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30 de janeiro de 2010
BALADA PARA MEU AMOR
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Índice * Balada

SONETOS IMPERIAIS - DE SENTINELA
Poetas devem ter suas antenas
Para captar as impressões do mundo.
Estar atentos às pequenas cenas,
E ter o verbo, em prontidão, fecundo.
Devem cantar, em ternas cantilenas,
Com o coração em prece, num profundo
Carinho, as doces emoções terrenas,
Com as quais pelo espaço, vão a fundo.
Devem ter toda a sensibilidade,
Viver num mundo de felicidade
E ter o coração apaixonado.
Olvidar as tristezas ou prendê-las
Com os cadeados luzentes das estrelas,
Ou requeimá-las com o sol dourado.
11.10.1994
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - VANDALISMO
Este caminho, mais que a solidão,
Me traz a angústia de saber-me só.
Vejo um amor que reduziu-se a pó
Na estrada que conduz ao coração.
Andando solitário como Job,
Penso, no mar, ouvir uma canção
E perdido no reino da Ilusão,
Me acho mumificado Pharaó!
Pirâmides de sonhos construí,
Mas saqueadores, num desejo atroz,
Roubaram meus tesouros... e eis-me aqui,
Tentando pôr numa canção a voz
Para recuperar o que perdi
Do sonho que passou-me tão veloz.
02.10.1993
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - SOMBRA ESPESSA
Saltimbanco do Sonho e da Ilusão,
Inundei meu viver de fantasia.
Hoje me resta a pálida agonia
E os acordes de fúnebre canção.
Já não tenho motivo nem razão
Para a felicidade e me crucia
Esta dor que me punge dia a dia
E – fina seta – fura o coração...
Arredio das luzes – vou seguindo,
Buscando a sombra espessa do caminho
A um ocaso que à frente vem fulgindo...
Tão-somente me resta, por desgosto,
A solidão de estar sempre sozinho
E fundas marcas a vincar meu rosto.
17.04.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - SONETO
Caminha a Humanidade em seu labor diário
A procurar na vida o pão de cada dia.
E essa escalada insana é um lúgubre Calvário
Onde tantos, com fé, tombam nessa agonia.
Nada vale o trabalho heróico e extraordinário!
E inútil é suor de tamanha porfia.
Ao fim de tanta luta inexiste salário
E tudo se transforma em negra alegoria.
Funesto e triste olhar e delírio constante;
Trôpego o Homem caminha e com seu passo errante
O ódio em seu coração palpita, pulsa, medra.
E ao término de tanto engodo e ímpia injustiça,
De joelhos eis que cai sob a força submissa
E fica a idolatrar seus ídolos de pedra.
03.03.2004
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - ARREPIOS
O arrepio de morte que me invade
Vem do frio de fora, ou vem do frio
Que está dentro de mim? Se é arrepio,
É mais que frio, é mais do que a ansiedade
Da vida que me deixa sem saudade
E sem saudade deixa assim vazio
O coração que está ligado ao fio
Que dá direto com a Eternidade.
O arrepio é da noite. Se é da noite,
Não é mentira que me fere o açoite
Do vento que colide com meu ser.
É a aragem fina que enregela-me a alma,
Insanidade que me tira a calma
E me atira à vontade de morrer.
28.12.1991
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Índice * Sonetos

28 de janeiro de 2010
SONETOS IMPERIAIS - O ESPELHO
O espelho onde me vejo refletido
Está com suas cores embaçadas;
Por certo necessita ser polido,
Pois me reflete em formas encovadas...
Mas é o mesmo das épocas passadas
Quando tudo mostrava estar florido...
Porém suas molduras já quebradas
Mostram seu canto todo carcomido...
Antes só refletia a mocidade
E um caminho brilhante pela frente
Hoje, com já vencida validade,
Mostra este rosto um tanto diferente:
Pareço – corroído de saudade! –
Um rosto velho e um triste olhar ausente...
26.04.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Os sonhos
Necessário se faz estar atento,
Que o sonho se transforma em realidade
E quando ele liberta-se da grade,
Rapidamente embrama-se com o vento.
Necessário seguir o movimento
E prendê-lo em noss’alma sem piedade,
Pois senão ele, apenas por maldade,
Aninha-se com outro, num momento.
Por isso, se estivermos distraídos,
Os áureos sonhos passarão batidos
E cairão n’outros vales mais risonhos...
E nosso coração que ansiou-os tanto,
Terá da vida apenas desencanto,
Porque não conseguiu prender os Sonhos.
27.04.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Releitura
Às vezes fundo idéias e procuro
Em velhos versos, pôr outra roupagem.
Assim o meu passado é meu futuro,
A nova realidade – outra miragem.
Busco no pântano o desejo puro,
Novos caminhos para outra viagem...
Ao que antes saiu ríspido, atro, escuro,
Novo sol, nova luz, nova paisagem!...
Mas nem sempre, porém, feliz é a busca,
A inspiração pensada ser brilhante,
Num labirinto fúnebre, se ofusca...
E a dor no peito torna-se concreta,
Finda o verso e revejo-me ofegante
Com a tristeza de apenas ser Poeta.
27.04.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Duelo
A minha mente trava rebeliões
Para escapar das grades da Poesia.
A ela estou preso pela Fantasia,
Como ao amor estão os corações.
Os versos são a minha alegoria
E ao compô-los pressinto sensações,
Pois eles são as puras orações
Que a Deus eu ofereço a cada dia.
Porém, a liberdade não me alegra
Porque, Poeta, vivo preso à regra
E dela sei-me um súdito sem rei.
Tão branda é a pena por saber-me preso,
Que aos elos da Poesia saio ileso
E, como réu, acato sua lei!
02.05.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - O Lago
Supões que a vida é um lago azul. Supões
Que tudo vive com tranqüilidade,
E o divino poema da Amizade
É corrente que liga os corações.
Acreditas nos sonhos, nas canções,
Ainda choras em horas de saudade.
Julgas achar a paz, crês na verdade,
Sem vergonha demonstras emoções.
Mas este lago azul que amplo fulgura
Serenidade e, à superfície, faz
Um espelho onde o céu se mostra todo
É armadilha submersa, é sepultura,
E a aparência que mostra ser de paz,
Oculta a morte, a podridão, o lodo.
14.03.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Remorso
Todo o silêncio que entre nós agora
Paira pesado como foi que veio?
Se antes cantamos no fulgor da aurora,
Por que no ocaso ele se faz tão feio?
Se antes era cortado num anseio
De um beijo dado em qualquer dia ou hora,
Como foi que perdemos nosso enleio
E que a palavra foi de nós embora?
Ficamos horas, permanentemente
Remoendo – sem força nem coragem –
Palavras que jamais... jamais dizemos...
Estamos juntos sempre e frente a frente
Nós parecemos ser tola miragem,
Mais parecendo estar em dois extremos.
13.03.2001
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Índice * Sonetos

26 de janeiro de 2010
SONETOS IMPERIAIS - Ritual
Antes que o sono venha e eu me adormeça
Necessário se faz compor o verso
Na cadência monótona que cessa
O ritual profano do universo.
