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18 de fevereiro de 2011

QUADRA PORTUGUESA - A mulher do Alentejo...



Glosa

A mulher do Alentejo
Leva mais longe a razão
Nas canseiras, em sobejo
Constroi direitos e pão.

(Quadra portuguesa)



Mulheres de todo o mundo
E de todos os lugares,
Dentro de vossos sonhares
Brilham num sonho fecundo.
E nesse sonho profundo
Mais aflora o meu desejo
Se elas merecem um beijo
Em tal sonho ardo e deliro.
Pois em meu sonho suspiro
A Mulher de Alentejo.



Essa mulher tão bonita
Tão ponderada e sincera,
Tem no olhar a primavera
De maneira que acredita
Que a esperança é-lhe infinita.
De encantos seu coração
Modula eterna canção
Eu dela tão longe vivo
Que o pensamento cativo
Leva mais longe a razão.


Procuro-a em sonhos floridos
E a minh’alma não se cansa
De ter tamanha esperança.
Dentro dos dias vividos
Trago sonhos coloridos
E o sonho o amor por ensejo
Mas pelo mundo só vejo
Que nos rumos onde sigo
Nos ombros segue comigo
Nas canseiras, em sobejo.

 
Essa mulher caridosa
Faz do amor a sua prece,
Por isso, por Deus merece
Ter as pétalas de rosa
Na estrada maravilhosa
Onde for seu coração.
Essa mulher, que emoção,
Inspira agora o meu verso
E nas fímbrias do Universo
Constroi direitos e pão.



14.03.2002


Esio Antonio Pezzato

19 de dezembro de 2009

GLOSA



Glosa

Diz velha sabedoria:
Quem cala sempre consente.
Dentro da minha Poesia
Sou silêncio num repente.
(E. A. P.)

De frente a ataques calar-se
Sempre revela bom senso.
Eu por isso às vezes penso
E uso o riso por disfarce.
Muito embora a alma se esgarce
Dou revides de ironia.
É minha maneira fria
De silenciar frente a tudo.
Ser prudente é ficar mudo
Diz velha sabedoria.

Isso não diz, com certeza
Que aceito o golpe da faca.
Se minha voz não ataca
E o rosto mostra rijeza,
– Sou assim por natureza
Mostro sempre estar contente.
Tanta gente, tanta gente,
O golpe sempre revida,
Mas digo com voz fingida:
Quem cala sempre consente.

Nos versos mostro a alma nua,
Porém, me envolvo em segredo.
Não digo que sinto medo.
Se disfarço olhando a lua,
Se ao léu vago pela rua
Não é por hipocrisia,
Porém, no meu dia a dia
Me oculto, sim, por inteiro,
Sou Poeta verdadeiro
Dentro da minha Poesia.

Não me critiquem por isso
A pérola dentro da ostra
Somente pronta se mostra
Portanto em meu compromisso
Com palavras nunca atiço
O fogo que brota ardente.
A verdade é transparente
Não precisa se mostrada.
Assim, não digo mais nada:
Sou silêncio num repente.

11.04.2008



Glosa


Por ternura, por meiguice,
Por amor e por vaidade,
Sou idosa sem velhice,
Não perdi a mocidade
(Sinda Vélez Mendes) Ervedal, Portugal


Minh’alma em delírios canta
Estribilhos de cantigas,
E como as aves amigas
Com diamantes na garganta
Na imensa paixão se encanta
Em sua tagarelice.
E nos seus sonhos de Alice
No cantar põe rendilhados,
Põe brilhantes encantados,
Por ternura, por meiguice.

Minh’alma é feliz na vida,
No amor que em êxtase sente,
Na ventura se faz crente
Tece trama colorida.
Por mais vida a ser vivida
Cria cantos de verdade,
Põe rimas de suavidade
Em todos os seus caminhos,
E põe ternura nos ninhos,
Por amor e por vaidade.

