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2 de novembro de 2009

SONETOS ALEXANDRINOS - 3



Ilusão azul

Ah! O meu sonho de amor terno, puro e tão lindo,
Nunca chegou a ser mais que um ridente sonho;
Pois as desilusões deixaram-me tristonho,
Quando vi que o amor, para mim, era findo.

Eu sonhava feliz e nas tardes, risonho,
Contemplava, extasiado, o céu azul, sorrindo.
E a estrela que luzia um clarão claro e infindo,
Dava-me a sensação do mundo que ainda sonho.

E a esperança era azul e o sonho era azul, tudo
Era azul cor do céu, era um jardim enorme
Com mil flores azuis perfumando a amplidão.

E eu seguia sorrindo a estrada de veludo
Azul, quando acordei... (dorme, minh’alma, dorme,
Quero ainda viver no mundo da Ilusão.)

14.08.1983

_____________________



Mário Giannotti



Calou-se a voz canora e cheia de harmonia
Que embalou corações em murmúrios de amor.
Hoje, tudo o que resta é uma saudade fria,
Como frio jazigo onde só medra a dor.

A voz sentimental hoje chora à agonia:
Na serenata não vais mais, entre o calor
Da noite de luar e cheia de poesia
Fazer dormir, no céu, os astros em fulgor.

Tudo hoje sai na voz embargada de pranto,
Nas lágrimas sem fim dos divinos amantes
Que já não mais terá na hora do amor o canto

Para expressar o que necessitasse fala,
Mas no êxtase ouvirão em cantos delirantes,
No céu cantar a voz que na terra se cala.

14.11.1983

_________________

Para Lino Vitti

Ainda sabes cantar... Como as aves canoras
Ainda soltas, ao céu, teus cantos de esperança,
Sabes amar a luz que ilumina as auroras
E contemplar, feliz, um sonho de criança!

Tua vida é um jardim e nele, por que choras
O abandono da Musa? Ela, a teu lado dança
Nas pétalas de luz e no correr das horas
Em que sonhas, sorrindo, enquanto o tempo avança...

Sou eu a ovelha e tu és meu pastor! Bem podes
Tua flauta tocar que estarei sempre alerto
Para ouvir esta voz só comparada às odes

Das aves madrigais que voam no universo:
– Para elas não existe um dia de deserto;
Para ti não existe o segredo do Verso!

25.08.1984

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Aos Artistas Plásticos

Artistas imortais! Na divina magia
Conseguis traduzir nas cores, sentimentos
Que ao Poeta só é dado imitar na Poesia
Em instantes de luz de raros mandamentos!

Os mágicos pincéis, ágeis, em harmoria,
Conseguem perpetuar os rápidos momentos
Em uma Eternidade e a tela, antes vazia,
Muda-se num painel de puros sortimentos!

– Uma árvore, uma flor, um rio, uma paisagem,
Um retrato, uma fruta ou uma luz que brilha,
Ao toque do Pintor, tudo se torna imagem.

E entre mil cores nós, na paz sublime e imensa,
Exaltamos o Artista, em sua eterna trilha,
Abençoado por Deus numa divina crença.

10.07.1986

_____________________

Réquiem
(para Ubirajara Lara)


O Amigo hoje está ausente e uma saudade imensa
Povoa o coração deste Poeta triste.
O verso que componho é uma sentida crença
E a glória de viver para mim não existe.

Naquela tarde triste, ele se foi na intensa
Vida que lhe sorria e a dor que em mim persiste
É lúgubre, fatal, sombria, errante, densa,
E este meu coração a esta dor não resiste...

Nas tardes em que a lua acorda no crepúsculo,
Eu dele me recordo envolto em sofrimento
– Ele de mim se foi em uma tarde assim...

Por isso, cada vez que a noite abre o seu músculo
De treva e solidão, brota e mim, num momento,
A árvore da Saudade a dar frutos sem fim...

28.11.1986

________________________


O descrente

Para cantar o amor, talvez fosse preciso
As Musas invocar, pois a fatal descrença
Em seus olhos boiava em negra indiferença
E nem nos lábios tinha espasmos de sorriso.

Não cria em nada; tudo ao seu redor em tensa
Amargura vivia e o Inferno e o Paraíso
Lutavam entre si para no próprio aviso
Ao descrente dar Fé de forma pura e intensa.

Sisudo e austero, nem às crianças sorria...
Se, cruzava um jardim despetalava as flores,
E odiava o próprio ventre em que tinha nascido.

E assim ele viveu a vida... Dia a dia
Somente acumulou desenganos e dores,
Que, para assim viver, melhor não ter vivido.

14.05.1987

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Quem ama

Quem ama nada pede e tudo dá. Quem ama
Somente quer o bem para a pessoa amada.
Se a vê no frio logo encontra alguma chama
Para doar calor de forma apaixonada.

Para quem traz no peito o puro amor, do nada
Faz-se um tudo e faz mais – mil carinhos derrama,
Sobre seu puro amor, de forma idolatrada,
E em seus lábios somente o nome amado clama!

Quem ama tem o céu nas mãos e faz desdouro!
Se, encontra o mundo inteiro aberto à sua frente,
Um passo dá, sequer, sem ouvir-lhe a opinião.

Um amor vale mais que o mais raro tesouro
De Golconda e de Ophir! que brilham simplesmente
Pelo fato de estar sempre de mão em mão.

