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20 de junho de 2010

AOS CANCEROSOS




Aos cancerosos


Basta de compor poemas líricos e suaves
Perfumados de amor
E cheio de flores
Hoje vou dizer adeus à musa dos campos e da brisa
Darei um chute no lirismo
E farei o meu verso pesado
Tão pesado que eu mesmo não conseguirei levantá-lo
Com o guindaste da minha voz
Soltei o cantochão dos dínamos e dos átomos frementes
E invocarei as musas do pecado
As musas das armas bélicas
Do fogo
Das metralhas
Do ópio
Da podridão

Chega de lirismo e versos de amor
Que fiquem amontoados no fundo do sótão
Os amores as flores os perfumes e o romantismo
Hoje quero gritar versos desesperados
Alucinados
Quero vomitar o pus das feridas
Tirar os emplastros e os curativos dos tumores
E dos furúnculos
Tirar membranas virginais
E deixar marcas vermelhas nos seios das prostitutas
Quero masturbar minhas idéias
E cuspir o sangue dos tuberculosos
Gritar desconvalidos verbos
Mandar as favas todas as seitas
E todas as religiões
Vamos incendiar o mundo Nero
Vamos fazer armadilhas Átila
Vamos ironizar os apóstolos e todos os papas
Erguer altares profanos
Abaixo as Repúblicas
E os Impérios
Abaixo os regimes verdes do nosso povo
Viva os ditadores
À forca com os ministros
Paredão aos embaixadores
Solitárias para os militares
Chega de condutores com armas empunhadas
Com sabres calados
E tiros traiçoeiros
Vamos abrir os porões dos navios negreiros e de guerra
Vamos inundar o triângulo final da América do Sul
Arrebentando as eclusas de Sete Quedas
Vamos desviar o Amazonas e o Nilo
O Mississipi o Eufrates, o Ganges e São Francisco
Fazer o caos reinar sobre a terra e sob os céus
Numa total alucinação
Estuprar idéias e mãos que trabalham
Vomitar o ódio profundo
De sermos dominador por répteis cancerosos
Que ganharam à força o poder do povo
Abaixo a ditadura e os ditadores
Cadeia para todos

Hoje não quero compor poemas líricos e suaves

30.11.1982


Esio Antonio Pezzato

18 de junho de 2010

CANTADOR




Cantador


Ser cantador
Cantar a dor
Cantar a flor
O amor

Ser cantador
Da dor
Da flor
Do amor

Canta cantador
Canta a dor
Canta a flor
Canta o amor
Cantador

Cantador que canta a dor

Canta, canta, canta cantador,
Canta a dor, cantador,
Canta a dor

14.01.1977


Esio Antonio Pezzato

DECEPCIONADO




Decepcionado



Gostaria de ser uma pessoa
Que não ligasse para nada,
Mas eu não sou assim.
Me preocupo à toa,
Choro por ver crianças triste,
Um rosto fechado,
Um jardim sem flores,
Crianças pobres e famintas,
Gostaria de ser uma pessoa
Que não desse ouvidos para nada,
Mas eu não sou assim.
Ouço todo o que falam,
Ouço vozes infantis
Das crianças pedindo esmolas
Ou um prato de comida.
Gostaria de ser uma pessoa
Que não visse nada,
Mas eu não sou assim...
Vejo crianças esfarrapadas,
Aleijadas, mal vestidas,
Dormindo nos bancos dos jardins, nas calçadas, etc...
Gostaria de ser uma pessoa
Bem diferente do que sou,
Mas eu não sou assim...
Tenho o rosto sorrindo
E o coração chorando,
Vejo um mundo lindo
Cheio de homens se matando...
Por isso choro, porque gostaria
De ser uma pessoa bem diferente
E não ligasse para nada,
Mas eu não sou assim...

19.12.1974


Esio Antonio Pezzato

16 de junho de 2010

PALAVRAS - Versos Brancos





Palavras
Palavras
Palavras

Palávoras
Árvores
Não te arvores, árvores,
Não, árvores, não te arvores.

Eis a palavra pulsando
Pulsante
Vibrante
Enigmática
Pragmática

A metafísica dos números das palavras
E a inconsistência física das noites e dos dias
Que passam, passam, passam,
Escandindo sonhos, solapando rimas,
Escanhoando ilusões. A grande metafísica
Deste mundo é a ilusão que me cerca.

Eu sou o poeta e neste momento de sonho
Palpito-me em palavras para poder sair
Em busca da defesa para minhas verdades.

Minhas verdades são palavras feitas
Minhas verdades são palavras inventadas
E não me entendo
E nem consigo me fazer entender.