Minh’alma toda vaidosa,
Sente-se ainda menina,
E em passos de bailarina
Saltita alegre, formosa,
E com frases cor-de-rosa
Mostra sua faceirice.
Por tudo sente crendice;
E diz-me toda sorriso
Como a crer no Paraíso:
Sou idosa sem velhice.

Minh’alma não vê, por certo,
Do tempo o correr insano.
Vão-se as ondas do oceano
E as areias do deserto.
Frente ao viver amplo, aberto,
Pulsa e vibra de ansiedade.
Mas toda serenidade
Em meus olhos fita fundo
E diz num sonho profundo:
Não perdi a mocidade.

11.02.2009



Glosa

Por ternura, por meiguice
Por amor e por vaidade,
Sou idosa sem velhice,
Não perdi a mocidade.
Sinda Vélez Mendes (Ervedal, Portugal)

Os anos passam voando
Tal qual os sonhos de glória.
Passado se faz história
Que ficamos recordando...
Os sonhos passam num bando
De aves em tagarelice,
Morre a fé, finda a crendice,
Porém, n’alma glorifica
A saudade bela e rica
Por ternura, por afeto.

No precipício a esperança
Se agarra nos verdes ramos.
E ingloriamente sonhamos
Com farrapos de lembrança.
Mas o tempo a valsa dança
Em alta sonoridade
Seus acordes de saudade.
Passa a vida, voa o tempo,
As ramas secas eu empo
Por amor e por vaidade.

A minha vida... quem dera...
O vendaval trouxe o inverno...
Já não há um sonho terno
Nem flores na primavera.
E a vida em sua quimera
Não tem semente que vice,
Porém, se um dia eu a visse
Aportar-se na minh’alma,
Diria serena e calma:
Sou idosa sem velhice.

Mas o tempo corre insano...
Quem ultrapassa-o, quem vence-o?
Perdido neste silêncio
Me torno um rei soberano...
Não acredito no engano
E em fatal serenidade
Redijo minha verdade
E aos quatro cantos do mundo
Brado num eco profundo:
Não perdi a mocidade!

13.02.2009


Glosa

(em Casimiro de Abreu)


É curta a quadra da infância,
Dura somente um momento.
Passa leve, como o vento,
Depois, se esvai na distância.
Mas fica a eterna fragrância
Que ainda no olfato retenho.
É morto tão belo engenho,
Mas quando com versos pinto
Esse momento já extinto,
Oh! que saudades que tenho!

O tempo era de inocência
E repleto de segredos.
Quantos sonhos, quantos medos,
Quanta falta de prudência.
Mas inadvertida ciência
Deixou-a descolorida,
E fraca ficou retida
E o quintal apequenou-se.
Quanta lembrança tão doce
Da aurora da minha vida.

E cresci, tornei-me adulto,
A voz ficou diferente.
Tudo se foi num repente
Tal qual um profano culto.
O riso ficou oculto
Nalguma esquina perdida.
Deparei-me com a Vida
Toda repleta de enganos.
Como eram doces os planos
Da minha infância querida

O desespero nefasto
Deixou-me tristonho, mudo.
Olho ao redor e por tudo
Vejo um sonho morto e gasto.
Tristonho, os passos arrasto
Mas são passos sepulcrais.
Ai, no peito dói demais
– Como constantes castigos,
A memória dos amigos
Que os anos não trazem mais.

Mil brincadeiras variadas
A turma toda fazia.
Havia mesmo magia
Nas tardes ensolaradas.
Lembranças tristes, malvadas,
Num momento em tudo infesta;
Da infância saudosa resta
Desesperadas lembranças.
Mas quando éramos crianças,
Que amor, que sonhos, que festa!

A Inocência tinha nome
E a chamávamos de sonho.
Em cada rosto risonho
O sorriso se consome.
E ainda parece dar fome:
Ai, doces tardes festeiras,
Dispostos, e sem canseiras,
Andávamos pelo mato,
Ai, lembranças do regato,
Naquelas tardes fagueiras.

