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26 de outubro de 2012

Finados

Finados


Esio Antonio Pezzato


Nossos mortos estão em silêncio sepultos.
Deles guardamos nós a lembranças mais vivas.
E os lembramos em prece e nos pranteados cultos,
E em silêncios sem fim das horas fugitivas.

Nossos mortos estão em nossa mente ocultos.
E entre recordações mandamos-lhe missivas.
Recordamos-lhe a voz, descrevemos seus vultos,
Que a palavra no pranto enrola-se em salivas.

Ausentes para sempre e para sempre ausentes,
O tempo em nós corrói uma saudade aflita
E nossos corações deles são sempre crentes.

Finados. Morte. Ausência. Assim acaba a vida.
A solidão da ausência é legenda infinita,
É uma constante dor da solidão perdida.

02.11.2010

11 de outubro de 2012

Mansidão

Mansidão


Esio Antonio Pezzato

A inspiração me vem no aroma da hortelã,

No aroma do poejo e do alecrim cheiroso.

Vem da horta do quintal, do café saboroso,

Na brisa silenciosa envolvendo a manhã.



A inspiração me vem na tarde tecelã,

Pondo cores no céu... Vem do olhar afetuoso

Da minha Mãe sorrindo e seu olhar bondoso,

A regar com prazer, a roseira e a romã.



A inspiração me vem de maneira indiscreta:

– João de barro a construir num galho aqui de casa,

No dueto de um canário e de um papa-capim.



A inspiração me vem e me torno Poeta,

Além da imensidão do sonho eu abro a asa,

E um tico-tico canta: a vida é assim, é assim...



07.06.2012

27 de setembro de 2012

Sissi


Sissi


(Nosso bico de lacre que fugiu de casa)




A sua ausência trouxe um enorme vazio

Em nossos corações que te queriam tanto.

Em nossa casa falta agora o doce canto

De seu trinado fino imitando assobio.



Sua ausência deixou o nosso sonho frio.

Falta agora o seu voo em doce e suave encanto.

A sua ausência trouxe amargo e azedo pranto

Nas faces escorrendo em caudaloso rio.



Pela janela aberta alçaste o voo incerto

Deixando para trás um árido deserto

Onde outrora floria a ternura e a crendice.



Que possa o espaço aberto iluminar-te a vida,

Ou alegrar alguém de forma colorida

Como fizeste a nós, doce e querida Sissi.



13.09.2010

13 de janeiro de 2012

PARA O FUTURO II

Foto Search

Para o futuro II

Nossa busca é incessante: dia a dia
Brilha o sol para nova caminhada.
E levamos, ao longo da jornada,
O embornal de fagulha e fantasia.

Queremos descobrir numa alquimia
Os mistérios que estão além da estrada.
Mas tanto estudo não nos leva a nada,
O embornal não produz tanta magia.

Sangram os pés descalços no caminho
E o homem vai solitário, vai sozinho,
Para um fim que ele mesmo desconhece.

Quando seus olhos forem dois espelhos,
Poderá ver o Mundo de joelhos
E irá fazer a sua última prece!

07/06/2002


Esio Antonio Pezzato

20 de dezembro de 2011

SONETO DE DEZEMBRO

Imagem Google

Soneto de Dezembro


Quando penso que a velha Inspiração é morta,
E as exéquias já estão com seu ciclo completa,
Eis que ouço uma batida estremecendo a porta,
E uma voz conhecida a me chamar - Poeta!

Esquecido do vento, e do cheiro da horta,
O outonal pintassilgo, a araponga indiscreta,
O atalho poeirento, a velha estrada torta,
A Imperatriz me chama em sua voz direta.

O verso fulge rubro, uma rima aparece,
O coração modula uma esquecida prece,
O vento sopra a luz em cadência concreta.

Catorze de Dezembro! e com cator que versos
Eu gravo num Soneto os meus sonhos imersos,
E dentro d'alma sinto o ardor de ser Poeta!