Noite de lua cheia... Névoa espessa
Colore o espaço com seu tom diverso;
E eu sempre, com o espírito disperso,
Antes que venha o sonho e me entorpeça,
Procuro labirintos... Mas que importa
Buscar as sombras num desvão de luz
Se até a paciência já jaz morta?
Nada me importa e nada me seduz,
Das faces fecho uma castanha porta
Enquanto lêmures me fazem uuuuuus!...
10.08.1998
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - SONETO AUGUSTIANO
Usei de carne velha fantasia
Para na vida não causar espanto,
Porém não consegui, no dia-a-dia,
Disfarce algum para ocultar meu canto.
A podridão foi minha alegoria
E fiz de sangue e pus jorrar meu pranto.
Augusto – fiz soar numa fobia
Meu verso, minha lira, meu quebranto!
Incognoscível foi meu pensamento,
Em meu Eu fiz zunir triste tormento
De todas as tristezas fui oriundo.
Jamais pude conter tantas comportas,
Por isso só cantei as coisas mortas
Das almas podres que encontrei no mundo.
29.12.2000
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SONETOS IMPERIAIS - PARTE IV - Manta da saudade
Cubro-me com a manta da saudade
Sempre que penso em quem se foi embora.
E a noite passo preso nesta grade
Até que o sol venha trazer-me a aurora.
E tece o coração, com suavidade,
A canção do silêncio... se a alma chora.
Pois quem partiu bem sei (eu sei) nunca há de
Voltar como não volta a ser o outrora...
Por isso deste frio me acoberto,
Mas a vida é tão cheia de deserto
Que nem mais ramos a florir contemplo.
Esta saudade, dia a dia, cresce
E cada verso meu lembra uma prece
Que rezo neste pavoroso templo!
16.11.2000
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - PARTE IV - Saudade Oculta
A saudade é canção que não se aprende,
Mas sabemos de cor todo o seu canto.
Invisível – parece ser duende
E sorrateira chega e causa espanto.
Em nosso coração seu canto acende
Tal um riacho que brota como pranto.
E vibra, mas por vezes não compreende
Que ela nos cobre com seu régio manto.
Se, choramos, em nome da saudade,
Por que sentimos tanto a falta dela
Quando nos deixa no romper da aurora?
Pois já vai longe a minha mocidade,
E eu já não sei como gravar na tela
Tanta beleza que se foi embora...
01.11.2000
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - PARTE IV - Encantos
Coração de Poeta sonhador
Traz sempre um verso pronto para o canto,
Uma ilusão alada, olente encanto,
Um perfume colhido numa flor.
Coração de Poeta sofredor
Traz sempre o desespero, o desencanto,
A tristeza a rolar no fel do pranto,
Uma desesperança unida à dor.
Tanto um quanto outro sempre são sofridos:
Não conseguem prender no coração
Os sonhos que vagueiam pelos ermos...
Pois sempre solitários e perdidos,
Quando sentem soprar a inspiração,
De si próprios percebem ser enfermos.
05.12.2001
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - PARTE IV - Inutilidade
Inutilidade
O homem estuda e quanto mais estuda,
Mais ele perde-se em sabedoria.
Para os mistérios a palavra é muda
E, à realidade, plena fantasia.
Suas necessidades sempre adia,
E, para um Deus, em vão, suplica ajuda.
Em palavras douradas ele fia
E, para novas crenças, ele muda.
De nada vale o tanto que ele pensa,
Tudo parece ser vagante ciência
Recheada de total indiferença.
Também se julga um Hércules de músculo,
Mas só tem seu diploma de sapiência
Quando contempla a vida em seu crepúsculo.
Garopaba, SC 15.10.2001
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Índice * Sonetos

24 de janeiro de 2010
SONETOS IMPERIAIS - Sonetos Casairos - Parte III
I
Nas noites em que faz intenso frio,
O meu amor enrola-se na manta
E enquanto Gonzaguinha eterno canta,
Ela ao sofá se deita em calafrio.
Eu feliz a contemplo – isso me encanta!
Ela diz algo e distraído rio...
E para não perder do verso o fio,
Minh’alma em sonhos, nela se acalanta...
Eu à poltrona concentrado escrevo,
Ela fala, contudo não me tira
A inspiração que vem-me num enlevo...
São coisinhas caseiras o que digo,
Então sinto afinar-se a minha lira
Por ter este sereno e doce abrigo.
05.05.2001
21:31h.
II
O lustre com as lâmpadas brilhando
Ilumina esta sala por inteiro.
Eu fico minhas telas contemplando
Num sonho sem igual de prazenteiro.
De minha amada sempre companheiro
E sempre mais intensamente a amando,
Esqueço qualquer sonho aventureiro
Para ficar aqui num sonho brando...
Pois a sala está toda iluminada,
Minh’alma em brilhos fica apaixonada
E ilumino-me todo neste amor.
Fora faz frio, mas de nada importa,
Aqui na sala não existe porta
De onde possa escapar este calor.
05.05.2001
21:35h.
III
Janelas na parede são molduras
Por onde posso contemplar o mundo.
Quando debruço com prazer profundo
E vejo panoramas de aventuras...
Olho um homem passar meditabundo,
Duas crianças inocentes, puras...
Contemplo pássaros pelas alturas
E de outras alegrias eu me inundo...
Passa um carro, passa uma bicicleta,
Passam homens que voltam do serviço
E toda a rua está movimentada...
Súbito, em mim, acorda o ser Poeta,
E atendendo da Musa o compromisso,
Componho este Soneto à minha Amada.
05.05.2001
21:38h.
IV
O telefone toca, eu logo atendo;
É meu amor que fala todo aflito:
“ – Meu bem, de um favorzinho eu necessito,
Pode vir me buscar, está chovendo...”
Ai, o seu nervosismo é tão bonito...
– Pode esperar, já vou aí correndo...
Seu medo de trovão eu logo entendo:
Faz orações... promessas... solta um grito...
Vou correndo encontrá-la... está molhada...
Pois a chuva chegou sem dar aviso:
“ – Ai, amor, eu saí despreparada...”
Dou-lhe um abraço e solto o meu sorriso...
Vamos embora e em casa, apaixonada,
Faz-me sentir em pleno paraíso...
05.05.2001
21:42h.
V
Em casa os vasos são os ornamentos
Que embelezam com flores o ambiente.
Beleza tal me faz ficar contente
E, ao vê-los, me distraio em pensamentos...
As flores são de vários sortimentos
E todas, multicoloridamente,
Fazem brotar da paz cada semente
E com elas divago em mil momentos.
Cada flor foi regada com carinho
E tratada com zelo e muito gosto,
Para deixar bonita a nossa casa.
Entre tão belas flores, eu caminho,
Estampando sorrisos em meu rosto,
E, n’alma o amor, ardendo como brasa.
05.05.2001
21:45h.
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Sonetos sobre o Mistério - (cont)
Não posso compreender, porém é certo,
Que além da morte algum mistério existe.
E este quebra-cabeça é que resiste
Quando dá morte, fica-se bem perto.
Não cremos, não, errar pelo deserto
Do infinito silêncio que persiste.
Fosse assim e o homem viveria triste
Sempre para o profano estando aberto.
Contudo em seu silêncio ele se fecha
E o receio é quem deixa à mostra a brecha
Para com o corpo iluminar su’alma.
