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10 de maio de 2013

Carmelina Martinelli Galvão




Carmelina Martinelli Galvão

 

12.05.2013

Pessoas existem que trazem dentro de si uma sabedoria nata. Para tudo arrumam remédio, conseguem desenroscar o enroscado, desparafusar o parafusado, conseguem ver a beleza dentro da própria beleza onde nós, simples mortais, não conseguimos vê-la.

Carmela, por exemplo.

Pessoas existem que conseguem tirar ditados do dia a dia da vida. Que conseguem, através desses ditados, levar a vida de maneira melhor. E, sabendo desses ditados ditos assim, à toa, numa conversa informal, vemos a beleza de tais ditos e passamos a levar, também para o nosso dia a dia, esses ditos felizes.

Carmela, por exemplo.

Pessoas existem que tendo tudo, conseguem resmungar da vida. Mas, existem certos tipos de pessoas, que pouco tendo, conseguem fazer desse pouco o muito das necessidades diárias da vida.

Carmela, por exemplo.

Eu a conheci no final de sua vida. Pude desfrutar de sua sabedoria durante poucos anos e, sua sabedoria transformava o dia nublado em sol. Se era o calor escaldante, uma brisa fresca  refrescava nossas faces. 

Eu a conheci quando fiquei seu vizinho. Ela habitava, por mais de meio século, a residência que lhe fora a única após seu casamento, onde labutou, teve cinco filhos e os fez crescer, os fez adultos, íntegros, honestos...

De suas cinco crias, uma voou céu aberto num inverno triste. O Juca.

Mas tem o Durval, casado com a Maria Regina, que tanto queremos bem...

A Marina, que tem com minha mulher uma amizade de vida inteira, pois ambas nasceram na mesma casa onde residem até hoje...

A Dinoráh, casada com o Paulo, que têm um filho Eduardo, Já formado e que mostra seguir em sua vida, os ensinamentos dos pais e da avó...

A Regina, que também luta e labuta na vida ao lado do Luiz André, Diretor da Poli Brasil, e tem duas filhas: Patrícia e Fernanda, que também já tem dois filhos: Gabriel e Letícia.

Bem... Carmela  me encantava com sua simplicidade  e com algumas coisinhas que dizia, por exemplo, que nunca “tida tido” nada com o marido...

Minha sogra, Dona Anna, mais desbocada dizia-lhe:

Como, Carmela, você tem cinco filhos e nunca teve nada com o Eugênio?

Ela virava o rosto e dizia: Por Deus!...

Mas o que mais me encantava mesmo em Carmela era a  sabedoria própria das pessoas iluminadas. Em tempo de vacas magras e pobreza, com os filhos quase não podendo comprar sapatos, há sessenta anos passados, dizia:

_-Sapatos... sapatos... qualquer bobo da vida faz sapatos. Eu quero ver é fazer pés! Todos os meus filhos não têm sapatos, mais isso pouco importa, pois eles têm pés! 

Dentro dessa sua sabedoria, dediquei-lhe um soneto, que repasso aqui aos meus queridos leitores, intitulado:

 

Pensamento de Carmela

      O homem – na sua vida transitória,

      Traz o sonho profundo e alucinado

      – Como se fosse sua imensa glória! –

      De ter tudo o que possa ser juntado.

 

      E de maneira insana e merencória,

      Quer o ouro, como se fosse isso sagrado!

      Deseja assim mostrar sua vitória

      Num delírio cruel, desesperado.

 

     E cheio de incoerência e de ganância,

     Descontrola-se em sua intolerância

    Chegando a praticar horríveis atos.

 

     E nem se atém na sua caminhada,

     Que para se vencer nesta jornada,

    O importante é ter pés, não ter sapatos!

     É isso. Bom domingo a todos. Saudade, Dona Carmela.

    

     Um feliz Dia das Mães para todos.

 
 

22 de setembro de 2012

ROMARIA A PIRAPORA

Foto de Esio em Romaria Pirapora 1981

 

 Romaria a Pirapora

 

Hoje não vou tecer comentário sobre personalidades de nossa cidade. Vou dar uma quebrada no ritmo para falar de uma paixão que me acompanha desde a juventude. É a tradicional Romaria que faço com outros amigos desde 1968. Espero que gostem.

 Pirapora entrou em minha vida na infância. Idos de 1965, quando eu via jovens de cabelos compridos, e barba por fazer durante o período da Semana Santa. Não era normal, pois jovens se barbeavam quase que diariamente e cortavam os cabelos a cada quinze dias. Eu ficava sabendo o motivo dessa atitude que era pagar promessas indo de Piracicaba a Pirapora em romaria e a pé. Jovem aventureiro e sonhador eu não esperei muito para fazer minha primeira caminhada, que no próximo dia 17, quando estiver de partida, estará se repetindo pela 44a vez, sempre acompanhado pelo Pedrão Brancalion que convenceu meus pais que tal aventura não continha perigo. E ele até hoje é meu fiel amigo. 

Oito horas em ponto iniciaremos nossa caminhada. Perto das onze da manhã estaremos em Rio das Pedras, (12km) treze horas em Mombuca (11km) e dezesseis horas em Capivari, (12km) onde iremos descansar. Na segunda sairemos de Capivari ainda na manhã, almoçaremos em Samambaia (16km) e à tardinha chegaremos a Salto (19km) , para um banho, um bom jantar no Bar do Laércio e dormir.

 

Na terça-feira sairemos cedo de Salto e chegaremos ao Camping na hora do almoço (12km) Aí é nosso descanso pleno mesmo. Como não temos pressa para nada, somente na quinta-feira iremos sair cedo, chegar a Cabreúva (16km) e à tarde alcançar Pirapora (24km) perfazendo um total de no máximo 120km bem esticadinhos.

Dizer que não há cansaço é mentira. Sim, é cansativa tal viagem. Algumas bolhas de água podem acontecer nos pés, bom levar um protetor solar e chapéu, pois a coisa pega mesmo. 

Mas nada deixa de ter encanto, alegria, amizade. Descontração pura mesmo. O caminho do Atalho, na Serra do Japi é uma beleza ímpar. Caminhar à margem do Rio Tietê mesmo poluído, mata nativa, amigos muitos, bastantes famílias oferecendo almoço a todos os Romeiros, água, laranja, sanduíche, café, sucos. Isso é impagável. Risadas, piadas, reflexão, reza, crença, fé. 

O cansaço se supera. Uma noite de sono é fundamental para a caminhada do dia seguinte. 

Anos passados as caminhadas eram mais disputadas e mais jovens ou não tão jovens a faziam. Hoje a mesma perdeu seus encantos, parece, e a juventude não a faz mais, pois outros mil atrativos são mais interessantes do que colocar os pés na estrada e caminhar 120 km.  

Mas é um momento de reflexão. A Semana Santa parece que nos pede isso. Assim temos feito desde nossa juventude, que já vai um tanto longe...

