BLOGGER TEMPLATES - TWITTER BACKGROUNDS »

1º PRÊMIO RECEBIDO DO VEJABLOG - MELHORES BLOGS DO BRASIL

VejaBlog - Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil BLOG ESIOPOETA

SEGUIDORES

ACESSOS

contador de acesso

ROMARIA PIRAPORA 2013 - ESIOPOETA E AMIGOS

CLIQUE PARA LER O NOVO LIVRO DE SONETOS DE ESIOPOETA- CONTEMPLAÇÃO

COQUETEL DE LANÇAMENTO DO LIVRO DE SONETOS APRENDIZ DA PALAVRA DO POETA ESIO

RECEBA ATUALIZAÇÕES NO SEU E-MAIL

Entre com seu e-mail:

Delivered by FeedBurner

31 de maio de 2010

POÇO DA DERROTA




Poço da derrota


Ás vezes a saudade me apavora
E planta desesperos em meu peito.
De tal maneira que minh’alma chora
E eu este pranto amargo não aceito.

Pouco importa se é justo e se é perfeito
O pranto que me fere e me devora.
Esse pranto me deixa insatisfeito
Essa mágoa em meu peito já não mora.

Penso já ter vivido o suficiente
E penso ter controle da saudade
Mas ela assim do nada à vida brota.

Fere e castiga o coração que sente,
Nos deixa presos na perpétua grade
Cavando em nós o poço da derrota.

10.05.2006


Esio Antonio Pezzato

LEMBRANÇA





Lembrança


Relembro com saudade o velho sítio
Onde passei minha dourada infância.
E à minha Mãe que hoje me diz: “Visite-o!
Que ele há de ainda ter mágica fragrância!”

Digo não com firmeza. Embora cite-o
Em mil recordações e cheio de ânsia
Aquele sonho azul do velho sítio
É uma lembrança apenas de constância.

Lá vivi alegrias, com certeza,
Pés descalços, feliz eu contemplava
Mil espetáculos da Natureza.

Viver era a esperança mais dourada,
Que minha mente ainda treme escrava
Se ouve um galo a cantar na madrugada.

10.05.2006


Esio Antonio Pezzato

ETERNA DAMA




Eterna dama



Distante estás porém nossa distância
Não pode ser de léguas de deserto.
Deverias tomar o rumo certo
Para viver o amor em cada Estância.

Mesmo distante sinto-te a fragrância
Que me chega com timbres de concerto.
Distante estás, porém te quero perto
Para tudo te dar com mais constância.

Mas foges e te escondes... e te escondes...
Patéticos chamados não respondes
E ignoras o teu Dono que te chama.

Vem que te espero e tanto e tanto e tanto!
Quero-te rima para um novo canto,
Vem deste Poeta ser a eterna Dama!

08.05.2006


Esio Antonio Pezzato

LUZ ETERNA







Luz eterna


Essa dor tão insana que maltrata
E ao coração traz mágoa e penitência,
Como dói essa dor chamada ausência
Essa dor que nos vem de forma ingrata.

Sonolenta ela vem, traz resistência,
Mil castelos construídos desbarata,
Sentinela redige lívida ata
E fere, fere, fere, sem clemência.

Releio o velho livro da memória
E ao ver a sua dor doendo tanto
Também recordo a minha triste história...

A mesma dor da solidão paterna
Que molda máscaras de angústia e pranto,
Em minh’alma também tem luz eterna.

02.05.2006









Esio Antonio Pezzato

28 de maio de 2010

TENTATIVAS




Tentativas


Depois de mais de 30 anos de estudo,
Cheio de dúvidas cruéis me pego:
Tento falar – mas continuo mudo! –
Procuro ver – mas continuo cego! –

No reino do fantástico me iludo
E às certezas dos rumos – eu me nego! –
E nada tenho – eu que sonhei ter tudo, –
E ao final da jornada – eis que me entrego! –

O segredo do oculto me fascina,
Procuro a luz que as mentes ilumina,
Das Musas busco a inspiração secreta.

Mas sempre ao fim da minha Fantasia
Eu tenho o verso – e falta-me a Poesia,
Tenho o Poema – e não me sei Poeta!

14.03.1997






Esio Antonio Pezzato

SOMBRAS E TRAUMAS




Sombras e Traumas


Entre sombras e traumas me debruço
E fico olhando o pavoroso cais,
Porém, ante mistérios mais me aguço
Tentando ver alguma coisa a mais.

Na cavernosa noite ouço um soluço
E arrepiam-me os nervos temporais,
– A solidão com varapaus eu chuço
E remexo nas sombras imorais...

O pensamento – pontiaguda pedra –
Vilipendeia os charcos, mas os charcos
Protegem sapos e protegem rãs...

E o instante – instante a instante ruge, medra,
E sem segredos e com sonhos parcos,
O dia encontra as solidões pagãs...

22.11.1990


Esio Antonio Pezzato

PERVERSÃO




Perversão



A energia da Noite me entorpece:
Flácidos nervos ficam retesados –
Em meio ao murmurio da quermesse
Soltam urros os monstros enjaulados...

Libertam-se os instintos – uma prece
Libidinosa atrai anjos safados.
A aura branca inocente enfim conhece
A volúpia de todos os pecados.

Cheiro de sangue no ar, hímens rompidos,
A virgindade reduzida à lama
Nalgum motel da nobre sociedade.

Depois corpos suados, estendidos...
E uma besta arriada em mole cama
Solta seu berro de animosidade.

23.11.1988


Esio Antonio Pezzato

MERETRIZ




Meretriz


Envolta na penumbra, entre lençóis de seda,
Provocante, incisiva, arfante, seminua,
– Semidéia fatal! – aos lampejos da lua,
Lasciva, ela se entrega à vida amarga, azeda...

Com riso provocante ela rama, insinua,
Mente, ri, chora, pede e diz o quanto é treda
A vida no bordel e chorosa segreda
Seu constante sofrer na amargurosa rua.

O amante de momento, indiferente à queixa
Que a parceira lhe diz, só quer de sua gueixa
Carinhos receber por esse amor comprado.

E enquanto ele delira e estertora ofegante,
Pensando estar levando ao gozo a sua amante,
De prantos ela tem o seu olhar banhado.

14.10.1987


Esio Antonio Pezzato

26 de maio de 2010

CINZAS




Cinzas


Necessário vestir a fantasia
E maquiar a cara de normal
Para sair em plena luz do dia
E ser o folião no carnaval.

Ser Arlequim, Pierrô, ter alegria,
Tirar a máscara do trivial
E se esconder atrás de uma poesia
Que ser poeta é muito natural.