E sempre que pratica algum delito
Alardeando remorso clama um grito
Para poder ter uma vida calma.
13.11.2001
23:49h.
VII
Percebo-me seguir um labirinto
E não percebo a porta de saída.
A entrada foi regada a vinho tinto,
Trôpegos pés tropeçam na corrida.
Mas quem soprou em mim o dom da Vida?
Quem me postou em pé sobre este plinto?
Se nada lembro como nada sinto,
Por que a memória faz-se de esquecida?
Como saber quem fui antes de ser-me?
Um rastejante e consumível verme
Depredador por típica excelência?
Se outros sofreram para o meu deleite,
Por que na fonte conspurcar o leite
Que bebo sem buscar sua Ciência?
13.11.2001
23:53h.
VIII
Estou aqui, os versos vou compondo
Na ânsia incontida de esclarecimento.
Com meus olhos abstratos mudo, rondo,
Procurando encontrar-me no momento.
Sou carvão, cálcio, gás, fósforo e vento,
Mas o cosmos, aflito, busco e sondo...
Tudo a distância mostra-me redondo
E encobre imperfeições no movimento.
Extática, a áurea luz tudo ilumina.
Os olhos foco sempre em linha reta
E o pensamento hipócrita rumina.
Recolho para mim, da luz, a seta
E a Palavra, que brilha purpurina,
Faz em mim sensações de ser Poeta.
13.11.2001
23:57h.
IX
Minha Palavra é feita de fumaça,
Baila no ar – basta apenas eu dizê-la.
Sem conteúdo ou forma, não embaça,
Também não brilha, por não ser estrela.
Eis a Palavra, mas não posso vê-la,
Pois, com o vento ao seu encalço, passa.
Assim que a falo, já não posso tê-la
E se torna ferina feito massa!
Se a pronuncio, vai rodando ao vento
E na metamorfose é monumento
E vira espada para o ataque pronta.
Tem o valor da prata por tesouro,
Porém, não dita, vale o peso em ouro
E o silêncio é que em transes amedronta!
13.11.2001
23:59h.
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Sonetos sobre o Mistério - Parte II
Oh! Mistérios profundos! Oh mistérios
Existentes além da Inteligência,
Que não os sabem desvendar a Ciência
E tantos homens que julgamos sérios.
Vivemos a apalpar a inconsistência
Tentando descobri-los nos saltérios,
Mas quedamos a olhar os cemitérios
E eles, vetustos, são-nos a incoerência.
E divagamos sobre a hipocrisia,
Morrendo sem saber a cada dia
Acreditando numa Eternidade.
Porém, nada se faz por desvendar-se:
A própria vida serve de disfarce
Para ocultar seu lastro de Verdade.
13.11.2001
23:25h.
II
Oh! Mistério que está por toda parte,
Como posso viver sem resolvê-lo?
Como posso viver se, ao encontrar-te,
Penetro o mais profundo pesadelo?
Encontro-te na minha simples Arte
De reunir as palavras num apelo.
E vibras como exótico estandarte
Envolto em tênues fios num novelo.
Dobro a esquina e não sei o que me espera
Ao ato de escrever, a folha é branca.
Enquanto durmo, sei que morro um pouco.
Quem leva o inverno e traz a primavera?
Como a palavra pode ser tão franca
Se até na realidade sei-me louco?
13.11.2001
23:28h.
III
Para um próximo passo – eis o mistério:
Posso não existir quando o ponteiro
Terminar o seu ciclo rotineiro
E meu sorriso for ficando sério.
Talvez exista falta de critério
Neste sonho de vida alvissareiro,
Ou talvez seja mesmo corriqueiro
Levar uma carcaça ao cemitério.
Todos os dias nós fazemos isso:
Colocamos na agenda compromisso
Sem saber se podemos realizá-lo.
E quem vai cancelar a nossa agenda
Se foi extinto o tempo da contenda,
Se em vida somos menos que um vassalo?
13.11.2001
23:33h.
IV
Haverá de existir um outro dia
Para nós acordarmos novamente.
Se hemos de apodrecer por ser semente,
Em vida brotaremos em magia.
Por certo existe um Deus onipotente
Que faz acontecer essa alquimia,
E o espírito que há tempos não sorria
Tem vida e passa a ter novo presente.
Se, dizem que a carcaça é que apodrece,
E o impalpável retorna ao lar etéreo,
Quem é que explica como isto acontece?
Temos por isso o nome de Mistério:
Uma saudade fica como prece
Quando nos levam para o cemitério.
13.11.2001
23:37h.
V
Mistérios, e mistérios, e mistérios,
Desesperanças, e desesperanças.
A alma perdida em sonhos e lembranças
Por entre entardeceres tão cinéreos...
Os carneiros estão nos cemitérios
Para abrigar adultos e crianças.
Uns são levados cheios de esperanças,
Outros sem dentes vão, sisudos, sérios.
Delírios, e delírios, mais delírios,
E sombras obumbradas, brandas luzes,
E almas em gozos, e almas em martírios.
Um silêncio sinistro, um riso oculto,
Mãos espalhando ao corpo algumas cruzes,
Para espargir o medo de tal culto.
13.11.2001
23:43h.
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - (cont)
Palavras são segredos – e com elas
Construo pensamento num desenho.
Vindo às bocas se tornam tagarelas
E no silêncio penso nesse engenho.
Escritas ou faladas são procelas.
Vendo-as com os olhos, preso me mantenho.
Contudo expostas são profanas telas,
Mostrando liberdade ou duro lenho.
Para escrevê-las – somos desenhistas,
Nem por isso, porém, somos artistas,
Sabendo traduzir o pensamento.
As Palavras, porém, são passageiras,
Passam com rapidez, voam ligeiras,
Se desfazendo no valsear do vento.
27.06.2003
XXVIII
A Palavra não pode ser domada
Pois à fera é impossível obediência.
Se por instantes sente-se enjaulada,
Não há grade que tenha resistência.
Rasga as vísceras, rompe a madrugada,
Deixa restos de sangue na consciência.
Cavalga pela noite alucinada
Cintilando no céu da persistência.
A Palavra fulgura cristalina.
Doma corcéis, atinge a alta colina,
E atira-se no largo precipício.
Espírito de fogo, eis a Palavra,
Que, coração de pedra atro escalavra,
E, mente pura prende em ímpio hospício.
22.07.2003
XXIX
A Palavra é a mais límpida expressão
Para deixar gravada a nossa história.
Poder brutal de manifestação,
Tempestade de fogo na memória.
É o fio condutor de toda a glória
E é terror, exorcismo e combustão.
Fogo feroz, derrota merencória,
Engendros, teares e revolução.
No estado líquido do Dicionário
É vocábulo inerte que se apresta
Para mostrar apenas o que diz.
Porém, articulada em seu fadário,
Na língua do homem vibra e manifesta
E estampa sua enorme cicatriz.
20.01.2004
XXX
As Palavras lançadas céu aberto,
– Fosforescentes fogos de artifício –
Às vezes são pregadas no deserto
Ou no altar de profano sacrifício.
Dominar as Palavras – duro ofício
Para quem traça em luz um rumo certo! –
Porém, quem a usa para o malefício,
Sempre há de estar para o pavor – desperto.