O cansaço não havia
E o tempo era sempre curto.
Adulto, hoje, às vezes furto
Alguns instantes do dia
E recordo na Poesia
Aquelas tardes inteiras,
Fantásticas brincadeiras...
Mas se o cansaço chegava
Noss’alma ficava escrava
À sombra das bananeiras.

Em silêncio verto o pranto
Daquela quadra formosa.
O sonho foi cor-de-rosa
Mas terminou tal encanto.
E n’alma ainda vibra o canto
Dos acentos imortais.
Mas, oh, coração, tu vais
Aquietar-se na fragrância
Daquele tempo de infância,
Debaixo dos laranjais.

26.02.2008


Décimas para um desafeto


Homem baixinho, homem-metade
Coisa ridícula soltar
A sua sânie tumular
Promíscua de ferocidade.
À sua baba de maldade
Em vão você tenta exibir,
Mas eu no escárnio fico a rir
E no deboche solto um canto.
Bobo da corte lhe garanto:
Você vai ter que me engolir.

Se homem inteiro você fosse
Lhe aplicaria uns safanões,
Sendo da raça dos anões
Liliputiana mãe o trouxe
Num lupanar, num tredo alcouce,
Porque não sabe onde seguir.
Porém, no escuro fica a ouvir
A voz materna em gozo tanto
Sou eu que nela a verga planto
E ela também vai me engolir.

Você não manda nem desmanda,
Também em mim, não manda, não.
Eu fico a rir de gozação,
Soltando minha sarabanda.
Enquanto vai passando a banda
Você procura se exibir,
Para que um dia, no porvir,
Você, talvez, seja lembrado,
Mais deixo aqui no meu recado:
Você vai ter que me engolir.

12.03.2009


Glosa

Quando um tico-tico canta
Minha vida é assim, assim,
Vem-me um soluço à garganta,
Sinto saudade de mim...
(Lino Vitti)



Tudo passa nesta vida
Com veloz ferocidade.
Hoje, preso na cidade
Trago a lembrança sofrida,
De uma lembrança querida
Que me cobra – tola manta! –
E o coração acalanta.
E rememoro saudoso
Aquele tempo saudoso
Quando um tico-tico canta.

Hoje em liberdade preso,
Sinto, patético, triste,
Que não mais na vida existe
Aquele sonhar aceso.
A saudade como peso
Parece que não tem fim,
Quando escuto no jardim
O passarinho inocente
Cantando continuamente
Minha vida é assim, assim...

A água pura e cristalina
Do regato ao céu brilhante
Era um convite constante
Para a infância bailarina.
Mas hoje tudo se inclina,
E essa visão me espanta:
O tico-tico na planta
Cantando despreocupado
E fico logo magoado,
Vem-me um soluço à garganta.

Ah, querida mocidade,
Oh, vívida juventude,
Corre o tempo, a vida ilude,
Tudo torna-se saudade.
Tudo o que era alacridade:
Canto, alegria, festim,
Trinar de papa-capim,
Acabou-se num solfejo,
Pois hoje, quando me vejo,
Sinto saudade de mim.

27.02.2009


Esio Antonio Pezzato



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GLOSA



Glosa

E eu vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.
(Olavo Bilac)


Noite alta. O luar prateia
Da cidade cada rua.
Minha alma vagueia nua,
Devaneia, devaneia.
A lua fulgura cheia,
Todo o céu está brilhando.
Passa um vento leve, brando,
E solitário caminho.
Como sempre vou sozinho
E eu vou sozinho, pensando...

Ela invade a minha mente.
Por que penso tanto nela?
Por acaso não sabe Ela
Que a minha alma tanto sente
A sua ausência fremente
Nesta noite de luar?
Ando sozinho a vagar
Em febre a mente é uma ilha.
E o pensamento fervilha
Em teu amor, a sonhar.

Por sob o luar de prata
Cintilam milhões de estrelas.
Extasiado fico a vê-las
Pensando em quem me maltrata.
Ouço ao longe a serenata
E dois violões tocando.
Ai, até quando, até quando
Viverei com tal miragem?
Já que sigo na viagem
No ouvido e no olhar levando?