Jogar confete e muita serpentina,
Se embriagar com Momo no salão,
E nos braços ter uma Colombina.

E após os bailes todos, na euforia,
Dilacerar no peito o coração
E de cinzas vestir-se em fantasia.

14.02.1990


Esio Antonio Pezzato

EM BUSCA DA ESPERANÇA




Em Busca da Esperança


O homem caminha em busca da esperança
Com passadas que diz ser de gigante.
Porém, a cada passo que ele avança
Vê que seu sonho fica mais distante!

Enfim esta procura árdua lhe casa
E ele pára a pensar por um momento:
– Se o que busco é o meu sonho de criança,
Deve estar este sonho mais distante!”

Refeito o ânimo sai... apressa o passo,
Cruza estradas de flores e de espinhos...
– Que importa o tempo corra pelo espaço?

Nada o detém e quando, triunfante
Pensa que andou por todos os caminhos,
Ouve uma voz que ainda lhe diz – Avante!

25.09.1979


Esio Antonio Pezzato

RIO PIRACICABA

Foto do Rio Piracicaba por Ivana Marisa Altafin


Rio Piracicaba


Nosso Rio era lindo... nosso Rio
Era um hino de glória à Natureza;
Serpenteando a cidade era a beleza
Para o pintor – motivo doentio

De uma paixão, de um lúcido amavio,
E motivo de atávica realeza,
Onde, inspirado, na explosão acesa,
Com tintas declarava-se em cicio.

Mas veio a poluição, o estio veio,
E o Rio outrora exuberante, cheio,
Sofre a pena cruel a ele imposta.

E na tela de lírica paisagem
O que vemos é fúnebre miragem
E a gente dele cada vez mais gosta.

14.10.1997



Esio Antonio Pezzato

ENTARDECER




Entardecer


Gostoso é contemplar à luz da tarde
O Sol – como dantesco mastodonte –
Morrendo junto às cristas do horizonte
Terno e silente e sem nenhum alarde...

Parece até que um contumaz covarde
Golpeou o soberano Rei, na fronte;
Pois calmo, ele se déia atrás do monte
E seu fulmíneo olhar, meigo, não arde...

Mas mesmo assim a sua luz violeta
Nimba de luz doirada borboleta
Que beija as flores... e depois recua...

E quando a noite, em sombras aparece,
Ajoelhada, a minh’alma em santa prece
Vê o desfile de estrelas e da lua!

23.10.1990






Esio Antonio Pezzato

24 de maio de 2010

CAMINHADA




Caminhada



Esses caminhos que hoje percorremos
São os mesmos caminhos do passado.
Mas hoje estamos já em seus extremos
E o que fomos – não pode ser mudado.

Por isso trago o olhar fundo e magoado
E martírios dos modos mais supremos:
No peito – um coração dilacerado!
E n’alma – um barco de quebrados remos!

Tudo caminha devagar... não somos,
Não temos, nem sentimos, sem choramos,
Os galhos que não mais possuem pomos.

E no silêncio dessas letargias
Os nossos braços são desnudos ramos,
Tendo na extremidade as mãos vazias.

24.09.1992



Esio Antonio Pezzato

CHUVA




Chuva

Chove lá fora... a chuva me entristece...
A chuva lembra lágrimas de Deus,
Que está tristonho com os filhos Seus,
Que são os frutos maus de sua messe!

Quando Deus fecha os olhos – escurece –
E os continentes – grandes Coliseus! –
Servem para profanos hipogeus
Daquele que na guerra, atroz padece...

E Deus que olha seu triste semelhante,
Enxerga cadavérico semblante
Em todos eles – que o ódio assim produz...

Pois esta chuva é a lágrima inconsútil
Por Deus achar que foi trabalho inútil
Ver o Seu Filho padecer na cruz!

15.07.1990


Esio Antonio Pezzato

AMOR DE MÃE




Amor de Mãe


Tudo na vida há de passar um dia, tudo
Há de um dia ter fim: os sonhos de criança,
O lutar, o sofrer, o sonhar a esperança,
A angústia de vencer, o desespero tudo

Da vitória almejar, os momentos de estudo,
A busca do saber pela perseverança,
O passando amontoada em cabedais de herança,
A fortuna, os vitrais, os trajes de veludo,

Tudo haverá de um dia, em efêmero tédio
Perder o seu valor, e há de ficar somente,
Um desejo de morte a nos fazer assédio...

Porém, no coração de Mãe que tudo sente,
O nosso desespero achará um remédio,
Porque o Amor de Mãe, tem da vida a semente!

05.05.1996


Esio Antonio Pezzato

O PEÃO




O Peão


Sou um peão que vive abandonado
Em velho tabuleiro de xadrez,
Querendo, tão-somente ser tocado,
Quando chegar do Mestre, a sua vez.

Pelas Torres cruéis sou atacado,
Dos Bispos e Cavalos, sou freguês,
Porém, eu sou o mais fiel soldado
Protegendo meu Rei, com altivez.

Para a nobre Rainha sou escudo!
Meu movimento exige um grande estudo,
No passant uma luz se me avizinha.

E mesmo parecendo um derrotado,
Ninguém sabe que estou apaixonado
Perdidamente por minha Rainha!

31.07.1992



Esio Antonio Pezzato

22 de maio de 2010

TORRES ABANDONADAS


Torres Abandonadas


Construí de esperanças um castelo
Com altas torres e com lindos sonhos,
Para nele viver dias risonhos
Com meu amor, num mundo muito belo.

Porém, a realidade, em seu flagelo,
Deixou meus dias tristes e enfadonhos;
Meus sorrisos tornaram-se tristonhos,
E de angústias, criei meu ritornelo.

Hoje ainda, meu castelo contemplando,
Vejo as torres – esguias sentinelas –
Abandonadas, tristes e vazias...

E vou lembrando tristemente, quando,
Construí essas torres altas, belas,
Para viver os meus risonhos dias...

23.03.1991



Esio Antonio Pezzato

ALÉM DO SONHO




Além do sonho

Além do Sonho existe a realidade
Que nem sempre combina ao que queremos:
– Os corações que estão em dois extremos
Às vezes, vivem cheios de saudade.

Juntos, os corações, em ansiedade,
Agridem-se com fúrias e blasfemos...
Chegando mesmo, a máximos supremos:
– Apartam-se chorando em humildade.

E tampouco eu entendo esses deslizes:
Carrego n’alma várias cicatrizes
Fujo do amor que quer me ver cativo...

Mas a distância tomo linha e agulha,
E longe de qualquer olhar patrulha,
Tento fazer meu próprio curativo.