Esio Antonio Pezzato

1 de dezembro de 2011

RETIRO

Imagem Google

Retiro


Às vezes a minha alma se entristece
Por motivos banais, tolos e chulos.
Uma palavra à toa me aborrece
Que até os meus prazeres deixam nulos.


As más notícias chegam como arrulos;
Fazem cochicho em meio da quermesse.
Mas em alto-falantes soltam pulos
Como frutos ruins de podre messe.


E a palavra mordaz meu peito fere,
E todos riem frente ao sangramento,
Ninguém falando de onde o fato veio.


O silêncio feroz é um miserere.
Porém, enquanto em ondas vai o vento,
Em meu retiro fico em devaneio.



07.05.2007


Esio Antonio Pezzato

29 de novembro de 2011

LUZ ETERNA

Imagem Google

Luz eterna

Essa dor tão insana que maltrata
E ao coração traz mágoa e penitência,
Como dói essa dor chamada ausência
Essa dor que nos vem de forma ingrata.


Sonolenta ela vem, traz resistência,
Mil castelos construídos desbarata,
Sentinela redige lívida ata
E fere, fere, fere, sem clemência.


Releio o velho livro da memória
E ao ver a sua dor doendo tanto
Também recordo a minha triste história...


A mesma dor da solidão paterna
Que molda máscaras de angústia e pranto,
Em minh’alma também tem luz eterna.



02.05.2006


Esio Antonio Pezzato

27 de novembro de 2011

OFICIO DO SILÊNCIO - XVI

Imagem Google

Domo o vocábulo, aprisiono o idioma,
Retenho a ideia e o pensamento abstrato.
Depois solto pelo ar, ao livre olfato,
Para as mentes prendê-los em redoma.

Que as pessoas o sintam como aroma
Que exala após a chuva o agreste mato.
E prendam à retina igual retrato
De uma paisagem que fulgor assoma.

E o entendimento sem labuta e engenho
Traga canções de amor e de ternura
Junto à alegria imensa de um desenho

Que uma criança faz presa à inocência:
Mas que sua mensagem seja pura
E retenha os segredos da ciência.



07.11.2002


Esio Antonio Pezzato

25 de outubro de 2011

OFÍCIO DO SILÊNCIO - XV

Imagem Google

A Palavra afiada é como a faca
Pronta para ferir, para furar.
Em língua mole lembra uma matraca
Feita para agredir, para atacar.

Encarreirada em frases ela ataca
Podendo denegrir e derrubar.
Outras, vezes, em forma de catraca,
Somente o que convém, deixa passar...

Fortuita, às vezes, vive pelo acaso.
Espalha-se em diabruras e gorjeios,
E se transforma em flores no jardim.

Lembra depois um já quebrado vaso,
Para também, justificar os meios,
Pondo um ponto final, chega ao seu fim.

06.11.2002


Esio Antonio Pezzato

13 de agosto de 2011

BARCOS DA ESPERANÇA

Imagem Google

Barcos da esperança


Os barcos da esperança em largo mar aberto
Vencem as solidões e o amplo espaço vazio.
Soltam as velas no ar num imenso alvedrio,
Procurando encontrar algum porto por perto.

Os barcos da esperança estão em rumo certo,
Vencem as amplidões, vencem noites de frio,
Acendem luzes no ar provocando arrepio,
Procurando aportar no inóspito deserto.

E com certeza sou piloto desse barco!
O verde vibra em mim qual pendão da esperança
Que tremula no céu escandalosamente.

Avante! Ao largo! À vida! O sonho é nosso marco!
Sou vida e denso amor distribuindo bonança,
Aos corações de bem – a fé como semente!



08.10.2010

Esio Antonio Pezzato

7 de agosto de 2011

PARQUE DA ESALQ

Imagem Google

Parque da ESALQ

(Para meu amigo Antonio Roque Dechen)

Fazenda São João. Escola Agronomia.
Nos verdes campos onde os meus passeios faço,
Vou colhendo sem pressa as flores da Poesia
Enquanto o olhar se perde, em êxtase, no espaço.