Tão doce lembrança invade
Meu coração num momento.
E eu esparjo pelo vento,
Pelas ruas da cidade,
Que estou morto de saudade
Pois estou a carregar
Em cada instante a sonhar,
Teu olhar e teu sorriso,
E ouvir e sentir preciso,
Tua voz e teu olhar.

27.02.2008


Glosa

A mulher do Alentejo
Leva mais longe a razão
Nas canseiras, em sobejo
Constroi direitos e pão.
(Quadra portuguesa)


Mulheres de todo o mundo
E de todos os lugares,
Dentro de vossos sonhares
Brilham num sonho fecundo.
E nesse sonho profundo
Mais aflora o meu desejo
Se elas merecem um beijo
Em tal sonho ardo e deliro.
Pois em meu sonho suspiro
A Mulher de Alentejo.

Essa mulher tão bonita
Tão ponderada e sincera,
Tem no olhar a primavera
De maneira que acredita
Que a esperança é-lhe infinita.
De encantos seu coração
Modula eterna canção
Eu dela tão longe vivo
Que o pensamento cativo
Leva mais longe a razão.

Procuro-a em sonhos floridos
E a minh’alma não se cansa
De ter tamanha esperança.
Dentro dos dias vividos
Trago sonhos coloridos
E o sonho o amor por ensejo
Mas pelo mundo só vejo
Que nos rumos onde sigo
Nos ombros segue comigo
Nas canseiras, em sobejo.

Essa mulher caridosa
Faz do amor a sua prece,
Por isso, por Deus merece
Ter as pétalas de rosa
Na estrada maravilhosa
Onde for seu coração.
Essa mulher, que emoção,
Inspira agora o meu verso
E nas fímbrias do Universo
Constroi direitos e pão.

14.03.2002




Glosa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)



O poeta nesta vida
Do prazer tece uma lira.
Cria um mundo de mentira
Sonha a esperança perdida.
Longa é a estrada percorrida
Para encontrar um amor.
Mas encanta-se com a flor
Pendida num tênue galho
E ao prometer-lhe agasalho,
O poeta é um fingidor.

À flor faz ele uma crença
E se mostra apaixonado.
O mundo deixa de lado
Para ter a recompensa
Da ternura mais imensa
De tudo o que em glórias sente.
Contudo o poeta mente
Pois mentir é sua glória.
Ao lembrar tão bela história
Finge tão completamente.

A flor que não tinha dono
E perfumava o caminho,
Foi arrancada do ninho
– Primavera fez-se outono.
E o poeta no abandono
Da flor roubou o frescor.
Deixou-a no chão sem cor
E agora demonstra ao mundo
O seu delírio profundo,
Que chega a fingir que é dor.

E o poeta entristecido
Junta no chão os gravetos,
Constroi amargos sonetos
Do sonho vê-se perdido.
E seu pranto derretido
Rega no chão a semente
Que nascendo novamente
Traz ao poeta alegria,
E ele diz numa poesia
A dor que deveras sente.

31.01.2008


Glosa

Menino passarinheiro
– Caçar era a minha lei! –
Hoje vivo prisioneiro
Nas arapucas que armei.
(E. A. P.)


Da bela infância vivida
Em tempos de hoje saudade,
Distante uma Eternidade
Que parece de outra vida...
Mas a lembrança florida
Deixa-me ser cancioneiro.
Desse sonho aventureiro
A gaiola hoje vazia
Faz lembrar que fui um dia
Menino passarinheiro.

Pintassilgos, avinhados,
Azulões e correntinos.
Eram belos os destinos
E os tantos sonhos sonhados.
Eram os sonhos dourados,
Cada um era um grande rei.
(Por que agora assim sonhei?)
E lembro tão doce infância
– Saudade evola fragrância,
– Caçar era a minha lei! –

O tempo nos fez adultos
E se foram os amigos.
Dentro de férreos abrigos
Hoje trazemos ocultos
Fantasmas de velhos vultos
E um coração estrangeiro.
Por mil caminhos esgueiro
E ao sonhar essa lembrança
De meus tempos de criança,
Hoje vivo prisioneiro.