14.06.1997


Esio Antonio Pezzato

SONHADOR





Sonhador

Um sonho vale muito mais que um mundo!
Pois eu posso sonhar muito à vontade –
E fugir da oprimida realidade
Que só me traz desdém e ódio profundo.

Dentro do sonho, em transe de ópio, afundo
Tudo o que aspiro de necessidade –
Minha ilusão transmuda-se em verdade
E fico poderoso e sou fecundo!

Sigo estradas azuis, atiro as vistas
Para os campos floridos e adubados,
Sei-me colono e sei-me lavrador!

Em transe atinjo todas as conquistas,
Ao ter, porém, meus olhos acordados,
Sei que somente sou um Sonhador!

25.09.1990



Esio Antonio Pezzato

HALLEY




Halley


O cometa passou... e todos, na alegria
De vê-lo cintilar em pleno céu aberto,
Foram olhar o céu para olhá-lo de perto
Em todo o seu fulgor de pura fantasia.

Porém, logo ele foi para o seu rumo incerto
Buscar a Imensidão para ter companhia...
Quis o Silêncio, quis a Paz, quis a Magia
Do espaço sideral amplo, mudo, deserto...

E aqui ficamos nós, presos todos à Terra,
– Ilha de Solidão a boiar no Universo! –
Olhos a procurar na obscura vastidão,

Um recanto de Paz em meio a tanta guerra,
Um côvado de Amor neste Infinito adverso,
Um amigo sincero ao nosso coração!

23.06.1986


Esio Antonio Pezzato

20 de maio de 2010

A CASA DOS MEUS SONHOS




A casa dos meus sonhos


A casa dos meus sonhos deve ter
Paredes brancas cheias de janelas,
Para que as trepadeiras amarelas
Nelas possam felizes florescer.

A cada dos meus sonhos deve ter
Sorrisos de crianças tagarelas,
Árvores no quintal frondosas, belas,
Para a sombra poder nos dar prazer.

A cada dos meus sonhos deve ter
Um ganho para pôr a minha rede
Para descanso em horas de lazer.

A casa dos meus sonhos deve ter
Um quadro de família na parede
E um altar para a gente agradecer.

14.04.1989



Esio Antonio Pezzato

SONETO DA 1ª PESSOA DO PLURAL





Soneto da 1a. Pessoa do Plural
(do indicativo presente)


Se sonhamos e amamos e queremos
E esperamos e armamos e brigamos
E sofremos e odiamos e gostamos
E ardilamos os sonhos aos extremos

Se julgamos e achamos e vivemos
E salvamos e optamos e brilhamos
Se atiramos no rio os nossos remos
Se adoramos a noite e seus recamos

Se vencemos e após o tudo rimos
E se colhemos os doirados pomos
E após partimos para novos rumos

Se guardamos então preciosos mimos
Nossos sonhos à frente de nós pomos
Como pautas em branco de resumos.

12.03.1996



Esio Antonio Pezzato

LEGADO





Legado


Tão-somente um Soneto bastaria
Para deixar na terra o meu legado:
Três alqueires de péssima poesia
E um verso com o pé todo quebrado.

A ilusão que brotou-me em certo dia
Não deu frutos... e foi terraplanado
Na mais gloriosa e fértil alquimia
O terreno onde o sonho foi plantado.

Herdeiros vão querer brigar, por certo,
Quando meu cofre, um dia for aberto
Pois pensam encontrar o brilho d’ouro...

Mas eu vou dar risadas no Infinito:
– Minha herança reduz-se a um verso escrito
Pois a Poesia foi o meu Tesouro!

13.03.1990



Esio Antonio Pezzato

SONETO DESVERBADO




Soneto Desverbado


Olhos abertos, mas com a mente hermética,
A boca em berros – o meu verso em prólogo,
E a noite na ciranda de um astrólogo,
Em devaneios ásperos, patética.

Totalmente sem nexo, qual teólogo
Numa redoma cintilante e estética,
À luz da treva mais do que sintética,
Palavras soltas, trágico monólogo...

Difícil união neste propósito..
Pensamentos de pólvora, depósito
Do medo, da traição, cruel capítulo...

E eu, Poeta egocêntrico, num cântico,
A alma em contraste e com teor romântico,
– Ao amor nunca um verso como título.

15.09.1994


Esio Antonio Pezzato

18 de maio de 2010

LABIRINTO EM VERSOS




Labirinto sem verbos


Senhor! A noite toda em aflição
E o verbo ausente em desespero puro.
Alguma coisa por detrás do muro
– Ferros em elos, capitão razão...

O verso e a rima e onde a inspiração?
A noite em ponto futurista, obscuro,
E o pensamento cada vez mais duro:
– O delírio, a fumaça, a decepção...

Asas ao vento, que imaginação!
Talvez um verso pronto no futuro
À maneira de mística oração.

Mas novamente o desespero, o apuro,
– Paz ao Soneto, ao verso, à redenção,
E morte ao Verbo e ao labirinto escuro!

15.09.1994


Esio Antonio Pezzato

SONETO DODECAMONOSSILÁBICO




Soneto Dodecamonossilábico


Se vens com ar de miss, com ar de miss tu vens
E um céu de luz me dás e vais a rir, sem ver
Que já não sei sem ti ter paz, nem ter os bens
Que a luz do céu me traz e já não sei mais crer...

Vem e vais, vens e vais... e eu com a dor e a ter
A voz de quem é só, e eu vou ver que não tens
O dom da fé, o dom da paz, nem és o ser
Que vi e quis e fui ao léu com os meus bens.

Vais a rir e no chão o pó de giz me dá
O fel da dor e vou sem ti e só, na dor
Que diz que fui, não sou, e, ai, do, oh! Deus, não há

Mais a luz, mais o sol, mas a paz, mais o céu...
Vais e não vens... o fel me traz a mim a cor
A qual diz que sou só e da dor eu sou réu!

23.09.1992


* Invenção própria, um soneto inteiramente composto com palavras monossilábicas.



Esio Antonio Pezzato

SONETO IMPROVISADO





Soneto Improvisado


Compatriotas do Sonho! Agora, quando a estrela
D”Alva desaparece e não mais ilumina,
É o instante de apagar a luz da lamparina
Pois o Sol torna a ser, do dia, o sentinela...

Por que desperdiçar a tênue luz da vela
Se a réstia do astro-rei, soberano domina?
É melhor esperar outra luz purpurina
Para tornar ao Sonho em soberana umbela.