Por isso em Eras, minha heras planto,
A chama da verdade que me chama
É vão num vão da noite sempre vão.
Em cada canto existe sempre um canto,
O drama da consciência odiento trama
Num desvão onde errantes sempre vão...
14.01.2004
XXXI
As Palavras são fogos de artifício
Que fazem rebentar a luz na treva.
E o Poeta, réu confesso em seu ofício,
Com a luminosidade ao céu se eleva.
Da Palavra, inspirado ele se ceva
E despreza o cansaço e o sacrifício.
Se faz frio ou calor, se venta ou neva,
Eis que está preso ao mágico exercício!
Escrever é reter o pensamento!
E domar o vocábulo e prendê-los
Na cadeia fugaz da liberdade.
Pois a Palavra – etérea como o vento,
Ao mesmo tempo é sonho e pesadelo,
É Mentira vestida de Verdade.
19.01.2004
XXXII
A Palavra é hieróglifo sagrado,
Enigma de Faraós do velho Egito.
Chão da Mesopotâmia soterrado
E múmia a revolver a voz num grito.
Eco feito silêncio no Infinito,
Dos Deuses velho rosto deformado.
Consciência e solidão, esgar aflito,
Relâmpago de fogo não domado.
Símbolo de uma antiga Humanidade,
Traduzidos em mágicos segredos,
Num oculto mistério da Verdade.
Vagas vozes veladas dos zabumbas,
As Palavras com todos os seus medos
São os ossos das velhas catacumbas.
07.08.2003
Chove Palavra pelo céu nublado.
E em enxurradas corre na sarjeta.
A grafite dos sons a deixa preta
Qual borra de café pós ser coado.
Ponho à Palavra dobras de tarjeta
Para não ver-lhe o olhar frio e indomado.
A Palavra é o delírio inanimado
Da semente que brota numa greta.
Líquida escorre em todos os sentidos,
Parecem bailarinos acrobáticos
Saltando no ar e após caindo em pé.
Na vertical dos sonhos esquecidos
Os meus olhos contemplam-nos extáticos,
Na musicalidade dessa fé.
09.08.2003
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - (cont)
A Palavra contém sons e segredos
E enigmas recheados de mistérios.
Muitas vezes, conduz para degredos,
Em outras vezes, para cemitérios.
Deixam os sonhos de prazer azedos
E sorrisos nos lábios ficam sérios.
Traumas, delírios, desesperos, medos,
E falta de atitudes e critérios.
A Palavra é mordaz, solene, forte,
Em seus delírios, desvairada impera,
Sabendo conduzir a Vida e a Morte.
Oculta-se nas ramas da tapera,
Em seu azar transmuda a sua sorte,
Em seu imenso brilho – em primavera.
22.04.2003
XXIII
A Palavra fulgura em minha mente
Depois valseia como brisa leve.
E cai no chão, transforma-se em semente,
E vai brotando de maneira breve.
Rompe as paredes frígidas de neve
E se transmuda em lava efervescente.
Chega às mãos que em desenhos a descreve
Passando a ser mensagem num repente.
No correr dos delírios dos minutos,
Freme em folhas e flores, fulge em frutos,
E cascateia em versos de prazer.
A Palavra na força que me doma
Faz-me invencível gladiador de Roma
No intrépido desejo de vencer!
23.04.2003
XXIV
Posta à língua a Palavra é pura brasa
Que espíritos e sombras incendeia.
Porém, com ela teço lírica asa,
Para alcançar o sol e a lua cheia.
Resplendor de ilusão é minha casa.
Sobre a mesa a Palavra é minha ceia.
Após é desespero que me arrasa
Armadilha tramada em tênue teia.
Sou voraz à perfídia que me doma,
A solidão da noite é-me loucura,
E a alma na insanidade atroz assoma.
Confundo idéias de maneira impura,
E como os Césares da antiga Roma
Encontro enfim a minha sepultura.
23.04.20003
XXV
A língua lambe o cerne da Palavra
E sente seu sabor amargo e doce.
E dentro da minh’alma queima e lavra
Como se em combustão um ferro fosse.
No silêncio eis que tímida azinhavra
E se transforma num medonho alcouce.
Por isso sou amiga da Palavra
Que desenhos arábicos me trouxe.
Qual fiel escudeiro – olhar de lince,
Domo-a aos tentáculos de cinco dedos
Para que suas letras eu as pince.
E sem traumas domar os seus segredos,
Para me retratar como da Vinci,
Com o sangue de todos os meus medos.
23.04.2003
XXVI
As Palavras são mágicas, traiçoeiras,
Agem como profanas armadilhas.
Iludem nas felizes brincadeiras,
Depois conduzem às mais falsas trilhas.
As Palavras inventam maravilhas,
Fábulas ou histórias verdadeiras.
Mas provocam ataques de matilhas
E atiram flechas finas e certeiras.
As Palavras induzem comandados.
Perfilam homens rudes e sombrios
Impondo ânimos, força de vontade.
E há de deixar os sonhos exilados.
Os dias de calor pálidos, frios,
Até que se extermine a Humanidade.
24.06.2003
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - (cont)
Palavras são segredos – e com elas
Construo pensamento num desenho.
Vindo às bocas se tornam tagarelas
E no silêncio penso nesse engenho.
Escritas ou faladas são procelas.
Vendo-as com os olhos, preso me mantenho.
Contudo expostas são profanas telas,
Mostrando liberdade ou duro lenho.
Para escrevê-las – somos desenhistas,
Nem por isso, porém, somos artistas,
Sabendo traduzir o pensamento.
As Palavras, porém, são passageiras,
Passam com rapidez, voam ligeiras,
Se desfazendo no valsear do vento.
27.06.2003
XXVIII
A Palavra não pode ser domada
Pois à fera é impossível obediência.
Se por instantes sente-se enjaulada,
Não há grade que tenha resistência.
Rasga as vísceras, rompe a madrugada,
Deixa restos de sangue na consciência.
Cavalga pela noite alucinada
Cintilando no céu da persistência.
A Palavra fulgura cristalina.
Doma corcéis, atinge a alta colina,
E atira-se no largo precipício.
Espírito de fogo, eis a Palavra,
Que, coração de pedra atro escalavra,
E, mente pura prende em ímpio hospício.
22.07.2003
XXIX
A Palavra é a mais límpida expressão
Para deixar gravada a nossa história.
Poder brutal de manifestação,
Tempestade de fogo na memória.
É o fio condutor de toda a glória
E é terror, exorcismo e combustão.
Fogo feroz, derrota merencória,
Engendros, teares e revolução.
No estado líquido do Dicionário
É vocábulo inerte que se apresta
Para mostrar apenas o que diz.
Porém, articulada em seu fadário,
Na língua do homem vibra e manifesta
E estampa sua enorme cicatriz.
20.01.2004
XXX
As Palavras lançadas céu aberto,
– Fosforescentes fogos de artifício –
Às vezes são pregadas no deserto
Ou no altar de profano sacrifício.
Dominar as Palavras – duro ofício
Para quem traça em luz um rumo certo! –
Porém, quem a usa para o malefício,
Sempre há de estar para o pavor – desperto.
Por isso em Eras, minha heras planto,
A chama da verdade que me chama
É vão num vão da noite sempre vão.