Lendo essa croniqueta ficou com vontade de fazer nossa loucura, se juntar à nossa turma na caminhada Piracicaba-Pirapora a pé? Gostaria de se aventurar por estradas de terra, beber água de poço, fresquinha, descansar sobre uma sombra deliciosa, caminhar mesmo sob um sol escaldante, numa estradinha vicinal ladeada por canaviais, plantação de tomates, chão de areia ou barro, ah, isso é mesmo uma deliciosa aventura.

Muitos eu bem sei, que têm vontade, mas não tem companhia, não sabem o que levar... Mas o convite aqui vai: telefone envie um e-mail ainda hoje vamos marcar de andar juntos.  

Esqueça os afazeres monótonos do dia a dia, a mesmice frugal. Venha descobrir as delícias de amizades simples, de noites tagarelas, de andar entre floresta, de se deliciar com um banho no rio. Vamos juntos. Dia 17 junte-se e venha partilhar um pouco de sua vida com nossa vida. Faremos o mesmo. E vamos rir muito. Não importa a idade, se é homem ou mulher. Vamos juntos.


Esio Antonio Pezzato

2 de maio de 2012

Anuar Kraide - Crônica


Anuar Kraide
Anuar Kraide foi casado com a professora Therezinha Ferraz do Canto Kraide, minha professora do primeiro ano no Curso Primário Anexo ao Instituto de Educação “Sud Menucci”.
Era assim mesmo que preenchíamos o cabeçalho todos os dias na Escola, isso em 1960.
Anuar Kraide fez o primário com minha mãe, isso nos anos 1930; de quem foi aluno da professora Jaçanã Althair Pereira Guerrini, esposa do já citado aqui Leandro Guerrini.
Anuar Kraide formou junto de Jorge Chaddad, que era proprietário do Céu Cor de Rosa, uma das mais profícuas parcerias musicais de nossa cidade.
Para dizer pouco, que o espaço é curto, é deles a autoria do Hino Oficial do Esporte Clube XV de Novembro, de nossa cidade, o “glorioso esquadrão...”
Outra parceira além de famosa: “Sinos do Bom Jesus”, que assim começa: “De longe se vê, que felicidade,
Jesus de braços abertos, abençoando a cidade...” tão bem interpretada pelo saudoso seresteiro Pedro Alexandrino.
Importante saber: nem Anuar, nem Jorge eram instrumentistas. Faziam as canções e os acordes no “lá, lá, lá...” e sem qualquer instrumento. Guardavam os acordes na memória, depois gravavam numa fita K-7 e depois um músico fazia os arranjos e colocava na pauta musical tais acordes.
Participaram e vencerem inúmeros Festivais de Música na cidade e em outros locais.
Segundo me contaram numa conversa, “Sinos do Bom Jesus” nasceu de maneira insólita: não se conheciam, foram apresentados e cada um deles tinha uma parte da canção. Foi uni-las e dar vida a uma das mais belas composições da dupla... “Sinos do Bom Jesus, que despertam a cidade, trazendo paz e amor, harmonia e felicidade...”
Certa vez me encontrei com Anuar na Rua Governador esquina da Prudente de Moraes. Era hora do almoço. Ele me pede para fazer a letra falando sobre a poluição do Rio Piracicaba. Ia haver um Festival de Música Ecológica do SESC. Cheguei a minha casa e a letra estava pronta na cabeça. Datilografei os versos, e levei a ele em sua casa, na Rua Alfredo Guedes.
Sei que ele e Jorge Chaddad puseram a música nos versos (uma primorosa marcha-rancho) e passei a fazer parte na autoria daquela dupla, que se tornou um trio, e foi a primeira letra para música que fiz.
Inscrita no Festival, em 1983, foi classificada e o conjunto formado pelos filhos de Anuar e de Therezinha, com outros músicos, deram vida a “Sonho e Realidade”. A Canção não foi para as finais, mas valeu pela apresentação muito linda e os arranjos fantásticos.
Depois ainda fiz a letra de “Motivos para Recordar”, que Anuar e Jorge musicaram numa linda valsa, que inscrita num outro Festival e interpretada pela minha professora D. Therezinha, classificou-se em primeiro lugar. Quanta honra.
Anuar faleceu no ano de 2000. Deixou centenas de canções compostas e inéditas. Seus filhos Afonso, Marcos e Beatriz, ainda executam e cantarolam os sambas, as valsas, os boleros, choros e marchas da famosa dupla. Anuar hoje é silêncio, é quietude, é ausência. Os alto-falantes do “Barão” a cada partida do XV de Novembro tocam o famoso “Salve o XV de Novembro, glorioso esquadrão...”
Vez em quando Jorge ainda vai até minha casa pedir uma letra para que a transforme em música... Faz falta danada o Anuar.
Vez ou outra subindo a Rua Moraes Barros, os “Sinos do Bom Jesus” que hoje vivem calados, repicam de harmonia em meu coração... “e toda a manhã, ao romper o dia, ouvem-se as badaladas da Ave-Maria...”

Esio Antonio Pezzato

12 de abril de 2012

MARIA CECÍLIA MACHADO BONACHELLA - CRÔNICA

Maria Cecília Machado Bonachella

Nascida em São Simão, criança veio morar com seus pais e irmãos em nossa cidade. Filha de pais professores, cultos, inteligentes, Maria Cecília encontrou dentro do próprio lar os caminhos da Poesia. Compunha desde criança. Nasceu com alma de poetisa sensível ao Belo, mas também à dor e ao sofrimento, que sempre pontearam sua vida.

Jovem, bem jovem ainda, começou a publicar seus versos nos jornais de nossa cidade, granjeando um sem-número de admiradores e fãs. O seu professor de português, Elias de Mello Ayres ficava encantado com seus versos e fez uma merecida crítica à menina-poetisa, crítica essa publicada na imprensa e mais tarde como prefácio de seu livro “Três Fases”, 1978.

Quando jovem, seu coração não aprendera ou não sabia que devia trabalhar direito, que devia pulsar cadenciadamente no peito da jovem poetisa e resolveu dar suas primeiras pitadas de sofrimento em sua alma sensível.

Vai daí que é operada para colocar uma válvula no coração. Casou-se mais tarde a jovem Maria Cecília com Nelson, com a condição explícita do médico: nada de ter filhos.

Mas almas de poetisa e de marido apaixonado deram ouvidos ao médico: necas de pitibiriba, como dizemos. E vieram três filhos maravilhosos. Coração de poetisa aguentou firme o tranco.

Isso tudo aconteceu e nós ainda não nos conhecíamos. Viemos a travar contato no Calq, num dia oito de dezembro de 1977, quando do lançamento do livro “Enquanto a chama não vem”, do Arakén Martins.

Foi conversarmos e a amizade fluiu como água límpida montanha abaixo. E passamos a confidenciar sonhos de poesia, a fazer versos juntos, a catalisar a juventude. Sonhávamos publicar num livro nossos versos e, após idas, vindas, voltas, reviravoltas, ela dá luz ao seu quarto filho, agora em forma de livro: Três Fases e eu publico Luzes da Aurora. Isso tudo em 1978.

Maria Cecília alma sonhadora, passou depois de um tempo, a dar aulas para crianças no Clube de Campo de Piracicaba, e a todos encantava com singeleza, pureza de alma, com carinho materno mesmo.

