Como fruto do amor, eu quero um coração!”

08.02.1976

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Vício

Acendo outro cigarro... imperturbavelmente
Vejo a noite passar efêmera e vazia.
Talvez traga no peito uma coração doente
Ou carrego comigo enorme nostalgia.

Eu não sei... eu não sei... mas em mim, tão-somente
A estupidez do amor me invade, me crucia.
A fumaça pelo ar fica a boiar silente
E silente eu escrevo uma nova poesia.

Imensa solidão carrego dentro d'alma;
Sofro em silêncio, choro em silêncio, caminho
Duvidando do amor que no meu peito ensalma.

Oh! noite de ilusão, sigo como demente;
Vou tentando lembrar o teu meigo carinho
E acendo outro cigarro... imperturbavelmente...

21.02.1976

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Espera


(esperando Thaís, que nasceu em 02.02.1977)

Sei que és pequenina ainda e já te amamos tanto,
Nem sabemos quem és, porém, com que alegria,
Nós falamos de ti, e esperamos o dia,
Que ao mundo irás abrir os olhos com espanto.

Vou querer te embalar com o mais felpudo manto,
E em tuas faces dar mil beijos de Poesia.
E terno irei ouvir teu choro em harmonia,
E dele irei fazer o mais sublime canto.

Quando virás a nós, consequência do amor?
Quando iremos poder ficar sempre contigo?
– Esse tempo parece ater-se à Eternidade...

Porém, eu sei que um dia, igual botão de flor,
Em solfejos de paz virás ao terno abrigo,
Que fizemos a ti numa infinda ansiedade.

13.06.1976

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Reencontro

Depois de longo tempo, o encontro num acaso
Faz renascer no peito uma Paixão antiga...
E o olhar terno do Amigo e o meigo olhar da Amiga
Olha-se com ternura... o sol perlustra o Ocaso...

Depois surge a conversa... a lembrança de um caso,
Outro mais... e mais outro... (o coração abriga
Tantas recordações, que logo nos obriga
Um novo encontro para um fim por nesse atraso...)

Num piscar de olho, o tempo, Amiga, o tempo avança,
Mata nos corações o tempo de criança
E o que sobra é uma angústia, é uma incerteza, é um tédio,

É uma desolação, é um medo, é um fim de vida...
Mas o olhar, o sorriso, a amizade querida,
Para tanta aflição é o mais puro remédio.

14.08.1977

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Penso em ti


Penso em ti, meu amor, e instante após instante
Eu vejo abrir-se a nós uma estrada florida;
Um mundo de paixão frenética e constante,
Que nos dá mais amor, mais carinho e mais vida!

Amo-te com ardor e me amas sem medida;
Deus nos uniu num beijo eterno, infindo, amante!
Num êxtase divino a paz nos foi cedida,
E uma canção de amor, no céu, ecoou vibrante.

O amor de nós fez um. Já não somos sozinhos:
Contigo eu estarei em todos os caminhos,
E ao longo da jornada ao meu lado estarás.

Os nossos rumos são iguais, pois caminhamos
Pela estrada florida, onde os floridos ramos,
Desabrocham o amor em prelúdios de paz.

18.08.1977

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Penso em ti

Penso em ti, meu amor, e instante após instante,
Sinto n’alma brotar os desejos de amar-te.
Sei que vives em mim e estás em toda a parte,
Que nem te procurar preciso, oh, doce amante!

Se te beijo com ardor, desejo idolatrar-te
E fazer-te uma santa em meu altar constante.
E se abraço o teu corpo escultural, vibrante,
Quero que tu, no amor, sempre e sempre te fartes...

Oh, mulher provocante, o teu corpo é de seda,
Os teus olhos são sóis que iluminam meu rumo,
Teu cabelo macio é o aconchego de um leito.

Teus lábios são de mel e o amor que me arremeda
Explode em mil canções de amor, que enfim presumo,
Que para mim tu és o amor puro e perfeito.

14.10.1977

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Aquele dia

Eu sempre me recordo aquele doce dia
Que em nós o amor nasceu risonho, florescente...
No horizonte dormia o sol onipotente
E seu calor a nós, irradiava poesia.

Tudo foi deslumbrante ao nosso olhar fremente,
Que unimos junto ao céu, na mais pura magia.
Na quietude da tarde a doce melodia
Das aves, junto a nós, trilava docemente.

Então a nossa vida, uma se fez e a tudo
Conseguimos vencer com passos de gigante,
Pois o amor nesta vida é um poderoso escudo!

A quietude da tarde a nós se fez poesia,
Por isso, meu amor, de forma delirante,
Eu sempre me recordo aquele doce dia...

10.11.1979

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Caminho triste

Para quê nesta vida a estrada construíste
Por entre a solidão de espinhos e quimeras?
Ai, por que escolheste este caminho triste
Onde a estação do inverno esconde as primaveras?

E por que caminhaste onde a angústia persiste
E a dor, e o tédio, envolto em cruzes de mil feras
Toldam a luz do amor - esta visão que insiste
Em crescer através das mais remotas Eras?

Para quê semeaste a discórdia entre os mundos
E proclamaste a guerra em báratros profundos
Quando o ideal seria idolatrar o Amor?

Homem! fera sem luz, oh! criatura cega,
Cada instante que passa o mundo te renega,
E te mostra uma estrada onde golfeja a dor.

02.01.1980


Ésio Antonio Pezzato

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