Desfraldar ilusões não é de meu feitio;
Muito embora a ilusão em momentos me brote
Na hora que, em desespero infinito, me enfronho.

Mas o êxtase da Treva é de pôr arrepio
Nos pêlos de meu corpo e, tal veloz coiote,
Eu me embrenho na noite e no Silêncio sonho.

14.03.1983


Esio Antonio Pezzato

PORVIR




Porvir


No calvário de toda a inspiração
Sou Cristo com a coroa de sonetos!
Poeta arrebanhando os amuletos
Para em rimas tecer sua canção.

A lança a perfurar meu coração
Soa notas perdidas nos coretos.
E os versos são apenas esqueletos
No ato maior da pura inspiração.

A via-crucis tem 14 passos!
Poeta e Cristo estão nos mesmos braços
Para que o mundo possa ressurgir!

Cristo dá vida às rimas do Poeta,
E a inspiração, no céu surge secreta
Para todos os dias do porvir!

23.10.1990



Esio Antonio Pezzato

15 de maio de 2010

CONSTRUÇÃO DE SONETOS





Construção de sonetos


Para bem construir os meus sonetos
Dentro de seus esquemas seculares,
Faço meus versos limpos e corretos
Na construção de sólidos pilares.

Na inspiração reúno os amuletos
E na imaginação pairo nos ares.
– Crio palavras, novos alfabetos
Para que se pareçam com altares!

Cada soneto feito é uma conquista
Que fica a cintilar n’alma do artista
Como se fosse o mais real tesouro

Conquistado com força e com cansaço:
– Quatorze torres sólidas como o aço!
– Quatorze torres mais valiosas que ouro!

15.05.1987



Esio Antonio Pezzato

SOBRE O SONETO




Sobre o Soneto


Algumas regras devem ser tomadas
Quando for se compor alguns sonetos:
As rimas devem ser nos dois quartetos
Uniformes e muito bem cuidadas.

Porém, sempre que surgem as ciladas,
Precisamos nas mãos – ter amuletos.
As regras também servem nos tercetos
Para as idéias virem cinzeladas.

A metrificação de forma alguma
Poderá ser quebrada e a mesma pode
Ser decassílaba ou Alexandrina.

Não se deve esquecer regra nenhuma:
– Se a Musa nesse instante não acode,
É melhor esquecer a sabatina.

23.03.1997



Esio Antonio Pezzato

OFICINA DE SONETO




Oficina de Soneto


Quem tiver um soneto pé-quebrado
Que venha consertar nesta oficina,
E será com certeza bem tratado
Que o ofício do conserto me fascina.

No soneto não pode haver chacina:
Por exemplo algum verso descuidado.
Mas deve ser igual a obra divina:
Um altar para ser idolatrado!

A métrica requer conhecimento,
E na rima não pode haver defeito.
E o final deve ter um fecho de ouro.

Que o Soneto ao Poeta é o santo ungüento,
Se ao final estiver justo e perfeito
O poeta terá o seu Tesouro!

15.03.1997



Esio Antonio Pezzato

SONETO MANCO




Soneto manco


Marcas no chão definem-te a presença...
E corrôo-me à angústia de estar só.
Todo o nosso passado, a nossa crença,
Resume-se hoje a pó.

E o que nos resta – a tola indiferença –
Põe à minha garganta amargo nó;
Que a solidão é a mais cruel sentença
Que á boca põe um oh!

E assim, na solidão de estar sozinho,
Os pés vão desenhando em meu caminho
Este sonho cruel.

E quando chego ao fim desta jornada,
Tenho, para agravar esta cilada,
Grossos favos de fel.

23.07.2000


Esio Antonio Pezzato

14 de maio de 2010

PEDRO CHIQUITO




Pedro Chiquito


(repentista piracicabano, quando de sua morte)



Na carreira do Divino
Hoje o canto é desatino
E faço tanger o sino
Num dobre muito magoado...
Mas tenho um verso bonito
Que leve ao mundo Infinito
A alma de Pedro Chiquito
Na carreira do Sagrado.

Meu verso rola vazio,
N’alma sinto enorme frio
A tristeza é um arrepio
Que deixa desesperado
Este Poeta que insiste
Em cantar seu canto triste
E às intempéries resiste
Mesmo com seu canto errado.

Não sei moda de viola
– Um dia fugi da escola
E hoje guardo na cachola
Somente um verso quebrado.
Mesmo assim, com teimosia,
Vou tentar minha poesia
Que de sonhos é vazia
Parece um jacá furado.

Que importa seja meu verso
Do modo todo diverso
Da Lei que rege o Universo
E tem contrato firmado?
Socorro, Moacir Siqueira!
Nhô Serra, marquei bobeira,
Estou a fazer besteira
Tô onde não fui chamado!

Hugo Pedro Carradore
– Jararaca do Folclore –
Você, talvez, lendo chore,
Ao ver meu verso engasgado...
Amigo Toti me ajude!
Sua eterna juventude
Vem do Rio sem saúde
Ou vem do canto marcado?

Outro mundo talvez herde
A linda esperança verde
Que no canavial se perde
Na garapa e no melado...
Mas eu tenho por herança
Velha e magoada esperança
Que labuta e não se cansa
Em ver o verso rimado.

Talvez as Luzes da Aurora
(Que o céu de fogo colora)
Doure a pérola que irrora
E este canto derrocado...
Ou será que a Semeadura
Que rebenta a terra dura
Consiga deixar madura
A vida e o sonho dourado?

Ou será que o Chiarini
(Que Deus o tenha e o ilumine!)
Qual um pintassilgo trine
Para deixar inspirado
Este verso pobre, chulo,
Que não tem valor e é nulo,
Que nas métricas dá pulo
Pois quem faz não é letrado?

Ah, tento um verso bonito
Para cantar no Infinito
O grande Pedro Chiquito
Que está de peio calado...
Mas a inspiração me falta,
A noite imensa vai alta,
A alma em sussurros se exalta
E continuo acordado...

Vou parar com a redondilha,
E buscar outra cartilha,
Acordar a minha filha
E fundar outro condado...
Vou ser rei em terra estranha,
Da teia, tirar a aranha,
Pois à viola me acompanha
Quem jamais ponteou errado.

Já estou todo confuso,
Pois do verso fiz mau uso,
Desce do céu, Parafuso,
E desenrosque o enroscado...
O duo aí tá bonito?
Pudera, o Pedro Chiquito
Num desafio infinito
Deixou Deus apaixonado...

Depois de tanta besteira
Eu salto dessa carreira,
Rezo para a Padroeira
Mais um terço devotado...
E ao eterno repentista
Que teve a grande conquista
De ver o Maior Artista,
Adeus e muito obrigado!