Belo sonho evaporou-se
Com o calor do sol da tarde.
O silêncio faz alarde
De um tempo que foi tão doce.
A saudade aqui me trouxe
Nos espinhos me estrepei.
Por mil estradas vaguei
Mas sempre estive indefeso.
Passarinheiro estou preso
Nas arapucas que armei.

31.01.2008


Glosa

Veja só quanta imprudência,
– Que terrível pesadelo! –
Casou por correspondência
E a noiva veio sem selo.
(E. A. P.)


Nesta vida é necessário
Estar sempre muito atento,
Porque num só movimento
Nosso belo itinerário
Transforma-se num calvário
Onde a atroz maledicência
Machuca a nossa consciência
E o paraíso áureo, eterno,
Transmuda-se num inferno,
Veja só quanta imprudência!

Moço rico, índole boa,
Foi pescar numa cidade
Onde havia quantidade
De cardumes na lagoa.
Mas ficou sorrindo à toa
Ao ver rosto tão singelo,
Olhar casto, doce, belo,
Nos seus olhos por olhares,
Serenos, crepusculares.
Que terrível pesadelo!

Ao retornar do passeio
Suspirava, suspirava,
Su’alma caíra escrava
Da donzela em doce enleio.
Vivia no devaneio
Sofria com tal ausência
Aos céus clamava clemência
E foi tanto o sofrimento
Que a pediu em casamento
– Casou por correspondência! –

Só depois de quinze dias
Foi buscar a sua esposa,
– Doidejante mariposa! –
De farras e fantasias.
Mas funestas heresias
Ao seu peito trouxe gelo...
Tratou-a com tanto zelo
Porém ao provar tal doce
O moço rico danou-se
E a noiva veio sem selo.

31.01.2008


Glosa

Não sei se é fato ou se é fita,
Não sei se é fita ou se é fato.
O fato é que ela me fita,
Me fita mesmo de fato.
(Anônima)

Passa em frente à minha casa
Linda mulher – é casada.
Passa dengosa a safada
No dedo a aliança é brasa.
Em requebros ela arrasa
E a multidão deixa aflita.
A boca vermelha agita
Mas parece um passarinho
Querendo sair do ninho.
Não sei se é fato ou se é fita.

Passa toda oferecida,
Lança olhares ternos, quentes.
Seios pontudos, ardentes,
São dois pecados na vida.
A cabeleira comprida
Lembra um dourado artefato.
Por ela me desbarato,
Faço um dia uma loucura.
Me flerta toda em ternura,
Não se é fita ou se é fato.

Pensamento devaneia:
Um dia a abordo na rua,
E ela passa, seminua,
Lançando olhar de sereia.
Mas é porta de cadeia
Tanta beleza infinita.
Porém, o meu peito grita
E ela o olhar joga de lado.
Mas não posso estar errado:
O fato é que ela me fita.

Mas contemplo-a da janela
E ela passa sorridente.
Na calçada displicente
Olhar furtivo revela.
Mas na estreita passarela
Muda a cena. É novo ato.
Com seu olhar de retrato
A safada sem vergonha
Por quem a minha alma sonha,
Me fita mesmo de fato.

26.02.2008






Esio Antonio Pezzato










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GLOSA



Glosa

Não deixa de ser tolice
Trabalhar a vida inteira;
Quando se chega à velhice...
Sem tostão no algibeira!
(Maria Célia C. Roque – Portugal)



Mal o galo acorda o dia
Já dou um salto da cama.
Dou dois beijos em quem me ama
E parto para a porfia
Na mais penosa agonia...
No peito tenho a crendice
Que já nem sei quem me disse,
Que o trabalho é que enobrece...
E crer assim nesta prece,
Não deixa de ser tolice...

Mal vejo o crescer dos filhos
E a garrulice da infância...
De todos tenho distância
Pois nos olhos trago os brilhos
De apenas seguir os trilhos
De uma glória feiticeira...
E a vida corre faceira...
Mas carrego em minha mente
Apenas o sonho crente:
Trabalhar a vida inteira!