O pensamento raia o absurdo
O absolutismo é uma razão imponderável.

A noite traz mistérios e as palavras não conseguem desvenda-los

Eu me concentro em busca do ato de desvendar
Mas sou somente palavra retida na retina do segredo do mistério.

Corro os olhos e a mente alucinada
Corre desvãos de escada degrau por degrau.

Eu sou o poeta que pensa, pensa, pensa e nada diz,
Em suas verdadeiras mentiras ocas e sem rimas.

Tanto que paro de escrever

É o delírio
O delírio
Delírio
O delírio
É o delírio
E o delírio
O delírio
Delírio
O delírio
E o delírio?

Capto a alma da noite para cavalgá-la
E pelos campos sem fim do cosmos e da vida
Vou amalgamando sonhos
E a alma
E a lama
É a lama da alma. Fecho a mala
E ponho-me num caminho pelos rumos sem fim
Onde sou e como vou vencendo léguas de silêncios em silêncio.

O espírito acomodado lentamente sacoleja meu corpo
E minhas carnes estremecem o espírito impalpável que me domina.

Eis a noite o silêncios o lírio e o delírio,
Eis a sombra, a fúria, a calma,
Os tigres gritam da toca da noite
Os tigres gritam urram os leões
Os grilos saem da toca para alucinarem a noite
Os pirilampos saem da noite para iluminarem vagas
Os escorpiões saem da toca para incendiarem a noite com picadas.

Pelas picadas passo adentro, adentro a noite
E atiro flechas de olhares ao redor do labirinto
E não sou eu
E sou eu
E não sei quem sou
E não me entendo
Não me decifro
E esfinge me devoro.

Sou uma curva dentro da distância que meu olhar contemplo!

Sombras
Sombras
Sombras


A caminhada se alonga à medida que as curvas vão se definindo frente aos passos
A caminhada é longa para a vida que com as vistas turvas vão se diluindo de repente
A espaços

A madrugada silenciosa monja
Licenciosa monja
Libidinosa monja
Anda perdida pela varanda
Dos meus olhos que vão seguindo interminavelmente
A longa e tenebrosa jornada dos traços riscados com giz dentro da noite.

Eu sou o Poeta que navega frente a tudo
O olhar infinitivamente agudo
Olha de fresta
Para ver o que resta.

E o que na verdade resta?
Uma sombra dentro das muitas sombras
Que são sombras e fantasmas
E tudo me assombra
Dentro desta sombra.


Assim a sombra pela noite através das palavras
Vai caminhando sempre em vão para um rumo desconhecido.
Assim a noite entrelaçada em galhos e ramas e sentenças
Vai ardilando sempre o vão das estrebarias onde sonhos nascem
Assim a noite abraçada a traições vai buscando calvário onde os sonhos
E as verdades são crucificadas.
Assim eu vou pensando pelos passos apressados que vão passando
Juntamente com meus apressados passos
Que dão pés em laços
Assim vou caminhando pois é o destino que me pôs à vida,
Assim vou caminhando pois é o destino que me impôs à vida,
Assim vou caminhando pois é o destino que transpôs a vida
Em sílabas musicais que se repetem, se repetem, se repetem,
Se repetem, se repetem, se repetem, se repetem, se repetem,
Se repetem...

Eu me repito e me volto e me vejo e me fito
E me contemplo em horas dias meses séculos
Desde ontens perdidos e vãos
Ao vão dos dias ainda amanhãs.

Eu sou o Poeta que através das palavras
Vou me fazendo entender
E me entender
Até que me canso
E ponho-me em descanso.

Eis a noite que se apodera
E os meus braços prendem meus desejos.
Eis a cadeia para a prisão perpétua
Dos meus libidinosos desejos
Pornográficos.

E eu aqui tentando em liras
Fazer liras
E me tiras
Ocas mentiras

(Meus desejos saem das fúrias
Tocam mentes puras com impurezas
E minha alma vive sempre na linha de frente
Para ser condenado)

Abro meus olhos
Abro meus passos
Abro meus braços
Abro minha mente.
Eternamente sou assim
E vivo aqui
Olhando ali
Como bomba tenebrosa
Eis-me aqui!
Fitando o ali
Daqui vejo o sol
Daqui vejo o dali.

Salvador. Salvador daqui
Salvador de lá.

Estou grog com vam como dog
Como gogh
Eis o sinal do tempo.

Abro tudo.
As cortinas dos meus olhos se abrem
E o palco do espetáculo da vida se ilumina.
Faltam os atores.
Só me resta aqui o autor do que penso
Do que imagino
Rodrigueanamente, pliniamente,
Qorposantamente.