Poema feito dia de sua morte
16.12.1991


Esio Antonio Pezzato

RUA XV





Rua XV
(esquina da Av. Armando de Salles Oliveira)



De chupetas na boca, essas crianças,
Ficam brincando de pedir esmola,
Não têm educação, não têm escola,
E muitos menos sonhos e esperanças.

Nos semáforos ficam, entre danças,
Parecendo bonecos sobre mola,
Mastigando passada mariola
Com rosto sujo após tantas andanças...

–“Me dá uma moedinha?!...” e andando a esmo
Por entre os automóveis impacientes,
Elas se esgueiram num furtivo riso.

O tétrico cenário é sempre o mesmo:
E eu vendo essas crianças inocentes,
Penso que é fantasia o Paraíso.

13.12.1999


Esio Antonio Pezzato

13 de maio de 2010

PRECISO...



Preciso...


Preciso que o silêncio das manhãs
Seja quebrado apenas pelas aves
Que em cantos matinais, calmos, suaves,
Amadurem as frutas temporãs.

Preciso que o vermelho das romãs
Traga-me a sorte para meus entraves
E em vôos andorinhas façam claves
E musiquem as sombras das rechãs.

Preciso que meus passos sejam certos
Para encurtar estradas dos desertos
E poder palmilhar pelo porvir.

Preciso aos sonhos sigo sempre a esmo,
E a cada dia mais me sinto eu mesmo
Com mil facilidades para rir.

28.08.1998


Esio Antonio Pezzato

MATINAL










Matinal


O dia amanheceu todo festivo!
No jardim – lindas rosas encarnadas
Desabrocharam pelas madrugadas
Deixando meu jardim alegre e vivo!

De monástico sonho sou cativo!
Enlaço minhas rimas em baladas
E os lábios escancaro em mil risadas
E canto meu prazer afirmativo!

Gotículas minúsculas de orvalho
Mais parecem cristais que à luz do sol
Ficam a refletir de cada galho

Um arco-íris em forma de farol;
E eu, num instante paro meu trabalho,
E soletro cantigas em bemol!

25.06.1996


Esio Antonio Pezzato

APARENTE MANSUETUDE





Aparente mansuetude



Se já não mais possuo o fogo antigo
Que antes me enfebrecia de emoção,
Ainda meu peito serve como abrigo
Para um esperançoso coração.

E mesmo às intempéries eu não ligo
E ao redor me projeto em mansidão;
Porém, sei muito bem que n’alma abrigo,
Efervescentes lavas de vulcão!

Assim, nesta aparente mansuetude
Se se me extingue a airosa juventude,
Nem por isso é que tranco-me à ilusão.

As brasas tão-somente estão cobertas,
Se minhas vistas lanço a áreas desertas,
É que ainda espero o vento da Paixão!

23.05.1996



Esio Antonio Pezzato

IMPREVISTO




Imprevisto




Ela, às vezes, me dá uma alegria,
No momento que menos eu suponho.
Nessas horas parece até que sonho
Mas estou acordado... em pleno dia.

Chega sorrindo em forma de poesia
E eu nos seus lábios, ternos beijos ponho.
Sorri – meu mundo fica mais risonho!
Canta – e me embalo nessa fantasia!

Até parece que a felicidade
É a coisa mais banal que há nessa vida,
Pois ela, de maneira mais completa,

Faz minh’alma cantar em ansiedade...
A paisagem se torna mais florida
E feliz eu me torno mais Poeta!

14.11.1995



Esio Antonio Pezzato

12 de maio de 2010

SILÊNCIO




Silêncio

Melhor calor.
Às vezes o silêncio
Consegue traduzir mais que as palavras
Que estão a embaralhar a nossa língua.
Por vezes traduzir fica impossível
– Lágrimas valem mais do que palavras.
O silêncio de um túmulo reflete
A verdade contida no segredo.


23.03.2001


Esio Antonio Pezzato

INCAPACIDADE DO ARTISTA



Incapacidade do Artista

Às tardes, contemplando o sol no ocaso,
Incendiando nuvens passageiras,
As minhas vistas ficam prisioneiras
Do espetáculo feito por acaso.
E jamais um pintor, com mãos artistas,
Conseguirá reproduzir na tela
A paisagem tão límpida e tão bela
Com pinceladas ágeis e (im)previstas.
As nuvens mudam num vagar a esmo
Em suas formas rápidas, constantes...
E o que agora elas são não eram antes
E o artista em sua vida é sempre o mesmo.


03.11.1999


Esio Antonio Pezzato

CANÇÃO ENTRE PARÊNTESIS





Canção entre parêntesis

Foi muito bom te ver naquele dia...
(Um canário cantava na gaiola
A sua serenata em sinfonia...
Meu coração, em forma de viola,
Fez repentes de mágica poesia...
E cantando sentida barcarola
A minh’alma fez hinos de alegria,
E ao mais falar a minha voz se enrola...)
Foi muito bom te ver naquele dia...


30.09.1999



Esio Antonio Pezzato

O LAVRADOR




O Lavrador

Arde o sol. É manhã. No Cáucaso diário
O velho lavrador – o Prometeu – arqueja –
Sob o peso da lida e segue o itinerário
Que mais parece ser um lúgubre Calvário
Onde Cristo revê a Sua Mãe – que o beija!
Manha. De sol a sol – no causticante inferno,
Lavra a terra a sofrer... corre o suor no rosto...
Suas rudes feições transmudam-se e o inverno
De seu longo viver parece ser eterno
E é eterno quando vê, no céu, o sol já posto.
As calejadas mãos não sabem mais, na vida,
Carinhos ofertas, pois o trabalho intenso
Consome seu viver... a Esperança é perdida,
As ilusões são vãs, e a estrada percorrida
Lembra o inverno glacial que é nebuloso, denso...
Trabalha tanto e tanto... a enxada corta o mato
Que entre os canteiros cresce... o rastelo, em arrancos,
Tira entulhos da terra e entre um ao e um outro ato,
Vê, crescendo feliz, – desse doce contacto –
Os frutos de um trabalho em honra aos Sonhos brancos.
Trabalha e sofre, sofre e trabalha, e o trabalho,
É um hino para Deus, pois enquanto padece,
Não vê o tempo passar – o tempo é como o galho
Da árvore centenária:– enquanto cai o orvalho
A vida em flores vibra em poderes de prece!
Bendito Lavrador! As tuas mãos são santas,
Pois embora colhendo o puro Sacramento
Eu quisera saber em casa, o que tu jantas?
E não creio que tu, que a tantas bocas, tantas
Bocas dás de comer, comas teu alimento!
E mesmo assim tu vais – com puras Esperanças,
Matar do mundo a fome: e o campo – terno abrigo –
Forra-se de arrozais das sementes que lanças,
As espigas de milho... ah!... são loiras crianças
Que brincam sem parar com os cachos de trigo!
És um santo na terra, Artesão do futuro!
Em tuas mãos está depositada a sorte
Dos homens do porvir, porque tu és um Puro,
Um seguidor de Cristo e de Buda e seguro
Encontrarás a Vida onde, hirta, reina a Morte!