Convidada pelo dr. Losso Netto, passou a coordenar a Página Literatura, no Jornal de Piracicaba, em 1980. Foram anos gloriosos. Buscávamos juntos, a poesia, mas Maria Cecília, e sua mãe, professora Lavínia Sardinha Machado, amparadas por um forte conhecimento linguístico, barravam imitadores e neo-escritores.

Quantas reuniões juntos. Formamos com outros amigos, a AEP – Associação dos Escritores de Piracicaba. Tal associação rendeu como fruto “É Tempo de Poesia”, depois “Lavra Palavra”. Como não deu certo ajudamos a criar o CLIP – Centro Literário de Piracicaba, onde foi sua presidente em 1995-1997.

Participou e foi premiada, em inúmeros Concursos Literários, como o Prêmio Escriba, O Povo Canta em Versos, aqui de Piracicaba, em Três Corações, em São Paulo. Participa como co-autora em dezenas de Antologias. Agora será tema em um livro composto pela poetisa sua xará Maria Cecília Graner Fessel. De fundamental importância para a Literatura piracicabana e brasileira, que teima sempre esquecer vultos importantes de nossa Literatura.

Maria Cecília ainda publicou “Era uma vez...” versos ácidos, críticos, mordazes. Sabia cantar o azul, mas seus versos muitas vezes eram roxos e negros mesmo.

Porém o coração de poetisa não aguentou mais. Deixou a Poesia órfã em fevereiro de 2007. E hoje a poesia ficou mais triste. Os versos ficaram mais tristes. Piracicaba ficou mais triste sem a poesia, o canto e o encanto de Maria Cecília Machado Bonachella.


Esio Antonio Pezzato

12 de março de 2012

MARIO STOLF - CRÔNICA


Na multiplicidade de sua vida Mário Stolf foi um ícone em Piracicaba. Era um homem bom, político sincero, numa época que políticos eram sinceros. Trabalhavam pelo prazer de colaborar com a Cidade. Davam tudo de si. Ah, aí chega a hora do salário: À época que Mário Stolf foi Vereador em Piracicaba, de 1956 a 1977, não havia salário... Depois, bem, depois a farra começou e ser Vereador ou ter qualquer cargo político virou espécie de trabalho remunerado. Belo e prazeroso jeito de viver bem, ter mordomias, e a gente já sabe o resto.
Lembro-me de Mário Stolf com carinho. A última vez que conversamos foi na Avenida Luciano Guidotti. E me dizia ele: essa gleba de terra era toda minha, mas certo religioso (e disse quem era) me ludibriou. Pediu uma parte dela para construir um Seminário e eu na boa-fé, acreditando que seria de fato importante para nossa cidade ter um Seminário dentro da cidade, doei. Qual não foi meu espanto tempos depois ver que fui enganado. A gleba de terra  que  doei  virou  um  condomínio  subterrâneo... Um cemitério. Pior mesmo foi pagar os impostos durante anos e ver, hoje, o ludíbrio, a mentira, a esparrela que fui vítima.
Mário foi um dos políticos mais atuantes e carismáticos de nossa querida Piracicaba. Faleceu de forma ingrata para um homem de 82 anos. Como? Atropelado. Muito ingrato mesmo isso.
Mário Stolf foi um ícone em nossa política. Vereador durante 21 anos foi vice-presidente de nossa Câmara, Secretário, foi membro da Comissão e Justiça Comissão de Obras Públicas, de Estudos Ambientais e poluição do Rio Piracicaba e membro fundador da Associação de Controle e Combate à Poluição Ambiental do Rio Piracicaba.
É pouco? Saudoso Herbert Levy, o popular Lisca, deputado e também alto funcionário do Banco Itaú, (diversas vezes estivemos juntos), me dizia que Mário Stolf era membro ativo do Instituto Genealógico Brasileiro. Mas Lisca gostava mesmo de dizer sobre nossa Piracicaba: adoro Piracicaba, posso dizer que sou fiel escudeiro do prefeito Luciano Guidotti e do Mário Stolf. E enchia o peito para bradar isso...
Mário foi um homem fora do contexto e fora do seu tempo. Era audacioso demais. Enxergava além dos olhos e além dos limites e além dos horizontes e muito além do presente. Foi autor da lei que criou o incentivo de poluição Agrícola e Introdução de novas técnicas. Preocupava-se com a ecologia e com a poluição coisa de 50 anos passados... quando ainda não havia as garrafas de
plástico, quando ainda não se poluía tanto águas dos rios, dos córregos, dos mares, quando a devastação das florestas não era ainda tão alarmante...
Mário também foi o autor do Primeiro Projeto de Lei do Brasil, criando a Imprensa Oficial dos Municípios.
Ah, Mário Stolf... hoje piracicaba com quase dois séculos e meio ainda relembra aquele que ajudou tanto na Organização do Bi-centenário de nossa cidade, na criação das Honrarias e na comissão para imortalizar num monumento, o grande Mário Dedini.
Mário que fez o primeiro traçado original de nosso Anel Viário, ainda no tempo de Homero Paes de Athayde, naquele final de ano de 1972. Mário via o futuro antes... tinha verdadeira obsessão pelo anel viário e também no traçado da rodovia do Açúcar. Ajudou também da construção da Ponte do Caixão e da Faculdade de Engenharia de Piracicaba e da Fundação Municipal de Ensino.
Mario Stolf teria completado em abril último 100 anos de vida. Passou batido. Como tudo passa batido aqui em piracicaba. Agora no próximo dia 11 de setembro fará 80 anos que Newton de Almeida Mello compôs a canção intitulada Piracicaba, que se tornou nosso Hino Oficial... Tivemos tantos importantes personagens mas... eu sempre digo e repito e volto a dizer: Piracicaba está se tornando estrangeira. Esquecida de vultos, de fatos, de história. Fantasmas aparecem e são honrados e glorificados e desaparecem da mesma forma...
Mário Stolf merecia mais. Como tantos outros... Neste agosto de tantas lembranças, Mário é nosso retratado no painel da saudade Caipira de minha memória.

Saudade, Mario. Sempre saudade. Mesmo as sepultadas num parque da ressurreição... Sepultadas e enganadas...