E o tempo – feito fumaça,
Enegrece meus projetos...
– Meu Deus! Vieram os netos!
E a vida como trapaça
Mais veloz que o vento – passa...
Se na juventude eu visse
Que obrar tanto é cretinice...
Não vale o arrependimento
Que se abre a mim no momento
Quando se chega à velhice...

E deste trabalho tanto
Resta-me por recompensa:
Tristeza, angústia, doença,
Um martírio em cada canto
E uma vida sem encanto...
Só tenho por companheira
Neste triste fim de feira
O tédio no fim do dia
E uma esperança vadia
Sem tostão no algibeira!...

15.03.1998



Décimas

Fui cruzando o mar da vida
Numa constante odisséia,
Como uma abelha perdida
Longe de sua colmeia.
(Clementino D. Baeta)



De meu barco alcei as velas
E me pus em mar aberto.
Vagando num rumo incerto
Guardei na retina as telas
De tantas paisagens belas.
Com vontade desmedida
Não foi minh’alma ferida,
Nem me venceu a inconstância.
Vencendo qualquer distância
Fui cruzando o mar da vida.

Vencendo clima diversos
Tracei então minha meta:
Fui trovador, fui poeta
Dos mais largos Universos
Nas batalhas destes versos.
Após tamanha epopeia
Consigo hoje ter a ideia
De tanta luta ofegante:
De todas eu fui amante
Numa constante odisseia.

Por vezes me vi singrando
Desconhecidos caminhos.
Fiquei distante dos ninhos
De quem ficou me esperando:
– Ave perdida do bando!...
Porém, levei de vencida
As artimanhas da vida
Nem me senti à quimera
Com o fim da primavera,
Como uma abelha perdida.

Colhi do chão os gravetos
E rimei minha poesia.
Traduzi em melodia
Os inspirados sonetos
Que tive por amuletos.
A alma não mais devaneia,
Foge dos bancos de areia...
No ocaso que se avermelha
Jamais me sinto uma abelha
Longe de sua colmeia

14.05.1998


Glosa

A vida faz-se a lutar
P’lo direito mais profundo
De se poder alcançar
O amor e a paz no mundo.
(Jorge Marques – Portugal)



Sou Poeta! A minha Lira
Faz parte do meu trabalho.
A rima é meu agasalho
O poema é minha pira.
Tudo na vida me inspira:
Uma noite de luar,
Um coração para amar,
Mar achar o Paraíso
Ouça bem o meu aviso:
A vida faz-se a lutar!

Mas o mundo não compreende
De Deus as Suas vontades...
Busca achar amenidades,
Na vida vai – qual duende...
Somente o Poeta entende
Os caminhos deste mundo,
E cada vez mais fecundo
Engasta a rima ao seu verso,
Luta junto ao Universo
P’lo direito mais profundo!

O Poeta cria o canto,
Solta a voz – se faz Profeta!
Faz da paz – a sua meta,
Faz do amor – o seu encanto.
Jamais aproveita o pranto
Para a glória conquistar;
O que pode agasalhar
Prende em áureo diadema.
Eis a glória do Poema
De se poder alcançar!

Assim o Poeta, à vida,
Erige seu Monumento,
Na melodia do vento
Esparge a essência florida...
Mesmo tendo a alma ferida,
Jamais se vê moribundo.
O seu desejo vai fundo
Pois o Poeta só sonha
A ter na estrada risonha:
O amor e a paz no mundo!

15.04.2001


Glosa

Das línguas todas da Terra
Só uma é universal.
Ouço-a no mar; e na serra...
Ouço-a cantar Portugal!
(José Francisco Rodrigues)


Quero encontrar em meu canto
A forma exata e correta
Para, na arte de Poeta,
Ao meu verso dar um manto
Que tenha fulgor e encanto...
Tal desejo em mim encerra
E o eco em minh’alma berra,
Portanto minha mensagem
Da Palavra tem a imagem
Das línguas todas da Terra.