01.08.1989

_____________________

Exercitando rimas

Ah! com certeza sou a porta do milênio
Pois com fúria feroz rebate no meu crânio
O eco ensurdecedor de atro som subterrâneo
Que parece vibrar neste último decênio.

Em meu jardim frontal um vermelho gerânio
Me alimenta de luz, de fósforo e hidrogênio.
E com sânie brilhante invoca-me algum gênio
Que em Pompeia morreu ante o furor vulcâneo.

Sombra, treva e terror... travo meu raciocínio
E uma voz gutural sai da tumba de Plínio
Que praguejo ironia e ambiciono o Infortúnio!

E na ânsia de morrer não sou mais Esio Antonio,
Pois tudo chega a mim em negro pandemônio
Que ao próximo milênio apago o plenilúnio!

31.10.1989

_____________________

São Paulo

A fúria de Centauro abriu tuas entranhas
E o progresso feriu-te em mil veias de estradas.
Hercúleo, o lavrador com arados e enxadas
Fez, da terra brotar formas de vida estranhas!

Vozes em confusão, desesperadas sanhas:
Estrangeiros ao sol, vidas descontroladas,
Luz, luxúria, apogeu! E as mentes concentradas
Em te fazer crescer livre das artimanhas.

Brás, Ipiranga, Sé, Tietê, Jabaquara,
Viadutos, metrôs, elevados e pontes,
Parques, Masp, Museus! Prazer e vidas mil!

Nesta imensa Babel, a ordem é coisa rara,
Mas ainda assim tu és, por muitos horizontes,
A maior Capital de todo este Brasil!

25.01.1990

__________________


Prisão

Quando era a minha vida um porto abandonado
E eu não tinha ilusões, desejos e vontades,
E preso ao desespero eu vivia largado
Na perpétua prisão de intransponíveis grades;

Quando era o meu porvir de eternas tempestades
E em agonia imensa eu vivia calcado,
E as trevas e o terror, com mil ferocidades
Caminhavam comigo andando lado a lado;

Tu chegaste, sorriste! e tua mão me deste.
Ergui-me, levantei, abanei a poeira,
Que em meu corpo grudava e me levava à peste...

Hoje, junto de ti caminho... e colorida
(Tendo-te, pois ao lado) acho mais linda a vida,
E da tua a minh’alma eu vejo prisioneira!

25.06.1990
__________________

Sombra e luz

O tempo é sombra e enquanto a sombra ofusca a luz,
Os olhos na prisão ilusória que os prendem,
Buscam a liberdade e na prisão aprendem
Que o ser livre, e o voar é paixão que seduz! –

Asas soltas ao léu, o corpo aberto em cruz,
Buscando a Imensidade os Everestes fendem...
E quando a aurora vem, milhões de sóis acendem,
Cada olho chispa fogo e em luz intensa, luz!...

Tempo a viver! E a vida, e o espaço, e o céu aberto,
E o ontem, e o amanhã, e o que foi, e o que é,
E o que será talvez, e a realidade, e o incerto...

E o caminhar sem fim, sem fim e sempre a pé,
Mil léguas... e a Esperança além do amplo deserto,
E após novo deserto a liberdade... a fé!...

21.09.1990

____________________

Guerra

Outra vez o pavor domina a Terra... O atro ódio,
A cobiça, o desdém, a ganância, a vingança,
O instinto de Poder, de estar no alto do pódio,
Conseguem massacrar as flores da Esperança!

O espetáculo é podre, e nefando o episódio.
O medo paira em tudo e um lábaro balança
Negro, no negro céu, enquanto o monopódio
Lança ao mundo o terror, e o desespero lança.

A América, a África, a Ásia, a Europa e a Oceania
Tentam, em vão, deter ignominiosa fúria,
Mas é descomunal essa imensa fobia...

A guerra é proclamada e Sadam – Satã morte! –
Mostrando a sua força – estrebuchada injúria –
Espalha sobre o mundo o desejo da morte.

15.01.1991

____________________


Onde?

Eu não quero o futuro, eu quero a loura infância,
Que perdida ficou num lugar do passado,
E minh'alma, perdida em etérea distância,
Tenta encontrá-la mas a busca em tempo errado.

Magoado, o coração, em desespera ânsia
Tenta encontrar a luz deste mundo apagado,
Verde oásis de paz! e ainda sinto a fragrância
Desta ilusão azul do sonho terminado...

Amigos onde estão? onde estão os de outrora
Que seguiam comigo em busca de aventuras?
Onde estão os que amei e onde está a minha aurora?

Crepúsculo de sonho, ocaso desta vida...
A infância se perdeu, passaram-se as loucuras,
E o porvir se me mostra em becos sem saída.

16.02.1991

_____________________


Kolbe

Eras um som de amor a iluminar o mundo!
Eras templo de fé, da esperança e bondade!
As palavras de Deus no ardor puro e profundo
Tu lançavas sorrindo a toda a humanidade.

Tendo a cruz em teu peito e com verbo fecundo,
Conseguias salvar almas da iniquidade.
Da Polônia ao Japão – seguias errabundo,
Os mistérios dos Céus pregando com piedade.

À Virgem-Mãe doaste então tu’alma. Rindo
Escolheste o calvário onde irias viver
As penas mais cruéis de teu viver infindo.

Fome, sede, desdém – por fim, a crua sorte,
De por outro passar resignado, o sofrer
De dar-lhe sua vida em troca desta sorte.

26.05.1991


Ésio Antonio Pezzato

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