Esio Antonio Pezzato

2 de fevereiro de 2012

BRASÍLIO MACHADO - CRÔNICA

Imagem Google

Brasílio Machado

Num distante ano 1875, portanto há 136 anos, um poeta veio residir nesta Piracicaba, chamada então Vila Nova da Constituição. Dois anos depois é que Piracicaba deixou de ser Vila Nova... Mas essa história já é sobejamente conhecida, e eu mesmo já contei aqui numa crônica onde falo da Loja Maçônica “Piracicaba”.
O Poeta em questão era BRASÍLIO Augusto MACHADO de Oliveira, (1848-1919). Advogado e promotor, alma sensível. Vindo, pois, residir em nossa cidade, ficou encantado com tantas belezas naturais, que teceu uns versos em homenagem à nossa cidade e sem querer, cognominou de Noiva da Colina este recanto tão lindo que, 56 anos depois Newton Mello disse que “adorava tanto”. E nós também, com certeza.
O poema intitulado “Piracicaba”, assim se inicia: “Sacode os ombros nus, oh, Noiva da Colina!” todo estruturado em versos alexandrinos, e em quadras regulares, depois foi publicado pelo autor num seu livro de versos que tem o título de “Madressilvas”. Mas o mesmo é uma raridade hoje de ser encontrado. Ficou o Poema que foi publicado na Gazeta de Piracicaba de outra época...
Mas o que era a Noiva da Colina que o poeta tão inspirado cantou? O que inspirou o Poeta para tal manifestação artística? Onde imaginou o Poeta ver a sua Noiva da Colina, que deixou de ser só dele e passou a ser de todos nós?
Hoje em dia as pessoas dizem ser aquela cachoeira que despeja água logo abaixo do Salto no Rio Piracicaba. Mas aquela cachoeira não é nativa, é coisa do homem. É um canal que foi utilizado para captar água do rio para outro interesse.
O verdadeiro “véu da noiva” não existe mais. Tem figura poética muito mais interessante, mais apaixonada. É coisa de poeta mesmo. Mas poeta do timbre de Brasílio Machado. “Véu da Noiva” era aquela neblina que subia do Salto, tempo de inverno, e em massa densa, subia aos ares, e escorria pelos terrenos adjacentes ao Rio, que compreende hoje onde está a antiga Fábrica Boyes, e todo esse trecho entre a Avenida Beira-Rio e a Rua do Vergueiro, do Hotel Beira-Rio à Rua Moraes Barros.
Vou explicar: em 1875, isso tudo era terreno vago, era mato e mata, não havia construção alguma. Não havia mesmo construções. Hoje nesse aglomerado que vivemos, conseguimos entender isso? Não existem fotos. É uma pena. Também não existia o Cantareira que, que nos rouba a água e faz no inverno nosso Rio ficar uma lástima.
Mas Brasílio Machado, estranha abelha nessa colmeia caipira, inspirado nos deixou a todos “noivacolinenses”. Esse epíteto é tão forte, tão denso, que multiplicou seu sentido, alastrou nossas fronteiras.
Não existe força maior do que a Poesia para isso. A manifestação poética quando é densa, genuína, pura, grava na Eternidade, esses disparates poéticos.
Foi assim, numa visão poética que nossa cidade ganhou esse tão interessante epíteto de Noiva da Colina.
Hoje a poesia anda marginalizada, esquecida. Os poetas existem, mas não têm mais os seus leitores. Quase que assassinada, a Poesia ainda vive brotando em grotas, em grutas, em almas sensíveis. Não fossem os Poetas... Ah, não fosse um Poeta, não fosse um Brasilio Machado e Piracicaba não teria tão belo epíteto. Não seria Noiva. Seria sempre linda, pois Piracicaba é linda, sempre foi. Embora destruam paisagens, árvores imponentes (seringueira da Biblioteca, futuramente a imponente seringueira na Casa do Povoador, plantada pelo Elias dos Bonecos), poluam nossos Rios e Córregos (Piracicaba, Corumbataí, Piracicamirim, Itapeva e outros), que as florestas sejam dizimadas para se transformar num mar de canas, Piracicaba é sempre linda. Completa em 1º de Agosto 244 anos. Está sempre linda, sempre jovem, sempre Noiva, sempre virgem. Não há quem, poderoso ou não, não há brutamonte doentio que mate tanta ação cultural, tanta manifestação artística, tanta festa, tanta poesia, tanto humor, tanta paixão, tanta coisa linda em nossa Cidade.
Tudo começou bem antes... Em 1693, portanto há 318 anos e no correr dos séculos, só fará aumentar tanta beleza. E Piracicaba que adoramos e amamos tanto, cheia de flores e cheia de encanto, será sempre nossa linda Noiva da Colina.
Mas essa Noiva se tem um noivo, ele se chama Brasilio Machado. E não há quem possa negar isso.


Esio Antonio Pezzato – poeta e cronista piracicabano
Email: esiopoeta@gmail.com

8 de novembro de 2011

CRÔNICA - JOSÉ LUIZ GUIDOTTI



Conheci José Luís Guidotti nas Romarias a Pirapora, coisa de mais de trinta anos passados. Ficamos amigos e diversos anos depois seus filhos passaram a me acompanhar na Semana-Santa nas estradas.
Nossa amizade de estrada tomou rumo citadino e sempre estávamos juntos. E fui conhecendo mais o Zé Luís, como era chamado. E fiquei sabendo coisas por muito ignoradas. Exemplo: foi eleito Vereador em nossa cidade, em 1964, com um volume de votos em percentagem eleitoral que deixaria os nossos campeões de votos no Legislativo até então, assustados, com seu potencial tendo pouco mais de 20 anos de idade.
Zé Luís não era piracicabano. Era limeirense. Mas era tão piracicabano que por tudo o que fez seria merecedor de mais honrarias em nossa cidade, mas isso também não teve importância em sua vida. Um tanto breve, por sinal.
E Zé Luís foi Vereador, Chefe de Gabinete de seu tio Luciano Guidotti, Chefe de Gabinete do Governador,
Comerciante, Árbitro de Futebol de primeira linha, na Federação Paulista de Futebol, Conselheiro e Presidente de nosso glorioso Esporte Clube XV de Novembro, sócio-fundador do Nauti Clube, sócio-fundador de também Presidente do Panathon Clube, Romeiro de Pirapora e Navegador de nossos Rios.

Certa vez me contou seu sonho: sair de barco aqui de Piracicaba e ir até a foz do Rio Plata. Achei uma loucura Sem tamanho...
Mas imbuído de seu sonho, foi conhecer e estudar as Cartas Náuticas do trecho a ser percorrido: 3200km. Estudou muito, pesquisou, compilou e saiu em busca de amigos para tal realização. Gostaria mesmo de fazer uma grande Regata. Encontrou uns 15 amigos entusiasmados com seu projeto, que só não iriam "se chovesse canivete aberto no dia". Empolgado arrumou malas, tralhas, equipamentos, mas a chuva de canivete aberto caiu para todos que haviam se empolgado com sua ideia e prometido
Embarcar nessa tal aventura.
Mas o céu de Zé Luís estava azul e de brigadeiro e em janeiro de 1990, acompanhado por seu filho e outro amigo, apenas, a bordo do Verinha I, nome dado em homenagem à sua mulher, de frente ao Clube Regatas aqui
Em Piracicaba, iniciou sua aventura bandeirante em final de século XX.
Foram 35 dias de viagem nessa colossal Regata! Tal aventura resultou em livro.
Quando de sua publicação, em 1991, eu era Diretor Cultural do Cristóvão Colombo, no salão superior do Palácio Encantado foi feito o lançamento de seu livro-aventura com uma ideia minha: sua filha Kátia deveria vender os livros a bordo do barco Verinha I, utilizado em sua navegação. Subir o barco até o salão superior foi fácil. Descê-lo depois, foi uma epopeia. Mas a noite de autógrafos foi gloriosa para o Zé Luís. Depois seu espírito aventureiro o fez navegar dezenas de outros Rios brasileiros, o que tornou o Zé Luís o maior navegador de água doce no Brasil e um dos maiores do mundo, sendo reconhecido internacionalmente. E também idealizou em nossa cidade, o 1o. Mutirão às margens do rio Piracicaba, para limpar nosso Rio, coisa que acontece até hoje.
Zé, faltou espaço na crônica para dizer mais sobre sua importância em nosso Brasil. Também apressado nas águas da vida você embicou seu barco para Rios Celestes e decidiu ir navegar espaços e namorar estrelas num 12 de junho há alguns anos. Hoje atravessamos o Rio Piracicaba na ponte José Luís Guidotti e saudamos o amigo navegador com saudade.
É isso. Saudade. Zé Luiz.