Que medo,
Que tredo,
Que azedo.
– Puta! –

Alucinado os passos ponho frente a frente, frente a frente
E desvairado vou cantando passo a passo, passo a passo a passo,
Para chegar ao final do nada.

Eis a escada
Sobe
Vão
Sobe
Vão
Sobe
Vão
Sobe
Vão
Sobe
Vão
Sobe
Vão.

A mão corre o corrimão debruado de verniz.
Eis o alto do nada para um outro plano.
Eis o sólio do espectro
Eis o Oriente
Em quatro passos
E outros três para o trono.

Eis que posso ver a Estrela
Eis que posso ter um tombo maior
Eis que outros iguais a mim
São igualmente iguais a mim
Que sou igual a mim.

Tudo tão diferente
Tão frio, insensível,
Tudo tão normal
Trivial.

Eis passo a passos os passos neófitos,
Eis traço a traço os riscos diabólicos,
Eis a conclusão do nada
E o final de tudo
Mudo
Mudo
Mudo
Mudo
Mudo
Mudo
Mudo.
– Mudo as coisas de lugar
Mudo às coisas tolas.

Estou aqui
Compondo
Sonhando, sonhando, sonhando,
Os olhos rondo
Por tudo
E fico mudo e mudo
O meu silêncio
E me penitencio.

Agora estou sem tempo
E onde encontrar o tempo que é sempre o mesmo
E está todos os dias aqui ao nosso redor
Compondo sinfonias de horas minutos segundos
Semanas meses anos
Décadas séculos milênios?
Onde anda o tempo se ele é tão veloz
E não passa?

Atroz incoerência o tempo passa
Passa parado
E vagarosamente
Um trem chamado Vida
Passos pelos trilhos de sua existência.

O tempo cheio de contratempos não passa
E nós não nos vemos ficar

Não ficamos
Passamos
Somos pois nós os verdadeiros
Passageiros do tempo
Nós passamos e raramente dobramos o século...

Eis o tempo avançando
Novamente avançando
Para nos tirar daqui.

Assim é o natural
Natural que seja assim portanto
Entretanto
Entre canto.

Entretanto
O meu canto continua
Rapidamente
Sem tempo medido
Sem raciocínio
Que possa ser medido
Pois continua rapidamente
Passando e passando
E passando a musicalidade...

Do fundo do mais fundo o pensamento grita
Profundo o meu lamento se agita
Sou egoísta a tudo o que me cerca
E saio sorrateiro
Como um gato sobre o telhado
Adilando vítimas.

Sou o poeta que procura
Dentro da noite
Paradigmas
Enigmas.
Os signos falam por mim
As colunas falam por mim
Os mosaicos falam por mim
O Ocidente fala por mim
Os vigilantes falam por mim

Sem direito à Palavra
Balbucio sílabas – jaquim.

Sou o aprendiz do verso
Que procura ainda
Uma rima em ao
Um rima em or
Uma rima em ar.

Coração
Cor
Amar

Emoção
Amor
Sonhar.
De repente tudo
O que antes era grito
Fica mudo
O agito
Silencia
Se cala
A poesia.
Torna-se quieta
E o poeta
Com a rima sua
Fica olhando a lua
Do meio da rua.

Uma imagem torta
Que parece morta
O poeta vê.
Dos quartetos
Dois tercetos
Faz o seu soneto
Que perfeito crê.

De repente o verso
De repente imerso
De repente é nada
De repente o dia
Morre na agonia
Morre a Poesia
Rompe a madrugada.

De repente a voz
Antes soberana
Torna-se atroz.
E me sei mordaz
Quanto mais voraz.

Eis a minha lira
Tangida à mentira
Eis o verso mudo
Que se cala tudo.

Sorrateiro sou gato sempre na espreita
Sou um gato. Um gato sempre sabe
A hora de atacar. Um gato
É ardiloso. Fica na espreita para
Atacar. Nunca falha em suas
Atacadas. Raramente se vê um gato
Miando alto alardeando a sua
Presença. Diferente do cão o gato
É silencioso. Eis o gato
Eis a palavra. Eis a rima
Eis o Poeta.

Eis a vida a morte o sonho o pesadelo
A mensagem falada escrita muda fechada num livro
O sonho a mentira a egocentricidade
O melodrama o drama a trama.
Eis tudo
Eis nada
Eis não sei o quê.

(Teu corpo
– Nuvem! –
Nu vem, nu vem, nu vem
Como nuvem
Encharcar meu corpo)



Esio Antonio Pezzato

Minha Ana Maria e Sissi

Apresentação Poema "O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot" Loja Maçônica Acácia Barbarense

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