23.06.1981



Esio Antonio Pezzato

NOTURNO




Noturno

Um grito de Poesia sai-me d’alma...
Estou feliz... a noite segue calma
O seu destino de trazer-me a aurora...
– Quem foi que esborrifou o céu de estrelas?
Sonâmbulo, ando pela noite e pelas
Celestes trevas que meu ser adora.
Amo a noite e os sarcófagos de prata
Que iluminam a noite e a densa mata
Onde meus passos seguem sem destino.
Amo a noite de forma tão intensa,
Que se possível fosse-me uma crença,
A faria num verso cristalino!
Oh! Noite, tua luz que me destila,
Que minha vida deixa mais tranqüila,
Por certo vem de uma destilaria
Com new know próprio para filtrar luzes,
Por isso, enquanto castiçais conduzes,
À noite irei cantar minha Poesia!
Minha Poesia pura, da pureza
Dos anjos celestiais que sem defesa
Nas florestas da noite andam e cantam.
Ah, visitar constelações brilhantes,
Onde as estrelas puras, coruscantes,
À imensa solidão da terra encantam...
Sou mais Poeta à noite, quando saio,
E a lua preludia o mês de Maio
Que das damas da noite traz o cheiro.
Vicejam nos jardins rubras violetas,
Aonde às centenas, vêm as borboletas
Os perfumes sentir de um jasmineiro.
A noite adquire vida própria quando
Os seresteiros, aos violões, cantando,
Fazem junto à janela uma seresta,
E a Mulher que dormia enlanguescida,
Em mágico torpor se enche de vida
Enquanto os olhos buscam uma fresta...
Mas a Mulher que guarda algum segredo
Oculta, entre cortinas, sente medo
Enquanto o coração – traidor confesso! –
Denuncia o que os lábios nunca dizem,
Embora n’alma alegre se enraízem,
Por outro coração – carinho e apreço!
À noite é que o Poeta – missionário
De Deus na Terra – como visionário,
Despreza de Morpheu os róseos braços,
Pois é que enquanto a noite arde e suspira,
Deus desce à Terra e Seu cantar transpira
Para alvejar de estrelas os espaços!


14.03.1993



Esio Antonio Pezzato

O DESESPERO DE JUDAS




O desespero de Judas

O sol caía junto às barras do horizonte
E o pesadelo atroz pairava junto à fronte
Do traidor contumaz, Judas Iscariote!
No esgar desencadeado o vento – igual chicote! –
Vociferava forte em remoinho imenso...
Longe, o corpo de Cristo ao madeiro suspenso,
Arquejava um gemido em hórrido contraste:
“Eloí, Eloí, por que me abandonaste?...”
Relampejava o céu escombros de violência
E prenunciava em fúria a voz da Providência...
Com o olhar febricitante o Apóstolo fitava
Aquele que traíra... a multidão escrava
De poder contemplar na cruz mais uma morte
Exortava a sorrir tais momentos da sorte!
Judas fitava mudo os delírios insanos
De escribas, fariseus e soldados romanos.
Mas de repente o sol brilha por uma fenda
E ele pressente o fim desta visão horrenda.
Uma voz interior em seu cérebro vibra
E ele sente tremer no corpo, fibra a fibra,
Da agonia fatal que padece o Traído...
E neste instante então, percebe-se perdido,
E o inferno do terror penetra em sua mente...
Apavorado está... Sai correndo... demente
Nas pedras tropeçando e segurando a capa
Não consegue encontrar na própria mente o mapa
Para onde quer seguir... Aflito vocifera
E em seu rastro imagina ouvir o uivo da fera
Do desespero atroz que persegue su’alma.
Nada, nada o detém, nada no mundo o acalma,
E uma voz interior em mil ecos propaga
Como nefasta, fria, e supurada praga:
“Traidor! Traidor! Traidor!...” mil caminhos procura,
Mas não consegue achar lenitivo à loucura,
Que enrosca no seu corpo... Alucinado, aflito,
Corre a mais não poder... À distância o Infinito,
Negreja o céu de fumo e ele vai, desvairado,
Pelos campos sem fim como um desesperado.
– “Que foi que fiz? Senhor, tende de mim piedade;
Com a ganância maior do que a necessidade
Vilipendiei dos Céus o Teu Filho divino
E eis-me agora a traçar o meu negro destino...
Por certo Satanás penetrou em meu peito
E eu fraquejei, pois não devia tê-lo aceito;
Sou filho de Caim e perdão não mereço,
Mas se devo pagar agora qual o preço
E o que devo fazer? A loucura me invade.
Sou o próprio Pecado, a própria insanidade,
O Teu Filho traí e é horrível o meu crime,
E nem o Teu perdão minha pena redime.
Uivam feras no chão onde meus passos piso,
Em reflexos o céu dá-me o mortal aviso
Que contra Ele pequei... O que fazer agora
Que percebo o meu crime e a culpa me devora?
Eu que tanto busquei seguir o Seu caminho
Como posso viver nesta angústia sozinho?
Aos Outros que direi quando vierem falar-me?
Sou covarde, Senhor! O inferno traz o alarme
Anunciando que estou de partida para ele.
Minh’alma é pura brasa, em cancros sinto a pele,
O cérebro fervilha e eu não tenho sossego...
Porém, para seguir às Geenas estou cego,
E o terror queima em mim, queima as minhas entranhas,
Sinto no coração os palpos das aranhas,
Nojentos escorpiões os meus pés aguilhoam,
E os gemidos de Cristo em meus ouvidos soam
E é minha própria voz, Senhor, que me condena.
Minha língua está grossa e já cheira à gangrena,
O pus cobre meu corpo e é horrível este cheiro.
Uma ave negra voa e o seu canto agoureiro
Parece me dizer com seu grasnar eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
Tudo é negro, Senhor... Pessoas apressadas
Passam por mim agora em rudes gargalhadas
E dizem sem parar: que sirva como exemplo
Para Aquele que quis nos expulsar do Templo!
O Seu corpo na cruz vaza em pus e excrementos,
E das pernas escorre em pútridos tormentos
E eu não O ouvi, Senhor, fazer um só reclamo,
Da Sua dor pungente e agora em dores clamo
Mas perdão não mereço, eu sei que não mereço;
Para tal atitude existirá um preço?
Trinta moedas, Senhor, as minhas mãos seguram,
Tatuam a minh’alma e em minh’alma supuram...
Os lobos e os mastins perseguem os meus passos.
Condena-me, Senhor, caiam em mim espaços,
Teus Sidéreos sem fim que vagam no orbe imenso
... Estou fora de mim, e louco já não penso...
Profanei minha vida em tal crime hediondo
Por onde piso os pés, por onde os olhos sondo
O terror é cruel... No inferno alguém me espera.
Hei de viver na treva, entre grupos de fera,
No delírio da dor, neste insano remorso.
Impossível seguir... Sangram meus pés... O esforço
É em vão... a noite está dentro de mim, sou noite;
Não há lugar, bem sei, onde meu corpo acoite,
Dá-me a morte, Senhor, que este sofrer eterno,
Deve ser bem maior ao que terei no Inferno!
O corpo de meu Mestre ainda está pregado
E pende junto à Cruz... Parece estar alado
Pronto para alcançar a imensidão celeste...
Penso que vai voar, embora n’Ele infeste,
Laivos fundos da dor... O vento sopra agora
E seu rígido corpo atado à cruz é a Aurora
De um dia que ainda está para chegar... Mas quando?
Bem sei, não estarei por tal dia esperando...
Tenho sede, Senhor, a boca queima em brasa,
Não tenho onde seguir... Há muito estou sem casa,
Onde agora viver?...”
A Ganância e a Cobiça
– Irmãs gêmeas do mal! – farão sua Justiça!
E à árvore atando a corda em tenebroso trismo
Judas precipitou-se à escuridão do abismo...