Esio Antonio Pezzato

13 de outubro de 2011

CRÔNICA - BENÊ MARQUES


Benê Marques

Benê Marques foi radialista da P.R.D.6, a conhecida Rádio Difusora de Piracicaba, nos anos 1950 a 1970, creio. E foi um dos maiores em sua época. Granjeou simpatizantes, seguidores, fez escola na arte da comunicação piracicabana.
Nas noites de sábado animava um programa de auditório que era comum àquela época. Programa de variedades imensas. Para ter ingresso no pequeno auditório era necessário comprar ingresso no Chalé do Juca, que ficava ao lado da Difusora. E era necessário chegar cedo, ou ficava mesmo do lado de fora. E tinha cantores municipais, regionais, o famoso Regional D6, que acompanhava os músicos, tinha a “hora dos calouros”, sorteios de café Morro Grande, que era já naquela época, “Três vezes consagrado pela opinião pública”, um slogan forte, tinha o “a Roleta da Sorte”, uma roleta com número de 01 a 50. O contemplado escolhia um número a esmo e a roleta girava. Se caísse no número escolhido ganhava certa quantia em dinheiro, se não, levava para casa um pacote do café Morro Grande. E a bolada ia sendo acumulada até que um dia a sorte sorria e o feliz contemplado levava para casa uma polpuda quantia. Caso o ano inteiro ninguém fosse contemplado, e no último programa do ano a quantia acumulada era dividida em sorteios entre o público presente. Tinha também o famoso “Baú da Sorte”, uma caixa de madeira contendo qualquer coisa. Através de sorteio o contemplado tentava adivinhar o que havia dentro e acertando levava a quantia acumulada. Isso que o Benê dava durante o programa diversas dicas do que poderia haver dentro do baú. Era mesmo um programa inventivo, com auditório ao vivo. Já nas manhãs dominicais era âncora de outro programa, agora infantil, onde desfilavam as cantoras e cantores mirins de nossa cidade. Um público ferrenho defendia os cantores mirins usando intensos aplausos ou estridentes vaias. Bons tempos.
Benê Marques era também locutor esportivo, e narrava com extrema criatividade os jogos do XV, naquela época sempre na Primeira Divisão e o nosso Basquete, também do XV, que era imbatível com Wlamir Marques, Pecente entre tantos outros que honraram a famosa camiseta listrada.
O folclore dizia que era de Benê Maques, o famoso “cu de boi da área do XV”, quando de alguma jogada perigosa da equipe adversária contra nossa Esquadra. Mas isso é folclore mesmo.
Conversas com Benê e ele dizia que era mentira. Que seja mentira então. Mas o “cesta bola” a cada acertada na cesta isso era dele e marcou época. “Cesta Bola” e era o XV sapecando mais uma vitória contra outra equipe.
Depois passou ainda a um programa diário nas manhãs de Piracicaba, o famoso “Periquitinho da Sorte”, que também marcou época... Fiz até um poema para ele nessa época, mas nunca cheguei a publicá-lo, um tanto pela extensão do mesmo...
Travamos mais amizade quando da época da Ekipelanka, já que sua esposa Néia e filha faziam parte, como sua cunhada Elza e seu cunhado, o dr. Alcides Aldrovandi que era presidente da mesma. E seu sobrinho KK era um dos compositores de samba enredo. E era um tempo maravilhoso. Carnavais com Ekipelanka, Zoon Zoon e Ekipexato marcaram época nos anos 1970...
Encontrava-o sempre no Shopping Cidade Alta, já que era vizinho ali. Diariamente batia ponto e, os corredores do Shopping, eram quase que uma Sala de visitas para o Benê Marques, que recebia amigos, conhecidos de toda a cidade para uma boa prosa, um bom momento de recordação de nossa cidade.
Certa vez (ele estava já com a maledeta diabetes) telefonei e perguntei como ele estava. Foi sincero e de uma frieza tal que fiquei desconcertado. Disse-me ele:

– “Tô com o pé na cova!”

Ante minha indagação sorrindo muito disse que havia amputado o pé e o mesmo teve que ser sepultado, então ele já tava mesmo era com o pé na cova. Pode isso??? Fazia piadas até de coisas seriíssimas esse Benê Marques.
Certo dia Benê Marques foi chamado para comandar um programa em outras Esferas e partiu. Sem “cesta bola”, sem “cu de boi na área do XV”, sem “periquitinho da sorte”... Ficou a saudade de um tempo romântico que sempre fico a recordar em minhas crônicas, mas que não volta mesmo. Nunca mais.