Perguntam-me: – Qual o idioma
Que tu, Poeta, nos falas?
Que áurea harmonia trescalas
No mais suavíssimo aroma?
Está n’alguma redoma
Este canto celestial?
Em qual país afinal
Existe formosa lavra?
Se tem ouro na Palavra:
Só uma é universal!

– Conheço as línguas latinas
Em todas as suas formas,
Decifro até suas normas
Em constantes sabatinas.
Mas tu, Poeta, iluminas
Todos os cantos da terra
Com este canto que encerra
Amor, encanto, ternura...
E tua voz que fulgura
Ouço-a no mar; e na serra...

– José Francisco Rodrigues
Já nos disse numa trova
E a Palavra não é nova...
– Meu amigo, não me obrigues
Também comigo não brigues;
Este canto é natural,
Foi de Pessoa e Quental,
Camões já o pôs em seu verso
E ao ecoar no Universo
Ouço-a cantar Portugal!

15.02.2001


Esio Antonio Pezzato


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17 de dezembro de 2009

GLOSA



Glosa

A vida faz-se a lutar
P’lo direito mais profundo
De se poder alcançar
O amor e a paz no mundo.
(Jorge Marques – Portugal)


Sou Poeta! A minha Lira
Faz parte do meu trabalho.
A rima é meu agasalho
O poema é minha pira.
Tudo na vida me inspira:
Uma noite de luar,
Um coração para amar,
Mar achar o Paraíso
Ouça bem o meu aviso:
A vida faz-se a lutar!

Mas o mundo não compreende
De Deus as Suas vontades...
Busca achar amenidades,
Na vida vai – qual duende...
Somente o Poeta entende
Os caminhos deste mundo,
E cada vez mais fecundo
Engasta a rima ao seu verso,
Luta junto ao Universo
P’lo direito mais profundo!

O Poeta cria o canto,
Solta a voz – se faz Profeta!
Faz da paz – a sua meta,
Faz do amor – o seu encanto.
Jamais aproveita o pranto
Para a glória conquistar;
O que pode agasalhar
Prende em áureo diadema.
Eis a glória do Poema
De se poder alcançar!

Assim o Poeta, à vida,
Erige seu Monumento,
Na melodia do vento
Esparge a essência florida...
Mesmo tendo a alma ferida,
Jamais se vê moribundo.
O seu desejo vai fundo
Pois o Poeta só sonha
A ter na estrada risonha:
O amor e a paz no mundo!

15.04.2001


Glosa

Das línguas todas da Terra
Só uma é universal.
Ouço-a no mar; e na serra...
Ouço-a cantar Portugal!
(José Francisco Rodrigues)


Quero encontrar em meu canto
A forma exata e correta
Para, na arte de Poeta,
Ao meu verso dar um manto
Que tenha fulgor e encanto...
Tal desejo em mim encerra
E o eco em minh’alma berra,
Portanto minha mensagem
Da Palavra tem a imagem
Das línguas todas da Terra.

Perguntam-me: – Qual o idioma
Que tu, Poeta, nos falas?
Que áurea harmonia trescalas
No mais suavíssimo aroma?
Está n’alguma redoma
Este canto celestial?
Em qual país afinal
Existe formosa lavra?
Se tem ouro na Palavra:
Só uma é universal!

– Conheço as línguas latinas
Em todas as suas formas,
Decifro até suas normas
Em constantes sabatinas.
Mas tu, Poeta, iluminas
Todos os cantos da terra
Com este canto que encerra
Amor, encanto, ternura...
E tua voz que fulgura
Ouço-a no mar; e na serra...

– José Francisco Rodrigues
Já nos disse numa trova
E a Palavra não é nova...
– Meu amigo, não me obrigues
Também comigo não brigues;
Este canto é natural,
Foi de Pessoa e Quental,
Camões já o pôs em seu verso
E ao ecoar no Universo
Ouço-a cantar Portugal!