Verdes de verdes mil! Fantástica magia!
Estupor! Frenesi! Prazer! E passo a passo
Na mistura do encanto há um sonho que alumia
A alma que sente o ardor de caricioso abraço.

Trinados vão ao céu, há delírios alados,
Sombras mancham a terra e os musgos esverdeados
Parecem pintalgar esperanças sem fim.

E nesse divagar eu fantasio tudo,
Chegando a imaginar nesse passeio, mudo,
Luiz de Queiroz feliz, passar perto de mim.



24.09.2008

Esio Antonio Pezzato

1 de agosto de 2011

REVIVER

Imagem Google

Reviver


Todos, em nossa vida acumulamos
Os sonhos mais variados e sortidos.
– Árvore – somos tronco e somos ramos,
E entre folhas mostramo-nos floridos.

Mas vem a tempestade em mil reclamos
E leva nossos sonhos coloridos.
E após ventos e chuvas nos quedamos
Por ver os nossos sonhos destruídos.

Assim o álgido inverno e a ventania
Parece nos levar à atra agonia
E a fé se vai, em frígidos minutos.

Mas novamente fulge a primavera!
E nossos sonhos nas parreiras de hera
Perdendo as flores trazem novos frutos.



16.10.2009

Esio Antonio Pezzato

26 de julho de 2011

FESTÕES DE LUZ

Imagem Google

Festões de luz

Na mente o pensamento é somente faísca
Que procura acender o facho da razão.
A caneta na mão indômita rabisca
Uma ideia qualquer buscando inspiração.

De repente uma luz muito distante pisca
E em busca dessa luz permeia a imensidão.
Vem um perfume bom, uma essência de almíscar
E o pensamento explode arrebentando o chão.

Na terra árida e seca explode a Primavera,
Nos troncos podres, nus, a vida multiplica
E há misticismo no ar que alma jamais traduz.

Da palavra esverdeada explodem flores de hera,
A água passa a correr em cristalina bica,
E o céu antes nublado arde em festões de luz!



10.09.2010

Esio Antonio Pezzato

18 de julho de 2011

CANÇÃO DE AMOR

Imagem Google

Canção de Amor


Necessário se faz amar o amor
Na possibilidade dos sentidos!
Na amplitude geral nos sustenidos
Nos dias de mormaço e de calor!

Necessário escandir todo o louvor
E chamá-lo por nomes e apelidos,
Ficar atento aos sons, aos alaridos,
Às mudanças do céu, da luz, da cor!

O amor tem pressa para ser amado!
Se não se traz no peito o amor feliz,
Ele fica esquisito, amedrontado...

O amor é uma canção e ele nos diz
Que age nos passos que tenhamos dado,
E age nos corações pedindo bis!



14.04.1994


Esio Antonio Pezzato

11 de julho de 2011

AMANHECER NA NOIVA DA COLINA

foto Irineu Volpato

Amanhecer na Noiva da Colina


Entre a neblina densa, alacreada, espumante,
Mornos raios de sol fulminam densas setas.
O espetáculo lembra intrínseco diamante
Triturado na luz de irradiações inquietas.

A luz fumega e freme e de um ponto distante
Parece condensar labaredas secretas.
Sobre o Rio a manhã renasce causticante
Num delírio triunfal de mil luzes diretas.

De súbito contemplo em doido sobressalto,
Essas chusmas de luz que atapetam o espaço
E fazem rebrilhar a ouro líquido o Salto.

As nuvens cor de fogo esgarçam a neblina,
E em lírico fulgor abre ao sol o regaço
O níveo tafetá da Noiva da Colina.



09.05.2011

Esio Antonio Pezzato

9 de julho de 2011

A MORTE DO POVOADOR

Foto de Giancarlos (Gian)


A morte do Povoador



O velho Povoador já com as vistas cansadas,
Relembra o Rio, o Salto, as formosas colinas,
Sua desobediência escondida em surdinas,
Quando aqui decidiu fincar suas pegadas.

A viagem recorda... As canoas pesadas
Descendo o Tietê com águas cristalinas,
E eis o desconhecido, e as gentes assassinas
Os índios se ocultando e tramando ciladas...