Esio Antonio Pezzato

25 de setembro de 2011

CRÔNICA - FRANCISCO SÉRGIO PROTTI

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Francisco Sérgio Protti


Faz pouco tempo que Francisco Sérgio Protti partiu para outras plagas. E agora aqui recordando, recuo no tempo em mais de quatro décadas; naqueles tempos que, se eram dourados, eram também plúmbeos.
Sérgio era mestre em oficina mecânica. Trabalhou muitos anos na Retífica Roma e depois, abriu sua própria oficina, a Cabe-Blocos. Esse foi seu ganha-pão durante sua vida.
Sérgio era um jovem, fazia Tiro de Guerra, 18 anos, gostava de cantar. Interpretava canções românticas com uma voz cristalina, densa, encorpada, metálica. Incomum para a época.
As canções de Evaldo Gouveia e Jair Amorim eram constantes em seu repertório. Embora jovem, e ser jovem àquela época era curtir yê-yê-yê, Roberto Carlos e a frenética Jovem Guarda.
Mas Sérgio gostava mesmo era de serenatas pelas madrugadas desertas. Fizesse frio ou calor e lá estava ele acompanhado por três amigos: Carlos Roberto Furlan, Luiz
Borghesi com violões afinados e ao acordeão, Nivaldo Furlan, que tinha alguma coisa chamada de carro, que apelidamos de Catarina...
Cantava tanto e tão bem, que se inscreveu na TV Bandeirantes, em São Paulo, no programa de Calouros, do Bolinha, famoso apresentador da época. E fomos todos assisti-lo cantar, da famosa dupla acima “A Pretendida”, que nas rádios era tocada à exaustão interpretada por Altemar Dutra.
Entre o corpo de jurados ninguém mais que Evaldo Gouveia, (que feliz sorte!) e Sérgio soltou a voz, acompanhado dos violões de Carlos Roberto e Luiz. Entre tantos votos que recebeu um foi do compositor e co-autor da canção que Sérgio interpretou. Uma noite gloriosa para Sérgio.
Certa noite com os amigos resolveu fazer serenata em casa. Era madrugada de dois de novembro, Finados. Meu pai ficou furioso pelo desrespeito à data. Mas dia seguinte, hora do almoço e tudo já estava esquecido.
O tempo nos separou. Certa noite minha mulher, minha irmã Regina e eu saímos para curtir algum barzinho na noite piracicabana. Fazia frio. Num deles, o famoso Quatizinho, estava Sérgio, agora acompanhado de seu filho Pitu. E ele insistiu: queria tocar só para nós. Onde? A noite estava muito fria e os bares repletos. Decidimos ir à casa de minha mãe. O relógio marcava mais de uma da manhã. E para lá nos bandeamos então. Na calçada Sérgio e Pitu e aos primeiros versos de “A Pretendida” viram minha mãe nos reconhecendo, abrir a janela sorrindo e feliz dizendo: “Isso são horas de me acordar?” Entramos e até cinco da matina, eu, Ana Maria, minha mãe e minha irmã, fomos os privilegiados ouvintes dos ecos cristalinos das vozes de Sérgio e Pitu.
Minha mãe preocupada com vizinhos, com aquela intensa cantoria. Desfiaram todo o repertório que pedimos.
Sérgio dizia: filho canta “Maria Helena”, “O Trovador”, “Sentimental Demais”. Mas depois não teve jeito mesmo.
Pitu ao violão e Sérgio, e somente ele, sob nossos insistentes pedidos, soltou a voz para que os versos de “A Pretendida” perfumassem a noite fria.
Outro dia e todos os vizinhos curiosos queriam saber de onde vinham aquelas vozes e aquelas canções que acariciaram a alma e traziam lembranças de um tempo distante.
Depois nos vimos outras vezes, em outras noites mais no Quatizinho, no Bar Cruzeiro, mas ter Sérgio e Pitu só para nós, uma noite toda, atendendo pedidos, foi coisa ímpar, de amizade, muito carinho, muita afeição. Pena mas aquela noite especial não tornou a se repetir. E sendo única fica, agora, para sempre na memória.
De lembrança ainda umas fotos tiradas na praia, num distante 1965, em monóculos, que faziam o maior sucesso então.
Agora Sérgio ficou encantado e partiu. Ficou o vazio e o silêncio de sua voz vibrante. As noites sem sua voz e seu canto com certeza ficarão mais silenciosas e tristes e dês... pretendidas.
Ao jovem Pitu o alento de poder preencher esse vazio. Vai doer, por certo. Como dói a todos nós.
Saudade, Sérgio.



Esio Antonio Pezzato

8 de setembro de 2011

CRÔNICA - ZICO COIMBRA


Zico Coimbra

Éramos um bando de jovens entre 15 e 18 anos. Nossos locais de encontro: a hoje fechada Praça anexa ao Alfredo Cardoso, bancos de jardim na Praça ao redor da Igreja Bom Jesus, e as casas um dos outros, onde houvesse uma vitrolinha para a gente dançar.
(Eram os famosos Anos Dourados, ou Anos de Chumbo, quando Roberto Carlos mandava brasa com a Jovem Guarda, junto com Erasmo e Wanderléia. Tempo que um calhambeque velho fazia mais sucesso do que um carro do ano. E que sucesso fazia o calhambeque do Tiquinho, amontoado de jovens. Não havia drogas, não havia brigas, não havia roubos, não havia crimes. Era uma inocência. Era um tempo que íamos e vínhamos sempre a pé de um lado para outro, de dia ou madrugada. Andávamos sossegados mesmo).
Numa dessas casas o pai se fazia presença constante. Comunicativo, expressivo, risonho, calmo, cheio de sabedoria. Com seu olhar ele comandava tudo não dizendo nada.
E ele passou a ser da turma mesmo. Assim José Francisco Coimbra Filho, ou seu Zico Coimbra entrou na Turma, que era bem grande por sinal.
Bailes nos fundos da Fabrica de Artefatos de Cimento Coimbra e ele, sempre de boné na cabeça, aparecia, falava com um, com outro, ria, oferecia uma bala, e sapecava ensinamentos colhidos na Bíblia de seu dia a dia sagrado.
Era um gozador, seu Zico Coimbra. Quando punha a falar a gente murchava as orelhas e ele com sabedoria, nos conduzia para a retidão Justa e Perfeita de sua conduta, que já era alicerçada em Três Colunas, mas isso a gente ainda não entendia bulufas.
Depois contava: “certa vez fui ao Clube 13 de Maio. Não me deixaram entrar, pois eu era branco. Fiquei todo feliz. Então me bandeei para o Clube Coronel Barbosa e também fui barrado na porta por ser negro”. Ele contava isso e ria, ria, ria, e nós fazíamos coro ao seu sorriso generoso, franco e bom. Sem esconder ou ocultar sua descendência afro.
A juventude se foi, vieram os nossos filhos, e seu Zico abençoando a todos, distribuindo balas e cativando corações de outra geração. Chegaram os seus netos, e seus bisnetos e toda a sua alegria contagiante parecia não caber dentro de seu coração.
Com o correr do tempo a gente fica sabendo que nossos pais o conheciam desde sempre, portanto ficavam descansados quando nossa voz alardeava: vamos à fábrica do Coimbra..
Vejam se pode isso: poucos anos passados, e ele vai até a casa onde reside minha mãe. Bate e entra e beijando minha mãe no rosto e abraçando-a diz: “Quando moça, Maria, você era tão linda, eu paquerava você, mas já namorava o Lasinho...” Engraçado: ele fazer isso, Mãe contar e a gente rir a beça de seus disparates de amizade.
(Que saudade, seu Zico, das balas, de seu abraço afetuoso, Que saudade de seus beijos paternais, fraternais e queridos e mesmos ansiados!)
Ah, seu Zico, hoje vou à Fábrica e converso com o Gilberto, amigo de infância. Nele, vejo o Senhor mais moço e isso é tão bom. O mesmo sorriso, a mesma forma de agir, sempre com balas no bolso... Falamos de nossos filhos, ele já com vários netos, lembramos do Senhor... Agora até de enfarto falamos, pois ele me invejou...Depois ainda de amigos passamos a Irmãos e filho também ficou Irmão, e genro ficou Irmão e neto ficou Irmão.
É isso, seu Zico Coimbra. O senhor tanto semeou a Fraternidade que tá conseguindo fazê-la crescer e ser maior que sua casa, que seu quarteirão, que a Fábrica, que tudo. Esse, seu Zico, foi o Senhor. Vigorosa Coluna que sustentou nossos sonhos com Beleza e Força, para nos direcionar à Sabedoria. Saudade. Beijo com estalo de saudade, bala com sabor de saudade. Sorriso com timbre de saudade. É isso.
Três beijos, seu Zico Coimbra!