13.04.2000


Esio Antonio Pezzato

10 de maio de 2010

CÍRCULO




Círculo

– Por que chorar, amigo, a morta mocidade,
Se ao morrer ela deu-te a calma, a experiência,
O saber esperar os passos da prudência,
Certa sabedoria e freios à ansiedade?
Se antes, num atropelo e em tola insanidade,
Prendias o teu sonho à vesga intransigência,
Hoje tens certo estudo e sabes que a ciência
É saber esperar com virtude e vontade!
Podes ter menos força, entretanto, o que conta,
É acariciar o tempo e o tempo sempre aponta
Com pura exatidão o instante de ir-se à frente...
Então, por que chorar num desespero aflito?
Que diz a tua voz que mais parece um grito?
–“Quem me dera outra vez ser moço e inexperiente!...”


29.01.1999


Esio Antonio Pezzato

INSÔNIA




Insônia

Insônia! Insônia! Insônia! O desespero infando
Que entra em meu corpo e não permite vir o sono...
Desespero fatal! – fico acordando quando
As pessoas estão em plácido abandono.
Latem errantes cães pela rua deserta...
Monótono, o relógio, em seu bater eterno,
Traz as horas sem fim... em vão, sob a coberta,
Não consigo dormir... E a insônia é meu inferno.
Trabalha o pensamento... em coisas chulas pensa...
Levanto-me da cama e vou olhar a rua.
Silêncio e solidão... esbranquiçada e densa
A bruma, num valsar, mostra e me esconde a lua.
Um livro para ler é companheiro amigo
Para o sono chegar... Trinta páginas leio!
Emboscada fatal! Assassinos! Perigo!
À trama do romance eu me pego em anseio...
Outro cigarro acendo... Ininterruptamente
Fico olhando a fumaça a boiar, e vou vendo
A luz de meu passado a brilhar no presente;
E imperturbavelmente, ouro cigarro acendo!
As mulheres que amei vem-me fazer visita...
Não chega o sono e então acendo outro cigarro...
A fumaça flutua efêmera, esquisita...
De súbito o pavor... Em fantasmas me agarro...
Quatro horas da manhã... A insônia me acompanha;
Parece que dormi por séculos seguidos!
Sou capaz de subir e descer a montanha
Andando sempre a pé, com passos decididos!
Do cigarro a fumaça evola-se, enche o quarto,
Parece até que a névoa entrou em minha casa.
Sozinho! Com ninguém minhas dores reparto,
No peito o coração arruiva como brasa.
Na rua um gato mia... Um cão em seu encalço!
Noturno, o vento agride as flores do arvoredo...
Divaga a fantasia... O pensamento é falso,
Por instantes reais, da insônia sinto medo.
Na sala, o carrilhão marca mais um quadrante...
O sono não me vem e eu aproveito e escrevo...
(Se eu tivesse ao meu lado a apaixonada amante,
A insônia até seria um momento de enlevo!)
Como é tarde! Oh, Morpheu! Aqueça-me em teu colo;
As pálpebras me cerra... Eu preciso de sono.
Mas angústia fatal! Aumenta o desconsolo!
Amanhece e eis que estou em pálido abandono!...



16.07.1993



Esio Antonio Pezzato

MENINOS DE RUA




Meninos de rua

Um menino, com as mãos sujas de graxa,
Que nos sapatos do Dr. capricha,
De todos os moleques tem a ficha,
– Quando passa a polícia, ele se agacha;
Esse menino, em devaneios, acha
Que entre todos existe muita rixa:
Para quem cheira cola, a grana micha,
E não ganha sequer para a bolacha...
Alguns, não podem encontrar a brecha
Numa loja qualquer, de dono trouxa,
Que se tornam ligeiros como flecha:
Entre graxas, escondem a garrucha,
Brigam na rua e com a bochecha roxa
Divertem-se assistindo ao Xou da Xuxa!