Valeu a pena, pensa, em seu sonho profundo...
Intempérie venceu e agora, num segundo,
Antes de ir residir numa celeste taba,

Com lágrimas no olhar vislumbrando o futuro,
Barbosa os olhos cerra... Está certo e seguro
Do porvir que terá a sua Piracicaba!



03.05.2011

Esio Antonio Pezzato

7 de julho de 2011

CENA RIBEIRINHA

Imagem Google

Cena ribeirinha


Imóvel a espreitar apetitoso almoço,
Sobre a margem do Rio a garça é uma escultura.
Com magnético olhar, longilíneo pescoço,
De Rugendas recorda uma grácil gravura.

Refletindo no espelho o seu pálido emboço,
Raro ataque prepara em inquieta lentura.
Mas ágil como o vento e num rápido esboço,
Seu bico as águas fere em terrível ternura.

Nervoso, espadanando em aleivo constante,
O peixe, preso ao bico, é presa suculenta
Enquanto voa a garça e alcança o ipê florido.

E o peixe à luz do sol rebrilhando a diamante,
À formidável garça, estático alimenta
No silêncio da morte e sem causar ruído.



09.05.2011

Esio Antonio Pezzato

26 de junho de 2011

CONTEMPLAÇÃO

Foto Irineu Volpato

Contemplação

A distância contemplo o contorno da Serra
Onde se deita o Sol apagando arandelas.
E logo a noite traz a lua-cheia que erra
Mostrando ao seu redor um carrossel de estrelas.

Assim o largo espaço abre-se em passarelas
E em miríades de luz põe brilhos sobre a terra.
Nas noites hibernais límpidas, claras, belas,
O Cruzeiro do Sul brilho maior descerra.

Em êxtase maior com meus olhos contemplo
Via Láctea estender-se em milhões de anos-luz
Sobre nós colocando a abóboda de um Templo

Onde o Grande Arquiteto e Senhor do Infinito
Paira acima de tudo e firme nos conduz
Para um Amor maior, mais puro e mais bendito.



23.07.2010

Esio Antonio Pezzato

18 de junho de 2011

VELHO FANTASMA

Engenho Central Piracicaba - foto de Irineu Volpato

Velho fantasma


Eis o Engenho Central. Espectro de um passado
Que outrora alavancou esta nossa Cidade
Com fainas de progresso e de prosperidade
Num insano labor ferrenho e adocicado.

Eis o Engenho Central, a beira-rio armado,
Sonhos acumulando em luz e claridade;
Vomitando a garapa, o álcool em densidade,
E sacas, aos milhões, de açúcar refinado!

É um fantasma imponente a refletir no Rio
Janelas e vitrais quebrados, retorcidos,
Numa visão de horror que provoca arrepio.

Eis o Engenho Central que se estende em destroços:
Tens apenas por glória – os dias já vividos,
Por presente, a sangrar, avermelhados ossos!


25.09.2008


Esio Antonio Pezzato

11 de junho de 2011

PAINEL CAIPIRA - DO LIVRO CONTEMPLAÇÃO

Imagem Fábio Barros - Rua do Porto Piracicaba


Painel Caipira

(Para a historiadora, minha Amiga, Marli Terezinha Germano Perencim)

Rua do Porto. Em tudo há um misticismo denso.
O Rio em mansidão corre em silêncio... o Rio
Parece carregar num lúcido amavio
O olhar de um pescador em seu silêncio imenso.

Olhando o casario à beira d’água, penso
Num velho Povoador que aqui chegou, num frio
E lacerante inverno, e ouço, como em cicio,
O sonho de um Tupi em seu viver intenso.

E penso distinguir entre tantos fulgores,
Num delírio infernal nas misturas das cores,
Os Dutras a pintar maravilhosas telas.

Numa pedra do Salto e Lagreca me encanta!
E ouço uma voz febril: é Cobrinha que canta
Lindas canções de amor sob um luar de estrelas.


22.09.2008

Esio Antonio Pezzato




Minha Ana Maria e Sissi

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