Esio Antonio Pezzato

29 de agosto de 2011

CRÔNICA - LEÔNIDAS ANDRADE FOGAÇA

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Leônidas Andrade Fogaça

A Revolução Constitucionalista de 1932, onde São Paulo ergueu sua voz e mostrou sua Força contra a ferrenha ditadura getulista, já foi contada e cantada magistralmente em prosa e em versos pelo Poeta Pracinha Guilherme de Almeida e outros tantos escritores.
Tal data magna de São Paulo não pode, não deve ser esquecida, pois ela mostra e lembra a bravura de um Povo. Mas não é propriamente da Revolução que vou tecer comentário aqui. Acredito que além de tantas histórias registradas por penas brilhantes, outras tantas ficaram esquecidas, relegadas, apenas contadas por familiares de boca em boca e com o tempo estarão mortas e esquecidas, pois tal efeméride completou nesse 09 de julho exatos 79 anos e poucos são os heróis que ainda estão entre nós.
Eu que não tenho pena tão brilhante, principalmente na crônica, vou recordar aqui uma história de beleza tanta, que um dia, quando a História for novamente re-escrita, deverá fazer parte no capítulo sobre heroísmo.
Dela consta o nome de Leônidas Andrade Fogaça, paulista de Mineiros do Tietê, ali nascido em 25 de novembro de 1904. Cedo veio residir em Piracicaba, no casarão ainda existente na Rua Luiz de Queiroz, esquina com a Rua 13 de Maio, com sua família.
Leônidas nessa época, moço, menos de 30 anos, já sofria com forte deficiência visual, mas quando São Paulo conclamava seus Filhos para engrossar fileiras contra a ditadura popular getulista, não tomou outra atitude que não fosse a de se alistar no Batalhão Paulista, e chegando em sua casa, avisou seu Pai João Fogaça (Jango):

– Pai, me alistei na Revolução, ao que recebeu como resposta paterna:

– Você não fez nada mais do que sua obrigação! (emociona contar esse fato acontecido há 79 anos!)

Em sua deficiência o jovem Leônidas foi servir no Batalhão Paulista e Piracicabano na cidade de Queluz, onde depois de um tempo, com o avanço das tropas getulistas, e a traição que São Paulo recebeu de Minas e Rio Grande do Sul, estados que apoiaram nas Palavras, mas se refugiaram entre as pernas quando o apoio se fez necessário e o sanguinário Getúlio mais mostrava sua gana contra o povo do Planalto de Piratininga.
Foi dessa forma que o Batalhão no qual servia o jovem Leônidas se viu afastado e sem comunicação com os demais e os dias correndo, e as necessidades básicas de sobrevivência começaram a se mostrar...
Assim que o Comandante do Batalhão pede um voluntário para ir buscar comida, e à frente se colocou Leônidas. O Comandante disse:

– Senhor Leônidas Fogaça, respeito e muito a sua valentia, mas sua deficiência visual aliada a perigos, fatalmente o levará à morte. Ao que respondeu Leônidas Fogaça:

– Que adianta ficar aqui e morrer de fome? Melhor morrer buscando comida. Isso baixou a resistência do Comandante e Leônidas, acompanhado de outro soldado, partiu na aventura de trazer víveres para o Batalhão.

Se arrastando entre urzes e espinhos, pedras e percalços, Leônidas entre os dedos sente algo diferente: no meio do mato, dentro do nada, numa Revolução e ele encontra uma medalha de nossa Senhora Aparecida! E diz ao companheiro: vamos em frente, vamos buscar nossa ração! Se a Mãe de Deus está aqui com a gente, ela não pode querer a nossa morte! Tal Medalha guardada como relíquia, é patrimônio da Família até hoje!
Dizer mais seria alongar o texto de uma história muito emotiva. Leônidas Andrade Fogaça anos depois se casou com Anna Morales Raya e teve três filhos: Edu Fogaça, Walfrido Fogaça e Ana Maria, minha mulher.
Faleceu em 13 de julho de 1969, aos 64 anos, estimado, respeitado por Piracicaba que homenageia tal homem não por esse fato narrado, mas por sua integridade moral e cívica; por ter uma vida justa e perfeita junto ao Grande Arquiteto do Universo, com seu nome numa Rua no Jardim Primavera. O escritório fundado por ele há mais
de 70 anos, hoje é comandado pelo seu filho Walfrido Morales Fogaça, no mesmo local. Leônidas fez também parte da Maçonaria na Loja “Piracicaba” durante décadas, até sua partida para o Oriente Eterno.
São histórias como essa, que fazem do Nove de Julho uma data inesquecível em todos os sentidos.

Esio Antonio Pezzato

24 de agosto de 2011

CRÔNICAS CAIPIRAS - BRUNO BISCOITEIRO

Foto by Diogo Pereira da Silva

Bruno Biscoiteiro

Piracicaba teve seus tipos populares através dos tempos. Hoje ainda os tem. Não me deixa negar o Carlão que vive pela praça, senta-se no banco fronteiriço ao Banco do Brasil, diz que domina raios, que tem uma aura espetacular, que vai aparecer na televisão... Ah, Carlão, a quem conheço desde sempre, não vou ainda falar de você. Temos também o Saponga, torcedor símbolo do XV... Também não vou falar do Saponga...
Hoje quero lembrar outro personagem. Outra pessoa que entrou nos anais da Saudade de quem tem mais de 50, com certeza... Ou ainda mais...
Seu nome era conhecido por todos, nas ruas, nas casas, nas famílias. Esquisito mas amado. Meu pai dizia que eram amigos quando jovens, um ia dançar na casa do outro e que ele possuía uma irmã muito bonita...
Seus gritos ainda ecoam nas ruas piracicabanas, de modo peculiar, musical, sonoro, vibrante... biscoito... bis-coi-to... bis...coi...to... to... to...to.
Era ouvir esses gritos e a molecada sabia que era o Bruno Biscoiteiro que estava a vender os deliciosos biscoitos de polvilho. Ele aparecia com uns sacos enormes, mas enormes mesmo, cheios de biscoitos empacotados. Parava numa esquina qualquer e punha-se a esgoelar...
– Biscoito! Biscoito! Biscoito!
E sua voz fazia eco aos seus gritos...
Depois nas noites invernais e Bruno já não vendia tantos biscoitos. Preferia sair para vender pinhão que punha para cozinhar numa lata de 20 litros cheia de pó-de-serra que aquecia a água e deixava os pinhões quentes, molinhos, para a gente comprar uma dúzia, e os mesmos vinham embrulhados no cartucho de jornal e descascávamos com os dentes para saborear os deliciosos pinhões.
Era assim. Bruno aparecia na noite fria assim do nada. A gente tava na rua numa rodinha e ouvia de uma esquina qualquer sua voz esgoelando:
– Pinhão! Pinhão! Pinhão! E o eco de sua voz repetia o final dos ãos...