Em cada canto existe sempre um canto,
O drama da consciência odiento trama
Num desvão onde errantes sempre vão...
14.01.2004
XXXI
As Palavras são fogos de artifício
Que fazem rebentar a luz na treva.
E o Poeta, réu confesso em seu ofício,
Com a luminosidade ao céu se eleva.
Da Palavra, inspirado ele se ceva
E despreza o cansaço e o sacrifício.
Se faz frio ou calor, se venta ou neva,
Eis que está preso ao mágico exercício!
Escrever é reter o pensamento!
E domar o vocábulo e prendê-los
Na cadeia fugaz da liberdade.
Pois a Palavra – etérea como o vento,
Ao mesmo tempo é sonho e pesadelo,
É Mentira vestida de Verdade.
19.01.2004
XXXII
A Palavra é hieróglifo sagrado,
Enigma de Faraós do velho Egito.
Chão da Mesopotâmia soterrado
E múmia a revolver a voz num grito.
Eco feito silêncio no Infinito,
Dos Deuses velho rosto deformado.
Consciência e solidão, esgar aflito,
Relâmpago de fogo não domado.
Símbolo de uma antiga Humanidade,
Traduzidos em mágicos segredos,
Num oculto mistério da Verdade.
Vagas vozes veladas dos zabumbas,
As Palavras com todos os seus medos
São os ossos das velhas catacumbas.
07.08.2003
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22 de janeiro de 2010
SONETOS IMPERIAS - Alma da Palavra - Parte I (cont)
Ferve o cérebro, há forte ebulição.
Idéias congestionam-se nervosas.
Há um bulício de pétalas de rosas,
Parece vomitar atro vulcão.
O corpo treme, é enorme a sensação.
Sinto forças de fogo poderosas!
Brilham estrelas, há maravilhosas
Explosões; sinto o corpo alçar-se ao chão.
Há um silêncio que grita a céu aberto,
Tempestades de areia no deserto,
Maremoto fremente de ardentias.
A Palavra me chega de mansinho,
Agasalho-a ainda dentro de seu ninho,
E agrupadas, transformo-as em Poesias.
07.01.2003
XX
Ferve a Palavra e de maneira fria
E calculista domo-a em seu furor.
Na caldeira do Sonho e da Magia
Há volúpia que vibra em estupor.
Asas incandescentes ela cria
E voa no Infinito em fúria e horror.
Volta depois, e paira na Poesia
E faz-me declamar versos de Amor.
A Palavra, porém, paira indomável.
E quanto mais lhe tento ser amável,
Em labirintos de silêncios, ela,
De maneira voraz foge e se entreva.
E em sua busca insana eis que me leva
Aos abismos profundos da procela.
13.01.2003
XXI
A Palavra se torna incandescente
Quando ponho-a em meus versos, com desvelo.
E vou criando em transes, um novelo
De carinho e de amor em minha mente.
A Palavra me vem como semente:
Planto-a em meu coração com terno zelo.
Colho-a em frutos depois de forte apelo,
Na forma da verdade reluzente.
A Palavra é meu culto, e forte, e viva,
Faz minh’alma brilhar nela cativa,
Faz o meu coração pulsar mais forte.
Neste elo de paixão e amor eterno,
A Palavra é meu céu e meu inferno,
E eterna Vida após a breve Morte.
13.01.2003
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I - (cont)
Domo o vocábulo, aprisiono o idioma,
Retenho a idéia e o pensamento abstrato.
Depois solto pelo ar, ao livre olfato,
Para as mentes prendê-los em redoma.
Que as pessoas o sintam como aroma
Que exala após a chuva o agreste mato.
E prendam à retina igual retrato
De uma paisagem que fulgor assoma.
E o entendimento sem labuta e engenho
Traga canções de amor e de ternura
Junto à alegria imensa de um desenho
Que uma criança faz presa à inocência:
Mas que sua mensagem seja pura
E retenha os segredos da ciência.
07.11.2002
XVII
A Palavra é a metáfora do medo
Que me apavora e tanto me entorpece,
Que não distingo nunca o seu segredo:
Se, profana ou se diz sagrada prece.
A Palavra povoa a minha messe:
Dá fruto às vezes de sabor azedo.
Outras horas em sonhos, me aparece
E diz verdade em frases de brinquedo.
Quem busca definir seu conteúdo
Perde uma vida inteira em vão estudo
Que ela é a Verdade cheia de Mentira.
Engano da certeza e ao nada leva,
Profano à Natureza é luz e neva,
É água às vezes que fogo põe à pira.
05.11.2002
XVIII
A Palavra é mordaz, é sorrateira,
É cheia de artefato e de segredo.
Se por vezes é frígida e traiçoeira,
E nessas horas causa pena e medo,
Outras vezes se torna alvissareira
E livra alma inocente do degredo.
Mas pode ser cruel, fatal, certeira,
E pode às vezes, ter sabor azedo.
Nesse vai-vem frenético e constante
Às vezes soa impávida e robusta
E pode ser Mentira e ser Verdade.
Mas ao dizê-la em seu raiar de instante,
Sejamos nós a sua fonte justa
Engrandecendo-a em toda Humanidade.
10.07.2002
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I - (cont)
À Palavra estou preso como um ímã:
Sete tentáculos são suas garras.
Oh, Palavra! Tu prendes-me e me agarras
E nesta lavra teço a minha rima.
Aos meus ouvidos vens como as fanfarras
Com seus toques marciais de forma opima.
Não há revolução que me redima
Quando a combates tensos tu me amarras.
Suprema evolução da língua aflita!
Em silêncio minh’alma clama e grita
E explode em labirintos de loucura.
Tens a fúria total dos elementos:
Águas e terras, fogos e ímpios ventos,
Moldam-te cristalina, doce, pura.
05.11.2002
XIV
Quero a Palavra que se mostra nua,
No alicerce de enormes edifícios.
Desbastada de dogmas e artifícios
Para domá-la no labor que estua.
Quero a Palavra de maneira crua,
Sem ranços de modismos e suplícios.
Que traga na raiz fartos ofícios
E que perfure fundo, como a pua.
A Palavra no verbo mais sublime,
Pura e ardilosa, sem razão no crime,
Carregada de idéias para usá-la
Na razão do sentido mais completa.
Só assim poderei ser um Poeta
Que será compreendido em sua fala.
06.11.2002
XV
A palavra afiada é como a faca
Pronta para ferir, para furar.
Em língua mole lembra uma matraca
Feita para agredir, para atacar.
Encarriada entre frases ela ataca
Podendo denegrir e derrubar.
Outras, vezes, em forma de catraca,
Somente o que convém, deixa passar...
Fortuita, às vezes, vive pelo acaso.
Espalha-se em diabruras e gorjeios,
E se transforma em flores no jardim.
Lembra depois um já quebrado vaso,
Para também, justificar os meios,
Pondo um ponto final, chegar ao fim.
06.11.2002
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I (cont)
A Palavra é minha arma no combate,
É minh’alma que sangra enquanto luta.
Com tentáculos de aço, é um alicate,
Que golpeia na fúria da disputa.
Raivosa, às vezes, como um cão que late,
Estraçalha com verbos e executa.