15.02.2001

Glosa

E eu vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.
(Olavo Bilac)

Noite alta. O luar prateia
Da cidade cada rua.
Minha alma vagueia nua,
Devaneia, devaneia.
A lua fulgura cheia,
Todo o céu está brilhando.
Passa um vento leve, brando,
E solitário caminho.
Como sempre vou sozinho
E eu vou sozinho, pensando...

Ela invade a minha mente.
Por que penso tanto nela?
Por acaso não sabe Ela
Que a minha alma tanto sente
A sua ausência fremente
Nesta noite de luar?
Ando sozinho a vagar
Em febre a mente é uma ilha.
E o pensamento fervilha
Em teu amor, a sonhar.

Por sob o luar de prata
Cintilam milhões de estrelas.
Extasiado fico a vê-las
Pensando em quem me maltrata.
Ouço ao longe a serenata
E dois violões tocando.
Ai, até quando, até quando
Viverei com tal miragem?
Já que sigo na viagem
No ouvido e no olhar levando?

Tão doce lembrança invade
Meu coração num momento.
E eu esparjo pelo vento,
Pelas ruas da cidade,
Que estou morto de saudade
Pois estou a carregar
Em cada instante a sonhar,
Teu olhar e teu sorriso,
E ouvir e sentir preciso,
Tua voz e teu olhar.

27.02.2008


Glosa

A mulher do Alentejo
Leva mais longe a razão
Nas canseiras, em sobejo
Constroi direitos e pão.
(Quadra portuguesa)



Mulheres de todo o mundo
E de todos os lugares,
Dentro de vossos sonhares
Brilham num sonho fecundo.
E nesse sonho profundo
Mais aflora o meu desejo
Se elas merecem um beijo
Em tal sonho ardo e deliro.
Pois em meu sonho suspiro
A Mulher de Alentejo.

Essa mulher tão bonita
Tão ponderada e sincera,
Tem no olhar a primavera
De maneira que acredita
Que a esperança é-lhe infinita.
De encantos seu coração
Modula eterna canção
Eu dela tão longe vivo
Que o pensamento cativo
Leva mais longe a razão.


Procuro-a em sonhos floridos
E a minh’alma não se cansa
De ter tamanha esperança.
Dentro dos dias vividos
Trago sonhos coloridos
E o sonho o amor por ensejo
Mas pelo mundo só vejo
Que nos rumos onde sigo
Nos ombros segue comigo
Nas canseiras, em sobejo.

Essa mulher caridosa
Faz do amor a sua prece,
Por isso, por Deus merece
Ter as pétalas de rosa
Na estrada maravilhosa
Onde for seu coração.
Essa mulher, que emoção,
Inspira agora o meu verso
E nas fímbrias do Universo
Constroi direitos e pão.

14.03.2002


Glosa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)



O poeta nesta vida
Do prazer tece uma lira.
Cria um mundo de mentira
Sonha a esperança perdida.
Longa é a estrada percorrida
Para encontrar um amor.
Mas encanta-se com a flor
Pendida num tênue galho
E ao prometer-lhe agasalho,
O poeta é um fingidor.

À flor faz ele uma crença
E se mostra apaixonado.
O mundo deixa de lado
Para ter a recompensa
Da ternura mais imensa
De tudo o que em glórias sente.
Contudo o poeta mente
Pois mentir é sua glória.
Ao lembrar tão bela história
Finge tão completamente.


A flor que não tinha dono
E perfumava o caminho,
Foi arrancada do ninho
– Primavera fez-se outono.
E o poeta no abandono
Da flor roubou o frescor.
Deixou-a no chão sem cor
E agora demonstra ao mundo
O seu delírio profundo,
Que chega a fingir que é dor.

E o poeta entristecido
Junta no chão os gravetos,
Constroi amargos sonetos
Do sonho vê-se perdido.
E seu pranto derretido
Rega no chão a semente
Que nascendo novamente
Traz ao poeta alegria,
E ele diz numa poesia
A dor que deveras sente.

31.01.2008


Ésio Antonio Pezzato


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