Bruno Tegon. Para nós todos moleques de um tempo romântico, Bruno biscoiteiro, Bruno dos pinhões. Bruno que esgoelava a voz e parecia que ia perder o fôlego de tanto gritar para alardear seus quitutes. Bruno que ficava vermelho como pimentão e atendia a todos com requintes de simpatia, e raramente falava mais do que lhe perguntavam.
Bruno Tegon foi um dos últimos tipos populares românticos de nossa cidade, que teve, talvez, em Nhô Lica, seu maior representante.
Piracicaba rica de tipos populares não dá valor aos seus mitos. Esquece-os com uma facilidade ímpar. Bruno é saudade, Nho Lica é saudade, tantos, tantos hoje são saudades.
Eu não os esqueço. E lembrando-os faço reviver em minha alma na chama ardente da saudade. E assim fazendo, faço também que muitos acendam em suas almas, a chama da saudade de um tempo lindo, de um tempo que se podia andar na rua sem preocupações de assaltos. Um tempo que andávamos a pé de madrugada sonhando serenatas.
Piracicaba ficou um tanto estrangeira e isso machuca. Pessoas sem estirpe da Raça dos Caipiras, chegaram, tomaram conta, meio que nos contrariando pensam que podem namorar a Noiva da Colina. Não podem, não.
Piracicaba vai tendo brutamontes e esquisitices sem fim e fantasmas ditando normas, leis, mudando o que não gosta e mata a história de um povo lentamente, lentamente, lentamente.
Não temos mais Nho Lica, Bruno Biscoiteiro, Elias dos Bonecos, Zico Coimbra entre outros, contudo Carlão, Madalena, Caetano Provenzano e Saponga são mais lembrados na gozação, quando deveriam ser mais ouvidos, amados, queridos e respeitados. Ganhe uma hora de seu vazio tempo, vá à Praça e busque um dedo de prosa com o Carlão e saia um pouco mais culto de nossa cidade.
Não deixe o progresso matar a cultura, os tipos populares e a história de nossa rica Piracicaba. Não seja um simples caipira com ares de estrangeiro a matar a tradição e a cultura tricentenária de nossa cidade. Os brutamontes devem ser estirpados urgentes.
Biscoito... biscoito... biscoito... saudade dos biscoitos do Bruno.

 
Esio Antonio Pezzato

11 de agosto de 2011

BRANCA MOTTA DE TOLEDO SACHS - CRÔNICA

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Branca Motta de Toledo Sachs

Quando a História de Piracicaba do século XX for contada, um nome que deverá encabeçar um capítulo, com certeza, é o de Dona Branca Motta de Toledo Sachs.
Como sempre vivo dizendo Piracicaba esquece seus vultos. Por exemplo: dando nome ao Hospital Regional que vai ser inaugurado ainda ano que vem uma Senhora que NADA fez por Piracicaba, vai ter seu nome ali imortalizado. Homenagem que nada nos diz respeito, embora tenha sido uma grande pessoa Zilda Arns, o nome escolhido pela nossa Câmara Municipal.
Fôssemos analisar friamente os dados, D. Branca deveria ter então seu nome ligado ao Hospital Regional. Mas isso agora não adianta. Não vou dizer mais sobre o assunto aqui, já que quero lembrar D. Branca.
Eu a conheci ainda na barriga da minha Mãe, com certeza, pois se uma era a idealizadora da Escola de Mães denominada Doutor Álvaro Guião, outra era Madrinha desde sua fundação, em 1939.
Essa história da Escola de Mães que hoje tem o nome de sua idealizadora, precisa e necessita ser contada. Nomes como o dela, Dr. Alcides Aldrovandi, Mário Ângeli, Paulo Falanghe, e tantos, tantos, tantos outros, precisam ser reverenciados com respeito, com afeto, com ternura, com dignidade, em pé e fazendo continência.
D. Branca foi idealizadora e Presidente durante sua vida toda, isso de 1939 até seu falecimento. Se tantos e tantos bebês em nossa cidade nasceram com saúde, tiveram o primeiro enxoval, médico pediatra, leite em pó e todo o carinho isso Piracicaba deve ao espírito altruísta dessa Senhora. Se o ditado aqui pode ser invertido, atrás de um grande homem, existe sempre uma grande mulher, atrás de uma grande mulher existiu um grande homem, que foi o professor Alberto Vollet Sachs, esposo de d. Branca. Hoje nem vou dizer dele, pois o espaço já é curto, enxertar o professor Alberto aqui seria muito. Mas não poderia ser aqui esquecido. Como não será d. Branca quando eu for recordar do professor Alberto.
Dizia que eu a conheçi desde o ventre materno, não é mentira não. Minha Mãe, hoje com quase 88 anos trabalhava de babá do filho mais novo de D. Branca, o Tatau, que faleceu agora em 2011. Tinha seus 15 anos, quando a Escola de Mães foi criada. Hoje minha Mãe, com certeza, é a única das fundadoras que ainda podem contar essa história.
Os anos passaram e d. Branca depois que minha Mãe se casou e teve seus filhos passou a ser amiga e era presença frequente em nossa casa.
Foi quando eu desandei a fazer poesia, isso em 1972, que D. Branca ficou então minha poetisa favorita, juntamente com Lino Vitti. Ela fazia uns sonetos inspirados, justos e perfeitos que me deixavam maluco. Eu lia, relia, tornava a ler e cada soneto dela publicado era mais lindo que o anterior. Eu babava de inveja.
Era recebê-la em casa para uma visita e ao invés de falar da Escola de Mães com minha Mãe, dos chás beneficentes e eu roubava um pouco de seu precioso tempo para mostrar a ela meus versos. E ela carinhosa “com o filho da Maria” que desandava a fazer versos, me dava toda a atenção.
Depois ela passou a elogiar meus versos e em retribuição lhe dediquei um Soneto e ela me retribuiu o presente. Mas isso faz quase 40 anos já...
Alguns anos após D. Branca já havia falecido e o Albertinho, seu filho, me liga dizendo que quer homenagear sua Mãe, publicando seus versos e eu, todo feliz e afeito ao pedido, selecionei os versos, digitei todos, fiz a revisão, coloquei tudo numa ordem cronológica e os Sonetos de Branca foram impressos para engrandecer e enobrecer a Poesia brasileira com sonetos da mais alta estirpe e mais nobre e pura inspiração.
Dona Branca, amiga de minha Mãe, amiga de todas as Mães de Piracicaba entre 1939 e 1995, Mulher Piracicabana, nascida em Lorena, mas isso nem importa, era mais Piracicabana do que tantos aqui nascidos. D. Branca Poetisa, essa sim, minha amiga de sonhos, de versos, de carinhos.
D. Branca Motta de Toledo Sachs revive hoje na minha memória, na minha saudade, nessa pequena crônica ditada pelo coração. É isso. A Senhora se foi, e aninhos com asas ainda não crescidas, aquecidos com cueiros e fraldajs e gorrinhos da Escola de Mães, foram ensinados a voar com seus ensinamentos, com seus carinhos, com sua dedicação, com seu afeto.
Piracicaba deveria erigir em praça pública seu busto com algum dizer assim: d. Branca, a mais nobre Mulher que residiu nessa cidade!
Isso nós bem sabemos, não vai acontecer. Quando digo que estamos perdendo a identidade, sou criticado. Enquanto isso vereadores desinformados vão importando nomes sem importância para nossa cidade, para ser gravados com bronze em prédios públicos. Dói muito.



Crônica de Esio Antonio Pezzato




Minha Ana Maria e Sissi

Apresentação Poema "O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot" Loja Maçônica Acácia Barbarense

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