Abre imensos salões em atra gruta,
Depois faz rendilhados, no arremate.
Sangro com ela na batalha imensa!
Por ela suo estrofes e poemas,
Dela tiro em soluços, minha crença.
É alma que pulsa em mim e dá-me Vida:
Dá-me paixões e glórias tão supremas,
Que percebo sequer a alma ferida.
05.11.2002
XI
A Palavra é meu cárcere diário:
A ela estou preso com fatais algemas.
É minha cruz nos passos do Calvário,
É minha luz nas glórias mais supremas!
Com ela teço o longo itinerário
Para seguir as vastidões extremas.
É treva ao longo do caminho vário,
E claridade para as minhas gemas!
Dia após dia, instante após instante,
Sei-me dela um profano prisioneiro
E sou cruel, feroz, e doce amante.
Se busco defini-la, atroz se ofusca,
Depois brilha no céu como luzeiro
E jamais dá final a minha busca.
05.11.2002
XII
Se tento definir tua presença
Dizes que nada dizes, nada dizes.
Mas plantas na minh’alma cicatrizes,
Partes depois em plena indiferença.
E voltas novamente sem reprises
Embaralhando em cartas minha crença.
Retornas gorda – com vontade imensa,
E, magra, voltas para as minhas crises.
Quem te moldou primeiro o som metálico
Te desenhando as arabescas formas,
– Signos e hieróglifos, Pedra Roseta,
Primiu-te a Vida com seu gesto fálico,
E, deu ao Mundo as incontáveis normas,
Foi mais que gênio – foi um Deus asceta!
05.11.2002
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SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I (cont)
A Palavra em seu som é a densa lava
Que o vulcão regurgita em sua fúria.
Ríspida, a alma se torna dela escrava,
E deixa dos afetos – negra injúria.
O tesouro reduz a ampla penúria
E à Liberdade, o belo sonho trava...
Eis a Palavra e a tempestade espúria
Que nas rochas mais duras bate e cava.
Seus segredos não dizem os mais sábios,
Pois quando chega no tremer dos lábios
Torna-se labareda que extermina.
Em silêncio, porém, parece morta,
Mas quando bate em guizos sua porta,
Mostra todo o fulgor que lha domina.
05.07.2002
VIII
Busco ater-me ao axioma da Palavra
E da maneira que ela vem escrita.
E em ânsias a minh’alma se escalavra
Num transe de maneira ultra-esquisita.
É vão o ofício, perco o tempo à lavra.
A busca de vocábulo é infinita.
O papel de bolores se azinhavra
Com desesperos minha fala grita.
Tantos fizeram esta vã batalha,
Buscando derrota-la em luta inglória,
E a todos, ela impôs infausta falha.
Hoje retenho apenas na memória:
O seu fio cortante de navalha
Que decepa cabeças na vitória!
05.11.2002
IX
Bebo a Palavra na mais fina taça
Que às vezes de veneno me vem cheia.
Bebo-a de um gole só, tal como a idéia,
Que num repente chega e logo passa.
Faço com a Palavra uma Epopéia
E ponho-a em livros ao furor da traça;
Depois crio artimanhas e ameaça
E prendo-a forte dentro da colméia.
Sangro a Palavra e bebo-lhe a fuligem,
Procuro decifrar a sua origem
E seu segredo de maneira clara.
Mas quanto mais procuro em minha lavra
Descobrir o segredo da Palavra,
Ela se mostra sorrateira e rara.
05.11.2002
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I - (cont)
A palavra me faz mordaz e forte,
Com ela suo em gotas de veneno.
E as almas sorrateiras eu gangreno,
Prendo, julgo, condeno e induzo à morte.
A Palavra conduz a minha sorte.
Crio versos de amor com tom ameno.
Teço a Lira, urdo o Som calmo e sereno
E indico em sons o mais provável Norte.
A Palavra está pronta para usá-la!
Se às vezes a comparo a fina seta,
Da minh’alma ela, faz a sua sala.
Assim minha razão torna completa:
Se em silêncio a Palavra vibra e fala,
No Ofício do Silêncio – sou Poeta.
04.07.2002
V
Sonho contigo no escaldar das horas
Que passo solitário em desvendar-te.
Bailas no espaço com um estandarte
A tremular impávida... E me ignoras.
Decifro-te os enigmas – parte a parte
E tornas-te crepúsculos e auroras,
Assim quanto mais forte tu clangoras,
Mais sinto o peso crucial destarte.
Oh! Mistério infernal que me crucia,
Vejo-te fulgurante e brilhas tanto,
E não consigo traduzir-te a lavra.
Abstenho-me de abrir esta magia,
E de maneira mórbida este canto
Fica frente ao mistério da Palavra.
04.07.2002
VI
Dentro dos livros a palavra é morta
E não produz sabedoria alguma.
Porém, se alguém abrir do livro a porta,
Irá vê-la fervendo em densa espuma.
A exóticos países nos transporta
Em cavalos alados de alva bruma.
Forte e firme abre os diques da comporta,
E mostra pérolas de luz, uma a uma.
Porém, dentro dos livros a Palavra,
Fria e extática lembra tão-somente
O ouro da mina que não teve lavra.
Mas se lábios em sons derem-lhe Vida,
Quente e ofegante ela será polida
E deixará de ser simples semente!
04.07.2002
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Índice * Sonetos

20 de janeiro de 2010
SONETOS IMPERIAIS - Alma da Palavra - Parte I
Parte I
I
Das Palavras confesso-me um intruso,
Pois todas elas trazem seu segredo
Que às vezes deixam o homem no degredo
Quando faladas com maléfico uso.
Usando-as para o mal causam abuso
E proferidas vêm provar o medo.
Por vezes deixam o sentido azedo
Se para atalhos a dizer conduzo.
Eis a Palavra sorrateira, fria,
Condutora de enganos e agonia,
Que trago presa dentro da algibeira.
Eis a Palavra que profana tudo!
E é preferível ter papel de mudo
Que fazê-la de nossa prisioneira!
03.07.2002
II
Eis a Palavra, e ela se mostra fria,
Quando verbete em velho dicionário.
Porém, falada, envolve-se em magia,
Tomada de vigor extraordinário.
Transmuda-se feroz nesta alquimia
Sai do apogeu ao fúnebre Calvário!
Vigorosa, fatal, densa, vazia,
Eis a Palavra em seu itinerário!
São sete letras – fortes como o aço!
Três vocálicos sons – no estardalhaço
Ferem e matam, dão Poder e Glória!
De tudo o que se pensa e se escalavra
Resta somente, a pálida Palavra,
Para contar o que ficou na História!
04.07.2002
III
A Palavra é uma faca pontiaguda
Pronta para atacar, para a defesa,
Arma que fere a própria natureza
Que aos ataques profanos fica muda.
Pode, às vezes, conter fulgor, leveza,
Mas num instante apenas – se transmuda.
E se torna feroz, ferina, aguda,
Carregada de babas na vileza.
Da Palavra provém meu artifício,
Com ela moldo a rima, moldo o verso,
E com estrofes urdo um edifício.
Dobo com ela o instante mais perverso,
E a Inspiração que a tantos é suplício,
É a Razão para mim neste Universo!
