XXVII
Palavras são segredos – e com elas
Construo pensamento num desenho.
Vindo às bocas se tornam tagarelas
E no silêncio penso nesse engenho.
Escritas ou faladas são procelas.
Vendo-as com os olhos, preso me mantenho.
Contudo expostas são profanas telas,
Mostrando liberdade ou duro lenho.
Para escrevê-las – somos desenhistas,
Nem por isso, porém, somos artistas,
Sabendo traduzir o pensamento.
As Palavras, porém, são passageiras,
Passam com rapidez, voam ligeiras,
Se desfazendo no valsear do vento.
27.06.2003
Palavras são segredos – e com elas
Construo pensamento num desenho.
Vindo às bocas se tornam tagarelas
E no silêncio penso nesse engenho.
Escritas ou faladas são procelas.
Vendo-as com os olhos, preso me mantenho.
Contudo expostas são profanas telas,
Mostrando liberdade ou duro lenho.
Para escrevê-las – somos desenhistas,
Nem por isso, porém, somos artistas,
Sabendo traduzir o pensamento.
As Palavras, porém, são passageiras,
Passam com rapidez, voam ligeiras,
Se desfazendo no valsear do vento.
27.06.2003
XXVIII
A Palavra não pode ser domada
Pois à fera é impossível obediência.
Se por instantes sente-se enjaulada,
Não há grade que tenha resistência.
Rasga as vísceras, rompe a madrugada,
Deixa restos de sangue na consciência.
Cavalga pela noite alucinada
Cintilando no céu da persistência.
A Palavra fulgura cristalina.
Doma corcéis, atinge a alta colina,
E atira-se no largo precipício.
Espírito de fogo, eis a Palavra,
Que, coração de pedra atro escalavra,
E, mente pura prende em ímpio hospício.
22.07.2003
XXIX
A Palavra é a mais límpida expressão
Para deixar gravada a nossa história.
Poder brutal de manifestação,
Tempestade de fogo na memória.
É o fio condutor de toda a glória
E é terror, exorcismo e combustão.
Fogo feroz, derrota merencória,
Engendros, teares e revolução.
No estado líquido do Dicionário
É vocábulo inerte que se apresta
Para mostrar apenas o que diz.
Porém, articulada em seu fadário,
Na língua do homem vibra e manifesta
E estampa sua enorme cicatriz.
20.01.2004
XXX
As Palavras lançadas céu aberto,
– Fosforescentes fogos de artifício –
Às vezes são pregadas no deserto
Ou no altar de profano sacrifício.
Dominar as Palavras – duro ofício
Para quem traça em luz um rumo certo! –
Porém, quem a usa para o malefício,
Sempre há de estar para o pavor – desperto.
Por isso em Eras, minha heras planto,
A chama da verdade que me chama
É vão num vão da noite sempre vão.
Em cada canto existe sempre um canto,
O drama da consciência odiento trama
Num desvão onde errantes sempre vão...
14.01.2004
XXXI
As Palavras são fogos de artifício
Que fazem rebentar a luz na treva.
E o Poeta, réu confesso em seu ofício,
Com a luminosidade ao céu se eleva.
Da Palavra, inspirado ele se ceva
E despreza o cansaço e o sacrifício.
Se faz frio ou calor, se venta ou neva,
Eis que está preso ao mágico exercício!
Escrever é reter o pensamento!
E domar o vocábulo e prendê-los
Na cadeia fugaz da liberdade.
Pois a Palavra – etérea como o vento,
Ao mesmo tempo é sonho e pesadelo,
É Mentira vestida de Verdade.
19.01.2004
XXXII
A Palavra é hieróglifo sagrado,
Enigma de Faraós do velho Egito.
Chão da Mesopotâmia soterrado
E múmia a revolver a voz num grito.
Eco feito silêncio no Infinito,
Dos Deuses velho rosto deformado.
Consciência e solidão, esgar aflito,
Relâmpago de fogo não domado.
Símbolo de uma antiga Humanidade,
Traduzidos em mágicos segredos,
Num oculto mistério da Verdade.
Vagas vozes veladas dos zabumbas,
As Palavras com todos os seus medos
São os ossos das velhas catacumbas.
07.08.2003
XXXIII
Chove Palavra pelo céu nublado.
E em enxurradas corre na sarjeta.
A grafite dos sons a deixa preta
Qual borra de café pós ser coado.
Ponho à Palavra dobras de tarjeta
Para não ver-lhe o olhar frio e indomado.
A Palavra é o delírio inanimado
Da semente que brota numa greta.
Líquida escorre em todos os sentidos,
Parecem bailarinos acrobáticos
Saltando no ar e após caindo em pé.
Na vertical dos sonhos esquecidos
Os meus olhos contemplam-nos extáticos,
Na musicalidade dessa fé.
09.08.2003
Chove Palavra pelo céu nublado.
E em enxurradas corre na sarjeta.
A grafite dos sons a deixa preta
Qual borra de café pós ser coado.
Ponho à Palavra dobras de tarjeta
Para não ver-lhe o olhar frio e indomado.
A Palavra é o delírio inanimado
Da semente que brota numa greta.
Líquida escorre em todos os sentidos,
Parecem bailarinos acrobáticos
Saltando no ar e após caindo em pé.
Na vertical dos sonhos esquecidos
Os meus olhos contemplam-nos extáticos,
Na musicalidade dessa fé.
09.08.2003
Esio Antonio Pezzato
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