16.11.1990



Esio Antonio Pezzato

ENCONTRO





Encontro

Num banco de jardim de abandonada praça,
Quando a tarde morria em fulgores e graça,
Sentaram certa vez, por capricho, ao acaso,
A velhice a mostrar suas luzes de ocaso
E a juventude em luz nos fulgores da aurora...
... Um silêncio sem fim aconteceu nest’hora.
Envolta em luzes mil a bela juventude
Passou a enaltecer toda a sua virtude:
–“Tenho força e fulgor, anseios e beleza,
A meus pés chego a ter tudo da natureza!
Com passos firmes sigo e avanço na jornada,
A vida para mim brilha sempre encantada!
–“Por onde passo esparjo os louros da vitória,
O que quero consigo e brilho nesta glória!
Sei correr, sei pular, saltar, jamais me canso,
E o que no céu cintila, em êxtase eu alcanço!
O futuro me espera em luzes e fulgores,
E a estrada onde palmilho é recheada de flores.
–“Posso tudo vencer num rápido momento,
E, uma vida sem fim tenho por mandamento!
Posso abraçar o céu, pois o céu me pertence,
E nem a Eternidade em seu fulgor me vence,
O que quero conquisto e a conquista me chama,
Em coroas de luz fulgura a minha fama!
–“Se tudo posso ter, quando minh’alma sonha,
Às glórias que acumulo eu me vejo enfadonha.
Não preciso lutar para ter o que quero,
E o que procuro ter nem um instante espero.
É por esta razão que num brilho fremente,
Penso ser uma Deusa eterna e Onipotente!...”
E desatou a rir em sua garrulice
Quando pôs-se a falar com ternura a velhice:
–“Tudo o que hoje possuis, também já tive um dia
Mas agora somente a esperança me fia.
Já não posso correr e lutar já não posso,
Mas não invejo, não, teus feitos de colosso.
–“Pensas na Eternidade e ela é veloz qual raio
Que deslumbra e depois descamba num desmaio,
Pretendes ser a luz, mas de forma aziaga,
Na hora da precisão a luz também se apaga;
Podes correr, subir e galgares montanha,
Mas na encosta, porém, é que o mar alvo a banha;
–“Se os sonhos podes ter a um teu único apelo,
Ao fim desta existência é negro o pesadelo.
Se te pertence o céu, se te pertence a glória,
O que vale vencer, o que vale a vitória?
Vives sempre correndo atrás da áurea esperança,
Eu ando junto dela e de mim não se cansa.
–“Vivo um dia por vez sempre com novo encanto
E ele sempre me ensina um novo e terno canto.
Se teu caminho azul é recheado de flores,
A vida é meu caminho exótico de amores.
Se perfumas ao vento eu perfumo os meus dias,
Se vives o prazer eu vivo de magias,
–“Pode ser que o porvir que em ânsias tu esperas,
Jamais chegue a florir quais loiras primaveras.
Olhas o imenso céu e as aves pensas tê-las,
Eu já vivo no céu coroada de estrelas!
O que pensas buscar e anseias num desejo,
Encontra meu olhar na carícia de um beijo.
–“Pensas dar teu amor a todas as pessoas,
Eu deste amor tenho hoje as melhores coroas.
Se queres ser o sol com a sua virtude,
Tu somente terás a sua luz que ilude.
Eu tenho a mansidão, e o afeto desta vida,
E se olho para trás a estrada é colorida!
–“Cuidado, juventude, esta incontida ânsia,
Há de pôr entre nós um mundo de distância.
Porém, se no amanhã venceres a jornada,
Por certo irás ficar com a alma apaixonada.
E sentirás por fim, presa à nova crendice,
Que é prata a Juventude e o ouro é da Velhice!”



14.08.2001



Esio Antonio Pezzato

ENCHENTE




Enchente

Passaste como um rio em minha vida;
Um grande rio em época de enchente.
Que destrói tudo inopinadamente,
E, os diques, levam todos, de vencida.
Meus sonhos naufragaram na corrente
Com fúria incontrolada e desmedida –
E hoje minh’alma, triste e dolorida,
Em destroços de sonhos, segue em frente...
Chega, porém, o tempo de estiagem,
A alma no sonho brota na folhagem
E a rotina produz nova alvorada.
E flores novas brotarão nos galhos,
Regadas com as lágrimas de orvalhos
Quando te vires só e desprezada.


27.09.1990



Esio Antonio Pezzato

VERGONHA




Vergonha

Eu tenho vergonha de abrir os meus olhos
E ver este mundo coberto de escolhos
Com tantas crianças morrendo de fome...
Vergonha de ver triunfar a maldade,
Os homens matando sem ter piedade
Lutando com armas às quais nem sei nome.
Soldados vivendo nos vales de dores,
– Trincheiras medonhas, cobertas de horrores,
Distantes do mundo sonhando por tantos...
Metralhas rugindo causando mais morte;
Meu Deus! Ainda existe no mundo esta sorte
Que traz mil desgraças e esquálidos prantos?
É tanto infortúnio, tamanha é a cobiça...
Os ares exalam a podre carniça
E a terra é um horrendo lugar de destroços!...
E o negro cenário faz parte da terra
Que envolta no atro ódio, revolve-se em guerra,
Com o negro e sinistro chacoalho dos ossos.
As armas profanas não gostam das vidas...
Arrasam os sonhos, destroem feridas,
E expelem, nefastas, seus cantos de escória!
Ao choro sentido das magras crianças,
Exaltam mais alto com suas vinganças
Dizendo que querem ter nome na História!
Um nome na História que a sangue é escrita,
O sangue inocente que, em vão, aos céus grita
Que o amor é preciso na face da terra.
Porém, na garganta tal grito é calado,
No chão mais um corpo vai ser massacrado
E gritos profanos, proclamam a guerra!
A guerra nojenta, que mata, consome,
Que faz o soldado perder o seu nome,
E ao mesmo soldado lhe dá uma medalha.
Meu Deus! Enfim quando terá paz no mundo?
Será que o futuro nos é tão imundo
E o amor infinito não nos agasalha?
Não mais a Esperança sagrada resiste...
O mundo é uma gleba negra, atra e tão triste,
E o corvo sinistro da guerra se exalta.
Os pólipos crescem com força gigante,
E vai cada dia ficando distante
A Paz que no mundo nos faz tanta falta!
Metralhas rugindo... profana é a algazarra;
O mundo está esquálido... a negra fanfarra
À marcha da morte convoca mais vidas...
Os campos povoam-se em negros destroços,
No chão amontoam-se os lívidos ossos,
E nossas virtudes caminham perdidas.
E quando teremos sorrisos no mundo?
Daremos epílogo ao ódio profundo
Que a tudo depreda com ira medonha?
Ah! Quando teremos o Amor como meta,
E a Paz que ansiamos de forma dileta
E quando no mundo teremos vergonha?
Não mais eu consigo cantar o meu canto,
Pois ouço do mundo necrófilo pranto
Que a guerra ainda paira, sangrenta, suprema...
E tudo caminha com negros pesares,
Essências da Morte povoam os ares,
Porém, aqui paro com esse poema...


15.05.1978



Esio Antonio Pezzato

Minha Ana Maria e Sissi

Apresentação Poema "O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot" Loja Maçônica Acácia Barbarense

ARQUIVO

PESQUISAR ESTE BLOG

..

ADMINISTRADORES