04.07.2002
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Índice * Sonetos

SONETOS IMPERIAIS
Eis mais uma coleção de meus versos. Novamente sonetos. Há mais de trinta anos buscando aperfeiçoar-me à sua técnica, aos seus segredos, aos seus mistérios, impossível deixar de tentar descobrir os seus meandros. Sempre em meus livros os sonetos pontearam e em duas ocasiões fiz-me publicar em sonetos apenas. A primeira quando da “Oficina de Sonetos”, em 1998, com cinqüenta sonetos, e outra, em 1999, quando publiquei “História de um amor”, com cento e cinqüenta sonetos. Porém, desta vez, ocultei-me no pseudônimo de Samantha Rios, já que os sonetos foram escritos dentro de um universo totalmente feminino.
Somente em “caiPIRACICABAnos”, poema em oitava rima e “O Evangelho Segundo Judas Ish-Kiriot”, eles não aconteceram, já que tais livros formavam uma unidade seqüencial: o primeiro em 512 estrofes em sua primeira edição, em 1993, aumentada em 2002 para 1000 e o segundo mais de 700 versos alexandrinos.
Mas desde meu início no mundo da poesia, nos idos dos anos 70, ponteei o soneto. Certo que perdi a conta de tudo que já produzi, publiquei e perdi, mas já em 1978, quando estreei no mundo do livro, com “Luzes da Aurora”, depois em 1991, com “Semeadura”, 1997 em “Romaria”, 1998 “Viagem Poética”, 2000 “Portal dos Sonhos” e 2002 “Colcha de Retalhos”, os Sonetos sempre foram parte importante e imprescindível dentro de minha poética.
A técnica por mim utilizada não foge aos cânones: decassílabos ou alexandrinos. Aos decassílabos busco sempre os versos sáficos, com cesuras nas 4as., 8as. e 10as. sílabas, pouco me importando os acentos secundários. Também nos heróicos, com cesuras nas 6as. e 10as. e praticamente desprezando as demais acentuações. Já nos alexandrinos, tento o clássico: cesuras nas 6as. e 12as. sílabas, e buscando as oxítonas nas sextas ou, sendo paroxítonas, as próximas sempre se iniciando por vogais. Às vezes, no alexandrino ocorrem versos terciários, mas isto sempre por acaso.
Com as rimas também sou cuidadoso nas quadras sempre o esquema ABAB ou ABBA, sendo que por vezes, inverto os esquemas ou mesmo chego a misturá-los no próprio soneto. Já nos tercetos chego a ser mais flexível: CCD EED, CDC DCD, CDC EDE, CCD EDE e ainda outros esquemas, porém, jamais usando, quer nas quadras, quer nos tercetos, rimas parelhas. Muito menos nas quadras, uso rimas diferentes. Foi assim que aprendi.
Por este motivo, às vezes, o verso ou a idéia, por causa das rimas, saem meio duros, mas sacrifico a idéia em louvor à Forma. Dentro do esquema rimário, contudo, não chega a causar-me preocupações rimas com sons diferentes: abertos ou fechados, como por exemplo: estrela e singela, deserto e concerto, e outros casos. Uso também rimas átonas e agudas, às vezes esdrúxulas, isto tudo dentro do mesmo soneto e creio que isto não lhe faz mal.
Quanto ao título: SONETOS IMPERIAIS, a idéia brotou-me ao ver as Palmeiras Imperiais da ESALQ. A mim os Sonetos, dados ao seu porte, à sua altivez, à sua beleza, ao seu poderio, à sua grandiosidade, parecem ser imperiais, soberbos, soberanos. Assim juntei as idéias e dei título a este livro. Também cuidei para que a ilustração da capa não escapasse tal detalhe: são 14 troncos de palmeiras, numa analogia real aos 14 versos do Soneto.
Também os temas: estes são variados, já que foram feitos em diversas ocasiões e nos mais diversos estados de espírito. Alguns têm seqüência, e por isso foi que decidi dividir este livro em quatro partes. ALMA DA PALAVRA, SONETOS SOBRE O MISTÉRIO, onde todos saíram em pouco mais de 20 minutos, os SONETOS CASEIROS, falando de minha casa junto à Ana Maria, em início de nossa vida e depois a parte maior, e totalmente livre de temas. Aí são perto de noventa sonetos que dão título ao volume: SONETOS IMPERIAIS.
Gosto de imitar meus poetas preferidos, sendo assim é natural que alguém identifique algo cheirando plágio, mas o propósito é natural, principalmente quando os versos trescalam no vocabulário de Augusto dos Anjos, que dado ao seu aberratório jeito de poetar, faz que qualquer imitação cheire a pastiche.
No mais as outras considerações não me parecem ser importantes. Importa, sim, que meus versos possam ser lidos, entendidos, analisados e que tragam satisfação aos leitores.
É esta a paga que o Poeta busca. Somente esta.
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Índice * Comentários do Autor

OFICINA DE SONETOS - De cabeça para baixo
Só para ver
Se o itinerário
Sai incompleto
Quero escrever
Todo ao contrário
O meu soneto:
Primeiramente
Irei compor
Com muito amor
Da minha mente
Os dois tercetos,
Para depois,
Findá-lo, pois,
Com dois quartetos!
25.07.1997
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Índice * Sonetos

OFICINA DE SONETOS - Sonetos para Augusto dos Anjos

Nos trágicos esgotos desta vida,
A putrescência contamina o ar,
O coração é todo uma ferida
Que tenta, em transe, me contaminar.
Mas quem fechou a porta de saída
Para eu sair, quando quiser voltar?
Quem enterrou minh’alma na avenida
Onde o pranto não pára de jorrar?
Quem violou a lei do meu sepulcro,
Onde o sangue jorrou por fino fulcro
Como no peito a chaga de Jesus?
Quem foi que veio e cutucou meus ossos,
Para ver se encontrava entre os destroços
Os vermes gordos vomitando pus?!
24.11.1994
II
Eu – Augusto – despojo-me da poeira
E da aglutinação desta carcaça
Para mostrar do Podre toda a graça
Que andei amealhando a vida inteira.
Mesmo que à Morte seja prisioneira,
A minh’Alma à poesia ainda se abraça:
O Verbo e a Rima são minha argamassa
Para construir minha obra derradeira!
A saliva ainda enrola-me a Palavra,
Que misturada ao pó da minha tumba
O fogo dos desejos azinhavra.
E embora o vento – Augusto! – em ecos zumba,
Ainda irei deixar a ultima lavra
Neste horrendo Terreiro de Macumba!
24.11.1994
III
Por que me cutucar em meu repouso
Se minha Obra já está toda completa;
Por que acender a chama do Poeta
Se em Versos Íntimos já tive gozo?
Por que mostrar meu verso venenoso
Se à minha ausência a Luz é mais direta;
A minha Dor não é rima concreta
Porém, da Dor eu sou dileto Esposo!
Não me acordem de minha Leopoldina;
Aqui a paz monástica me ensina
Que mais que o nome eu deva ser augusto.
E para ter meu rumo livre e escampo
Devo apenas ser simples pirilampo
Deitado no meu leito de Procusto!
24.11.1994
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Índice * Sonetos

OFICINA DE SONETOS - Decadência Familiar
O meu Pai está preso na cadeia,
E minha Mãe morreu tuberculosa.
Se a muitos esta vida é cor-de-rosa,
A mim ela se mostra muito feia.
Os meus dias se embromam numa teia
De uma caranguejeira perigosa,
E minha estrada é turva, nebulosa,
E sempre alguém, na sombra, me golpeia.
Por isso a vida não me vale nada...
E se eu puder tirar algum proveito
De algum idiota, eu ajo de imediato.
Minha Família vive abandonada,
A Sociedade não me dá respeito
E eu vou vivendo a vida como um rato!
10.09.1992
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OFICINA DE SONETOS - Agressões
Agrido a vida, agrido a morte, agrido
O amor e ante tão fúnebre agressão
Sinto queimar em brasa o coração
Que há muito tempo está desiludido.
Intimido os meus sonhos, intimido
Os instantes de efêmera ilusão,
Indefiro qualquer declaração
Desembramo silêncio e seu ruído.
Ataco a noite, ataco o dia, ataco
A vida, a morte, o amor, a noite, o dia,
E cada vez me sinto estar mais fraco.
Pezzato eu já não sou e não me vejo,
– Meus olhos embaçados de agonia
Impedem reação ao meu desejo!
11.11.1994
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18 de janeiro de 2010
OFICINA DE SONETOS - Incapacidade
Às vezes, a ânsia tola me atrapalha
E não consigo realizar projetos,
Os quais com ênfases a alma trabalha
Com vontades, com sonhos, com afetos.
Perco por fim batalha após batalha
E me definho em todos os aspectos.
E após cada derrota busco a falha
Trazendo os meus dois olhos irrequietos.
Culpo a mim mesmo a falha dos meus sonhos,
E a impotência é só minha para vê-los
Realizados em brilhos coloridos.
– Por isso que meus olhos enfadonhos
Trazem marcas de fundos pesadelos
E a derrota estampada em meus sentidos!
12.09.1997
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OFICINA DE SONETOS - Soneto da Lua
A Lua – cortesã no céu prateada –
Todas as noites que se mostra cheia
Com seus dengos sinuantes incendeia
A minh’alma que fica apaixonada.
E eu a contemplo não dizendo nada,
Porém, me sinto preso a esta cadeia
De raios de luar, e ela meneia
Delirante, feliz e debochada –
Segue cruzando o céu num brilho lindo,
E como jóia fulgurante e rara
Vai banhando de luz a minha fronte.
E quando a madrugada vem surgindo
A lua sonolenta se prepara
Para ir dormir na fímbria do horizonte.
23.11.1995
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OFICINA DE SONETOS - Epílogo
De toda a nossa aurifulgente aurora
Restou-nos tão-somente, um sol já posto,
De um dezembro estival – álgido agosto,
De tanto riso – um coração que chora.
De tantas alegrias – um desgosto,
De um até breve – meses de demora,
Que já não sei como ocultar agora
As marcas de tristezas em meu rosto.
Pelos caminhos percorridos juntos,
Onde plantamos vivas primaveras
Nasceram frios e glaciais invernos.
E hoje que nossos sonhos são defuntos,
Já não existem planos nem esperas,
– Sequer nossos desejos são eternos.
23.07.1995
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OFICINA DE SONETOS - A roseira do quintal
A roseira que mora em minha casa,
Paga aluguel de forma curiosa:
Mês a mês desabrocha rubra rosa
Que parece moeda cor de brasa.
E quando um beija-flor num ruflo de asa
Tira o mel de sua ânfora cheirosa,
Ela, ainda, me maneira fabulosa,
Não lhe cobra o alimento que o apraza.
Parece que há uma troca de carícias:
Por um beijo flanado de delícias,
Há incêndios de perfumes no ambiente...
E quando a vejo desmanchar-se em flores
Sinto ela oferecer-me suas cores
Para deixar meu coração ardente.
14.08.1995
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OFICINA DE SONETOS - Pouco Caso
Moro na mesma rua onde ela mora,
E em frente á minha casa, num repente,
Ela em seus passos passa inconsciente
Todos os dias, quando surge a aurora.
Airosa e linda os olhos põe à frente
E no percurso nunca se demora.
Porém, eu sei de cor o instante e a hora
De seu retorno às luzes do poente.
Eu, estático, fico na janela
Assobiando uma canção antiga
Tão-só para chamar sua atenção.
Mas ela passa – distraída e bela,
Faz muito pouco caso da cantiga
Que assobio com a voz do coração.
23.10.1995
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OFICINA DE SONETOS - Outonal
Aos vislumbres de Outono o sol arqueja
E perde sua força exuberante,
E cada vez mais pálido nos beija
E no céu vai ficando mais distante.
Parece um rei vencido na peleja
Após densa batalha fumegante,
E num céu sem calor sangue goteja
E vai perdendo o seu fulgor constante...
Parece até que vai morrer de frio...
E tudo fica insípido, vazio,
E a vida vai ganhando em solidão.
Porém, chega Dezembro e o Sol em festa,
Com seu fulgor intenso manifesta
Na apoteose sublime do Verão!
14.07.1995
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16 de janeiro de 2010
OFICINA DE SONETOS -
Sempre que a Inspiração ataca o pensamento
O Poeta – confuso – embaralhado em rima,
Tenta os versos compor num trabalho violento
Enquanto a sua Musa – em Sonhos – se aproxima!
Doma a Palavra, prende a Ideia, e num momento
Surge o Verso perfeito e a mente clara e opima
Cria um mundo de luz, cria um mundo de vento,
E julga estar compondo uma grande obra-prima!
Mas de sonhos de pó, vive e sonha o Poeta,
O mundo que ele em transe imagina e arquiteta,
Fica apenas impresso em folha de papel!...
E a folha solta ao vento onde fulgura o verso,
Baila perdida e errante e num rumo disperso
É tão-somente um sonho, uma ilusão cruel!...
23.10.1996
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OFICINA DE SONETOS - Ancestralidade
(para meu Amigo Charles Darwin)
Todo homem vive tolo de ganância
E na ganância torna-se mais tolo.
Vive sempre buscando algum consolo
Desconsolando-se na intolerância.
É que o homem, frenético, preso à ânsia
De querer a melhor parte do bolo,
Nas mãos em sempre cacos de tijolo,
Descontrolando-se na ignorância.
E quer tudo atingir... no sonho louco,
O que amealha sempre é muito pouco,
– Desesperado pisa nos mais fracos.
Alguns proclamam seus antepassados,
Mas a ciência, em estudos avançados,
Diz que nós descendemos dos macacos.
21.09.1991
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OFICINA DE SONETOS - Tourada
No estádio o povo fervilhante vibra:
– Touro e toureiro se olham frente a frente:
– Cansado, o touro a custo se equilibra
Enquanto sangra pela ilharga quente.
Mas o toureiro mostra a sua fibra:
Com a espada nas mãos, calmo, consciente,
Na areia ardente, em passos certos, libra,
Executando o touro num repente.
Gritos de olés irrompem na platéia,
Como se houvesse o fim de uma epopéia
No ensangüentado chão da rubra Espanha.
E eu, sempre, quando assisto a uma tourada,
Fico, sim, com minh’alma mais lavada,
Se ao final de tourada – o touro ganha!
23.04.1997
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